Abacateiro (“Recuerdos”)

Conto autobiográfico

                                                                                 Maristel Dias

 

Este conto dedico a você,

Tássia, minha neta,

Porque em seu olhar profundo,

Um tantinho alienado,

Adivinho sonhos

E o desejo de ter

O seu telhado

E um certo abacateiro.

            A primeira lembrança: estou sentada sobre a geladeira. Lá, bem no alto. Estou feliz. Bato palmas e rio. As mãos de meu pai me protegem para eu não cair lá de cima.  Meu pai ri. Papai é um gigante. Levanta-me no ar e me recoloca no chão. Parece que esta é a primeira vez que vejo meu pai, que vejo a geladeira, que me vejo e tomo consciência de que existo. Não sei quantos anos eu tenho. Sou muito pequena. Mamãe costura e canta. Pedacinhos de pano caem no chão e com eles visto uma boneca imaginária. É um grampeador e aquela bola onde se pressiona para fixar os grampos é a cabeça da boneca. Fico muito tempo sentada no chão ouvindo o plac, plac da máquina de costura e a voz de minha mãe a cantar modinhas portuguesas.

            Minha casa é muito grande. Tem paredes altíssimas e o teto fica a uma distância enorme. Tudo é tão grande! Tenho irmãs muito grandes. Mas o irmãozinho é pequenino. Ele é menor que eu. É só dele que eu gosto. Tem cachinhos cor de ouro e olhinhos azuis como bolinhas de vidro. Meu irmãozinho é lindo. Todos gostam dele. Ele não liga para mim. Eu não ligo para ninguém. Ninguém liga para mim. Eu não tenho cachinhos nem olhos de bolinha de vidro azul. São bolinhas pretas os meus olhos. Eu sou feia.

            Uma irmã me chama para brincar. Ela põe suas asas de anjo, sobe no muro do quintal e fala que vai voar. De repente ela desaparece e eu olho para o alto, procuro-a no céu. Todos riem. Acho que estão me enganando e é por isso que riem. Riem de mim. Por muito tempo me enganam e sempre se divertem quando procuro no céu minha irmã/anjo. Continuam me enganando até o dia que descubro que ela pula para o outro lado do muro. Acabou a graça. Não gosto de ser enganada. Não gosto que riam de mim. Ainda bem que sempre encontro um lugar para me esconder.

            Minha casa é tão grande e o quintal tem mil cantinhos. Gosto de ficar sozinha. Tem muita gente nesta casa. Às vezes me escondo debaixo da cama.

            Minha mãe me veste e diz que eu vou para a escola. Uma das minhas irmãs me leva. Ela me dá a mão para atravessarmos as ruas. Uso saia pregueada e blusa branca. Os sapatos e meias apertam meus pés. Fizeram tranças em meus cabelos. Uma de cada lado e as prenderam com um laço de fita branca em cima da cabeça. Os cabelos, habituados a viverem despenteados, fazem doer minha cabeça, assim, fortemente trançados e amarrados. Meus pés, que viviam descalços, estão sufocando dentro desses sapatos novos, pretos, brilhantes. Minha professora é enorme. É estranho que a chamem Dona Mariquinha. Ela não é nada “inha”, a não ser boazinha. Tem rendas na blusa e um cheiro bom. Seus cabelos são tão penteados que nem um só fio fica solto. Na nuca os cabelos se enrolam em um grande cacho redondo preso por uma rede fina como teia de aranha. Sem fios, nem pontas. É perfeito. Eu gosto da minha professora. Ela quer que eu fale “aranha”. Falo “alanha”. As outras crianças riem de mim. Quero aprender a falar certo para que não riam mais. Mesmo assim, gostam de mim. No recreio me chamam para brincar. Gosto delas. Gosto da escola. Quando faço uma malcriação mamãe ameaça: “Se fizer outra vez não deixo você ir à escola.” Ela sabe que só isso me atemoriza.

            Achei na rua um gatinho amarelo, magrinho e sujo. Mamãe o alimenta, limpa-o e permite que eu fique com ele. Ele é meu. Só meu. Mas tenho que cuidar dele. Brinco com ele. Ele brinca comigo. Ando de quatro pela casa e me escondo atrás do sofá. Ele me procura e quando me acha finge que se assusta, dá um salto mortal e foge espavorido. Morro de rir. Quando vou comprar o pão na padaria perto de casa, bem cedinho e faz muito frio, ponho o gatinho dentro de minha blusa de lã e levo-o comigo. Ele adora.

            Procuro meu gatinho. Não está em casa. Em frente da casa tem a linha do trem. Vou procurá-lo e lá o encontro. Está amarrado com cipós sobre o trilho. O trem passou sobre ele. Está repartido em duas partes. Volto chorando para casa. Vou chorar em minha cama e adoeço. Não levanto mais, por muitos dias. Tremo de frio. Vejo coisas estranhas. Vou morrer como meu gatinho. Quero morrer sem o meu gatinho. Ouço a voz de minha mãe me chamando. Ela fala: “Acorde, olhe o que temos para você, olhe”.Não quero abrir os olhos. Não quero acordar. Mas, o que é isso? Ouço miadinhos. Abro os olhos correndo. Uma cesta cheia de gatinhos! Quatro? Cinco? Sento na cama num pulo. A febre se vai. Fico feliz. Como é boa a minha mãe!

            Minha casa já não parece tão grande. Tem só três quartos. Um é do papai e da mamãe. Tem sempre um berço nesse quarto. Tem sempre um bebê nesse berço. Outro quarto é das meninas e tem quatro camas. Uma delas é minha. No outro quarto dormem os meninos e tem três camas. As crianças saem do berço no quarto da mamãe e vão para um dos dois quartos, para ceder o berço a outro bebê.

            Quase não vejo o meu pai. Ele viaja. Sai com um guarda-pó e uma mala em cada mão. Vai de trem ou “jardineira” que pára na esquina de casa. Às vezes vou esperá-lo nessa mesma esquina. Gosto de vê-lo chegar com aquela capa em cima do terno que a mamãe vive limpando com uma escova umedecida em um líquido cheiroso, que ela chama de benzina misturada à água em um prato velho de louça, lascado nas bordas. Depois ela deixa a roupa de papai pendurada em um cabide, ao ar livre, para evaporar e desaparecer o cheiro; logo irá passá-lo a ferro, protegendo o tecido com um lenço branco molhado. Meu pai fica tão bonito de terno e gravata! Mas quando está de saída veste o guarda-pó e põe uma boina marrom. Fica com um jeito europeu. Parece um francês. Ele quase não fala com a gente. Fica na sala de jantar, lendo um jornal imenso que desdobra sobre a mesa. Passamos por essa sala nas pontas dos pés. Ele está sempre sério e carrancudo, mas, às vezes, sorri para mim e aí parece que meu coração vai explodir de tanta luz que brilha dentro dele. Papai não fala com a gente  nem precisa. Quando ele olha sabemos tudo o que está pensando. Repreende-nos ou nos elogia só com o olhar. Meu pai é muito alto e muito bonito. Gosto tanto do meu pai!

            Vi em seu jornal uma boneca de verdade. Vestido com rendinhas, saia bem rodada, cabelos encaracolados e olhos que abrem e fecham. O jornal é em preto e branco, mas tenho certeza que o vestido é cor-de-rosa, que seus cabelos são louros e seus olhos, azuis. Quando meu pai dobra o jornal e leva-o para a despensa onde uma pilha deles não pára de crescer, vou lá armada com a tesoura da mamãe. Que trabalheira abrir aquelas páginas enormes! Acho a boneca. Recorto-a e vou guardá-la em minha gaveta, no meio das roupas, no armário do quarto das meninas. É a minha boneca! A única que eu tive em minha infância. E eu sou a única menina que tem uma boneca linda como aquela. De tempos em tempos pego aquele recorte de jornal e brinco com a minha boneca. Na imaginação eu a embalo nos braços e aliso seu vestido cor-de-rosa. Até seu cheiro eu posso sentir.

            Nasceu no quintal, sem que ninguém plantasse, um pé de abacate. Deixaram-no ir crescendo e agora está muito alto. Mais alto que o telhado do barracão que fica no fundo do quintal. Vou sempre abraçar seu tronco que está engrossando rapidamente. Esse abraço é de carinho, mas tem também a finalidade de medi-lo. Ele cresce mais rápido que eu e mal consigo cruzar os dedos por de trás do tronco. Olho para cima. Galhos retos como degraus de uma escada partem dele e vão-se tornando menores e mais finos à medida que sobem. Cresce como um potro novo. Forte e esguio. Um dia crio coragem e subo no primeiro galho. Conforme vamo-nos tornando mais fortes vou conquistando um, mais um e outro em seguida, até que alcanço aquele que fica rente ao telhado. Descortino um mundo novo. Posso ver as telhas se sobrepondo umas às outras numa seqüência oblíqua, até chegar à cumeeira.

            Num belo dia passo do abacateiro para o telhado. Muito medo, muita cautela, muita emoção. Havia acabado de descobrir o esconderijo perfeito. Todas aquelas visitas ao pé de abacate sempre foram incursões solitárias. Procurava certificar-me que ninguém me visse quando eu e o abacateiro vivíamos aquela interação e só subia ao telhado se tivesse absoluta certeza de não estar sendo observada.

            Lá de cima posso ver tudo que se passa no quintal da minha casa. Às vezes mamãe me chama. Não respondo. Como é maravilhoso ficar ali: onipresente, onisciente, onipotente.  __ “Mas onde se escondeu essa menina?” Só desço se me interessa o motivo pelo qual me procuram.

            Há mais um telhado, meio metro abaixo do meu, que pertence a outro barracão, do vizinho de trás. Exploro os vãos dessa parede e encontro pequenos ovinhos encaixados nas frestas dos tijolos. Devem ser ovos de lagartixas. Disso nunca tive certeza. Não me atreveria a quebrar um deles para me certificar. Algumas vezes encontro casquinhas quebradas. Fosse o que fosse, dali saíra uma vida e isso eu respeito. Acabo por passar para o outro telhado e logo descubro que posso explorar mais três quintais. Quantas horas passo ali observando pessoas, animais, objetos, vidas diferentes em torno de minha vida. Aquilo me fascina. Nunca contei a ninguém essas aventuras. Nunca ninguém soube onde se escondia a menina.

            Um dia meu pai mandou cortar o meu pé de abacate. Ficava muito encostado na parede do barracão e ameaçava sua estrutura. Lá veio o seu José com cordas e machado. Galho por galho foi derrubando aquele abacateiro que nunca deu um abacate sequer. Por fim o tronco foi abatido e cortado em pedaços. Virou lenha e por muito tempo assisti a meu abacateiro transformar-se em labaredas e braseiro no fogão onde mamãe cozinhava.

            Enquanto seu José fazia o seu trabalho eu fiquei ali, sentada, sentindo no meu corpo cada machadada fatal. Odiei aquele machado. Não podia odiar ao seu José, que apenas fazia um trabalho para o meu pai. Não podia odiar meu pai, pois ele não sabia que me estava privando das melhores horas de minha vida. Ele não sabia do meu amor por aquela árvore. Só eu e ela tínhamos culpa. Culpa de havermos sido felizes, de havermos nos amado.

            Seu José matou a árvore e nunca soube que, com ela, matou também a minha infância. Quando a conformação nos faz aceitar que as coisas, mesmo muito belas, devem ser destruídas se ameaçam a estabilidade dos mais poderosos, a inocência infantil morre. O mundo solitário se acaba.

             Devo integrar-me às coisas comuns, interessar-me pelos problemas familiares, tornar-me adulta e útil para não acabar como o meu abacateiro que abacate nunca deu. Integrei-me, porém jamais me entreguei. Permaneci sempre um pouco esquisita. Aquela que não se mistura, a diferente. Graças a Deus!

            Tempos depois reencontrei meu telhado-refúgio nas páginas em branco de um caderno velho e o tronco do abacateiro, um lápis que meus dedos abraçaram. Pude, então, voltar a observar pessoas, animais, objetos, estrelas, ocasos, luares, sol e chuva. Também esse esconderijo mantive em segredo por muito, muito tempo. Somente eu usufruía desse refúgio. Algumas vezes tive de separar-me da madeira que meus dedos abraçavam para esconder meu telhado dos olhos humanos. Difícil para pessoas “normais” entenderem que alguém com tantas ocupações e responsabilidade, vez em quando sumisse, se escondesse em um telhado solitário. As pessoas práticas, realistas, não têm um telhado para subir e muito menos um tronco de abacateiro entre os dedos. São normais! Esforço-me para ser como elas. Vão rir de mim. Não gosto que riam de mim. Um dia alguém desvendou meu segredo. Quis subir comigo no meu telhado. Achou bonito e natural. Desejou compartilhar cada ondulação das telhas, conjeturamos a natureza dos pequenos ovinhos nas frestas dos tijolos, concordou ou discordou de minhas observações, mas nunca questionou os porquês das falhas e defeitos. Fiquei tão feliz em poder partilhar com alguém meu esconderijo que só pude amar a esse alguém. Atrevi-me a levar outras pessoas para conhecerem o meu telhado. Gostaram. Não riram de mim. Fiquei ainda mais feliz. Nenhum prazer pode ser total se não for compartilhado.

            Aos poucos me fui livrando dos compromissos, das atividades comuns e, definitiva e explicitamente, tomei posse do meu pé de abacate que me leva ao telhado-refúgio de onde posso observar o mundo, as pessoas, os animais, os poentes, a chuva, o sol, as festas, os funerais, a vida e a morte.

             Mudei-me definitivamente e agora moro no meu telhado. Abraço com firmeza meu tronco de abacateiro e conto histórias para o meu pé de abacate.

            Se alguém quiser escutá-las, é só vir ao meu quintal.

FIM

Abacateiro