A casa encantada

N. A. Esta é uma história de ficção baseada em fatos.  Qualquer semelhança com conto de fadas é mera coincidência.

 Maristel Dias dos Santos

 

 

           

                 

                    

 

                Era uma vez, no início da década de 50, uma pequena cidade do interior. Havia uma praça defronte à igreja matriz onde os jovens, nas noites de sábado, davam voltas __ as moças, no sentido anti-horário, na parte interna e os rapazes, por fora, direção contrária. A cada volta completa, duas vezes se encontravam e olhares, sorrisos, uma ou outra palavra casual, era tudo que acontecia naqueles namoros que se prolongavam por meses, por anos, às vezes. Aí, um rapaz mais afoito enchia-se de coragem e se dirigia à jovenzinha que podia ou não aceitar o convite de se sentarem num dos bancos de pedra, na parte mais interna do jardim. Não no centro, naqueles que ficavam em volta do coreto, pois ali os bancos eram usados por papais e mamães, enquanto bandos de crianças corriam e brincavam ao som da banda municipal. Parecia que toda a população da cidade reunia-se no “jardim” (era assim que todos se referiam à praça que era a única da cidade). Em torno dela erguiam-se, majestosos, os casarões dos coronéis, fazendeiros ricos, fundadores da cidade. Numa das esquinas, uma ampla sorveteria, em outra, o Grupo Escolar. Somente as alamedas do jardim e as ruas que o circundavam eram calçadas, isto é, recobertas por grandes blocos de pedra cujo nome, difícil, demoramos aprender: paralelepípedo. Todas as demais eram de terra. Boa terra roxa, terra de café, que, aos poucos foi se deixando cobrir por novas fileiras de paralelepípedos (ufa!). Um dia, essas belas pedras seriam substituídas pelo negro e fedorento asfalto, começando pela rua principal, porta de acesso da rodovia que todos tratavam por estrada de rodagem e que ia numa reta só até a estação ferroviária.  Ir “na estação”, para ver a passagem do trem das oito, era o outro programa que animava as noites da cidade. A estação ferroviária era uma construção imponente, toda feita com material importado da França e a gente sentia no ar um quê aristocrático e chique. Subia-se alguns degraus para chegar ao grande hall quando os pesados portões de ferro se abriam. Ali ficavam os “guichês” e as pessoas compravam as passagens ou uma espécie de ingresso que permitia, àqueles que não fossem viajar, passar pelo outro portão que mais parecia uma renda de ferro, e ali um funcionário uniformizado, como se fosse um general, os apanhava e permitia o acesso à plataforma. Era bem emocionante ver chegar aquela locomotiva bufando vapor por todos os lados, arrastando uma fileira de vagões de primeiras e segundas classes. Nestes últimos, os assentos eram de madeira e as pessoas que nele ficavam eram gente comum, mas os iluminados carros da primeira classe tinham poltronas cobertas por capas de tecido branco engomado. Os homens usavam ternos, gravatas, fumavam charutos perfumados e as mulheres eram senhoras em seda, linho, cabelos cuidados e maquiagem discreta. Usavam jóias que rutilavam sob a iluminação branca e feérica emitida por lustres em forma de flor, feitos de vidro opaco com desenhos translúcidos. Depois vinham os vagões de carga, o correio e por último, um outro, feito de largas e fortes tábuas de madeira, pintadas de um marrom escuro e que transportava gado e cavalos. Toda aquela mistura de odores penetrava pelas narinas e ia direto ao cérebro, excitando, avisando da importância dessas novidades na pequena e pacata cidade.

Poucos desciam, poucos subiam, mas toda cidade sabia de um forasteiro que chegasse ou de um morador que saísse da cidade. Ali, todos conheciam todos e o passatempo principal era falar, uns, da vida dos outros. Nada se escondia. Que coisa terrível e maravilhosa era aquela cidade! Quantas histórias, paixões e ódios se tentavam esconder atrás das grossas paredes e enormes janelas dos poucos casarões em volta da praça. Tentavam, mas debalde, pois criados e criadas se incumbiam de propalar, em vozes cochichadas, os segredos mais íntimos.

Até essa época, a maior parte das pessoas só fazia o grupo escolar e era um prêmio “ter” o quarto ano. Poucos prosseguiam os estudos, pois fazer o ginásio significava ir para um colégio interno na capital, de onde só voltavam uma ou duas vezes ao ano, nas férias. Eram seis horas de viagem de trem para chegar na Estação da Luz. Duas ou três famílias, que possuíssem automóvel, arriscariam a vida numa aventura maluca pelas empoeiradas estradas de terra e pelo menos, oito horas de trancos e barrancos para percorrer duzentos quilômetros, se decidissem buscar ou levar os filhos pela estrada de rodagem. Porém, a cidade acabara de ganhar o ginásio que funcionaria ali, no grupo escolar.

Esse acontecimento foi um marco na história da cidade. Gente nova, professores e diretores engravatados, elegantes dentro de ternos sob medida, confeccionados por alfaiates. Não existia o “prêt-à-porter”. Bonitas professoras enfeitadas de pulseiras, colares e vestidos de seda. Já se podia sentir no ar uma ebulição constante. Todos os meninos e meninas que estudavam fora retornaram e até os filhos do prefeito vieram dos seus internatos para reforçar as classes de segunda, terceira e quarta séries que passaram a funcionar com cinco ou seis alunos, apenas, cada uma delas. Mas a facilidade de poder estudar sem sair da cidade levou grande número de crianças a prestar o exame de admissão e assim, a primeira série chegou a ter cerca de trinta alunos. Até novas palavras foram acrescentadas ao vocabulário pobre e como as mães se enchiam de orgulho ao contar que o Pedrinho havia tirado oito de Português! E esse português nada tinha a ver com o Seu Joaquim do armazém! Ou que precisava comprar o livro de Francês da Mariana. Imagine que o padre Simão irá dar as aulas de Latim! Você viu que linda é a professora de Canto Orfeônico? E a de Economia Doméstica, então! __Grandes progressos!

Agora, graças aos estudantes, a praça, o jardim ganhava animação durante o dia, nos seis dias da semana, pois havia aula aos sábados! Era ali que se reuniam até que a sineta ecoasse anunciando o início do período escolar. Que bonito ver aquele bando de jovens adolescentes, blusas brancas, saias e calças azul - marinho, sapatos pretos lustrosos, meias três quartos, livros sob os braços! Era novo! Era bonito! Era promissor!

                        Foi nesse cenário que a história da nossa pequena heroína se desenrolou. Chamava-se Ana Helena, tinha doze anos e um desejo ardente de continuar seus estudos. Já se preparava para uma luta feroz, que temia ser inglória, com seus pais, pois era a quinta, numa família de nove irmãos e nenhum dos quatro mais velhos havia saído da cidade para estudar. Seu pai, um homem orgulhoso e de arraigados preceitos morais, era um executivo, um vendedor autônomo, um atacadista de material gráfico, muito inteligente e criativo, foi, sem imaginar sequer, um precursor de vendas pelo reembolso postal, talvez forçado pelas circunstâncias, devido a urgente necessidade de sustentar uma grande família e a um terrível mal nos pés, o que tornava o mister de viajar um insuportável sacrifício. Eram calcificações nos ossos que cresciam como estalactites, nas plantas de seus pobres pés de caixeiro viajante de épocas anteriores. Permitia e até obrigava as filhas a todo tipo de atividade doméstica. Deviam aprender arte culinária, pintura, piano, trabalhos manuais e se prepararem para se tornarem excelentes donas de casa. Dos filhos homens, que eram só dois, ele almejava, apenas, se tornassem seus auxiliares para, um dia, dar continuidade ao seu trabalho pioneiro. Esse intento ele não conseguiu jamais.

Costumava dizer: “Meus filhos não serão empregados de ninguém!” Aninha retrucava: “Mas, papai, eu quero ser professora!” Ao que ele respondia: “E vai ser empregada do Estado!” Só muita lágrima e teimosia venceram a resistência paterna, auxiliada pela benfazeja criação do novo ginásio. Havia, porém uma condição: ”Se repetir sai da escola!” Não, ela não repetiria e, para provar, passou com louvor nos exames de admissão. A mãe, tão diferente do pai, foi quem passou a, discretamente, cuidar para que Ana Helena vestisse um impecável uniforme azul e branco e não perdesse hora nunca. Era uma mulher maravilhosa, que cantava divertidas modinhas portuguesas para distrair as crianças enquanto se matava nos árduos trabalhos domésticos. Um dia Ana Helena diria: “Minha mãe é especial, é artigo importado!” Na verdade ela viera de Portugal com dezessete anos, como encomenda especial dos avós paternos de Ana Helena, também portugueses, para se casar com seu pai. A menina adorava ouvir a mãe contar que quando chegou na cidade, na casa dos futuros sogros, após conhecer toda a família, foi assim inquirida pelo patriarca: __ Leopoldina, um dos meus filhos quer casar-se com você. Quero saber se você aceita.  Sem hesitar, muito simplesmente, ela respondeu: __Se for com o moreno eu me caso.

Tio Zeca era o louro. O moreno era aquele que viria a ser seu pai. Que lindo!

Nesse ambiente, de um lado muito rigoroso, de outro alegre e romântico, Ana Helena cresceu.

                        Logo nos primeiros dias de aula, o menino rico, filho do prefeito, atraiu a atenção de Ana Helena. Ele já estava na terceira série, parecia muito importante e nem tomou conhecimento dela. Nunca estava no meio dos outros garotos, pois morava bem na esquina e ficava com o irmão no alto do terraço, esperando o soar da sineta, quando então desciam a escadaria de mármore e iam direto para a escola. Seu nome era Afonso e Ana Helena achava que era o nome mais lindo do mundo. Mas ele nem sabia que ela existia.

Um dia, porém, Aninha, que morava alguns quarteirões distante da escola, atrasou-se um pouco e aproximou-se correndo do portão que já estava sendo fechado. Gritou que esperassem e foi nesse momento que Afonso, pouco além do portão, voltou-se e viu aquela mocinha afogueada, esbarrando na inspetora e esparramando no chão livros e cadernos que ele, sorrindo, ajudou a pegar e lhe entregou, juntamente com um sorriso sedutor. Recebeu de volta um “obrigada” encabulado e apressado. Começou aí a paquera, que naquele tempo recebia o nome de “flerte”. Ela com doze, ele com treze anos.

Quando, aos dezesseis anos, Ana Helena formava-se, ganhou dele um lindo anel. Eram duas pequenas conchas de ouro, cada uma com uma pérola que se uniam através de um pequeno, mas faiscante brilhante. Era o símbolo de um compromisso firmado somente entre os dois. Radiante, dançou com ele a valsa, no baile de formatura. Já eram namorados firmes, com o consentimento das respectivas famílias e aprovação de toda a cidade. A vida era azul, há não ser pela tristeza que os consumia por terem de passar tantos dias sem se verem porque Afonso, já há dois anos formado no ginasial, estudava agora na capital de onde só vinha uma vez por mês. Mas, como deram trabalho aos carteiros! Diariamente se correspondiam já que fazer uso do telefone, apenas em casos emergenciais, pois falar através daqueles aparelhos tocados a manivela era um tormento. Sem falar que as conversas passavam por uma central telefônica e a Dona Maricotinha, a telefonista, participava de todos os segredos. Sigilo? Que bicho é esse?!

Ana Helena foi estudar em uma cidade vizinha onde havia o curso “Normal”, hoje, Magistério. Era agora uma linda moça, a mais bela normalista e fazia, com Afonso, um casal perfeito. Ele, o moço mais rico e ela, a moça mais bonita da cidade.

Mais alguns anos e, já professora, começava a lecionar. Enquanto esperava o retorno definitivo de seu príncipe que em breve finalizava seus estudos, bordava o próprio enxoval, lecionava em escolas rurais, tecia sonhos. Ana Helena sabia que quando se casasse não mais daria aula. Era esta a única condição que Afonso impunha e ela gostava da idéia. Queria ter muitos filhos e ser uma perfeita dona de casa.

Uma coisa que Afonso adorava fazer, quando estava na cidade, era caçar e eram freqüentes essas caçadas com seus primos e tios. Havia uma fazenda, onde um de seus primos, recém casado fora morar e era nas grandes extensões de suas matas que ele gostava de praticar tal esporte. Verdade que Ana Helena abominava aquilo, mas para estar junto dele, muitas vezes o acompanhava. Ficava na casa grande fazendo companhia à prima, que se sentia muito só naquele ermo e passava os dias polindo e lustrando aquela bela casa. Ana Helena não gostava do bucólico ar campestre, sentia-se angustiada com os vastos e silenciosos horizontes. Preferia o trepidar das grandes cidades. Não iria morar em nenhuma das fazendas do sogro. Isso já deixara claro com Afonso. As poucas horas que passava em lugares assim, para trabalhar, eram o bastante para deixar agoniada sua alma impaciente. Porém gostava daquelas horas que passava com a prima. Aquela casa a fascinava. A prima levava-a a percorrer aqueles cômodos e ela ficava abismada com o assoalho de largas tábuas da sala, que brilhavam, a força de cera e escovão, como um espelho. Parava atônita e pensativa, observando cada detalhe, procurando em torno algo que explicasse aquelas estranhas sensações. O ar parecia povoado de seres invisíveis que desejavam comunicar-se com ela. Dizer o que? Afinal que estranhos espectros poderiam morar naquela casa antiga que ela há tão pouco tempo viera a conhecer? Caminhava pela casa como em transe. Depois iam para a ampla cozinha e sentavam-se junto ao fogão de lenha, comendo quitutes feitos pela prima enquanto examinava, com espanto, um pequeno caixilho, bem sobre o fogão, com quatro vidros translúcidos que traziam a última luminosidade do sol poente. O incrível é que os vidros, de tão limpos, eram invisíveis e a moça ficava procurando uma pintinha, alguma manchinha de pó ou gordura que denunciasse a existência dos vidros. Era demais! Pobre prima! Quanto devia procurar coisas para preencher aqueles longos dias. Era tudo perfeitamente, impecavelmente limpo. Ao sair pela porta da cozinha chegava-se a um pátio ladrilhado todo coberto por um imenso caramanchão de maracujá. Foi quando Ana Helena veio a conhecer a maravilhosa flor do maracujá com suas pétalas duras viradas para cima, sobre uma cortina de fios brancos e roxos, semelhante àquelas franjas de vidro dos abajures antigos. Essa flor ficou profundamente gravada em sua mente. Tudo naquele lugar tinha esse dom, produzir em Ana Helena surpresas, belezas e reações desconhecidas, inexplicáveis para a sua mente lógica. Eram sentimentos contraditórios como se fossem pressentimentos de um futuro marcado ou recordações de coisas que nunca vivera. Havia uma auréola de magia em torno daquela casa que só Ana Helena percebia, mas não compreendia. Era uma casa encantada.

                        Último ano da faculdade de Afonso e no dia do aniversário de Ana Helena, em meio a uma grande festa, ficaram noivos e o casamento foi marcado para dali a um ano. O noivo deu início a construção de uma bonita casa. O ninho que iria abrigar o amor daqueles felizes e apaixonados jovens. E também esse ano passou voando.

As festas do casamento marcaram época na pequena cidade. Na cerimônia religiosa o povo se comprimia para ver a magnífica noiva envolta em véus e rendas e o elegante noivo que usava um terno negro com “golas de cetim!” Nunca tinham visto um “smoking“, mesmo porque ainda não havia televisão e as revistas e jornais eram bem raros naquelas bandas. Poucos privilegiados tinham acesso a essas modernidades.

Em meio à festa, cansado dos cumprimentos e fotos para o álbum, Afonso raptou a noiva e colocou-a no carro: um belo chevrolet importado, onde as malas já estavam guardadas.

Ana Helena nem conseguia acreditar que estava a sós com o seu amor. Sempre tão vigiados  nunca estivera assim, tão livre, tão solta. Parecia um sonho. Agora as estradas já estavam asfaltadas. Partiram para a maravilhosa viagem. À noite de núpcias aconteceu no Othon Pálace, em São Paulo. Dia seguinte, Rio de Janeiro, no Excelsior e alguns dias depois, Cabo Frio. Uma grande aventura para aquelas duas crianças. Foram quinze dias de loucuras e paixão. Mas a impaciência natural dos jovens fez desejarem um breve regresso e assim, no último dia daquele ano chegavam na nova casa para dar início ao começo do fim daquele grande amor.

Era “reveillon“ e foram ao baile. Felizes e belos. Alvo de todos os olhares. Terminado o baile, foram para casa e poucos minutos depois, amigos vieram buscar Afonso para uma farra e... Ele foi! Tudo bem. Ana Helena cansada foi dormir em seus lindos e perfumados lençóis de linho. Sua primeira noite no lar e a esposa dormiu sozinha. Pior que isso... Despertou sozinha. Logo Afonso chegou, trazido pelos amigos, completamente embriagado. Deitou-se todo sujo nos imaculados lençóis e desligou.  Ana Helena tentou despertá-lo, algumas horas depois, em vão. Parecia desmaiado.

Sem um telefone e sem coragem de tomar qualquer iniciativa ela passou o dia todo morrendo de fome, pois nada havia na casa para comer. Tinham chegado na véspera, no fim da tarde e afinal, aquele seria um dia festivo. Era primeiro do ano e Ana Helena podia ouvir nas casas vizinhas risadas e comemorações das famílias reunidas e ela velando o sono etílico de seu jovem marido! Ninguém veio procurá-los. Certamente a sua família pensava estivessem eles na casa dos pais de Afonso e os familiares do moço deviam pensar a mesma coisa com relação aos familiares de Ana Helena.

Esta foi a primeira de uma série de decepções que pontilhariam a vida toda da pobre moça. Mesmo assim levou anos para convencer-se de que tinha se casado com um alcoólatra. Um homem doce e carinhoso que se transformava em um monstro sob o efeito da bebida. Seu sofrimento era canino, mas seu amor era muito grande e ao primeiro afago, no dia seguinte o perdão explodia. Era canino também o seu amor. Sua fidelidade era canina. Por isso mesmo teve cinco filhos em cinco anos seguidos. Cinco bebês já haviam nascido ao completar o quinto aniversário de casamento. Sofria calada. Sofria sozinha, acalentando sempre a esperança que, um dia, tudo mudasse. “Afinal, ele é tão jovem, quase um menino”. Esquecia que era um ano mais nova que ele e não passava de uma mulher sofrida, envelhecida. Sentia-se mesmo assim, uma mulher velha.

                        Dores mais agudas feriram a moça. Dos cinco bebês quatro eram meninas. O menino foi sua segunda gravidez, mas nasceu morto.   Registrado e sepultado como natimorto deixou Ana Helena com seios cheios de leite e uma insuportável dor, uma perda muito dolorosa. Dois meses depois outra gravidez, proibida pelos médicos, mas como uma mulher nova podia evitar isso, num tempo em que não existia a pílula e deitando com um homem embriagado?

Foi um tempo confuso e estranho. Em sua cabeça perturbada pela dor, era o filhinho morto que estava voltando para os seus braços. Nasceu a segunda filha entre frustrações e explicáveis neuroses. Claro que a amou, muitíssimo também, mas o mal já estava feito e a inocente criança arcaria para sempre com os efeitos de tamanha loucura. Pobre filha! Começou a andar aos oito meses, como se soubesse que não podia contar com ninguém em sua curta e complicada vidinha, nessa família de loucos, mesmo porque a sua mãe já curtia outra gravidez. Dessa vez, uma menininha magrinha com pés e nariz grandes. Ana Helena a chamava “meu patinho feio” mas sabia que, um dia, se transformaria em um belo cisne.

No ano seguinte, outra gravidez. Agora ela só desejava filhas. Andava cheia de dúvidas com relação à força masculina. Voltara a lecionar,  pois Afonso para manter a casa ia vendendo tudo o que já herdara e costumava dizer: “trabalharei quando não tiver mais nada.” Ana Helena não podia esperar que isso acontecesse e, afinal, se de sua parte havia o compromisso de não trabalhar fora, implícito ficava que nada haveria de faltar. E tudo já começava a faltar dentro do lar. Desesperou-se ao descobrir a quinta gravidez. Desejou morrer. Pensou em matar.

Numa dessas noites em que Afonso chegava de madrugada, embriagado, Ana Helena, que sempre o esperava acordada, aproximou-se da cama onde ele se atirara sujo, maltratado e com uma pequena arma automática que pertencia a ele, em uma das mãos, pediu-lhe que abrisse os olhos e a ouvisse. Afonso falava impropérios e virava-se na cama, dando-lhe as costas. Ela colocou a arma na fronte e disse: __ “Se não me ouvir, vou disparar contra a minha cabeça”.  Ao que ele, com voz pastosa, respondeu: __ “Atira logo que eu quero dormir”.

Ana Helena, pesadamente, levantou-se e com a arma na mão dirigiu-se ao quarto das meninas. Sim, ia cometer o suicídio, mas não podia deixar três crianças indefesas nas mãos desse pai irresponsável. Iriam todas juntas. Pensou na mãe, imaginou sua dor. A mãe de Ana Helena nem de longe suspeitava do sofrimento da filha. O que iria pensar? Precisava contar-lhe o que ia fazer e o porquê de tão tresloucado ato. Foi ao telefone, que já era automático e ligou. Sua mãe a segurou horas ao telefone e como se a embalasse nos braços, contou coisas de sua vida que também Ana Helena ignorava. Sofrera muito com seu pai, cujo vício não era a bebida e sim o jogo, por longos anos, antes do nascimento de Aninha. Descreveu crises e mais crises cheias de dor e solidão. Até que um dia, ele caiu em si e tornou-se o melhor marido que uma esposa podia desejar.

Ana Helena pensou: “se minha mãe suportou...”

E a quarta filha chegou e encontrou uma mãe diferente. Mais forte. Mais decidida. Mais triste, porém menos infeliz. Sabia agora que a sua vida e das filhas dependia só dela. Resolutamente foi à luta. Lecionava de manhã no colégio perto de casa e fazia, na máquina de tricô que havia adquirido, duas blusas de lã por dia. Trabalhava até duas ou três da madrugada e pela manhã, na sala de aula, desejava palitinhos para manter abertos os olhos. Só a tenra idade pode explicar a sobrevivência a tanto trauma suportado, sobrevivido, mas nunca superado.

Os anos foram passando e Ana Helena era só uma sombra do que fora um dia. Trabalhava como um boi de carro e achou muito divertido o dia que descobriu que seu signo oriental era esse mesmo: boi, búfalo. Paciência se é assim que deve ser... Como é mesmo? “Um belo presente num embrulho de papel pardo” Essa era a nova Ana Helena.

                        Porém, após centenas ou milhares de momentos dolorosos, os bons ventos sopraram e seu querido marido despertou! Ressuscitou e começou a trabalhar. Dava aulas no ginásio e decidiu montar um laboratório para análises químicas. Sofreu um revés, foi enganado em uma venda que fez e quis ir embora da cidade. Convenceu a cordata Ana Helena a venderem os últimos bens e irem tentar a vida na capital. Estavam no início do ano de 67. Um belo laboratório na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, fiando-se nas promessas de serviço de um primo bem relacionado no meio e, tudo furado! Mais nada para ser vendido e a fome rondando. O retorno humilhante no final daquele ano e Afonso, ainda assim, relutante. Não aceitava a derrota. Mas não havia alternativa. Alugaram uma pequena casa na cidade e teriam que recomeçar a vida da estaca zero.

Existia, porém, uma compensação maravilhosa. Afonso nunca mais bebera desde a última derrocada. Isso era o mais importante para Ana Helena que voltava a ter o seu homem. O resto era resto. Tudo se arrumaria. E assim foi. Logo, um reconfortante convite do provedor da Santa Casa e poucos meses depois um vislumbre de fortuna, de tranqüilidade. Nada de bebida. Ele se recuperava. Assumia sua responsabilidade, tardia, mas muito bem-vinda.

Ana Helena agradecia à Deus e a todos os santos. Voltava a ser feliz. As quatro menininhas na escola, seus sonhos mais exagerados concretizados. O marido chegando em casa sem parar nos bares e indo dormir em seus braços. Quanta felicidade! Valeu a pena esperar!

Mas, gato escaldado tem medo de água fria e Ana Helena voltou a lecionar. Aprendera a gostar de uma certa independência financeira, e tinha medo de perder aquilo tudo que conquistara a duras-penas. Ou será que confiava em Afonso, mas... Com um pé atrás? O que importava mesmo era que agora podia vestir e enfeitar as meninas, levá-las às aulas de ballet, piano, inglês, tudo o que elas quisessem.

Uma boa casa nova e carro zero. Que mais podia desejar Ana Helena? Havia, sim, algumas coisas a serem corrigidas. No decorrer dos anos negros, o esquecimento de si própria, seguido de tantas gravidezes, a inexorável falta de tempo e dinheiro, todas essas coisas comprometeram seriamente a integridade e beleza daqueles dentes que orgulhosamente ela exibia em constantes sorrisos. Ana Helena acreditava ter sido essa a pior conseqüência e o fato menos perdoável. Aos poucos iam se deteriorando e quando a dor se tornava insuportável, o máximo que ela fazia era ir a um dentista da família e pedir que extraísse. Dos trinta e dois originais tinha então, apenas, vinte e quatro, dos quais alguns já bastante comprometidos. Ana Helena dizia serem os dentes as armas naturais que a gente possui e que sérios problemas psíquicos nos atacam quando os perdemos. Colocamos próteses nas quais não podemos confiar e temos medo de falar, comer, rir. E beijar, então? Nem pensar! Fim dos dentes naturais... Fim da vida. Pelo menos de uma parte tão importante da vida. A sexual. Assim pensava Ana Helena. E concluía: “tese a ser defendida! Senão, vejamos. Já repararam como os idosos se beijam timidamente? E, com certeza, não é experiência que lhes falta. Estariam os estrógenos tão intimamente ligados à saúde bucal? Afinal, não é a boca um órgão sensual imprescindível?” Falava essas coisas e corria num caríssimo dentista tentando salvar a própria vida. Essa Ana Helena! ...  Trabalhava ao lado do companheiro, dava aulas particulares e voltava a ser adolescente juntamente com as filhas, já mocinhas.

No início dos anos 70 surgiram as famosas pílulas e Ana Helena mergulhou nelas, imaginando fazer desaparecer o temido fantasma de uma indesejável gravidez no esplendor de seus trinta anos. Aconteceu que não se deu bem com elas e foi obrigada a parar. Resultado: engravidou! Mas, estava tudo tão bem que ambos ficaram ansiosos e desejosos desse filho. Era como se tudo estivesse recomeçando e da maneira certa. Foi uma gravidez maravilhosa e Ana Helena tinha tudo que não tivera nas anteriores. Um marido presente e carinhoso. Um pré-natal de rainha. Enxoval digno de um príncipe para o bebê. Paz e felicidade. Bonitas roupas, manicura, cabeleireira, carteira de motorista e um carro só seu. Um amadíssimo fusca amarelo.

Quem sabe viria desta vez o garotinho? No fundo do seu coração sempre existira uma dúvida. Será que um dos motivos que levava Afonso à bebida não era a falta desse filho varão? Não, ele jamais se referira a isso, mas a dúvida existia. Logo, logo descobriria que essa dúvida era irreal. Nada tinha a ver com o sexo da criança.

Num belo feriado nacional, com eleições federais e tudo, ele chegou e Ana Helena chorava e ria, quase não podendo acreditar naqueles complementos que via, entre as esperneantes perninhas do bebê. Agora sua felicidade estava completa e se isso fosse uma novela podia muito bem ser esse o último capítulo. Muito pelo contrário, este viria a ser o primeiro capítulo de um novo e definitivo drama

                        Na primeira noite da vida de seu filho o pai feliz foi comemorar e caiu na vida. Embriagou-se a não mais poder. Ana Helena ficou sabendo através das visitas, no dia seguinte, na maternidade. Seu coração gelou, mas tentou afastar os maus presságios e quis até crer que era natural. Quando ele veio, nada falou. Fingiu nada saber; dentro dela algo se quebrava. Vê-lo assim, com cara de ressaca, matava-a. Intimamente orava, pedindo a Deus, não permitisse que o fato se repetisse. Uma nuvem negra tentava encobrir o seu sol.

Anos difíceis atravessava o país. Muitas fortunas se dissipavam. Como tantas outras ricas propriedades, grandes fazendas foram divididas em pequenos sítios para serem vendidas e algumas, simplesmente mudaram de mãos. Era a derrota final do café e a vitória da cana de açúcar, que começava a transformar o campo em mares ondulantes das altas folhagens dos canaviais. Para aqueles que não estavam preparados para as mudanças não restava alternativa, senão desfazer-se da terra e dar lugar aos novos lavradores, e a novas tecnologias. Assim se foram também as fazendas dos parentes de Afonso e logo o dinheiro evaporava. Muitos daqueles moços, sem uma formação acadêmica ou prática, pior que isso, moços que não tinham o hábito do trabalho, encontraram-se jogados no mundo, sem saber o que fazer da vida.

Ana Helena dava graças por ter Afonso uma profissão e um trabalho garantido. Garantido? Bem, pelo menos enquanto mantivesse competência e capacidade de trabalho. E era esse o maior medo, pois a pessoa responsável por resultados que podiam ser a diferença entre a vida ou a morte de tanta gente, obrigava a uma integridade total e com certeza, a bebida não seria nunca a melhor conselheira.

Aquela noite passava lenta e tristemente, enquanto ela banhava com lágrimas os seios túrgidos e o próprio bebê, ligado a eles como se fosse apenas uma extensão do seu corpo sofrido, deformado. Novamente o desespero e a pergunta atônita pela enésima vez: “onde está você?”

O dia já ameaçava nascer quando uma voz de homem se fez ouvir, na porta dos fundos, chamando por Afonso. Ana Helena arrastou-se até lá e trêmula, através da porta perguntou, quem, àquela hora, estava em seu quintal. Era só um amigo que viera chamar Afonso para ir pescar, conforme haviam combinado. Foi do mais fundo do peito que a mulher teve de arrancar a resposta que seria a constatação final de uma realidade que sempre tentara esconder: seu marido não estava em casa. Foi nesse exato momento que ele deixou de estar também em sua vida. Escorregou lentamente pela parede azulejada, em câmera lenta e tudo se apagou. Só uma hora depois deu por si, sentada no chão da cozinha e levantou-se, com tanta dificuldade, como se fosse uma velhinha de cem anos. Uma tristeza invencível, uma sensação de derrota conformada, uma completa apatia. Foi adoecendo e passava as noites e os dias deitada ao lado do menino, o seio a sua total disposição e ambos engordando. Mas não dava para explicar tal fenômeno, pois se ele mamava sem parar e só dormia, Ana Helena pouco se alimentava e seu sono parecia mais um estado letárgico. Um dia percebeu que se tornara deficiente sua coordenação motora e tinha perturbações visuais. Via, na televisão, imagens duplas. Estava toda inchada e deformada. Acreditava estar com um tumor cerebral. O mais interessante é que se sentia completamente indiferente à doença, como a tudo mais em sua vida. Médicos vieram e não acertavam um diagnóstico.

Mandaram-na para Campinas onde um jovem e competente médico conterrâneo iria indicar o melhor especialista. Mas, especialista, em que?! Felizmente, era mesmo competente o recém formado médico  ainda residente daquele hospital. Imediatamente matou a charada e conduziu-a para um endocrinologista que, pelo resto da vida, acompanharia o tratamento do mal que em cinco minutos diagnosticou: hipotireodismo, tireóides paralisadas, para sempre. Um simples hormônio sintetizado devolveria à vida a nossa heroína.

Ana Helena sabia que uma parte de seu corpo havia morrido juntamente com sua alma, naquela fatídica noite, quando seu filhinho tinha poucos dias de vida, mas aquele “remedinho” iria ressuscitá-la.

Após um mês de tratamento seu corpo melhorara sensivelmente, porém  nunca mais voltaria a ser a mesma, pois a solução de continuidade que acontecera em seu coração era irreversível. Para esse mal não havia remédio contido em frascos ou bisnagas.

A separação foi lenta, gradual e concreta. Finalmente Afonso conseguira matar o amor. Da separação de alma e de cama, Afonso ressentia-se e agredia. Foram anos infernais. A mulher alegre e decidida morrera. Era agora dura e fria. Ana Helena era muito infeliz. Estava, então, com trinta e cinco anos. A filha mais velha já havia saído de casa para estudar e ela era uma das poucas réstias de sol que iluminavam sua vida. O caçula estava com quatro aninhos, mas as noitadas do marido persistiam e era sempre um homem embriagado que chegava em casa, de madrugada. Arriscava, temerariamente, a segurança de seu trabalho, já bastante comprometido.

Ana Helena continuava a lecionar e nesse ano deveria ir para uma escola que ficava em uma fazenda a vinte quilômetros da cidade. Foi aí que nova guinada mudou sua vida.

 

O RENASCIMENTO

Os longos anos sem gravidez ou lactação haviam recuperado seu corpo. Estava magrinha, barriga lisa, seios redondos e firmes. Os sinais do tempo e das intempéries ficaram em algumas marcas amargas na face e nos poucos fios brancos que davam um brilho especial no castanho alourado dos cabelos. Por questões de economia, somadas ao favorecimento da natureza, usava as roupas juvenis que as filhas abandonavam em seus armários. Por isso o visual era atraente e aparentava menos idade. O interior estava envelhecido, apagado, sem graça. Sentia assim, como um robô dourado guiado por mãos desconhecida, em um estranho controle remoto. Ou talvez, o homem de lata a procura de um coração. Mas Ana Helena não se dava conta de nenhuma procura e parecia confortável em sua conformação.

Deve ter sido por isso que demorou algum tempo para perceber as transformações que começaram a iluminar o seu interior. Essa luz foi-se revelando através de seus olhos e antes que ela se desse conta desse renascer o marido notou, perguntou e ela teve que admitir, até mesmo para si própria. Sim, estava amando outra vez. A luz voltara a brilhar em seus olhos, o riso retornara e ela nem havia notado. Bem, foi assim... >>>

                    Primeiro dia de aula, início de novo ano letivo. O verão agonizava. Ana Helena  que havia caído da plataforma altíssima de suas sandálias tinha o tornozelo engessado. Que bela fazenda! Quantos pinheiros! Ótima escola rural! Tudo ali parecia novo. Na verdade era mais que uma fazenda. Era também uma indústria, certamente responsável pelas modernas instalações. O marido comentara que aquela fazenda havia pertencido, no passado, a um de seus tios e que Ana Helena já tinha ido lá. Não, não acreditara nisso. Tudo ali era, para ela, perfeitamente desconhecido. Os alunos, porém, eram iguais a todos os outros de uma zona rural, pobres e lindos descendentes de imigrantes italianos.

O “fusquinha” amarelo estacionado à sombra de uma das floridas árvores que formavam uma avenida defronte a escola, tudo tão bonito! Que bom! Ana Helena estava cansada de escolas que funcionavam precariamente em prédios adaptados de velhas fazendas. Eram deprimentes e tristes. Encontrava um novo mundo, coisas novas e isto a deixava feliz.

Já se preparava para encerrar esse primeiro dia de aula quando uma moça apareceu. Veio dar-lhe as boas vindas e perguntar se estava tudo bem. Era a secretária no escritório da indústria. Ana Helena foi saindo com ela, conversando pelo caminho florido quando vê se aproximando um fusca azul que pára, freando bruscamente e levantando grande nuvem de pó. Impossível não notar aquele intruso que vinha interromper a paz bucólica daquele cenário. Uma curta marcha à ré e uma voz masculina se faz ouvir: “D. Maria, vai para a fazenda?” Isto significava sede. Sim, ela ia. Tchau... Tchau... E Ana Helena parte também. Enquanto dirigia ia ruminando conjecturas. Quem seria aquele motorista louro de cabelos encaracolados e belos olhos azuis? Aquela imagem ficara grudada em sua mente no momento exato em que, ele falando, olhava-a também, como se avaliasse. Que atrevido! Dava-se conta que além do pé engessado, usava uma blusinha de linha vermelha toda bordada e... Que raiva, estava sem soutien! Que relaxo! Se aquele fosse o dono, ou um dos donos daquele lugar, iria ter dela uma péssima impressão! Que vexame!

Ana Helena dissera à secretária que se conseguissem certo número de alunos para formar uma quarta série, seria ótimo, pois traria consigo outra professora que dividiria com ela despesas de combustível, além de fazer companhia durante o trajeto. A moça prometeu ajudá-la.

No dia seguinte, em meio a aula, ouve um carro parar e ele chega à porta. Na verdade ele preenche aqueles batentes com sua figura alta e atlética. Ana Helena sai, um pouco transtornada pelo inesperado da visita e se vê frente a frente com aquele monumento de homem. Ele toca na aba do chapéu deixando à mostra uma fronte coberta por delicada e rosada pele, onde duas gemas (azuis ou verdes?), se engastavam. Falou a respeito da segunda classe e se propôs levar Ana Helena a procurar alunos ali pela redondeza.

Deve ter sido nesse dia que Ana Helena chegou em casa emitindo raios de luz.

Terceiro dia e ele volta a escola para dizer a Ana Helena que já havia conseguido dois ou três alunos e mais encontrariam nos sítios vizinhos. Ficou combinado que iriam procurá-los no dia seguinte, que era sábado e os alunos não iriam comparecer.

É preciso registrar que, após chegar em casa, naquele primeiro dia, ela mesma cortou e retirou aquele “ridículo” gesso. Só Deus saberia porque aquele gesso era ridículo.

                        Quarto dia. Mal Ana Helena chega, vê o carro azul se aproximar. Saem. Ele no carro dele, ela no carro dela. Em certo e ermo lugar ele pára e lhe propõe que deixe seu carro ali e siga no dele, justificando que seria mais fácil chegar aos sítios onde moravam as crianças. Não era uma explicação muito convincente, mas habituada a receber ordens, achou natural deixar seu lindo e tão amado fusquinha amarelo trancado, ali no sopé daqueles morros, que ela sozinha jamais voltaria a encontrar no emaranhado daqueles caminhos entre canas e feijões. Uma comitiva poderia mesmo assustar esses desconfiados habitantes do campo. 

Conversam ligeiramente e logo chegam em uma casa de paredes azuis e janelas verdes. Ele sai do carro e bate palmas diante da pequena casa. De dentro do carro Ana Helena observa, atentamente, a cena. Na verdade de onde estava só o que via era o seu ”bumbum”, comprimido pelo jeans de uma calça muito justa, e... Que lindo! Mas, o que é isso?! Ela nunca achara lindo “bumbum” nenhum, mas aquele... Que lindo!

Ele conversou com a família rapidamente, entrou no carro e enquanto dirigia começou a fazer mil perguntas e a responder mil indagações. Pareciam, ambos, ansiosos por saber tudo do outro. Ana Helena descobriu que se chamava Luís, era casado, bem casado, tinha dois filhos já grandinhos e estava tentando um terceiro que, esperava, fosse uma menina. Claro! Ambos tinham casamentos sólidos e tudo estava “perfeito”.

Ele era, juntamente com outros irmãos, dono da indústria, mas a fazenda pertencia ao pai. Não, não morava na fazenda e sim numa cidade vizinha. Que coisa! Passava duas vezes por dia bem pertinho de sua casa e faziam compras nos mesmos lugares! Como nunca se viram antes?!

De repente ele coloca a mão sobre sua coxa e, inexplicavelmente, em seu ventre. Ana Helena sente-se derreter. Seu rosto se aproxima e procura os seus lábios. A moça desvia o rosto e ele beija a sua face. Enfim, o carro amarelo! Tchau, adeus, até amanhã. Que loucura!

Por dois ou três dias não se vêem mais. Com certeza, apavorados pelo que fizeram, ou pelo que desejaram ter feito. Parecia que, a essa altura, uma segunda classe já não interessava a nenhum dos dois.

No entanto o destino é inexorável e foi o próprio marido que deu o motivo a novo encontro. Pediu que Ana Helena mandasse oferecer ao pai de Luís um cãozinho perdigueiro, pois sabia que, como ele próprio, o homem era caçador e aquele cachorrinho era o último de uma bela cria que tinham em casa. Por isso, nesse dia, ela parou no escritório e falou com ele. No dia seguinte ele passou na escola para dizer que o pai aceitava o cãozinho e combinaram que ele passaria em sua casa quando saísse do trabalho.

Ana Helena chegava em casa na hora do almoço e só tinha tempo de lavar as mãos e sentar-se à mesa, pois a família reunida em torno da mesma, só esperava por ela, todos morrendo de fome. Uma hora depois despachava todos para seus afazeres e só então ia tomar o necessário banho para tirar todo aquele pó vermelho das estradas. Na verdade só esperava a vinda de Luís no final da tarde. Mal saíra do chuveiro, envolta ainda num roupão e a cabeça embrulhada em uma toalha, teve de atender a campainha e, imaginem! Era o Luís. Mas eram só duas horas da tarde! Entrega-lhe a encomenda e encerra-se, palpitante, em sua gaiola de ouro.

Claro que, no dia seguinte, ele foi à escola porque o pai mandava agradecer, muitíssimo, o presente. E, naturalmente, Ana Helena desculpou-se por recebê-lo tão mal. Nem lhe oferecera um cafezinho! 

Ao final da aula Ana Helena partiu e foi perseguida pelo carro de Luís por todo o trajeto. Cruzaram no quarteirão da sua casa, área de segurança e Ana Helena parou para perguntar o que desejava ele.

Luís respondeu que só queria saber o porquê daquela estória de oferecer um cafezinho. Que tolice! Para resumir, estavam loucamente apaixonados e procurando mil desculpas para se afastarem (ou para se verem?). Impossível! Estavam irremediavelmente apaixonados.

Certa tarde, Ana Helena parava seu carro diante da farmácia e acabava de fechá-lo quando ergue o olhar e depara-se com o dele. Ficam ambos paralisados durante, sabe Deus quanto tempo, enquanto pessoas passam através daqueles olhares e só não viu quem não quis. Entregaram o ouro completamente e pouco estavam se importando com isso.

Mas ia o sonho se transformando em pesadelo.

                        Afonso, que assistira ao nascimento daquele amor e, de certa forma, sentia-se bastante responsável por tal evento, temeu, pela primeira vez, temeu perder Ana Helena e passou a rodeá-la, interessar-se pelos acontecimentos e oferecia-se como confidente. Era uma tática, é claro. Parou de beber e começou a cortejar a esposa, acreditando que aquilo não passava de ilusão passageira e haveria de reconquistá-la. Sabia que brigar seria perder para sempre. Conhecia bem a mulher que tinha. A mulher que, se desafiada, podia virar uma leoa. Tinha que ir com muito jeito e Ana Helena acreditou que podia contar com ele como amigo e mostrava, sem pejo, sua alma nua.

Luís e Ana Helena precisavam se ver todos os dias e por isso o domingo era um tormento. Partiu de Afonso a idéia de reunir as duas famílias e passou a convidá-los para festas, bailes, almoços ou jantares, quando tudo passou a ser motivo de reuniões. Sabe-se lá o que passava pela cabeça do atormentado Afonso.

Fazia pouco mais de um mês que tudo começara e naquela manhã Luís esperava Ana Helena no final da aula para contar-lhe que Célia,m era o nome da esposa, estava grávida. Contou-lhe mais. Que estava com terríveis problemas de consciência, pois via a esposa tão alegre com a gravidez e ele a olhava como se ela não passasse de uma barriga de aluguel porque aquele bebê, ele o havia feito pensando em Ana Helena, que não sabia se ficava horrorizada ou lisonjeada com essa declaração. Se por um lado era terrível, por outro era maravilhoso. Então Luís contou-lhe que não conseguia ter mais com a esposa qualquer expressão de amor se não fechasse os olhos e imaginasse que era Ana Helena que ele tinha nos braços. Isto também ela ficava sem entender, pois se já há tempos estava separada de cama  de Afonso, agora não podia suportar a idéia de ser tocada por ele.

Esta foi uma conversa fortemente emocional e Ana Helena partiu completamente zonza. Nas horas que se seguiram coisas estranhas aconteceram e pouco tempo depois ela descobriu que seus seios intumesciam e tinham leite. Inacreditável! Célia ficava grávida, Luís achava que o bebê era da mulher amada e Ana Helena tinha leite!

Contou ao marido que, imediatamente, pediu que ela colhesse material para fazer um exame. Ana Helena sorriu. Ana Helena riu. Então, Afonso achava que ela estava grávida? Ele devia pensar que ela e Luís... Que tolo! Entregou-lhe o vidrinho com o seu “xixi” dizendo : “não, eu não estou grávida, mas ela está e eu estou cheia de leite.” Afonso tentou desculpar-se dizendo que não era um teste de gravidez que iria fazer e sim outros exames porque há doenças que produzem esse sintoma. Ana Helena fingiu acreditar, mas sentia seu amor próprio ferido. Ele devia saber que isto só aconteceria se, ou depois que, se separassem.

Depois que se separassem... No fundo Ana Helena sabia que isto nunca aconteceria porque se separar de Afonso seria o mesmo que se separar de sua família. Ainda que os filhos ficassem com ela, como poderia chegar para eles e dizer: “olha aqui, crianças, eu decidi que aquele pai que vocês conhecem não serve mais para vocês. Vou arranjar um novinho em folha. Vocês vão adorar!”

De qualquer modo seria o fim da família pela qual tanto ela lutara. Sabia que não conseguiria.

Estaria, então, essa mulher, destinada a viver toda uma vida  ligada a um homem cujas exigências conjugais lhe causava repulsa? Teria alguém jamais o direito de exigir isto de um ser humano? Se, ao menos, seu coração pudesse ter permanecido murcho e seco... Se alguma força divina impedisse o coração de reflorir... Seria possível, para ela, fazer o que Luís fazia? Abraçar alguém, com os olhos fechados, imaginando estar com aquele que desejava estar? Ana Helena sabia que isto estava além das suas forças e retorcia-se em  espasmódica agonia.

Numa dessas tardes de sofrimento em que coração e razão se digladiavam  num combate mortal dentro de seu corpo, uma amiga vem visitá-la, é introduzida pela empregada em seu quarto e Ana Helena é surpreendida em meio a um pranto desesperado. Essa amiga era casada com o irmão de Luís e era a última pessoa que Ana Helena gostaria que a visse nesse estado. Ela entrara no rol dos amigos da casa a pedido do próprio Luís que dizia viverem eles  muito isolados, sem amizades.

A moça ficou assustada. Queria saber o que havia acontecido. Insistia. Ana Helena tentava se acalmar para poder evitar as explicações. Não conseguia. Retorcia as mãos e não podia conter o choro, ainda mais desesperado. A moça obrigou Ana Helena a levantar-se e propôs uma volta de carro para que ela se acalmasse.

Saíram e a moça foi dirigindo para um lado tranqüilo da cidade, sempre perguntando, forçando à confidência. Ana Helena capitulou, contou que estava apaixonada por um homem casado, e, pior que isso... ele por ela. A moça então falou assim: “olhe, você não está me pedindo conselho, mas se eu fosse você, jogaria tudo pro alto e sumiria no mundo com ele”.Ana Helena sorriu amargamente: “se ela soubesse quem é o homem não diria isto”.

Aí, a inquisição mudou de tema e agora ela insistia em saber quem era ele, argumentando que poderia, talvez, ajudá-la.

Ana Helena relutou o quanto pode e por fim desabafou, após a moça ter jurado guardar segredo, pela vida e felicidade dos seus filhos. __ “É o seu cunhado”. Nesse exato e trágico instante, os olhos de Ana Helena voltaram-se para a paisagem que as circundava e aquele cruzamento de duas avenidas ficou gravado em seu cérebro como se fosse uma fotografia. Aquele era um momento cármico e teria o seu epílogo vinte anos após, nesse mesmo cenário, quando em um terrível acidente, o filho daquela mulher perjura perderia a vida.

Implorou que nada falasse, pelo menos por enquanto. Célia e sua gravidez tinham de ser poupadas. Claro que a moça prometeu não falar. Mas algo maléfico, um ar de sádica alegria perpassou pelo seu semblante e, no mesmo instante, Ana Helena arrependeu-se de ter falado.

Poucos dias se passaram e uma lenta, mas contínua mudança se fazia sentir no trato com a cunhada de Luís e logo era o marido, irmão de Luís, que começaria a destratá-la.

Ana Helena comprava leite na fazenda e nos fins de semana ou nos dias que por outros motivos não houvesse aula, era o irmão de Luís que o trazia e ela ia a sua casa buscá-lo, nos finais de tarde. Naquele dia foi assim e algo terrível aconteceu. Entrou sorrindo e lhe estendeu a mão. O homem fingiu não ver o gesto e rispidamente falou que não havia trazido o leite e que não o traria mais. Falou e entrou na casa deixando a pobre moça plantada entre a porta e o portão, com o braço estendido e um triste sentimento de humilhação, do qual ela não acreditava ser merecedora. Também esse ato covarde receberia, um dia, o troco. Um pedaço daquele mesmo braço foi arrancado por uma máquina, com certeza manipulada por uma inteligência cósmica justiceira. 

Foram acontecimentos assim que levariam Ana Helena, mais tarde, a escrever um artigo onde diria... “Demorei a crer que não era eu própria que pagava o mal com o mal. Em verdade cada vez que alguém me feria demais eu rezava, sem parar, pedindo aos céus  proteção ao autor da ofensa, pois de certa forma, sentia-me culpada ao ver a pessoa pagar na mesma moeda. Acabei aprendendo que a lei do retorno é inexorável e impiedosa. Hoje, se eu pudesse, lançaria um clamor: não me façam mal,  principalmente se for premeditadamente; é  para o seu próprio bem que eu peço.” Claro que isto serve para todo mundo, não só para Ana Helena.

Agora ela tinha certeza que era só uma questão de tempo e Célia saberia de tudo. Talvez mais que tudo. Aquela mulher parecia ansiosa em levar essa dor à cunhada, mesmo porque não gostava dela.

Mas os dias foram passando e todos os transtornos eram largamente compensados pelos poucos momentos que, na fazenda, privava da presença de Luís. Lá, Ana Helena era feliz. Foi então que, numa manhã de domingo, imaginando não haver ninguém na fazenda, convidou a filha mais velha para ir conhecer o lugar onde a mamãe trabalhava.

                          Ao chegarem, qual não foi sua surpresa por encontrar Luís cuidando dos tratores. Conversaram e Luís convidou-as a irem conhecer a sede da fazenda. Aproveitava, é claro, o fato de Ana Helena estar acompanhada. Seguiram por uma estradinha tortuosa que corria dentro de um bosque, atravessaram uma pequena ponte sob a qual morava o sussurrar suave de um pequeno rio correndo sobre pedras e depararam com uma rua de casas pequenas e humildes. Era ali que moravam os empregados. Agora todas as coisas pareciam familiares para Ana Helena. Mas como? Ela nunca tinha ido para esses lados. Após uma curva viram a casa grande da fazenda. Parecia abandonada. O jardim mal cuidado fora invadido por trepadeiras e roseiras sem flor que cresciam desordenadamente. A pintura... Qual pintura? As paredes estavam descascadas e cobertas por liquens. Ma, de qualquer modo, parecia um pouco familiar. Que estranho!

Luís explicou que, como ninguém morava ali, a casa era usada quase que somente como depósito de sementes e adubo. Entraram em uma varanda fronteiriça onde havia uma rede. Devia ser ali o lugar de descanso do “guerreiro”. O homem empurrou uma altíssima porta de pesada madeira maciça e convidou-as a entrar. Era uma ampla sala cujo assoalho, feito de largas tábuas de madeira, tinha, boa parte, ocupada por uma sacaria que parecia ser adubo. Um cheiro forte de produtos químicos enchia o ar. Em outro canto da sala algumas cadeiras antigas e sobre uma delas um violão. Ele desejava mostrar o resto da casa e percorreram um corredor para o qual diversas portas se abriam. Eram quartos igualmente desocupados e sujos. Porém, em um deles, havia uma grande e antiga cama de casal que denunciava, pelo aspecto, ter algum uso recente. Como isto despertasse espanto nas convidadas Luís explicou que era comum passar algumas noites ali, sozinho, quando o trabalho assim exigia.

Ana Helena continuava sentindo aquela estranha sensação de estar em um lugar em que já estivera. Era como aquelas impressões que temos de estarmos revivendo cenas que nunca vivemos. Caminhava atenta aos detalhes procurando algo mais concreto.

Chegaram em um aposento muito iluminado pela luz do sol que entrava pelas imensas janelas e se abriam para um pomar cheio de mato invasivo. O chão era de ladrilhos e Ana Helena percebeu que aquilo era uma copa e a próxima porta levaria à cozinha. Foi aí que a descoberta se deu. A um canto, um grande fogão de lenha em completo desuso e sobre ele um pequeno caixilho com quatro vidros. Não pode deixar de exclamar: “mas, é claro! Eu já estive aqui!” Perguntou, ansiosa, a Luís, de quem seu pai havia adquirido a fazenda e, convenceu-se, afinal. Sim, esta era a casa que, na sua juventude, ela tantas vezes visitara. A casa onde morava a prima de Afonso. A casa encantada. Contou a Luís e à filha que acharam interessante a coincidência e perguntavam como Ana Helena não percebera antes. Ela foi obrigada a dizer que naquele tempo a casa era linda e agora... Compreensível.

Compreensíveis  também se tornavam aqueles estranhos sentimentos que a atacavam nos longínquos dias em que ali estivera. Tinha sido uma premonição. Já naquele tempo a casa sabia, e reconhecia a sua verdadeira dona. Pena que fora tão mal cuidada. Estava velha e feia. Que pena! Mas de repente uma ansiedade agitou Ana Helena que correu para a porta da cozinha, desejando ver o belo pátio coberto pelo caramanchão de maracujá. Nada disso. Nada havia ali. Apenas abandono e desolação. Sentou num degrau da cozinha e não conseguiu esconder uma lágrima de decepção e compadecimento. Chorava com pena de si mesma. A casa era o seu reflexo. Era como olhar-se num espelho que revelasse a alma e, por que não, o próprio corpo sofrido, vergastado pelas intempéries da vida.

A filha se assustou, Luís correu para ela preocupado, achando que ela chorava pelo lamentável estado da casa e prometeu de restaurá-la, para que ela não chorasse mais. Ana Helena sorriu através das lágrimas pensando: “se eles soubessem...”

No tempo que a casa era linda, ambos eram livres e se tivessem se encontrado antes... Muitas vezes Luís dissera isso. Muitas vezes lhe perguntara: __  “Onde você se escondeu esse tempo todo?” E ficavam voltando no tempo, procurando descobrir onde um estivera em certa época e onde estivera o outro. Queriam saber onde poderia ter sido o ponto de encontro ou onde acontecera o desencontro. “Ah! casa encantada... você sabia, quis me contar e eu não soube entender os sinais.” gemia a pobre moça. Mas como poderia? Naquele tempo a última coisa que Ana Helena desejava era morar em um lugar assim desolado. Agora ela só queria um rancho ao lado de Luís. Hoje, para Ana Helena, felicidade podia traduzir-se em um amor e uma cabana.

Luís não perdeu tempo em cumprir a promessa e rapidamente deu início a restauração da casa. Um dia confidenciou que não conseguia pensar na própria família enquanto cuidava da reforma. Tudo que ali fazia era pensando: será que ela vai gostar desta cor? Será que é deste jeito que ela gostaria disto ou daquilo?

Ana Helena sorria, mas intimamente sabia que essas coisas eram artes da casa e repreendia-a com doçura: “minha querida, você sabe que eu nunca irei morar aí, dentro de você. Portanto, pare com isso!”

Assim, aos borbotões, ia acabando o ano, e as temidas férias se aproximavam. O casal de apaixonados já começava a questionar como iriam sobreviver a mais este período árido e inclemente. Sofriam por antecipação. Mas não ficariam sem se ver. Todas as tardes Ana Helena saía  para comprar qualquer coisa no supermercado e Luís ficava sempre por ali, na casa de ferragens, na farmácia ou no próprio supermercado. Dizia-lhe: se a vejo posso ir embora em paz, mas se você não aparece, ou nos desencontramos, fico rodando por essas ruas como louco. Por favor, apareça.

A mesma coisa acontecia com Ana Helena. Era vital essa visão. Mesmo que fosse só isso, um encontro dos carros em uma esquina, um sorriso, um aceno de mão. E, muitas vezes, se não a visse, Luís esperava Afonso chegar em casa e ia fazer-lhe uma visita. Todos sabiam do verdadeiro motivo, mas todos fingiam acreditar nas esfarrapadas desculpas que ele arranjava sempre, para explicá-las. No final, nem se preocupava mais em arranjar motivos. Simplesmente aparecia e se, por qualquer razão, ele não viesse, Ana Helena sofria e se escondia para chorar.

Nos últimos dias do ano, a reforma da casa terminou e Luís decidiu fazer lá a sua festa de aniversário, que seria também uma inauguração da casa renovada. Claro que além de seus familiares convidou um ou dois amigos para poder convidar Ana Helena e Afonso.

A casa estava linda. O jardim maravilhoso com todas as roseiras floridas e muita gente espalhada por todos os lugares. A festa era um churrasco na hora do almoço e o dia estava radiante. Ana Helena pode ver Célia e verificar que sua barriga estava enorme, mas mal se cumprimentaram. Célia olhava-a com desconfiança, porém em qualquer ponto em que estivesse, Luís lançava-lhe olhares amorosos e doces sorrisos. Ele sabia que Afonso sabia e até mesmo conversavam muito a respeito. Uma vez Afonso dissera à Ana Helena: ele te ama mais do que você imagina. Mas Célia não deveria saber por enquanto. Muita coisa podia mudar com o nascimento do bebê. Ana Helena estava preparada para isso. Confiava que a cunhada de Luís cumprisse pelo menos esse compromisso, embora muitas intrigas já houvesse armado.

Luís quis levá-los para rever a velha casa, agora toda remodelada e uma comitiva acompanhou-os. Estava realmente linda. Luís havia observado os mínimos detalhes. Quando saíram da casa, pela porta da cozinha, o moço fazia peripécias, querendo chamar a atenção de Aninha para uma pequena muda de maracujá que começava a vicejar em um dos cantos do recém-ladrilhado pátio externo e disfarçadamente piscava-lhe um olho. A casa estava magnífica, mas para surpresa de Ana Helena, era só uma casa. Parecia que o encanto havia se quebrado. Ou estaria ela emburrada por causa da invasão de pessoas estranhas? Talvez fosse isso. Ana Helena procurava ouvi-la, mas ela permanecia muda. A casa encantada era apenas uma bonita casa  e Ana Helena ficou triste como se tivesse perdido uma grande e velha amiga. Era estranho ver Célia ali como anfitriã. Para Ana Helena, Célia estava deslocada como a personagem de uma peça teatral repentinamente empurrada para cenários de outra peça. Ao mesmo tempo ela própria não se sentia integrada naquele meio. Para os personagens principais as coisas pareciam de pernas pro ar. Foi frustrante.

                          Mais um ano letivo iniciava e o retorno estava sendo bem doloroso. De nada concreto podiam acusar Ana Helena e por isso envolviam-na em uma rede de maquinações e ciladas. Tentaram primeiro colocar Luís contra ela. Que tolos. Como se aquele sentimento que ficava acima dos parâmetros telúricos pudesse se deixar contaminar por covardes enredos. Estavam ambos vivendo dias difíceis. O bebê estava para nascer e as perseguições se intensificavam. A cunhada preparava o golpe final. Ana Helena sabia que depois seria tudo ou nada. Teriam que tomar uma decisão. Na verdade, só não haviam feito isso porque nunca coincidira o desespero de ambos. Quando ele chegava louco de amor e dor, dizendo: __ “A vontade que tenho é pôr você no meu carro e desaparecer no mundo”. Ana Helena encontrava tranqüilidade para acalmá-lo e se era ela que chegasse pedindo socorro, ele com segurança  implorava que esperasse. Apenas não fugiram porque nunca houve a coincidência dessas crises. E depois, fugir para onde? Era ali o lugar deles. Intrusos eram os outros.

Que estranho é o amor. Parece uma droga poderosa que confunde o cérebro, produz alucinações e acaba por enlouquecer aos que fazem uso dele. Pior ainda: vicia. Não se pode mais viver sem esse terrível e maravilhoso alucinógeno que em poucos minutos pode elevar aos céus ou lançar nas chamas do inferno. É motivo de viver e razão para matar. Devia ser controlado pela ciência para o bem da humanidade. Mas aí então ninguém chegaria a Deus, à fé absoluta, às grandes verdades cósmicas.

Há três dias Luís não aparecia. Ana Helena estava agoniada. Não podia perguntar a ninguém o que estava acontecendo e pensou que ia enlouquecer. A aula terminava e tinha de ir embora, outra vez, sem saber de nada. Ao passar pelo escritório viu o carro de Luís. Parou e entrou decididamente naquele local de trabalho. Faria isso ainda que uma legião de demônios tentasse impedi-la. Ele estava sentado atrás de uma mesa, em um pequeno guichê, como que entrincheirado, temeroso da ansiada e perturbadora presença da amada. Aninha estende-lhe a mão que ele agarra, com tanta força, como se quisesse esmagá-la dentro da sua e diz: __ “Nasceu.”

No meio de toda aquela loucura Ana Helena acalentava um pensamento íntimo: se fosse uma menina seria realmente dela, como Luís acreditava. Ansiosa, perguntou e ele confirmou . É uma menina.

Ana Helena sofria um misto de alegria e dor. Só pode falar: “mais um elo para a sua corrente.”

__ “Não, não, nada disso. Ela será um elo entre nós.”

Pobre querido... pensou Ana Helena e partiu, dirigindo alucinadamente por aquelas estradas, clamando sem parar: meu Deus, meu Deus...

Dirigia às cegas, em meio a mais perfeita escuridão, em pleno meio dia. De  repente algo inesperado aconteceu.

Uma voz, que parecia vir do alto, chegou clara e forte aos seus ouvidos: EU ESTOU COM VOCÊS. Era uma voz masculina, firme, forte, mas doce e terna. No mesmo instante se fez a luz e largos horizontes se descortinaram ante os olhos perplexos de Ana Helena. Imediatamente uma calma total, uma paz mágica a envolveu e conseguiu chegar em sua casa. Nenhum parto seria mais doloroso e nem mais gratificante.

Ana Helena confiou, acreditou e permitiu que essa máxima energia cósmica tomasse conta de seu destino. Entregou a Deus todo sofrimento e aquietou-se. Levaria a Luís a boa nova e haveriam de aceitar a vontade suprema. O que ela não sabia é que as perseguições iriam recrudescer e quanta dor ainda estava reservada para os pobres enamorados!

                          Alguns dias depois Ana Helena e Afonso foram fazer a visita formal à recém-nascida. Numa caixinha levavam uma pulseira de ouro com seu nome gravado. O seu nome... será que ninguém percebera? Foi Luís  quem escolhera e era uma mistura dos nomes dos dois. O nome de uma pessoa é tão definitivo, tão marcante em sua personalidade! Como ele pudera fazer isto? A que riscos estaria expondo a própria filha? O amor os enlouquecia a ponto de embaralharem tudo e criarem um mundo particular onde loucos eram os outros. Luís contaria mais tarde à Ana Helena que nos finais de semana, naqueles dias mortos em que não podiam se ver, ele pegava a filhinha e afastava-se de todos, pois só o contato dela em seus braços aliviava o vazio de seus olhos, de seu corpo. Ainda acreditava ser a menina um pedaço do seu amor. Muitos anos depois uma amiga comum diria a Ana Helena que Luana parecia-se um pouco com ela. Mas como podia ser isto? Que loucura!

O casal visitante esperava na sala porque a menina estava sendo amamentada. Luís os recepcionava e parecia nervoso, constrangido, como se quisesse dizer para Ana Helena algo que não podia ser falado diante de Afonso. Era uma situação insólita que se prolongava, deixando todos angustiados.

Finalmente a porta do quarto se abriu e Ana Helena foi ao encontro de Célia para cumprimentá-la e entregar o presentinho. Célia havia passado por uma cesariana e estava dolorida, gorda, feia, mas sua dor era mais profunda, era mais que física.

Ana Helena sentiu que  todo o seu corpo enrijecia quando abraçou-a e no mesmo instante disse para si mesma: ela sabe! Puxa vida, isso era tudo o que queria evitar. Teria ele falado? Impossível! Ele não seria tão cruel. Então só uma pessoa poderia... Ah! Aquela maldita, invejosa, desclassificada! Claro! Ela não deixaria passar a oportunidade de ferir mortalmente a cunhada que odiava, no momento em que mais frágil ela se encontrava. Não havia clima. Ana Helena queria evaporar, principalmente por estar tão agressivamente magrinha e elegante. Se, para salvar Célia daquela dor tivesse que morrer morreria de bom grado.

Mais tarde Luís confirmaria. Sim, fora a cunhada que, às vésperas do parto, contou o que sabia e o que imaginava. Quanta maldade! Desta história, ela foi mesmo a bruxa má. Tinha olhos de serpente e cabelos desgrenhados e grisalhos. Era baixinha e atarracada. Não sei se tinha uma verruga no nariz, mas tinha-o bem arrogante. Acho que a verruga era o próprio nariz. A vassoura nunca se viu, mas devia estar sempre escondida junto com seus sentimentos mesquinhos. Sua casa era suja e desarranjada e quando falava, saiam cobras e lagartos de sua boca. Era uma pobre coitada.

                         No decorrer desse ano foram vigiados, perseguidos, maltratados e mal podiam se falar. Ana Helena, em casa, sem ter com quem desabafar seus recônditos temores, suas explosões de ternura, escrevia e no dia seguinte, Luís sempre achava um jeito de encontrá-la antes que ela chegasse na fazenda, para apanhar seus bilhetinhos. Passaram a ser tão importantes e vitais em sua vida a ponto de ir lá na escola para cobrá-los, se por um motivo qualquer a moça não escrevesse em algum dia. Contava que os lia até decorar e depois os picava em mil pedacinhos e atirava-os nas águas do rio. Seu lindo rosto iluminado por um maravilhoso sorriso: “eu e o rio semeamos suas loucas palavras de amor  pelo mundo todo”. Eram esses os poucos momentos de felicidade que se permitiam ter. A sós, raramente se viam, mas se acontecia, eram tão intensos e radiantes os efeitos que imaginavam, o mundo todo mudava, como após uma explosão nuclear. Como renunciar a isto?

                          Mais uma primavera ia chegar e numa bela manhã, Ana Helena encontrou radiantemente floridas as árvores defronte a escola. Na hora do recreio das crianças, Luís passou por lá e parou, admirando a inesperada, estonteante e prematura explosão primaveril. Aninha falou: __“Viu que privilégio? A primavera chegou primeiro em minha rua!” E ele, com ares de muita importância: __“Conforme encomendei... Flores para a professora!” Esses eram os momentos de rara felicidade... 

                         Algumas vezes, Aninha surpreendia o semblante pensativo e aquele característico jeito de olhar à distância, como se estivesse observando ao longe, no horizonte,  alguma coisa que só ele via: “impossível ter tudo... é sempre necessário renunciar a alguma coisa...” dizia isto, como se estivesse falando consigo mesmo.

                          Ela nunca perguntou se essa sugestão seria para ela ou para ele próprio. Nunca soube.

                          Um dia, Ana Helena teve uma séria briga com Afonso, que ainda não havia desistido de reconquistar seu amor e sofria o fato de viver ao lado da mulher que dizia amar, sentimento exacerbado pelo risco da perda ou pelo fato da concorrência, uma relação fraterna e platônica. Tentou forçá-la, quis violentá-la e aconteceu o caos.  Ana Helena foi chorando de raiva e humilhação para o seu trabalho. Cada vez mais ia se tornando insustentável a situação.

                          Em meio à aula, Luís veio dizer a Ana Helena que Afonso havia ligado e queria que fosse encontrar-se com ele, na estrada. A moça mostrou-se apavorada e implorou que não fosse. Contou-lhe da briga e disse estar certa que Afonso ia matá-lo. Luís apenas respondeu que estava pronto para tudo e se ele quisesse matá-lo, pouco estava se importando.

                          Algum tempo depois viu, com alívio, o carro de Luís retornar e dirigir-se direto para a sede. Encerrou a aula e correu para lá. Pela primeira vez entraria sozinha na casa encantada. Parou o carro bem perto e foi entrando sem nem querer saber se havia mais alguém ali. Luís estava em pé, apoiado à mesa da copa e graças a Deus, não estava ferido. Seu rosto, porém estava congestionado e visivelmente emocionado. Parecia ter chorado. Por um instante se olharam e naquele olhar todo o desespero daquele amor impossível se revelou. Agarraram-se, um ao outro, como náufragos perdidos, num ultimo esforço de sobreviver, afogando-se nas próprias lágrimas. Choraram como duas crianças e Luís tomou Aninha ao colo, carregou-a por aqueles corredores até seu quarto e delicadamente  depositou-a sobre a cama. Entre sussurros e beijos se amaram suavemente, devagar e ternamente, como se o tempo e o espaço, lá fora, tivessem deixado de existir.

                          Uma aragem suave entrava cantando pelas frestas das janelas, as paredes brilhavam como se fossem de cristal e o colchão, sob seus corpos, se transformava em macias nuvens brancas. Enfim, a casa encantada via realizado o casamento por tanto tempo impedido e... Comemorava!...

                          Depois ele contou o que Afonso queria dizer-lhe. Que não suportava mais aquela situação e pedia que Luís assumisse de vez e ficasse com Ana Helena.

                          Como se fosse fácil, assim. Havia tantos empecilhos! Nenhum dos dois estava disposto a renunciar aos filhos. A fazenda não pertencia a Luís e ele sabia que seria expulso dali se escolhesse esse caminho. O pai já o havia ameaçado. Luís dissera para Aninha: ___ “Quero lhe dar conforto. Como ganharei a vida se tiver que ir embora daqui?”

                          Ana Helena respondeu; ___“Que pena, querido, eu sou a sua cruz.”

                          E ele, surpreso: ___“Não, você é a minha estrela!”

                          Sim, ela era a brilhante, amada e inatingível estrela.

                          Por seu lado, a última coisa que Ana Helena queria era destruir um lar. Este era o ponto final. Tinham que decidir e a separação era o caminho mais racional, embora fosse o mais doloroso.

                          Outro ano terminava e tempos inclementes desabavam sobre os infelizes amantes.

                          Dia de atribuição de aulas. Ana Helena sabia que poderia escolher a mesma escola ou ir para outra, pois era a primeira classificada e, portanto, poderia escolher. Nem lhe passava pela cabeça qualquer mudança. Bem ou mal, era lá que queria estar. Na grande sala, dezenas de professores aguardam a chegada das autoridades que presidiriam a distribuição das aulas vagas. Um funcionário procura a moça e pede que o acompanhe. Alguém queria falar com ela. Leva-a até uma pequena sala onde um seleto grupo de pessoas a esperava: o prefeito e sua secretária da educação, diretor de escola, delegado de ensino e sabe Deus quem mais! Ana Helena assustou-se: Mas o que seria isso?!

                          Convidaram-na a entrar e sentar-se diante deles. Aquilo estava parecendo um tribunal de júri. Acaso iriam julgá-la? Sentou-se e aguardou. O primeiro a falar foi o prefeito que era seu amigo e velho conhecido: “Aninha, você será a primeira a escolher classe. Já sabe o que quer?”

                          __Sim. Responde a moça. Continuarei na mesma escola.

                          __Mas por que? Você pode escolher o que quiser e aquela é uma das piores escolas que temos,  em termos de distância, pelo menos.

                          E começou a enumerar as diversas escolas, praticamente, dentro da zona urbana. Aí todos começaram a dar palpites e exemplos de excelentes escolas.

                          Foi então que a corajosa mulher investiu: __ “Mas o que está acontecendo? Estou impedida de escolher a minha escola?

                          __ “Não! Ninguém pode impedi-la, mas seria aconselhável.” Falou o delegado de ensino e começou a contar que haviam recebido um telefonema de uma das donas da fazenda ameaçando por fogo na escola caso ela voltasse lá, este ano. Ana Helena quis saber quem havia feito tal ameaça e se ela poderia fazer isso. Contaram quem era, confirmando suas suspeitas e que a mulher parecia ser mesmo meio desequilibrada e talvez cumprisse as nefastas ameaças. Aí, cada qual parecia ter um argumento melhor que o outro para convencê-la a fazer outra escolha. Ana Helena estava cheia de ódio por aquela bruxa má e se nesse instante ela entrasse naquela sala seria trucidada por ela e pelas importantes autoridades ali presentes, revoltados com a atitude grosseira do baixo espécime da raça humana, compadecidos que estavam pela dor e dignidade expressas no semblante sério, quase impessoal da coitada da Aninha. Concordou, para o bem geral, em fazer outra escolha e voltou para a sala dos mestres como um carneirinho a caminho do matadouro. Dentro de si um vendaval de dúvidas e desespero: como não ir mais lá? Isto era completamente incompreensível para o seu coração apaixonado. Acabou escolhendo a escola mais próxima, numa fazenda vizinha àquela e deixando todos boquiabertos, sem entenderem o absurdo da escolha.

                          Naquela tarde Luís foi a sua casa, pois já soubera de tudo. Estava também muito revoltado, mas concordou com a decisão de Ana Helena em não comprar essa briga, pois sabia dos golpes baixos que o irmão e a cunhada seriam capazes de usar contra a moça. Afonso, porém, não concordava com a escolha que a levaria muito perto da fazenda. Dizia temer por ela. Que ela deveria escolher uma escola que ficasse em outras estradas. Fingia não entender o porquê de Ana Helena querer ficar o mais perto possível da antiga comunidade.

                          As aulas começaram e poucos dias depois Ana Helena concluiu que não conseguiria continuar com aquela farsa. Adoeceu. Afastou-se do trabalho e passava os dias em casa esperando apenas as raras visitas de Luís. Vinha ele contar os dramas pelos quais também estava passando. Disse que chegou a propor o divórcio a Célia e estava disposto a “virar a mesa”. O pai ameaçou-o e disse que se ele abandonasse a família sairia dali com “uma mão na frente e outra atrás”.Isto queria significar, com a roupa do corpo, no máximo.

                          Como um pai podia interferir assim na vida de um filho que não era nenhuma criança? Apenas o poder do dinheiro conseguiria explicar tal dominação.

                          Ana Helena pediu-lhe que não fizesse nada. Acreditava ter encontrado a solução. Havia decidido. Ela é que iria separar - se de Afonso. Mudar-se-ia com os filhos para a cidade onde a filha mais velha estava estudando. Afonso ficaria mais livre e dar-lhe a liberdade era o mínimo que ela poderia fazer por ele. Ao mesmo tempo, esporadicamente, Luís poderia ir vê-la. Sim, isto parecia ser a solução para todos.

                          Se assim Ana Helena planejou, assim executou e algum tempo depois ia de mudança para uma grande cidade.

                          Moravam em um bom apartamento e Aninha dedicava-se exclusivamente a cuidar dos filhos, levá-los e buscá-los das diversas escolas em que estavam matriculados. Dirigia seu carro procurando pelas ruas encontrar, de repente, o seu amor. Mas o tempo passava e não conseguiam sequer se comunicarem por telefone porque, ficou sabendo mais tarde, Célia havia ido morar na fazenda. A vigilância se intensificava, dia a dia.

                          Então, a casa encantada tinha sido invadida! Como estaria ela se comportando? Ficou sabendo depois que coisas terríveis aconteceram sob aquele teto. Não era surpresa para Ana Helena. Tinha certeza que seria assim mesmo. Era um menino que caía na escada e quebrava o braço, o outro pegou uma terrível doença alérgica, empregadas se queimavam no fogão, tudo isso sem contar as constantes discussões e desarmonia total. Viviam em pé de guerra. Ana Helena tinha certeza que logo, logo, a casa expulsaria todos dali.

                          Ela já estava morando na cidade grande há três meses e apenas uma vez Luís viera. Por muitas horas conversaram sentados em um desconfortável banco de jardim, na praça, defronte ao prédio onde Aninha morava. Ela se desesperava e estava a ponto de enlouquecer, quando resolveu terminar com aquele martírio e desistir, de vez. Renunciar para sempre. Já não suportava tanta dor, tanta espera, tanta saudade, tanta solidão superpovoada. Ao tomar essa decisão era como se a separação já se houvesse materializado e Ana Helena chorava vinte e quatro horas por dia. Dirigia  seu carro com o olhar embaçado por lágrimas. Enxugava os olhos enquanto cozinhava ou limpava a casa e até dormindo ela chorava. Despertava soluçando, agarrada ao travesseiro molhado. Seus olhos eram uma fonte inesgotável. Quando secaria esse rio de lágrimas?

                          Numa dessas manhãs, iguais a tantas outras, Ana Helena cuidava tristemente de seus afazeres quando o telefone tocou. Foi atender, sem o menor entusiasmo, certa que fosse alguma coisinha corriqueira. Era ele! Aninha sentiu o coração dar pinotes dentro do peito, como se fosse um garanhão aprisionado em estreito piquete. Deu-lhe apenas o endereço do hotel em que se hospedara e pediu-lhe que se apressasse a ir encontrá-lo, pois não poderia ficar muito tempo na cidade.

                          Vagarosa e dolorosamente Ana Helena foi preparar-se. Sabia que seria a última vez que o veria, assim a sós e não conseguia sentir-se feliz nem com a expectativa de vê-lo. Afinal, de que adiantaria, se seria a última vez? Ia para o adeus. Queria encher seus olhos com a sua imagem. Havia de trazer a pele dele tatuada em sua pele. Guardaria no mais fundo de seu ser o cheiro daquele homem. Ia deixá-lo, mas não queria esquecê-lo jamais. Ia para abastecer-se dele.

                          Luís esperava no “hall” do hotel e levou-a direto para seus aposentos. Estava também tristonho e olhava-a intensamente como se suas intenções fossem iguais as dela. Aninha sentiu gelar seu coração ao perceber que, para ele também, aquilo era um último adeus... Talvez, no fundo, ela esperasse que ele não aceitasse tal decisão. Que ele não aceitasse a sua renúncia. Mas bastou uma troca de olhares para que ambos soubessem que este era o fim.

                          Luís contou das manobras que teve de fazer para vir vê-la. Concordou ir a um baile de formatura para ter a desculpa de precisar alugar um “smoking”, naquela cidade. Só que Célia forçou a barra e veio junto. Nesse dia precisava devolvê-lo e para vir sem ela teve que empurrá-la e sair com o carro, quase que a derrubando, pois ela queria vir junto, mesmo estando em trajes impróprios para viajar. “Foi horrível”. Disse também que não estava mais suportando tanta pressão e tamanha guerra. Estava capitulando. Ia entregar os pontos. Enfim, eles venceram.

                          Foi chorando que se amaram. Entregaram-se, pela segunda vez, em toda aquela longa e complicada história de amor. E, como daquela vez, na casa encantada, o amor se fez com gestos lentos e ternos, só que agora, cada movimento tinha sabor de adeus. Se da primeira vez o amor teve gosto de revelação, desta vez tinha gosto de morte.

                          Ana Helena ficou sabendo que já não moravam mais na casa encantada, que ela voltara a ser uma casa abandonada e que o pé de maracujá crescera tanto, que cobria todo o pátio e nunca estivera tão carregado de flores.

                          Não se disseram adeus, mas quando Luís, à porta, olhou demoradamente a moça que, em pé, diante do espelho, dava um último retoque em suas roupas, eles sentiram o adeus no ar, entre os dois. Luís voltou e sorrindo tristemente apertou-a, com força, entre os braços, fugindo em seguida. Ao vê-lo sair, Ana Helena atirou-se sobre a cama desfeita, sufocando contra o travesseiro um grito selvagem de dor, sua alma retalhada, seu peito dilacerado. O grito contido explodiu em seu coração e ele arrebentou-se.

                          Luís partiu louco de dor, sentindo-se decepado, pedaço de si mesmo e loucamente dirigiu o carro que bateu contra uma pilastra e despencou numa ribanceira.

                          Teria Ana Helena morrido no exato momento em que um carro incendiava no fundo daquele barranco?

                          Ninguém jamais saberá, mas naquela pequena e outrora pacata cidade do interior, esta história virou lenda que contam aos visitantes, finalizando sempre com esta frase:

“Morreram e foram felizes para sempre...”

FIM