A vida de todos nós  

Maristel Dias dos Santos

 

                 

 

                           

                            De todas nós, para ser mais exata. De nós mulheres, que nascemos sob o signo do sofrimento e nem damos bola para esse carma. Ser mulher não é fácil, mas a gente tira de letra. Desde que nascemos já somos discriminadas. Furam nossas pobres orelhinhas e colocam peças de metal, brincos e para não pensarmos que somos homens  nos vestem de cor-de-rosa. Logo, logo, começam a ensinar-nos como devemos nos sentar: de joelhos colados:  caminhar com passos leves: pegar em agulhas e ocupar as mãos em trabalhos manuais ou artes culinárias. Nos preparam desde cedo para  um auto controle necessário. São sábias as nossas mães. Elas sabem o quanto será dura a vida e desde cedo começam a nos treinar. A própria natureza se encarrega de continuar essa missão. Tão menininhas e já impedidas de fazer tudo o que querem, pois existem "aqueles dias"  em que tensões pré-menstruais e cólicas uterinas vão preparando as coitadinhas para a maternidade. E quando ela chega traz, envolta em dores maquiavélicas a maior felicidade - o filho. Ele, ou eles que com tantas alegrias e tanto trabalho e tantas preocupações chegam para  nos proporcionar o sofrimento, a escravidão. Ser mulher não é fácil, mas pergunte a elas se queriam ser diferentes. Não, nós amamos ser exatamente o que somos. Conhecemos nossa força e nossos poderes. Reconhecemos nossos impedimentos e assim vamos criando uma bagagem preciosa para carregar vida a fora. Pesada, sim, mas valiosa!

Existem mulheres que portam apenas uma bolsa de mão e conseguem fazer tudo caber nela. São privilegiadas, encontram no caminho carregadores para aliviá-las de muitos pesos. De mim, não posso dizer o mesmo. A minha vida não é e nunca foi uma frasqueira cheia de frescuras. Não! É, isso sim, uma enorme bagagem composta de muitas malas, pesados pacotes e até alguns embrulhos. Mas não me queixo. Pelo contrário, fico orgulhosa de tanto ter absorvido, usufruído  da vida, da dura vida de todos nós, pois só permitindo que tudo aconteça é que tudo acontece, e conhecer o sabor de todas as coisas, voar, voar, o quanto mais alto puder, dentro de si mesma, é encontrar a glória, como Fernão Capelo Gaivota, até mesmo na morte. Ouça um conselho de uma vida bem vivida. Fuja da:

 Servidão

Por que somos assim, enganadas, traídas,

Maltrapilhas, maltratadas, vilipendiadas, exploradas,

Na família, na sociedade, muitas vezes humilhadas,

Algumas vezes violentadas, desrespeitadas, mal-amadas,

Por quem nos prometeu proteção, por quem só recebeu dedicação,

A quem oferecemos servidão?!!!

__Somos assim porque eu nasci dela

E ela nasceu de mim... Somos assim porque...

Somos escadas que sobem e descem

Mas todas levam para o mesmo lugar.

Somos escadas que sobem e descem

Mas seguem sempre a mesma direção.

Ouça, preste atenção: a palavra errada é servidão.

Sinônimo de morte.  Ser é a realização!

É estar ao lado, companheira, cúmplice, confidente,

A igual, senão a melhor. A parceira...

Ser é a realização! Conquiste a luz dentro de si,

Procure o mestre em seu interior, o seu EU maior.

Assuma o seu valor! Mulher,

Trouxeste à luz os homens!

Desperta!