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A Teoria de “Noé"
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Matistel Dias dos Santos
Emoldurada pelo retângulo da janela aberta de meu quarto deleito-me com belíssima tela colorida e dinâmica. Sobre um fundo azulado dezenas de pipas de todas as cores executam magnífico ballet.
Com a ausência de chuvas, com a chegada dos ventos, com o desejo de aquecer-se ao sol, chega o tempo delas.
Um terrível ruído no teto do quarto obriga-me a descer para verificar a causa de tal barulho. Era apenas uma dessas pipas enroscada na antena, sobre o telhado, violentamente puxada pelos meninos, no afã de recuperá-la. O que estão quase conseguindo é arrancar minha preciosa antena. Peço-lhes que partam a linha e deixem aquela rabiola flutuante a tremular triunfante1 Não foi fácil convencê-los. Afinal a linha se arrebenta e um pedaço dela vem parar em minhas mãos. Foi então que me assustei. Nunca havia tocado em uma linha com “cerol”. Cerol, segundo o dicionário é uma mistura de cera, pez e cebo com que os sapateiros enceram as linhas. Entretanto o que os meninos usam é uma mistura de vidro moído e cola. A tal linha, bastante grossa, transforma-se em afiada lâmina. Entendi o porquê de tantos acidentes já terem sido causados por esse “inocente” brinquedo: pessoas degoladas por tal arma. Mostro-lhes o perigo. Digo-lhes que tal prática é proibida e porquê. De nada adianta. Eles argumentam que se não cortarem a linhas dos outros, os outros cortam a sua linha.
Percebi que aquele ballet não passava de uma guerra que poderia fazer vítimas inocentes. Ameacei levar ao conhecimento das autoridades essa perigosa prática. Nem ligaram. No dia seguinte lá estavam eles esticando as linhas entre postes e “cerolando-as”.
Resolvi ligar 192 e pedir que a polícia passasse algumas vezes por aqui e tentasse impedi-los de prosseguir com brincadeira tão séria. Responderam que aquilo “noé” com eles. Que eu ligasse para o Comucra. Cheguei a discar para lá, porém desisti. Só o que eu queria era assustar os meninos e não envolvê-los com o Comucra (Conselho Municipal da criança e do adolescente). Afinal, são bons garotos. Precisam apenas de uma orientação firme.
Liguei então para a prefeitura para informar-me a respeito do telefone da Guarda Municipal. Indicaram-me 192. Ué! Mas esse telefone não é o mesmo da PM ? Obedeço. Quem atende diz ser da Guarda Municipal. Tudo bem. Uma farda sempre impõe mais respeito, porém questiono o fato do telefone ser o mesmo da Polícia Militar. Respondem que está tudo certo, eles atendem lá também. Não entendi mais nada, mas falei do tal problema. Confirmou o que o policial já dissera. “Noé” com eles. Que eu ligasse para o Comucra.
Não entendi nada, nem quero! Afinal a teoria de “noé” resolve tudo.
Não ando de moto, nem de bicicleta, nem de carro conversível. “Noé” comigo...
Mas... E se tiver de sair a pé?
A teoria de “noé” cairá junto com a primeira vítima. Aí todos correrão. Eu tentei...
_______2001_________________________________________________________________