A
casa encantada
N.
A. Esta é uma história de ficção
baseada em fatos. Qualquer semelhança
com conto de fadas é mera coincidência.
Era
uma vez, no início da década de 50, uma pequena cidade do interior. Havia uma
praça defronte à igreja matriz onde os jovens, nas noites de sábado, davam
voltas __ as moças, no sentido anti-horário, na parte interna e os rapazes,
por fora, direção contrária. A cada volta completa, duas vezes se encontravam
e olhares, sorrisos, uma ou outra palavra casual, era tudo que acontecia
naqueles namoros que se prolongavam por meses, por anos, às vezes. Aí, um
rapaz mais afoito enchia-se de coragem e se dirigia à jovenzinha que podia ou não
aceitar o convite de se sentarem num dos bancos de pedra, na parte mais interna
do jardim. Não no centro, naqueles que ficavam em volta do coreto, pois ali os
bancos eram usados por papais e mamães, enquanto bandos de crianças corriam e
brincavam ao som da banda municipal. Parecia que toda a população da cidade
reunia-se no “jardim” (era assim que todos se referiam à praça que era a
única da cidade). Em torno dela erguiam-se, majestosos, os casarões dos coronéis,
fazendeiros ricos, fundadores da cidade. Numa das esquinas, uma ampla
sorveteria, em outra, o Grupo Escolar. Somente as alamedas do jardim e as ruas
que o circundavam eram calçadas, isto é, recobertas por grandes blocos de
pedra cujo nome, difícil, demoramos aprender: paralelepípedo. Todas as demais
eram de terra. Boa terra roxa, terra de café, que, aos poucos foi se deixando
cobrir por novas fileiras de paralelepípedos (ufa!). Um dia, essas belas pedras
seriam substituídas pelo negro e fedorento asfalto, começando pela rua
principal, porta de acesso da rodovia que todos tratavam por estrada de rodagem
e que ia numa reta só até a estação ferroviária.
Ir “na estação”, para ver a passagem do trem das oito, era o outro
programa que animava as noites da cidade. A estação ferroviária era uma
construção imponente, toda feita com material importado da França e a gente
sentia no ar um quê aristocrático e chique. Subia-se alguns degraus para
chegar ao grande hall quando os pesados portões de ferro se abriam. Ali ficavam
os “guichês” e as pessoas compravam as passagens ou uma espécie de
ingresso que permitia, àqueles que não fossem viajar, passar pelo outro portão
que mais parecia uma renda de ferro, e ali um funcionário uniformizado, como se
fosse um general, os apanhava e permitia o acesso à plataforma. Era bem
emocionante ver chegar aquela locomotiva bufando vapor por todos os lados,
arrastando uma fileira de vagões de primeiras e segundas classes. Nestes últimos,
os assentos eram de madeira e as pessoas que nele ficavam eram gente comum, mas
os iluminados carros da primeira classe tinham poltronas cobertas por capas de
tecido branco engomado. Os homens usavam ternos, gravatas, fumavam charutos
perfumados e as mulheres eram senhoras em seda, linho, cabelos cuidados e
maquiagem discreta. Usavam jóias que rutilavam sob a iluminação branca e feérica
emitida por lustres em forma de flor, feitos de vidro opaco com desenhos translúcidos.
Depois vinham os vagões de carga, o correio e por último, um outro, feito de
largas e fortes tábuas de madeira, pintadas de um marrom escuro e que
transportava gado e cavalos. Toda aquela mistura de odores penetrava pelas
narinas e ia direto ao cérebro, excitando, avisando da importância dessas
novidades na pequena e pacata cidade.
Poucos desciam,
poucos subiam, mas toda cidade sabia de um forasteiro que chegasse ou de um
morador que saísse da cidade. Ali, todos conheciam todos e o passatempo
principal era falar, uns, da vida dos outros. Nada se escondia. Que coisa terrível
e maravilhosa era aquela cidade! Quantas histórias, paixões e ódios se
tentavam esconder atrás das grossas paredes e enormes janelas dos poucos casarões
em volta da praça. Tentavam, mas debalde, pois criados e criadas se incumbiam
de propalar, em vozes cochichadas, os segredos mais íntimos.
Até essa época,
a maior parte das pessoas só fazia o grupo escolar e era um prêmio “ter” o
quarto ano. Poucos prosseguiam os estudos, pois fazer o ginásio significava ir
para um colégio interno na capital, de onde só voltavam uma ou duas vezes ao
ano, nas férias. Eram seis horas de viagem de trem para chegar na Estação da
Luz. Duas ou três famílias, que possuíssem automóvel, arriscariam a vida
numa aventura maluca pelas empoeiradas estradas de terra e pelo menos, oito
horas de trancos e barrancos para percorrer duzentos quilômetros, se decidissem
buscar ou levar os filhos pela estrada de rodagem. Porém, a cidade acabara de
ganhar o ginásio que funcionaria ali, no grupo escolar.
Esse
acontecimento foi um marco na história da cidade. Gente nova, professores e
diretores engravatados, elegantes dentro de ternos sob medida, confeccionados
por alfaiates. Não existia o “prêt-à-porter”. Bonitas professoras
enfeitadas de pulseiras, colares e vestidos de seda. Já se podia sentir no ar
uma ebulição constante. Todos os meninos e meninas que estudavam fora
retornaram e até os filhos do prefeito vieram dos seus internatos para reforçar
as classes de segunda, terceira e quarta séries que passaram a funcionar com
cinco ou seis alunos, apenas, cada uma delas. Mas a facilidade de poder estudar
sem sair da cidade levou grande número de crianças a prestar o exame de admissão
e assim, a primeira série chegou a ter cerca de trinta alunos. Até novas
palavras foram acrescentadas ao vocabulário pobre e como as mães se enchiam de
orgulho ao contar que o Pedrinho havia
tirado oito de Português! E esse português nada tinha a ver com o Seu Joaquim
do armazém! Ou que precisava comprar o livro de Francês da Mariana. Imagine
que o padre Simão irá dar as aulas de Latim! Você viu que linda é a
professora de Canto Orfeônico? E a de Economia Doméstica, então!
__Grandes progressos!
Agora, graças
aos estudantes, a praça, o jardim ganhava animação durante o dia, nos seis
dias da semana, pois havia aula aos sábados! Era ali que se reuniam até que a
sineta ecoasse anunciando o início do período escolar. Que bonito ver aquele
bando de jovens adolescentes, blusas brancas, saias e calças azul - marinho,
sapatos pretos lustrosos, meias três quartos, livros sob os braços! Era novo!
Era bonito! Era promissor!
Foi nesse cenário que a história da nossa pequena heroína se
desenrolou. Chamava-se Ana Helena, tinha doze anos e um desejo ardente de
continuar seus estudos. Já se preparava para uma luta feroz, que temia ser inglória,
com seus pais, pois era a quinta, numa família de nove irmãos e nenhum dos
quatro mais velhos havia saído da cidade para estudar. Seu pai, um homem
orgulhoso e de arraigados preceitos morais, era um executivo, um vendedor autônomo,
um atacadista de material gráfico, muito inteligente e criativo, foi, sem
imaginar sequer, um precursor de vendas pelo reembolso postal, talvez forçado
pelas circunstâncias, devido a urgente necessidade de sustentar uma grande família
e a um terrível mal nos pés, o que tornava o mister de viajar um insuportável
sacrifício. Eram calcificações nos ossos que cresciam como estalactites, nas
plantas de seus pobres pés de caixeiro viajante de épocas anteriores. Permitia
e até obrigava as filhas a todo tipo de atividade doméstica. Deviam aprender
arte culinária, pintura, piano, trabalhos manuais e se prepararem para se
tornarem excelentes donas de casa. Dos filhos homens, que eram só dois, ele
almejava, apenas, se tornassem seus auxiliares para, um dia, dar continuidade ao
seu trabalho pioneiro. Esse intento ele não conseguiu jamais.
Costumava dizer:
“Meus filhos não serão empregados de ninguém!” Aninha retrucava: “Mas,
papai, eu quero ser professora!” Ao que ele respondia: “E vai ser empregada
do Estado!” Só muita lágrima e teimosia venceram a resistência paterna,
auxiliada pela benfazeja criação do novo ginásio. Havia, porém uma condição:
”Se repetir sai da escola!” Não, ela não repetiria e, para provar, passou
com louvor nos exames de admissão. A mãe, tão diferente do pai, foi quem
passou a, discretamente, cuidar para que Ana Helena vestisse um impecável
uniforme azul e branco e não perdesse hora nunca. Era uma mulher maravilhosa,
que cantava divertidas modinhas portuguesas para distrair as crianças enquanto
se matava nos árduos trabalhos domésticos. Um dia Ana Helena diria: “Minha mãe
é especial, é artigo importado!” Na verdade ela viera de Portugal com
dezessete anos, como encomenda especial dos avós paternos de Ana Helena, também
portugueses, para se casar com seu pai. A menina adorava ouvir a mãe contar que
quando chegou na cidade, na casa dos futuros sogros, após conhecer toda a família,
foi assim inquirida pelo patriarca: __ Leopoldina, um dos meus
filhos quer casar-se com você. Quero saber se você aceita.
Sem hesitar, muito simplesmente, ela respondeu: __Se
for com o moreno eu me caso.
Tio Zeca era o
louro. O moreno era aquele que viria a ser seu pai. Que lindo!
Nesse ambiente,
de um lado muito rigoroso, de outro alegre e romântico, Ana Helena cresceu.
Logo nos primeiros dias de aula, o menino rico, filho do prefeito, atraiu
a atenção de Ana Helena. Ele já estava na terceira série, parecia muito
importante e nem tomou conhecimento dela. Nunca estava no meio dos outros
garotos, pois morava bem na esquina e ficava com o irmão no alto do terraço,
esperando o soar da sineta, quando então desciam a escadaria de mármore e iam
direto para a escola. Seu nome era Afonso e Ana Helena achava que era o nome
mais lindo do mundo. Mas ele nem sabia que ela existia.
Um dia, porém,
Aninha, que morava alguns quarteirões distante da escola, atrasou-se um pouco e
aproximou-se correndo do portão que já estava sendo fechado. Gritou que
esperassem e foi nesse momento que Afonso, pouco além do portão, voltou-se e
viu aquela mocinha afogueada, esbarrando na inspetora e esparramando no chão
livros e cadernos que ele, sorrindo, ajudou a pegar e lhe entregou, juntamente
com um sorriso sedutor. Recebeu de volta um “obrigada” encabulado e
apressado. Começou aí a paquera, que naquele tempo recebia o nome de
“flerte”. Ela com doze, ele com treze anos.
Quando, aos
dezesseis anos, Ana Helena formava-se, ganhou dele um lindo anel. Eram duas
pequenas conchas de ouro, cada uma com uma pérola que se uniam através de um
pequeno, mas faiscante brilhante. Era o símbolo de um compromisso firmado
somente entre os dois. Radiante, dançou com ele a valsa, no baile de formatura.
Já eram namorados firmes, com o consentimento das respectivas famílias e
aprovação de toda a cidade. A vida era azul, há não ser pela tristeza que os
consumia por terem de passar tantos dias sem se verem porque Afonso, já há
dois anos formado no ginasial, estudava agora na capital de onde só vinha uma
vez por mês. Mas, como deram trabalho aos carteiros! Diariamente se
correspondiam já que fazer uso do telefone, apenas em casos emergenciais, pois
falar através daqueles aparelhos tocados a manivela era um tormento. Sem falar
que as conversas passavam por uma central telefônica e a Dona Maricotinha, a
telefonista, participava de todos os segredos. Sigilo? Que bicho é esse?!
Ana Helena foi
estudar em uma cidade vizinha onde havia o curso “Normal”, hoje, Magistério.
Era agora uma linda moça, a mais bela normalista e fazia, com Afonso, um casal
perfeito. Ele, o moço mais rico e ela, a moça mais bonita da cidade.
Mais alguns anos
e, já professora, começava a lecionar. Enquanto esperava o retorno definitivo
de seu príncipe que em breve finalizava seus estudos, bordava o próprio
enxoval, lecionava em escolas rurais, tecia sonhos. Ana Helena sabia que quando
se casasse não mais daria aula. Era esta a única condição que Afonso impunha
e ela gostava da idéia. Queria ter muitos filhos e ser uma perfeita dona de
casa.
Uma coisa que
Afonso adorava fazer, quando estava na cidade, era caçar e eram freqüentes
essas caçadas com seus primos e tios. Havia uma fazenda, onde um de seus
primos, recém casado fora morar e era nas grandes extensões de suas matas que
ele gostava de praticar tal esporte. Verdade que Ana Helena abominava aquilo,
mas para estar junto dele, muitas vezes o acompanhava. Ficava na casa grande
fazendo companhia à prima, que se sentia muito só naquele ermo e passava os
dias polindo e lustrando aquela bela casa. Ana Helena não gostava do bucólico
ar campestre, sentia-se angustiada com os vastos e silenciosos horizontes.
Preferia o trepidar das grandes cidades. Não iria morar em nenhuma das fazendas
do sogro. Isso já deixara claro com Afonso. As poucas horas que passava em
lugares assim, para trabalhar, eram o bastante para deixar agoniada sua alma
impaciente. Porém gostava daquelas horas que passava com a prima. Aquela casa a
fascinava. A prima levava-a a percorrer aqueles cômodos e ela ficava abismada
com o assoalho de largas tábuas da sala, que brilhavam, a força de cera e
escovão, como um espelho. Parava atônita e pensativa, observando cada detalhe,
procurando em torno algo que explicasse aquelas estranhas sensações. O ar
parecia povoado de seres invisíveis que desejavam comunicar-se com ela. Dizer o
que? Afinal que estranhos espectros poderiam morar naquela casa antiga que ela há
tão pouco tempo viera a conhecer? Caminhava pela casa como em transe. Depois
iam para a ampla cozinha e sentavam-se junto ao fogão de lenha, comendo
quitutes feitos pela prima enquanto examinava, com espanto, um pequeno caixilho,
bem sobre o fogão, com quatro vidros translúcidos que traziam a última
luminosidade do sol poente. O incrível é que os vidros, de tão limpos, eram
invisíveis e a moça ficava procurando uma pintinha, alguma manchinha de pó ou
gordura que denunciasse a existência dos vidros. Era demais! Pobre prima!
Quanto devia procurar coisas para preencher aqueles longos dias. Era tudo
perfeitamente, impecavelmente limpo. Ao sair pela porta da cozinha chegava-se a
um pátio ladrilhado todo coberto por um imenso caramanchão de maracujá. Foi
quando Ana Helena veio a conhecer a maravilhosa flor do maracujá com suas pétalas
duras viradas para cima, sobre uma cortina de fios brancos e roxos, semelhante
àquelas franjas de vidro dos abajures antigos. Essa flor ficou profundamente
gravada em sua mente. Tudo naquele lugar tinha esse dom, produzir em Ana Helena
surpresas, belezas e reações desconhecidas, inexplicáveis para a sua mente lógica.
Eram sentimentos contraditórios como se fossem pressentimentos de um futuro
marcado ou recordações de coisas que nunca vivera. Havia uma auréola de magia
em torno daquela casa que só Ana Helena percebia, mas não compreendia. Era uma
casa encantada.
Último ano da faculdade de Afonso e no dia do aniversário de Ana
Helena, em meio a uma grande festa, ficaram noivos e o casamento foi marcado
para dali a um ano. O noivo deu início a construção de uma bonita casa. O
ninho que iria abrigar o amor daqueles felizes e apaixonados jovens. E também
esse ano passou voando.
As festas do
casamento marcaram época na pequena cidade. Na cerimônia religiosa o povo se
comprimia para ver a magnífica noiva envolta em véus e rendas e o elegante
noivo que usava um terno negro com “golas de cetim!” Nunca tinham visto um
“smoking“, mesmo porque ainda não havia televisão e as revistas e jornais
eram bem raros naquelas bandas. Poucos privilegiados tinham acesso a essas
modernidades.
Em meio à festa,
cansado dos cumprimentos e fotos para o álbum, Afonso raptou a noiva e
colocou-a no carro: um belo chevrolet importado, onde as malas já estavam
guardadas.
Ana Helena nem
conseguia acreditar que estava a sós com o seu amor. Sempre tão vigiados
nunca estivera assim, tão livre, tão solta. Parecia um sonho. Agora as
estradas já estavam asfaltadas. Partiram para a maravilhosa viagem. À noite de
núpcias aconteceu no Othon Pálace, em São Paulo. Dia seguinte, Rio de
Janeiro, no Excelsior e alguns dias depois, Cabo Frio. Uma grande aventura para
aquelas duas crianças. Foram quinze dias de loucuras e paixão. Mas a impaciência
natural dos jovens fez desejarem um breve regresso e assim, no último dia
daquele ano chegavam na nova casa para dar início ao começo do fim daquele
grande amor.
Era
“reveillon“ e foram ao baile. Felizes e belos. Alvo de todos os olhares.
Terminado o baile, foram para casa e poucos minutos depois, amigos vieram buscar
Afonso para uma farra e... Ele foi! Tudo bem. Ana Helena cansada foi dormir em
seus lindos e perfumados lençóis de linho. Sua primeira noite no lar e a
esposa dormiu sozinha. Pior que isso... Despertou sozinha. Logo Afonso chegou,
trazido pelos amigos, completamente embriagado. Deitou-se todo sujo nos
imaculados lençóis e desligou. Ana
Helena tentou despertá-lo, algumas horas depois, em vão. Parecia desmaiado.
Sem um telefone e
sem coragem de tomar qualquer iniciativa ela passou o dia todo morrendo de fome,
pois nada havia na casa para comer. Tinham chegado na véspera, no fim da tarde
e afinal, aquele seria um dia festivo. Era primeiro do ano e Ana Helena podia
ouvir nas casas vizinhas risadas e comemorações das famílias reunidas e ela
velando o sono etílico de seu jovem marido! Ninguém veio procurá-los.
Certamente a sua família pensava estivessem eles na casa dos pais de Afonso e
os familiares do moço deviam pensar a mesma coisa com relação aos familiares
de Ana Helena.
Esta foi a
primeira de uma série de decepções que pontilhariam a vida toda da pobre moça.
Mesmo assim levou anos para convencer-se de que tinha se casado com um alcoólatra.
Um homem doce e carinhoso que se transformava em um monstro sob o efeito da
bebida. Seu sofrimento era canino, mas seu amor era muito grande e ao primeiro
afago, no dia seguinte o perdão explodia. Era canino também o seu amor. Sua
fidelidade era canina. Por isso mesmo teve cinco filhos em cinco anos seguidos.
Cinco bebês já haviam nascido ao completar o quinto aniversário de casamento.
Sofria calada. Sofria sozinha, acalentando sempre a esperança que, um dia, tudo
mudasse. “Afinal, ele é tão jovem,
quase um menino”. Esquecia que era um ano mais nova que ele e não passava
de uma mulher sofrida, envelhecida. Sentia-se mesmo assim, uma mulher velha.
Dores mais agudas feriram a moça. Dos cinco bebês quatro eram meninas.
O menino foi sua segunda gravidez, mas nasceu morto.
Registrado e sepultado como natimorto deixou Ana Helena com seios cheios
de leite e uma insuportável dor, uma perda muito dolorosa. Dois meses depois
outra gravidez, proibida pelos médicos, mas como uma mulher nova podia evitar
isso, num tempo em que não existia a pílula e deitando com um homem
embriagado?
Foi um tempo
confuso e estranho. Em sua cabeça perturbada pela dor, era o filhinho morto que
estava voltando para os seus braços. Nasceu a segunda filha entre frustrações
e explicáveis neuroses. Claro que a amou, muitíssimo também, mas o mal já
estava feito e a inocente criança arcaria para sempre com os efeitos de tamanha
loucura. Pobre filha! Começou a andar aos oito meses, como se soubesse que não
podia contar com ninguém em sua curta e complicada vidinha, nessa família de
loucos, mesmo porque a sua mãe já curtia outra gravidez. Dessa vez, uma
menininha magrinha com pés e nariz grandes. Ana Helena a chamava “meu patinho
feio” mas sabia que, um dia, se transformaria em um belo cisne.
No ano seguinte,
outra gravidez. Agora ela só desejava filhas. Andava cheia de dúvidas com relação
à força masculina. Voltara a lecionar, pois
Afonso para manter a casa ia vendendo tudo o que já herdara e costumava dizer:
“trabalharei quando não tiver mais nada.”
Ana Helena não podia esperar que isso acontecesse e, afinal, se de sua parte
havia o compromisso de não trabalhar fora, implícito ficava que nada haveria
de faltar. E tudo já começava a faltar dentro do lar. Desesperou-se ao
descobrir a quinta gravidez. Desejou morrer. Pensou em matar.
Numa dessas
noites em que Afonso chegava de madrugada, embriagado, Ana Helena, que sempre o
esperava acordada, aproximou-se da cama onde ele se atirara sujo, maltratado e
com uma pequena arma automática que pertencia a ele, em uma das mãos,
pediu-lhe que abrisse os olhos e a ouvisse. Afonso falava impropérios e
virava-se na cama, dando-lhe as costas. Ela colocou a arma na fronte e disse: __
“Se não me ouvir, vou disparar contra a minha cabeça”.
Ao que ele, com voz pastosa, respondeu: __ “Atira logo que eu quero
dormir”.
Ana
Helena, pesadamente, levantou-se e com a arma na mão dirigiu-se ao quarto das
meninas. Sim, ia cometer o suicídio, mas não podia deixar três crianças
indefesas nas mãos desse pai irresponsável. Iriam todas juntas. Pensou na mãe,
imaginou sua dor. A mãe de Ana Helena nem de longe suspeitava do sofrimento da
filha. O que iria pensar? Precisava contar-lhe o que ia fazer e o porquê de tão
tresloucado ato. Foi ao telefone, que já era automático e ligou. Sua mãe a
segurou horas ao telefone e como se a embalasse nos braços, contou coisas de
sua vida que também Ana Helena ignorava. Sofrera muito com seu pai, cujo vício
não era a bebida e sim o jogo, por longos anos, antes do nascimento de Aninha.
Descreveu crises e mais crises cheias de dor e solidão. Até que um dia, ele
caiu em si e tornou-se o melhor marido que uma esposa podia desejar.
Ana Helena
pensou: “se minha mãe suportou...”
E a quarta filha
chegou e encontrou uma mãe diferente. Mais forte. Mais decidida. Mais triste,
porém menos infeliz. Sabia agora que a sua vida e das filhas dependia só dela.
Resolutamente foi à luta. Lecionava de manhã no colégio perto de casa e
fazia, na máquina de tricô que havia adquirido, duas blusas de lã por dia.
Trabalhava até duas ou três da madrugada e pela manhã, na sala de aula,
desejava palitinhos para manter abertos os olhos. Só a tenra idade pode
explicar a sobrevivência a tanto trauma suportado, sobrevivido, mas nunca
superado.
Os anos foram
passando e Ana Helena era só uma sombra do que fora um dia. Trabalhava como um
boi de carro e achou muito divertido o dia que descobriu que seu signo oriental
era esse mesmo: boi, búfalo. Paciência se é assim que deve ser... Como é
mesmo? “Um belo presente num embrulho de papel pardo” Essa era a nova Ana
Helena.
Porém, após centenas ou milhares de momentos dolorosos, os bons ventos
sopraram e seu querido marido despertou! Ressuscitou e começou a trabalhar.
Dava aulas no ginásio e decidiu montar um laboratório para análises químicas.
Sofreu um revés, foi enganado em uma venda que fez e quis ir embora da cidade.
Convenceu a cordata Ana Helena a venderem os últimos bens e irem tentar a vida
na capital. Estavam no início do ano de 67. Um belo laboratório na Avenida
Brigadeiro Luiz Antônio, fiando-se nas promessas de serviço de um primo bem
relacionado no meio e, tudo furado! Mais nada para ser vendido e a fome
rondando. O retorno humilhante no final daquele ano e Afonso, ainda assim,
relutante. Não aceitava a derrota. Mas não havia alternativa. Alugaram uma
pequena casa na cidade e teriam que recomeçar a vida da estaca zero.
Existia, porém,
uma compensação maravilhosa. Afonso nunca mais bebera desde a última
derrocada. Isso era o mais importante para Ana Helena que voltava a ter o seu
homem. O resto era resto. Tudo se arrumaria. E assim foi. Logo, um reconfortante
convite do provedor da Santa Casa e poucos meses depois um vislumbre de fortuna,
de tranqüilidade. Nada de bebida. Ele se recuperava. Assumia sua
responsabilidade, tardia, mas muito bem-vinda.
Ana Helena
agradecia à Deus e a todos os santos. Voltava a ser feliz. As quatro menininhas
na escola, seus sonhos mais exagerados concretizados. O marido chegando em casa
sem parar nos bares e indo dormir em seus braços. Quanta felicidade! Valeu a
pena esperar!
Mas, gato
escaldado tem medo de água fria e Ana Helena voltou a lecionar. Aprendera a
gostar de uma certa independência financeira, e tinha medo de perder aquilo
tudo que conquistara a duras-penas. Ou será que confiava em Afonso, mas... Com
um pé atrás? O que importava mesmo era que agora podia vestir e enfeitar as
meninas, levá-las às aulas de ballet, piano, inglês, tudo o que elas
quisessem.
Uma boa casa nova
e carro zero. Que mais podia desejar Ana Helena? Havia, sim, algumas coisas a
serem corrigidas. No decorrer dos anos negros, o esquecimento de si própria,
seguido de tantas gravidezes, a inexorável falta de tempo e dinheiro, todas
essas coisas comprometeram seriamente a integridade e beleza daqueles dentes que
orgulhosamente ela exibia em constantes sorrisos. Ana Helena acreditava ter sido
essa a pior conseqüência e o fato menos perdoável. Aos poucos iam se
deteriorando e quando a dor se tornava insuportável, o máximo que ela fazia
era ir a um dentista da família e pedir que extraísse. Dos trinta e dois
originais tinha então, apenas, vinte e quatro, dos quais alguns já bastante
comprometidos. Ana Helena dizia serem os dentes as armas naturais que a gente
possui e que sérios problemas psíquicos nos atacam quando os perdemos.
Colocamos próteses nas quais não podemos confiar e temos medo de falar, comer,
rir. E beijar, então? Nem pensar! Fim dos dentes naturais... Fim da vida. Pelo
menos de uma parte tão importante da vida. A sexual. Assim pensava Ana Helena.
E concluía: “tese a ser defendida! Senão,
vejamos. Já repararam como os idosos
se beijam timidamente? E, com certeza, não é experiência que lhes falta. Estariam os estrógenos tão intimamente ligados à saúde
bucal? Afinal, não é a boca um órgão
sensual imprescindível?” Falava essas coisas e corria num caríssimo
dentista tentando salvar a própria vida. Essa Ana Helena! ...
Trabalhava ao lado do companheiro, dava aulas particulares e voltava a
ser adolescente juntamente com as filhas, já mocinhas.
No início dos
anos 70 surgiram as famosas pílulas e Ana Helena mergulhou nelas, imaginando
fazer desaparecer o temido fantasma de uma indesejável gravidez no esplendor de
seus trinta anos. Aconteceu que não se deu bem com elas e foi obrigada a parar.
Resultado: engravidou! Mas, estava tudo tão bem que ambos ficaram ansiosos e
desejosos desse filho. Era como se tudo estivesse recomeçando e da maneira
certa. Foi uma gravidez maravilhosa e Ana Helena tinha tudo que não tivera nas
anteriores. Um marido presente e carinhoso. Um pré-natal de rainha. Enxoval
digno de um príncipe para o bebê. Paz e felicidade. Bonitas roupas, manicura,
cabeleireira, carteira de motorista e um carro só seu. Um amadíssimo fusca
amarelo.
Quem sabe viria
desta vez o garotinho? No fundo do seu coração sempre existira uma dúvida.
Será que um dos motivos que levava Afonso à bebida não era a falta desse
filho varão? Não, ele jamais se referira a isso, mas a dúvida existia. Logo,
logo descobriria que essa dúvida era irreal. Nada tinha a ver com o sexo da
criança.
Num belo feriado
nacional, com eleições federais e tudo, ele chegou e Ana Helena chorava e ria,
quase não podendo acreditar naqueles complementos que via, entre as
esperneantes perninhas do bebê. Agora sua felicidade estava completa e se isso
fosse uma novela podia muito bem ser esse o último capítulo. Muito pelo contrário,
este viria a ser o primeiro capítulo de um novo e definitivo drama
Na primeira noite da vida de seu filho o pai feliz foi comemorar e caiu
na vida. Embriagou-se a não mais poder. Ana Helena ficou sabendo através das
visitas, no dia seguinte, na maternidade. Seu coração gelou, mas tentou
afastar os maus presságios e quis até crer que era natural. Quando ele veio,
nada falou. Fingiu nada saber; dentro dela algo se quebrava. Vê-lo assim, com
cara de ressaca, matava-a. Intimamente orava, pedindo a Deus, não permitisse
que o fato se repetisse. Uma nuvem negra tentava encobrir o seu sol.
Anos
difíceis atravessava o país. Muitas fortunas se dissipavam. Como tantas outras
ricas propriedades, grandes fazendas foram divididas em pequenos sítios para
serem vendidas e algumas, simplesmente mudaram de mãos. Era a derrota final do
café e a vitória da cana de açúcar, que começava a transformar o campo em
mares ondulantes das altas folhagens dos canaviais. Para aqueles que não
estavam preparados para as mudanças não restava alternativa, senão
desfazer-se da terra e dar lugar aos novos lavradores, e a novas tecnologias.
Assim se foram também as fazendas dos parentes de Afonso e logo o dinheiro
evaporava. Muitos daqueles moços, sem uma formação acadêmica ou prática,
pior que isso, moços que não tinham o hábito do trabalho, encontraram-se
jogados no mundo, sem saber o que fazer da vida.
Ana
Helena dava graças por ter Afonso uma profissão e um trabalho garantido.
Garantido? Bem, pelo menos enquanto mantivesse competência e capacidade de
trabalho. E era esse o maior medo, pois a pessoa responsável por resultados que
podiam ser a diferença entre a vida ou a morte de tanta gente, obrigava a uma
integridade total e com certeza, a bebida não seria nunca a melhor conselheira.
Aquela
noite passava lenta e tristemente, enquanto ela banhava com lágrimas os seios túrgidos
e o próprio bebê, ligado a eles como se fosse apenas uma extensão do seu
corpo sofrido, deformado. Novamente o desespero e a pergunta atônita pela enésima
vez: “onde está você?”
O
dia já ameaçava nascer quando uma voz de homem se fez ouvir, na porta dos
fundos, chamando por Afonso. Ana Helena arrastou-se até lá e trêmula, através
da porta perguntou, quem, àquela hora, estava em seu quintal. Era só um amigo
que viera chamar Afonso para ir pescar, conforme haviam combinado. Foi do mais
fundo do peito que a mulher teve de arrancar a resposta que seria a constatação
final de uma realidade que sempre tentara esconder: seu marido não estava em casa. Foi nesse exato momento que ele
deixou de estar também em sua vida. Escorregou lentamente pela parede
azulejada, em câmera lenta e tudo se apagou. Só uma hora depois deu por si,
sentada no chão da cozinha e levantou-se, com tanta dificuldade, como se fosse
uma velhinha de cem anos. Uma tristeza invencível, uma sensação de derrota
conformada, uma completa apatia. Foi adoecendo e passava as noites e os dias
deitada ao lado do menino, o seio a sua total disposição e ambos engordando.
Mas não dava para explicar tal fenômeno, pois se ele mamava sem parar e só
dormia, Ana Helena pouco se alimentava e seu sono parecia mais um estado letárgico.
Um dia percebeu que se tornara deficiente sua coordenação motora e tinha
perturbações visuais. Via, na televisão, imagens duplas. Estava toda inchada
e deformada. Acreditava estar com um tumor cerebral. O mais interessante é que
se sentia completamente indiferente à doença, como a tudo mais em sua vida. Médicos
vieram e não acertavam um diagnóstico.
Mandaram-na
para Campinas onde um jovem e competente médico conterrâneo iria indicar o
melhor especialista. Mas, especialista, em que?! Felizmente, era mesmo
competente o recém formado médico ainda
residente daquele hospital. Imediatamente matou a charada e conduziu-a para um
endocrinologista que, pelo resto da vida, acompanharia o tratamento do mal que
em cinco minutos diagnosticou: hipotireodismo, tireóides paralisadas, para
sempre. Um simples hormônio sintetizado devolveria à vida a nossa heroína.
Ana
Helena sabia que uma parte de seu corpo havia morrido juntamente com sua alma,
naquela fatídica noite, quando seu filhinho tinha poucos dias de vida, mas
aquele “remedinho” iria ressuscitá-la.
Após
um mês de tratamento seu corpo melhorara sensivelmente, porém
nunca mais voltaria a ser a mesma, pois a solução de continuidade que
acontecera em seu coração era irreversível. Para esse mal não havia remédio
contido em frascos ou bisnagas.
A
separação foi lenta, gradual e concreta. Finalmente Afonso conseguira matar o
amor. Da separação de alma e de cama, Afonso ressentia-se e agredia. Foram
anos infernais. A mulher alegre e decidida morrera. Era agora dura e fria. Ana
Helena era muito infeliz. Estava, então, com trinta e cinco anos. A filha mais
velha já havia saído de casa para estudar e ela era uma das poucas réstias de
sol que iluminavam sua vida. O caçula estava com quatro aninhos, mas as
noitadas do marido persistiam e era sempre um homem embriagado que chegava em
casa, de madrugada. Arriscava, temerariamente, a segurança de seu trabalho, já
bastante comprometido.
Ana
Helena continuava a lecionar e nesse ano deveria ir para uma escola que ficava
em uma fazenda a vinte quilômetros da cidade. Foi aí que nova guinada mudou
sua vida.
O
RENASCIMENTO
Os
longos anos sem gravidez ou lactação haviam recuperado seu corpo. Estava
magrinha, barriga lisa, seios redondos e firmes. Os sinais do tempo e das intempéries
ficaram em algumas marcas amargas na face e nos poucos fios brancos que davam um
brilho especial no castanho alourado dos cabelos. Por questões de economia,
somadas ao favorecimento da natureza, usava as roupas juvenis que as filhas
abandonavam em seus armários. Por isso o visual era atraente e aparentava menos
idade. O interior estava envelhecido, apagado, sem graça. Sentia assim, como um
robô dourado guiado por mãos desconhecida, em um estranho controle remoto. Ou
talvez, o homem de lata a procura de um coração. Mas Ana Helena não se dava
conta de nenhuma procura e parecia confortável em sua conformação.
Deve
ter sido por isso que demorou algum tempo para perceber as transformações que
começaram a iluminar o seu interior. Essa luz foi-se revelando através de seus
olhos e antes que ela se desse conta desse renascer o marido notou, perguntou e
ela teve que admitir, até mesmo para si própria. Sim, estava amando outra vez.
A luz voltara a brilhar em seus olhos, o riso retornara e ela nem havia notado.
Bem, foi assim...
Primeiro dia
de aula, início de novo ano letivo. O verão agonizava. Ana Helena que
havia caído da plataforma altíssima de suas sandálias tinha o tornozelo
engessado. Que bela fazenda! Quantos pinheiros! Ótima escola rural! Tudo ali
parecia novo. Na verdade era mais que uma fazenda. Era também uma indústria,
certamente responsável pelas modernas instalações. O marido comentara que
aquela fazenda havia pertencido, no passado, a um de seus tios e que Ana Helena
já tinha ido lá. Não, não acreditara nisso. Tudo ali era, para ela,
perfeitamente desconhecido. Os alunos, porém, eram iguais a todos os outros de
uma zona rural, pobres e lindos descendentes de imigrantes italianos.
O
“fusquinha” amarelo estacionado à sombra de uma das floridas árvores que
formavam uma avenida defronte a escola, tudo tão bonito! Que bom! Ana Helena
estava cansada de escolas que funcionavam precariamente em prédios adaptados de
velhas fazendas. Eram deprimentes e tristes. Encontrava um novo mundo, coisas
novas e isto a deixava feliz.
Já
se preparava para encerrar esse primeiro dia de aula quando uma moça apareceu.
Veio dar-lhe as boas vindas e perguntar se estava tudo bem. Era a secretária no
escritório da indústria. Ana Helena foi saindo com ela, conversando pelo
caminho florido quando vê se aproximando um fusca azul que pára, freando
bruscamente e levantando grande nuvem de pó. Impossível não notar aquele
intruso que vinha interromper a paz bucólica daquele cenário. Uma curta marcha
à ré e uma voz masculina se faz ouvir: “D. Maria, vai para a fazenda?”
Isto significava sede. Sim, ela ia. Tchau... Tchau... E Ana Helena parte
também. Enquanto dirigia ia ruminando conjecturas. Quem seria aquele motorista
louro de cabelos encaracolados e belos olhos azuis? Aquela imagem ficara grudada
em sua mente no momento exato em que, ele falando, olhava-a também, como se
avaliasse. Que atrevido! Dava-se conta que além do pé engessado, usava uma
blusinha de linha vermelha toda bordada e... Que raiva, estava sem soutien! Que
relaxo! Se aquele fosse o dono, ou um dos donos daquele lugar, iria ter dela uma
péssima impressão! Que vexame!
Ana
Helena dissera à secretária que se conseguissem certo número de alunos para
formar uma quarta série, seria ótimo, pois traria consigo outra professora que
dividiria com ela despesas de combustível, além de fazer companhia durante o
trajeto. A moça prometeu ajudá-la.
No
dia seguinte, em meio a aula, ouve um carro parar e ele chega à porta. Na verdade ele preenche aqueles batentes com sua
figura alta e atlética. Ana Helena sai, um pouco transtornada pelo inesperado
da visita e se vê frente a frente com aquele monumento de homem. Ele toca na
aba do chapéu deixando à mostra uma fronte coberta por delicada e rosada pele,
onde duas gemas (azuis ou verdes?), se engastavam. Falou a respeito da segunda
classe e se propôs levar Ana Helena a procurar alunos ali pela redondeza.
Deve
ter sido nesse dia que Ana Helena chegou em casa emitindo raios de luz.
Terceiro
dia e ele volta a escola para dizer a Ana Helena que já havia conseguido dois
ou três alunos e mais encontrariam nos sítios vizinhos. Ficou combinado que
iriam procurá-los no dia seguinte, que era sábado e os alunos não iriam
comparecer.
É
preciso registrar que, após chegar em casa, naquele primeiro dia, ela mesma
cortou e retirou aquele “ridículo” gesso. Só Deus saberia porque aquele
gesso era ridículo.
Quarto dia. Mal Ana Helena chega, vê o carro azul se aproximar. Saem.
Ele no carro dele, ela no carro dela. Em certo e ermo lugar ele pára e lhe propõe
que deixe seu carro ali e siga no dele, justificando que seria mais fácil
chegar aos sítios onde moravam as crianças. Não era uma explicação muito
convincente, mas habituada a receber ordens, achou natural deixar seu lindo e tão
amado fusquinha amarelo trancado, ali no sopé daqueles morros, que ela sozinha
jamais voltaria a encontrar no emaranhado daqueles caminhos entre canas e feijões.
Uma comitiva poderia mesmo assustar esses desconfiados habitantes do campo.
Conversam
ligeiramente e logo chegam em uma casa de paredes azuis e janelas verdes. Ele
sai do carro e bate palmas diante da pequena casa. De dentro do carro Ana Helena
observa, atentamente, a cena. Na verdade de onde estava só o que via era o seu
”bumbum”, comprimido pelo jeans de uma calça muito justa, e... Que lindo!
Mas, o que é isso?! Ela nunca achara lindo “bumbum” nenhum, mas aquele...
Que lindo!
Ele
conversou com a família rapidamente, entrou no carro e enquanto dirigia começou
a fazer mil perguntas e a responder mil indagações. Pareciam, ambos, ansiosos
por saber tudo do outro. Ana Helena descobriu que se chamava Luís, era casado,
bem casado, tinha dois filhos já grandinhos e estava tentando um terceiro que,
esperava, fosse uma menina. Claro! Ambos tinham casamentos sólidos e tudo estava “perfeito”.
Ele
era, juntamente com outros irmãos, dono da indústria, mas a fazenda pertencia
ao pai. Não, não morava na fazenda e sim numa cidade vizinha. Que coisa!
Passava duas vezes por dia bem pertinho de sua casa e faziam compras nos mesmos
lugares! Como nunca se viram antes?!
De
repente ele coloca a mão sobre sua coxa e, inexplicavelmente, em seu ventre.
Ana Helena sente-se derreter. Seu rosto se aproxima e procura os seus lábios. A
moça desvia o rosto e ele beija a sua face. Enfim, o carro amarelo! Tchau,
adeus, até amanhã. Que loucura!
Por
dois ou três dias não se vêem mais. Com certeza, apavorados pelo que fizeram,
ou pelo que desejaram ter feito. Parecia que, a essa altura, uma segunda classe
já não interessava a nenhum dos dois.
No
entanto o destino é inexorável e foi o próprio marido que deu o motivo a novo
encontro. Pediu que Ana Helena mandasse oferecer ao pai de Luís um cãozinho
perdigueiro, pois sabia que, como ele próprio, o homem era caçador e aquele
cachorrinho era o último de uma bela cria que tinham em casa. Por isso, nesse
dia, ela parou no escritório e falou com ele. No dia seguinte ele passou na
escola para dizer que o pai aceitava o cãozinho e combinaram que ele passaria
em sua casa quando saísse do trabalho.
Ana
Helena chegava em casa na hora do almoço e só tinha tempo de lavar as mãos e
sentar-se à mesa, pois a família reunida em torno da mesma, só esperava por
ela, todos morrendo de fome. Uma hora depois despachava todos para seus afazeres
e só então ia tomar o necessário banho para tirar todo aquele pó vermelho
das estradas. Na verdade só esperava a vinda de Luís no final da tarde. Mal saíra
do chuveiro, envolta ainda num roupão e a cabeça embrulhada em uma toalha,
teve de atender a campainha e, imaginem! Era o Luís. Mas eram só duas horas da
tarde! Entrega-lhe a encomenda e encerra-se, palpitante, em sua gaiola de ouro.
Claro
que, no dia seguinte, ele foi à escola porque o pai mandava agradecer, muitíssimo,
o presente. E, naturalmente, Ana Helena desculpou-se por recebê-lo tão mal.
Nem lhe oferecera um cafezinho!
Ao
final da aula Ana Helena partiu e foi perseguida pelo carro de Luís por todo o
trajeto. Cruzaram no quarteirão da sua casa, área de segurança e Ana Helena
parou para perguntar o que desejava ele.
Luís
respondeu que só queria saber o porquê daquela estória de oferecer um
cafezinho. Que tolice! Para resumir, estavam loucamente apaixonados e procurando
mil desculpas para se afastarem (ou para se verem?). Impossível! Estavam
irremediavelmente apaixonados.
Certa
tarde, Ana Helena parava seu carro diante da farmácia e acabava de fechá-lo
quando ergue o olhar e depara-se com o dele. Ficam ambos paralisados durante,
sabe Deus quanto tempo, enquanto pessoas passam através daqueles olhares e só
não viu quem não quis. Entregaram o ouro completamente e pouco estavam se
importando com isso.
Mas
ia o sonho se transformando em pesadelo.
Afonso, que assistira ao nascimento daquele amor e, de certa forma,
sentia-se bastante responsável por tal evento, temeu, pela primeira vez, temeu
perder Ana Helena e passou a rodeá-la, interessar-se pelos acontecimentos e
oferecia-se como confidente. Era uma tática, é claro. Parou de beber e começou
a cortejar a esposa, acreditando que aquilo não passava de ilusão passageira e
haveria de reconquistá-la. Sabia que brigar seria perder para sempre. Conhecia
bem a mulher que tinha. A mulher que, se desafiada, podia virar uma leoa. Tinha
que ir com muito jeito e Ana Helena acreditou que podia contar com ele como
amigo e mostrava, sem pejo, sua alma nua.
Luís
e Ana Helena precisavam se ver todos
os dias e por isso o domingo era um tormento. Partiu de Afonso a idéia de
reunir as duas famílias e passou a convidá-los para festas, bailes, almoços
ou jantares, quando tudo passou a ser motivo de reuniões. Sabe-se lá o que
passava pela cabeça do atormentado Afonso.
Fazia
pouco mais de um mês que tudo começara e naquela manhã Luís esperava Ana
Helena no final da aula para contar-lhe que Célia,m era o nome da esposa,
estava grávida. Contou-lhe mais. Que estava com terríveis problemas de consciência,
pois via a esposa tão alegre com a gravidez e ele a olhava como se ela não
passasse de uma barriga de aluguel porque aquele bebê, ele o havia feito
pensando em Ana Helena, que não sabia se ficava horrorizada ou lisonjeada com
essa declaração. Se por um lado era terrível, por outro era maravilhoso. Então
Luís contou-lhe que não conseguia ter mais com a esposa qualquer expressão de
amor se não fechasse os olhos e imaginasse que era Ana Helena que ele tinha nos
braços. Isto também ela ficava sem entender, pois se já há tempos estava
separada de cama de Afonso, agora não
podia suportar a idéia de ser tocada por ele.
Esta
foi uma conversa fortemente emocional e Ana Helena partiu completamente zonza.
Nas horas que se seguiram coisas estranhas aconteceram e pouco tempo depois ela
descobriu que seus seios intumesciam e tinham leite. Inacreditável! Célia
ficava grávida, Luís achava que o bebê era da mulher amada e Ana Helena tinha
leite!
Contou
ao marido que, imediatamente, pediu que ela colhesse material para fazer um
exame. Ana Helena sorriu. Ana Helena riu. Então, Afonso achava que ela estava
grávida? Ele devia pensar que ela e Luís... Que tolo! Entregou-lhe o vidrinho
com o seu “xixi” dizendo : “não, eu não estou grávida, mas ela está e
eu estou cheia de leite.” Afonso tentou desculpar-se dizendo que não era um
teste de gravidez que iria fazer e sim outros exames porque há doenças que
produzem esse sintoma. Ana Helena fingiu acreditar, mas sentia seu amor próprio
ferido. Ele devia saber que isto só aconteceria se, ou depois que, se
separassem.
Depois
que se separassem... No fundo Ana Helena sabia que isto nunca aconteceria porque
se separar de Afonso seria o mesmo que se separar de sua família. Ainda que os
filhos ficassem com ela, como poderia chegar para eles e dizer: “olha
aqui, crianças, eu decidi que aquele pai
que vocês conhecem não serve mais para vocês. Vou arranjar um novinho
em folha. Vocês vão adorar!”
De
qualquer modo seria o fim da família pela qual tanto ela lutara. Sabia que não
conseguiria.
Estaria,
então, essa mulher, destinada a viver toda uma vida ligada a um homem cujas exigências conjugais lhe causava
repulsa? Teria alguém jamais o direito de exigir isto de um ser humano? Se, ao
menos, seu coração pudesse ter permanecido murcho e seco... Se alguma força
divina impedisse o coração de reflorir... Seria possível, para ela, fazer o
que Luís fazia? Abraçar alguém, com os olhos fechados, imaginando estar com
aquele que desejava estar? Ana Helena sabia que isto estava além das suas forças
e retorcia-se em espasmódica
agonia.
Numa
dessas tardes de sofrimento em que coração e razão se digladiavam
num combate mortal dentro de seu corpo, uma amiga vem visitá-la, é
introduzida pela empregada em seu quarto e Ana Helena é surpreendida em meio a
um pranto desesperado. Essa amiga era casada com o irmão de Luís e era a última
pessoa que Ana Helena gostaria que a visse nesse estado. Ela entrara no rol dos
amigos da casa a pedido do próprio Luís que dizia viverem eles
muito isolados, sem amizades.
A moça ficou assustada. Queria saber o que havia
acontecido. Insistia. Ana Helena tentava se acalmar para poder evitar as explicações.
Não conseguia. Retorcia as mãos e não podia conter o choro, ainda mais
desesperado. A moça obrigou Ana Helena a levantar-se e propôs uma volta de
carro para que ela se acalmasse.
Saíram e a moça foi dirigindo para um lado tranqüilo
da cidade, sempre perguntando, forçando à confidência. Ana Helena capitulou,
contou que estava apaixonada por um homem casado, e, pior que isso... ele por
ela. A moça então falou assim: “olhe, você não está me pedindo conselho,
mas se eu fosse você, jogaria tudo pro alto e sumiria no mundo com ele”.Ana
Helena sorriu amargamente: “se ela soubesse quem é o homem não diria
isto”.
Aí, a inquisição mudou de tema e agora ela
insistia em saber quem era ele, argumentando que poderia, talvez, ajudá-la.
Ana Helena relutou o quanto pode e por fim desabafou,
após a moça ter jurado guardar segredo, pela vida e felicidade dos seus
filhos. __ “É o seu cunhado”. Nesse exato e trágico instante, os olhos de
Ana Helena voltaram-se para a paisagem que as circundava e aquele cruzamento de
duas avenidas ficou gravado em seu cérebro como se fosse uma fotografia. Aquele
era um momento cármico e teria o seu epílogo vinte anos após, nesse mesmo cenário,
quando em um terrível acidente, o filho daquela mulher perjura perderia a vida.
Implorou que nada falasse, pelo menos por enquanto. Célia
e sua gravidez tinham de ser poupadas. Claro que a moça prometeu não falar.
Mas algo maléfico, um ar de sádica alegria perpassou pelo seu semblante e, no
mesmo instante, Ana Helena arrependeu-se de ter falado.
Poucos dias se passaram e uma lenta, mas contínua
mudança se fazia sentir no trato com a cunhada de Luís e logo era o marido,
irmão de Luís, que começaria a destratá-la.
Ana Helena comprava leite na fazenda e nos fins de
semana ou nos dias que por outros motivos não houvesse aula, era o irmão de Luís
que o trazia e ela ia a sua casa buscá-lo, nos finais de tarde. Naquele dia foi
assim e algo terrível aconteceu. Entrou sorrindo e lhe estendeu a mão. O homem
fingiu não ver o gesto e rispidamente falou que não havia trazido o leite e
que não o traria mais. Falou e entrou na casa deixando a pobre moça plantada
entre a porta e o portão, com o braço estendido e um triste sentimento de
humilhação, do qual ela não acreditava ser merecedora. Também esse ato
covarde receberia, um dia, o troco. Um pedaço daquele mesmo braço foi
arrancado por uma máquina, com certeza manipulada por uma inteligência cósmica
justiceira.
Foram acontecimentos assim que levariam Ana Helena,
mais tarde, a escrever um artigo onde diria... “Demorei a crer que não era eu própria que pagava o mal com o mal. Em
verdade cada vez que alguém me feria demais eu rezava, sem parar, pedindo aos céus
proteção ao autor da ofensa, pois de certa forma, sentia-me culpada ao
ver a pessoa pagar na mesma moeda. Acabei aprendendo que a lei do retorno é
inexorável e impiedosa. Hoje, se eu pudesse, lançaria um clamor: não me façam
mal, principalmente
se for premeditadamente; é para o
seu próprio bem que eu peço.”
Claro que isto serve para todo mundo, não só para Ana Helena.
Agora ela tinha certeza que era só uma questão de
tempo e Célia saberia de tudo. Talvez mais que tudo. Aquela mulher parecia
ansiosa em levar essa dor à cunhada, mesmo porque não gostava dela.
Mas os dias foram passando e todos os transtornos
eram largamente compensados pelos poucos momentos que, na fazenda, privava da
presença de Luís. Lá, Ana Helena era feliz. Foi então que, numa manhã de
domingo, imaginando não haver ninguém na fazenda, convidou a filha mais velha
para ir conhecer o lugar onde a mamãe trabalhava.
Ao chegarem, qual não foi sua surpresa por encontrar Luís cuidando dos
tratores. Conversaram e Luís convidou-as a irem conhecer a sede da fazenda.
Aproveitava, é claro, o fato de Ana Helena estar acompanhada. Seguiram por uma
estradinha tortuosa que corria dentro de um bosque, atravessaram uma pequena
ponte sob a qual morava o sussurrar suave de um pequeno rio correndo sobre
pedras e depararam com uma rua de casas pequenas e humildes. Era ali que moravam
os empregados. Agora todas as coisas pareciam familiares para Ana Helena. Mas
como? Ela nunca tinha ido para esses lados. Após uma curva viram a casa grande
da fazenda. Parecia abandonada. O jardim mal cuidado fora invadido por
trepadeiras e roseiras sem flor que cresciam desordenadamente. A pintura... Qual
pintura? As paredes estavam descascadas e cobertas por liquens. Ma, de qualquer
modo, parecia um pouco familiar. Que estranho!
Luís explicou que, como ninguém morava ali, a casa
era usada quase que somente como depósito de sementes e adubo. Entraram em uma
varanda fronteiriça onde havia uma rede. Devia ser ali o lugar de descanso do
“guerreiro”. O homem empurrou uma altíssima porta de pesada madeira maciça
e convidou-as a entrar. Era uma ampla sala cujo assoalho, feito de largas tábuas
de madeira, tinha, boa parte, ocupada por uma sacaria que parecia ser adubo. Um
cheiro forte de produtos químicos enchia o ar. Em outro canto da sala algumas
cadeiras antigas e sobre uma delas um violão. Ele desejava mostrar o resto da
casa e percorreram um corredor para o qual diversas portas se abriam. Eram
quartos igualmente desocupados e sujos. Porém, em um deles, havia uma grande e
antiga cama de casal que denunciava, pelo aspecto, ter algum uso recente. Como
isto despertasse espanto nas convidadas Luís explicou que era comum passar
algumas noites ali, sozinho, quando o trabalho assim exigia.
Ana Helena continuava sentindo aquela estranha sensação
de estar em um lugar em que já estivera. Era como aquelas impressões que temos
de estarmos revivendo cenas que nunca vivemos. Caminhava atenta aos detalhes
procurando algo mais concreto.
Chegaram em um aposento muito iluminado pela luz do
sol que entrava pelas imensas janelas e se abriam para um pomar cheio de mato
invasivo. O chão era de ladrilhos e Ana Helena percebeu que aquilo era uma copa
e a próxima porta levaria à cozinha. Foi aí que a descoberta se deu. A um
canto, um grande fogão de lenha em completo desuso e sobre ele um pequeno
caixilho com quatro vidros. Não pode deixar de exclamar: “mas, é claro! Eu já estive aqui!” Perguntou, ansiosa, a Luís,
de quem seu pai havia adquirido a fazenda e, convenceu-se, afinal. Sim, esta era
a casa que, na sua juventude, ela tantas vezes visitara. A casa onde morava a
prima de Afonso. A casa encantada.
Contou a Luís e à filha que acharam interessante a coincidência e perguntavam
como Ana Helena não percebera antes. Ela foi obrigada a dizer que naquele tempo
a casa era linda e agora... Compreensível.
Compreensíveis
também se tornavam aqueles estranhos sentimentos que a atacavam nos longínquos
dias em que ali estivera. Tinha sido uma premonição. Já naquele tempo a casa
sabia, e reconhecia a sua verdadeira dona. Pena que fora tão mal cuidada.
Estava velha e feia. Que pena! Mas de repente uma ansiedade agitou Ana Helena
que correu para a porta da cozinha, desejando ver o belo pátio coberto pelo
caramanchão de maracujá. Nada disso. Nada havia ali. Apenas abandono e desolação.
Sentou num degrau da cozinha e não conseguiu esconder uma lágrima de decepção
e compadecimento. Chorava com pena de si mesma. A casa era o seu reflexo. Era
como olhar-se num espelho que revelasse a alma e, por que não, o próprio corpo
sofrido, vergastado pelas intempéries da vida.
A filha se assustou, Luís correu para ela
preocupado, achando que ela chorava pelo lamentável estado da casa e prometeu
de restaurá-la, para que ela não chorasse mais. Ana Helena sorriu através das
lágrimas pensando: “se eles soubessem...”
No tempo que a casa era linda, ambos eram livres e se
tivessem se encontrado antes... Muitas vezes Luís dissera isso. Muitas vezes
lhe perguntara: __ “Onde você se
escondeu esse tempo todo?” E ficavam voltando no tempo, procurando descobrir
onde um estivera em certa época e onde estivera o outro. Queriam saber onde
poderia ter sido o ponto de encontro ou onde acontecera o desencontro. “Ah! casa
encantada... você sabia, quis me contar e eu não soube entender os sinais.”
gemia a pobre moça. Mas como poderia? Naquele tempo a última coisa que Ana
Helena desejava era morar em um lugar assim desolado. Agora ela só queria um
rancho ao lado de Luís. Hoje, para Ana Helena, felicidade podia traduzir-se em
um amor e uma cabana.
Luís não perdeu tempo em cumprir a promessa e
rapidamente deu início a restauração da casa. Um dia confidenciou que não
conseguia pensar na própria família enquanto cuidava da reforma. Tudo que ali
fazia era pensando: será que ela vai gostar desta cor? Será que é deste jeito
que ela gostaria disto ou daquilo?
Ana Helena sorria, mas intimamente sabia que essas
coisas eram artes da casa e repreendia-a com doçura: “minha querida, você
sabe que eu nunca irei morar aí, dentro de você. Portanto, pare com isso!”
Assim, aos borbotões, ia acabando o ano, e as
temidas férias se aproximavam. O casal de apaixonados já começava a
questionar como iriam sobreviver a mais este período árido e inclemente.
Sofriam por antecipação. Mas não ficariam sem se ver. Todas as tardes Ana
Helena saía para comprar qualquer
coisa no supermercado e Luís ficava sempre por ali, na casa de ferragens, na
farmácia ou no próprio supermercado. Dizia-lhe: se
a vejo posso ir embora em paz, mas se você não aparece, ou nos desencontramos,
fico rodando por essas ruas como louco. Por favor, apareça.
A mesma coisa acontecia com Ana Helena. Era vital
essa visão. Mesmo que fosse só isso, um encontro dos carros em uma esquina, um
sorriso, um aceno de mão. E, muitas vezes, se não a visse, Luís esperava
Afonso chegar em casa e ia fazer-lhe uma visita. Todos sabiam do verdadeiro
motivo, mas todos fingiam acreditar nas esfarrapadas desculpas que ele arranjava
sempre, para explicá-las. No final, nem se preocupava mais em arranjar motivos.
Simplesmente aparecia e se, por qualquer razão, ele não viesse, Ana Helena
sofria e se escondia para chorar.
Nos últimos dias do ano, a reforma da casa terminou
e Luís decidiu fazer lá a sua festa de aniversário, que seria também uma
inauguração da casa renovada. Claro que além de seus familiares convidou um
ou dois amigos para poder convidar Ana Helena e Afonso.
A casa estava linda. O jardim maravilhoso com todas
as roseiras floridas e muita gente espalhada por todos os lugares. A festa era
um churrasco na hora do almoço e o dia estava radiante. Ana Helena pode ver Célia
e verificar que sua barriga estava enorme, mas mal se cumprimentaram. Célia
olhava-a com desconfiança, porém em qualquer ponto em que estivesse, Luís lançava-lhe
olhares amorosos e doces sorrisos. Ele sabia que Afonso sabia e até mesmo
conversavam muito a respeito. Uma vez Afonso dissera à Ana Helena: ele
te ama mais do que você imagina. Mas Célia não deveria saber por
enquanto. Muita coisa podia mudar com o nascimento do bebê. Ana Helena estava
preparada para isso. Confiava que a cunhada de Luís cumprisse pelo menos esse
compromisso, embora muitas intrigas já houvesse armado.
Luís quis levá-los para rever a velha casa, agora
toda remodelada e uma comitiva acompanhou-os. Estava realmente linda. Luís
havia observado os mínimos detalhes. Quando saíram da casa, pela porta da
cozinha, o moço fazia peripécias, querendo chamar a atenção de Aninha para
uma pequena muda de maracujá que começava a vicejar em um dos cantos do recém-ladrilhado
pátio externo e disfarçadamente piscava-lhe um olho. A casa estava magnífica,
mas para surpresa de Ana Helena, era só uma casa. Parecia que o encanto havia
se quebrado. Ou estaria ela emburrada por causa da invasão de pessoas
estranhas? Talvez fosse isso. Ana Helena procurava ouvi-la, mas ela permanecia
muda. A casa encantada era apenas uma bonita casa
e Ana Helena ficou triste como se tivesse perdido uma grande e velha
amiga. Era estranho ver Célia ali como anfitriã. Para Ana Helena, Célia
estava deslocada como a personagem de uma peça teatral repentinamente empurrada
para cenários de outra peça. Ao mesmo tempo ela própria não se sentia
integrada naquele meio. Para os personagens principais as coisas pareciam de
pernas pro ar. Foi frustrante.
Mais um ano letivo iniciava e o retorno estava sendo bem doloroso. De
nada concreto podiam acusar Ana Helena e por isso envolviam-na em uma rede de
maquinações e ciladas. Tentaram primeiro colocar Luís contra ela. Que tolos.
Como se aquele sentimento que ficava acima dos parâmetros telúricos pudesse se
deixar contaminar por covardes enredos. Estavam ambos vivendo dias difíceis. O
bebê estava para nascer e as perseguições se intensificavam. A cunhada
preparava o golpe final. Ana Helena sabia que depois seria tudo ou nada. Teriam
que tomar uma decisão. Na verdade, só não haviam feito isso porque nunca
coincidira o desespero de ambos. Quando ele chegava louco de amor e dor,
dizendo: __ “A vontade que tenho é pôr você no meu carro e desaparecer no
mundo”. Ana Helena encontrava tranqüilidade para acalmá-lo e se era ela que
chegasse pedindo socorro, ele com segurança
implorava que esperasse. Apenas não fugiram porque nunca houve a coincidência
dessas crises. E depois, fugir para onde? Era ali o lugar deles. Intrusos eram
os outros.
Que estranho é o amor. Parece uma droga poderosa que
confunde o cérebro, produz alucinações e acaba por enlouquecer aos que fazem
uso dele. Pior ainda: vicia. Não se pode mais viver sem esse terrível e
maravilhoso alucinógeno que em poucos minutos pode elevar aos céus ou lançar
nas chamas do inferno. É motivo de viver e razão para matar. Devia ser
controlado pela ciência para o bem da humanidade. Mas aí então ninguém
chegaria a Deus, à fé absoluta, às grandes verdades cósmicas.
Há três dias Luís não aparecia. Ana Helena estava
agoniada. Não podia perguntar a ninguém o que estava acontecendo e pensou que
ia enlouquecer. A aula terminava e tinha de ir embora, outra vez, sem saber de
nada. Ao passar pelo escritório viu o carro de Luís. Parou e entrou
decididamente naquele local de trabalho. Faria isso ainda que uma legião de demônios
tentasse impedi-la. Ele estava sentado atrás de uma mesa, em um pequeno guichê,
como que entrincheirado, temeroso da ansiada e perturbadora presença da amada.
Aninha estende-lhe a mão que ele agarra, com tanta força, como se quisesse
esmagá-la dentro da sua e diz: __ “Nasceu.”
No meio de toda aquela loucura Ana Helena acalentava
um pensamento íntimo: se fosse uma menina seria realmente dela, como Luís
acreditava. Ansiosa, perguntou e ele confirmou . É uma menina.
Ana Helena sofria um misto de alegria e dor. Só pode
falar: “mais um elo para a sua corrente.”
__ “Não, não, nada disso. Ela será um elo entre
nós.”
Pobre
querido...
pensou Ana Helena e partiu, dirigindo alucinadamente por aquelas estradas,
clamando sem parar: meu Deus, meu Deus...
Dirigia às cegas, em meio a mais perfeita escuridão,
em pleno meio dia. De repente algo
inesperado aconteceu.
Uma voz, que parecia vir do alto, chegou clara e
forte aos seus ouvidos: EU ESTOU COM VOCÊS.
Era uma voz masculina, firme, forte, mas doce e terna. No mesmo instante se fez
a luz e largos horizontes se descortinaram ante os olhos perplexos de Ana
Helena. Imediatamente uma calma total, uma paz mágica a envolveu e conseguiu
chegar em sua casa. Nenhum parto seria mais doloroso e nem mais gratificante.
Ana Helena confiou, acreditou e permitiu que essa máxima
energia cósmica tomasse conta de seu destino. Entregou a Deus todo sofrimento e
aquietou-se. Levaria a Luís a boa nova e haveriam de aceitar a vontade suprema.
O que ela não sabia é que as perseguições iriam recrudescer e quanta dor
ainda estava reservada para os pobres enamorados!
Alguns dias depois Ana Helena e Afonso foram fazer a visita formal à recém-nascida.
Numa caixinha levavam uma pulseira de ouro com seu nome gravado. O seu nome...
será que ninguém percebera? Foi Luís quem
escolhera e era uma mistura dos nomes dos dois. O nome de uma pessoa é tão
definitivo, tão marcante em sua personalidade! Como ele pudera fazer isto? A
que riscos estaria expondo a própria filha? O amor os enlouquecia a ponto de
embaralharem tudo e criarem um mundo particular onde loucos eram os outros. Luís
contaria mais tarde à Ana Helena que nos finais de semana, naqueles dias mortos
em que não podiam se ver, ele pegava a filhinha e afastava-se de todos, pois só
o contato dela em seus braços aliviava o vazio de seus olhos, de seu corpo.
Ainda acreditava ser a menina um pedaço do seu amor. Muitos anos depois uma
amiga comum diria a Ana Helena que Luana parecia-se um pouco com ela. Mas como
podia ser isto? Que loucura!
O casal visitante esperava na sala porque a menina
estava sendo amamentada. Luís os recepcionava e parecia nervoso, constrangido,
como se quisesse dizer para Ana Helena algo que não podia ser falado diante de
Afonso. Era uma situação insólita que se prolongava, deixando todos
angustiados.
Finalmente a porta do quarto se abriu e Ana Helena
foi ao encontro de Célia para cumprimentá-la e entregar o presentinho. Célia
havia passado por uma cesariana e estava dolorida, gorda, feia, mas sua dor era
mais profunda, era mais que física.
Ana Helena sentiu que todo o seu corpo enrijecia quando abraçou-a e no mesmo
instante disse para si mesma: ela sabe! Puxa vida, isso era tudo o que queria
evitar. Teria ele falado? Impossível! Ele não seria tão cruel. Então só uma
pessoa poderia... Ah! Aquela maldita, invejosa, desclassificada! Claro! Ela não
deixaria passar a oportunidade de ferir mortalmente a cunhada que odiava, no
momento em que mais frágil ela se encontrava. Não havia clima. Ana Helena
queria evaporar, principalmente por estar tão agressivamente magrinha e
elegante. Se, para salvar Célia daquela dor tivesse que morrer morreria de bom
grado.
Mais tarde Luís confirmaria. Sim, fora a cunhada
que, às vésperas do parto, contou o que sabia e o que imaginava. Quanta
maldade! Desta história, ela foi mesmo a bruxa má. Tinha olhos de serpente e
cabelos desgrenhados e grisalhos. Era baixinha e atarracada. Não sei se tinha
uma verruga no nariz, mas tinha-o bem arrogante. Acho que a verruga era o próprio
nariz. A vassoura nunca se viu, mas devia estar sempre escondida junto com seus
sentimentos mesquinhos. Sua casa era suja e desarranjada e quando falava, saiam
cobras e lagartos de sua boca. Era uma pobre coitada.
No decorrer desse ano foram vigiados, perseguidos, maltratados e mal
podiam se falar. Ana Helena, em casa, sem ter com quem desabafar seus recônditos
temores, suas explosões de ternura, escrevia e no dia seguinte, Luís sempre
achava um jeito de encontrá-la antes que ela chegasse na fazenda, para apanhar
seus bilhetinhos. Passaram a ser tão importantes e vitais em sua vida a ponto
de ir lá na escola para cobrá-los, se por um motivo qualquer a moça não
escrevesse em algum dia. Contava que os lia até decorar e depois os picava em
mil pedacinhos e atirava-os nas águas do rio. Seu lindo rosto iluminado por um
maravilhoso sorriso: “eu e o rio semeamos
suas loucas palavras de amor pelo
mundo todo”. Eram esses os poucos momentos de felicidade que se permitiam
ter. A sós, raramente se viam, mas se acontecia, eram tão intensos e radiantes
os efeitos que imaginavam, o mundo todo mudava, como após uma explosão
nuclear. Como renunciar a isto?
Mais uma primavera ia chegar
e numa bela manhã, Ana Helena encontrou radiantemente floridas as árvores
defronte a escola. Na hora do recreio das crianças, Luís passou por lá e
parou, admirando a inesperada, estonteante e prematura explosão primaveril.
Aninha falou: __“Viu que privilégio? A primavera chegou primeiro em minha
rua!” E ele, com ares de muita importância: __“Conforme encomendei...
Flores para a professora!” Esses eram os momentos de rara felicidade...
Algumas vezes, Aninha surpreendia o semblante pensativo e aquele característico
jeito de olhar à distância, como se estivesse observando ao longe, no
horizonte, alguma coisa que só ele
via: “impossível ter tudo... é sempre
necessário renunciar a alguma coisa...”
dizia isto, como se estivesse falando consigo mesmo.
Ela nunca perguntou se essa sugestão seria para ela ou para ele próprio.
Nunca soube.
Um dia, Ana Helena teve uma séria briga com Afonso, que ainda não havia
desistido de reconquistar seu amor e sofria o fato de viver ao lado da mulher
que dizia amar, sentimento exacerbado pelo risco da perda ou pelo fato da
concorrência, uma relação fraterna e platônica. Tentou forçá-la, quis
violentá-la e aconteceu o caos. Ana
Helena foi chorando de raiva e humilhação para o seu trabalho. Cada vez mais
ia se tornando insustentável a situação.
Em meio à aula, Luís veio dizer a Ana Helena que Afonso havia ligado e
queria que fosse encontrar-se com ele, na estrada. A moça mostrou-se apavorada
e implorou que não fosse. Contou-lhe da briga e disse estar certa que Afonso ia
matá-lo. Luís apenas respondeu que estava pronto para tudo e se ele quisesse
matá-lo, pouco estava se importando.
Algum tempo depois viu, com alívio, o carro de Luís retornar e
dirigir-se direto para a sede. Encerrou a aula e correu para lá. Pela primeira
vez entraria sozinha na casa encantada. Parou o carro bem perto e foi entrando
sem nem querer saber se havia mais alguém ali. Luís estava em pé, apoiado à
mesa da copa e graças a Deus, não estava ferido. Seu rosto, porém estava
congestionado e visivelmente emocionado. Parecia ter chorado. Por um instante se
olharam e naquele olhar todo o desespero daquele amor impossível se revelou.
Agarraram-se, um ao outro, como náufragos perdidos, num ultimo esforço de
sobreviver, afogando-se nas próprias lágrimas. Choraram como duas crianças e
Luís tomou Aninha ao colo, carregou-a por aqueles corredores até seu quarto e
delicadamente depositou-a sobre a
cama. Entre sussurros e beijos se amaram suavemente, devagar e ternamente, como
se o tempo e o espaço, lá fora, tivessem deixado de existir.
Uma aragem suave entrava cantando pelas frestas das janelas, as paredes
brilhavam como se fossem de cristal e o colchão, sob seus corpos, se
transformava em macias nuvens brancas. Enfim, a casa encantada via realizado o
casamento por tanto tempo impedido e... Comemorava!...
Depois ele contou o que Afonso queria dizer-lhe. Que não suportava mais
aquela situação e pedia que Luís assumisse de vez e ficasse com Ana Helena.
Como se fosse fácil, assim. Havia tantos empecilhos! Nenhum dos dois
estava disposto a renunciar aos filhos. A fazenda não pertencia a Luís e ele
sabia que seria expulso dali se escolhesse esse caminho. O pai já o havia ameaçado.
Luís dissera para Aninha: ___ “Quero lhe dar conforto. Como ganharei a vida
se tiver que ir embora daqui?”
Ana Helena respondeu; ___“Que pena, querido, eu sou a sua cruz.”
E ele, surpreso: ___“Não, você é a minha estrela!”
Sim, ela era a brilhante, amada e inatingível estrela.
Por seu lado, a última coisa que Ana Helena queria era destruir um lar.
Este era o ponto final. Tinham que decidir e a separação era o caminho mais
racional, embora fosse o mais doloroso.
Outro ano terminava e tempos inclementes desabavam sobre os infelizes
amantes.
Dia de atribuição de aulas. Ana Helena sabia que poderia escolher a
mesma escola ou ir para outra, pois era a primeira classificada e, portanto,
poderia escolher. Nem lhe passava pela cabeça qualquer mudança. Bem ou mal,
era lá que queria estar. Na grande sala, dezenas de professores aguardam a
chegada das autoridades que presidiriam a distribuição das aulas vagas. Um
funcionário procura a moça e pede que o acompanhe. Alguém queria falar com
ela. Leva-a até uma pequena sala onde um seleto grupo de pessoas a esperava: o
prefeito e sua secretária da educação, diretor de escola, delegado de ensino
e sabe Deus quem mais! Ana Helena assustou-se: Mas o que seria isso?!
Convidaram-na a entrar e sentar-se diante deles. Aquilo estava parecendo
um tribunal de júri. Acaso iriam julgá-la? Sentou-se e aguardou. O primeiro a
falar foi o prefeito que era seu amigo e velho conhecido: “Aninha,
você será a primeira a escolher classe. Já sabe o que quer?”
__Sim. Responde a moça. Continuarei
na mesma escola.
__Mas por que? Você pode escolher o que quiser e aquela é
uma das piores escolas que temos,
em termos de distância, pelo menos.
E começou a enumerar as diversas escolas, praticamente, dentro da zona
urbana. Aí todos começaram a dar palpites e exemplos de excelentes escolas.
Foi então que a corajosa mulher investiu: __ “Mas
o que está acontecendo? Estou
impedida de escolher a minha escola?
__ “Não! Ninguém pode
impedi-la, mas seria aconselhável.” Falou o delegado de ensino e começou
a contar que haviam recebido um telefonema de uma das donas da fazenda ameaçando
por fogo na escola caso ela voltasse lá, este ano. Ana Helena quis saber quem
havia feito tal ameaça e se ela poderia fazer isso. Contaram quem era,
confirmando suas suspeitas e que a mulher parecia ser mesmo meio desequilibrada
e talvez cumprisse as nefastas ameaças. Aí, cada qual parecia ter um argumento
melhor que o outro para convencê-la a fazer outra escolha. Ana Helena estava
cheia de ódio por aquela bruxa má e se nesse instante ela entrasse naquela
sala seria trucidada por ela e pelas importantes autoridades ali presentes,
revoltados com a atitude grosseira do baixo espécime da raça humana,
compadecidos que estavam pela dor e dignidade expressas no semblante sério,
quase impessoal da coitada da Aninha. Concordou, para o bem geral, em fazer
outra escolha e voltou para a sala dos mestres como um carneirinho a caminho do
matadouro. Dentro de si um vendaval de dúvidas e desespero: como
não ir mais lá? Isto era completamente incompreensível para o seu coração
apaixonado. Acabou escolhendo a escola mais próxima, numa fazenda vizinha àquela
e deixando todos boquiabertos, sem entenderem o absurdo da escolha.
Naquela tarde Luís foi a sua casa, pois já soubera de tudo. Estava também
muito revoltado, mas concordou com a decisão de Ana Helena em não comprar essa
briga, pois sabia dos golpes baixos que o irmão e a cunhada seriam capazes de
usar contra a moça. Afonso, porém, não concordava com a escolha que a levaria
muito perto da fazenda. Dizia temer por ela. Que ela deveria escolher uma escola
que ficasse em outras estradas. Fingia não entender o porquê de Ana Helena
querer ficar o mais perto possível da antiga comunidade.
As aulas começaram e poucos dias depois Ana Helena concluiu que não
conseguiria continuar com aquela farsa. Adoeceu. Afastou-se do trabalho e
passava os dias em casa esperando apenas as raras visitas de Luís. Vinha ele
contar os dramas pelos quais também estava passando. Disse que chegou a propor
o divórcio a Célia e estava disposto a “virar a mesa”. O pai ameaçou-o e
disse que se ele abandonasse a família sairia dali com “uma
mão na frente e outra atrás”.Isto queria significar, com a roupa do
corpo, no máximo.
Como um pai podia interferir assim na vida de um filho que não era
nenhuma criança? Apenas o poder do dinheiro conseguiria explicar tal dominação.
Ana Helena pediu-lhe que não fizesse nada. Acreditava ter encontrado a
solução. Havia decidido. Ela é que iria separar - se de Afonso. Mudar-se-ia
com os filhos para a cidade onde a filha mais velha estava estudando. Afonso
ficaria mais livre e dar-lhe a liberdade era o mínimo que ela poderia fazer por
ele. Ao mesmo tempo, esporadicamente, Luís poderia ir vê-la. Sim, isto parecia
ser a solução para todos.
Se assim Ana Helena planejou, assim executou e algum tempo depois ia de
mudança para uma grande cidade.
Moravam em um bom apartamento e Aninha dedicava-se exclusivamente a
cuidar dos filhos, levá-los e buscá-los das diversas escolas em que estavam
matriculados. Dirigia seu carro procurando pelas ruas encontrar, de repente, o
seu amor. Mas o tempo passava e não conseguiam sequer se comunicarem por
telefone porque, ficou sabendo mais tarde, Célia havia ido morar na fazenda. A
vigilância se intensificava, dia a dia.
Então, a casa encantada tinha sido invadida! Como estaria ela se
comportando? Ficou sabendo depois que coisas terríveis aconteceram sob aquele
teto. Não era surpresa para Ana Helena. Tinha certeza que seria assim mesmo.
Era um menino que caía na escada e quebrava o braço, o outro pegou uma terrível
doença alérgica, empregadas se queimavam no fogão, tudo isso sem contar as
constantes discussões e desarmonia total. Viviam em pé de guerra. Ana Helena
tinha certeza que logo, logo, a casa expulsaria todos dali.
Ela já estava morando na cidade grande há três meses e apenas uma vez
Luís viera. Por muitas horas conversaram sentados em um desconfortável banco
de jardim, na praça, defronte ao prédio onde Aninha morava. Ela se desesperava
e estava a ponto de enlouquecer, quando resolveu terminar com aquele martírio e
desistir, de vez. Renunciar para sempre. Já não suportava tanta dor, tanta
espera, tanta saudade, tanta solidão superpovoada. Ao tomar essa decisão era
como se a separação já se houvesse materializado e Ana Helena chorava vinte e
quatro horas por dia. Dirigia seu
carro com o olhar embaçado por lágrimas. Enxugava os olhos enquanto cozinhava
ou limpava a casa e até dormindo ela chorava. Despertava soluçando, agarrada
ao travesseiro molhado. Seus olhos eram uma fonte inesgotável. Quando secaria
esse rio de lágrimas?
Numa dessas manhãs, iguais a tantas outras, Ana Helena cuidava
tristemente de seus afazeres quando o telefone tocou. Foi atender, sem o menor
entusiasmo, certa que fosse alguma coisinha corriqueira. Era ele! Aninha sentiu
o coração dar pinotes dentro do peito, como se fosse um garanhão aprisionado
em estreito piquete. Deu-lhe apenas o endereço do hotel em que se hospedara e
pediu-lhe que se apressasse a ir encontrá-lo, pois não poderia ficar muito
tempo na cidade.
Vagarosa e dolorosamente Ana Helena foi preparar-se. Sabia que seria a última
vez que o veria, assim a sós e não conseguia sentir-se feliz nem com a
expectativa de vê-lo. Afinal, de que adiantaria, se seria a última vez? Ia
para o adeus. Queria encher seus olhos com a sua imagem. Havia de trazer a pele
dele tatuada em sua pele. Guardaria no mais fundo de seu ser o cheiro daquele
homem. Ia deixá-lo, mas não queria esquecê-lo jamais. Ia para abastecer-se
dele.
Luís esperava no “hall” do hotel e levou-a direto para seus
aposentos. Estava também tristonho e olhava-a intensamente como se suas intenções
fossem iguais as dela. Aninha sentiu gelar seu coração ao perceber que, para
ele também, aquilo era um último adeus... Talvez, no fundo, ela esperasse que
ele não aceitasse tal decisão. Que ele não aceitasse a sua renúncia. Mas
bastou uma troca de olhares para que ambos soubessem que este era o fim.
Luís contou das manobras que teve de fazer para vir vê-la. Concordou ir
a um baile de formatura para ter a desculpa de precisar alugar um “smoking”,
naquela cidade. Só que Célia forçou a barra e veio junto. Nesse dia precisava
devolvê-lo e para vir sem ela teve que empurrá-la e sair com o carro, quase
que a derrubando, pois ela queria vir junto, mesmo estando em trajes impróprios
para viajar. “Foi horrível”.
Disse também que não estava mais suportando tanta pressão e tamanha guerra.
Estava capitulando. Ia entregar os pontos. Enfim, eles venceram.
Foi chorando que se amaram. Entregaram-se, pela segunda vez, em toda
aquela longa e complicada história de amor. E, como daquela vez, na casa
encantada, o amor se fez com gestos lentos e ternos, só que agora, cada
movimento tinha sabor de adeus. Se da primeira vez o amor teve gosto de revelação,
desta vez tinha gosto de morte.
Ana Helena ficou sabendo que já não moravam mais na casa encantada, que
ela voltara a ser uma casa abandonada e
que o pé de maracujá crescera tanto, que cobria todo o pátio e nunca estivera
tão carregado de flores.
Não se disseram adeus, mas quando Luís, à porta, olhou demoradamente a
moça que, em pé, diante do espelho, dava um último retoque em suas roupas,
eles sentiram o adeus no ar, entre os dois. Luís voltou e sorrindo tristemente
apertou-a, com força, entre os braços, fugindo em seguida. Ao vê-lo sair, Ana
Helena atirou-se sobre a cama desfeita, sufocando contra o travesseiro um grito
selvagem de dor, sua alma retalhada, seu peito dilacerado. O grito contido
explodiu em seu coração e ele arrebentou-se.
Luís partiu louco de dor, sentindo-se decepado, pedaço de si mesmo e
loucamente dirigiu o carro que bateu contra uma pilastra e despencou numa
ribanceira.
Teria Ana Helena morrido no exato momento em que um carro incendiava no
fundo daquele barranco?
Ninguém jamais saberá, mas naquela pequena e outrora pacata cidade do interior, esta história virou lenda que contam aos visitantes, finalizando sempre com esta frase:
“Morreram e foram felizes para sempre...”
FIM