A câmera mágica

 Maristel Dias dos Santos

         

 

 

            

                                                                    Diante da Loja há uma praça, um florido jardim onde os canteiros multicoloridos se entrelaçam com bancos de pedra, quase sempre ocupados por pessoas que por momentos descansam de suas andanças citadinas. Seu José, dono da loja, vende máquinas fotográficas, filmes virgens, lupas, lunetas, coisas do gênero e gostava muito de observar o movimento alegre da praça... Chamava-lhe a atenção uma belíssima mulher, muito elegante e bem vestida que todas as manhãs atravessava a praça, porém o que despertava a curiosidade era  o contraste de beleza e riqueza com aquele ar inflexível, andar duro, queixo erguido e um rosto totalmente inexpressivo. Não parecia feliz. Muito pelo contrário. Seu José, como bom fotógrafo, era um explorador de fisionomias, feições, expressões e para poder melhor estudar aquela estranha figura que tão rapidamente atravessava seu campo visual decidiu colocar-se estrategicamente em certo ponto da praça e fotografar a enigmática e bela jovem. Preparou sua melhor câmera e no dia seguinte postou-se entre alguns arbustos e ficou à espera. No melhor momento, um clic, dois cliques e a vê desaparecer atrás do canteiro de rosas. Ansiosamente fecha-se em seu laboratório para revelar as fotos. Em ambas a moça saiu magnífica, mas ainda mais evidente patenteou-se a profunda tristeza nos traços perfeitos da face. Por alguns instantes o homem ficou a admirar a beleza da mulher e só depois começou a observar os outros detalhes das fotos e viu que ao fundo havia, encorujada em um dos bancos, uma garotinha maltrapilha, mas o que nela chamava a atenção eram aqueles enormes olhos voltados para o céu e que dele parecia tirar o profundíssimo azul anil.Por acaso foi esse o último dia em que a bela mulher fez ali o seu desfile. No entanto o banco ao fundo da foto continuava ocupado pela dona dos espelhos do céu.


            Seu José, encantado com a beleza daquele par de olhos aumentou o quanto pode aquele quadrante da foto e ainda não satisfeito, aproximou-se disfarçadamente empunhando aquela mesma câmera e novamente com dois cliques quis captar aquele tom inigualável  do azul celeste.

            Passados alguns dias a garotinha desapareceu. Não mais era vista no costumeiro banco com seu triste e azul olhar. Seu José partiu a sua procura. Pergunta a este, a aquele e acabou sabendo que havia sido adotada por um rico casal sem filhos. Ficou feliz pela pequenina e pediu a Deus que aqueles lindos olhos azuis ganhassem raios de felicidade e alegria no seio de um lar feliz.

            O tempo foi passando e numa bela tarde Seu José voltou a ver, atravessando a praça, a bela mulher da foto, só que desta vez caminhando solta, leve, sorridente e de mãos dadas com uma menina. Encaminharam-se para aquele mesmo banco e foi aí que o homem, perplexo, reconheceu a garotinha dos olhos celestes. Riam, brincavam e trocavam carinhos e agrados.

            Seu José correu apanhar a câmera que um dia registrara faces tristes e correu a documentar a milagrosa transformação e foram muitos e muitos cliques fotografando a felicidade. Após revelar as fotos quis comparar com as antigas e responsabilizou aquela câmera fotográfica pelo milagre sucedido. Colocou-a dentro de uma redoma de vidro, sobre um pedestal e nem por todo ouro do mundo jamais a venderia. A ela e àquelas clicadas consagrou a mágica de haver unido duas pessoas infelizes e transformá-las daquele modo.

            Seu José, em sua humilde modéstia, não percebeu que foi o seu interesse humano e carinhoso que produziu o bendito milagre.