Bem...Foi
assim
Maristel
Dias dos Santos
Ela acordou naquela manhã certa que iria encontrar o carro que
procurava. Queria um fusca. Podia ser velhinho, mas tinha que ser lindo. Que
fosse branco, era essencial. Deveria ter rodas bonitas, volante esportivo e
bancos de veludo. Estava querendo demais? Querer demais é a fórmula para se
conseguir a metade. Ela sempre pensou assim. Afinal, querer não custa nada.
Ligou o motor do seu maravilhoso “Gol” cheio de som, vidros raiban, e teve
certeza que não aceitaria menor conforto no fusca que ia comprar. “Beleza é
fundamental”. Passou na casa de uma amiga, pois no caso de encontrar o carro,
precisaria de outro motorista para pegá-lo. Ao chegar ao primeiro
estacionamento ela o viu. Era aquele mesmo. Bem velhinho, meia oito, mas que
lindo! Branquinho, talas largas, rebaixado, bancos altos, de veludo!
Encantou-se. Além disso, motor novo, 8.000 km. Um achado. Eureka! Comprou-o. Ele
anda! Mas andava fazendo um barulho infernal de lata raspando em lata.
Parecia uma bateria de escola de samba. Tudo que ele tinha era beleza e motor. O
resto, suspensão, direção, juntas, tudo ruim. E sambando foram, o mais rápido
que era possível, para o pronto socorro, oficina V.W. Teria de gastar um bom
dinheiro, mas mesmo assim, sobraria algum da venda do “gol”, que já estava,
praticamente, efetuada. Quando estava entrando, sua amiga que havia chegado
antes dirigindo o gol, impediu-a de continuar e falou:
__Espere um pouco. Será que você vai querer entrar? O Sérgio está
aí dentro.
__Verdade? Respondeu e foi em frente. Não fugiria desse encontro
embora trêmula e taquicárdica. Imaginou que fosse sofrer um mal súbito e cair
morta aos pés daquele homem. Puxa, como seria romântico! Até mesmo morrer
seria ótimo nesse momento. Parou o carro em uma vaga indicada pelo mecânico,
desceu, conversou, alisou seu novo carro velho e só depois lançou um olhar de
180 graus. Foi aí que viu. Estava junto a um gol branco, o pé apoiado sobre o
pára-choque do mesmo e olhava para ela. Incrível, 10 anos se passaram desde a
última vez que se encontraram e ele era ainda o homem mais lindo do mundo. Não
mudara nada. Se alguma mudança houvera tinha sido para melhor.
Inconscientemente levou a mão a garganta como se quisesse segurar o coração
que ameaçava sair pela boca. Rápido se recompôs e fingindo a maior
naturalidade do mundo, retribuiu o sorriso sutil que lhe era enviado e
surpreendeu-se por ele permanecer ali parado na mesma posição. Não acreditou!
Impossível! Mas, então, não saiu correndo? Era essa a cena que sempre
imaginara se um dia o acaso os colocasse assim, frente a frente. Fugindo,
evaporando, morrendo de medo que ela o abordasse. Pensou: pois será assim
mesmo. Você está pedindo... Dirigiu-se para ele, arrumando, displicentemente,
a fivela do cinto que teimava em abrir, com a “maior
naturalidade” do mundo. Dentro de
si, um vulcão prestes a entrar em erupção. Necessário contê-lo, mas quase
impossível. Afinal, esse era o “Homo”. Aquele ao qual amara mais que a própria
vida. Aquele por quem renunciou a tudo o que havia conquistado, a duras penas,
no decorrer de uma longa e sofrida vida: marido, posição social, respeito de
parentes e amigos. Por dois maravilhosos anos viveram uma paixão alucinante.
Deixaram-se levar por um turbilhão cor-de-rosa de felicidade. Jogaram tudo para
o alto e assumidamente desafiaram qualquer código moral, religioso ou social.
Desafiaram, mas perderam a guerra. Foram vencidos e retornaram, mansos e
amestrados animais, aos seus antigos “habitats”. Para o bem geral da nação,
separaram-se. Nunca, porém deixaram de se amar. E agora, esse reencontro! Nada
sabia dele. Continuaria casado? Certamente. Caso contrário a teria procurado.
Ela, porém não pôde suportar o retorno a um casamento que, se já era um
castigo, seria depois um suplício. Há muito estava só. Lembrava-se que o
trato tinha sido esse: se um dia se tornassem livres iriam se procurar. Ninguém
procurou ninguém e agora, por que ele não saía correndo? Por que permanecia
ali, em pé, sorrindo, esperando que ela se aproximasse? __Como vai, Sérgio?
Estendeu-lhe a mão.
__Bem... __agarrando com força a mão que ela oferecia.
__É... comprei aquele carrinho e estou pondo ele em ordem porque devo
partir para o exterior dentro de poucos dias e não quero deixar as “crianças”
a pé.
__Você vai para onde? __ uma ruga entre a sobrancelhas...
__Flórida. Estados Unidos. Sabe, veio de lá uma irrecusável
proposta de trabalho e você sabe, aqui a barra...
__Pesada, não é?
__Pois é. Eu tenho que recomeçar a minha vida e lá...
__Vai com quem?__ ele quis saber.
__Com meu filho. Já está um rapazinho e para ele a mudança com
certeza será saudável.
__Então, é verdade que você separou-se... Está sozinha?
__Sim ... e nem os velhos amigos lembram de ligar...__ ironizou.
__Não sei o seu telefone... Já procurei...
__Verdade?__ falou com algum sarcasmo. Afinal, numa cidade pequena
como aquela, não é difícil descobrir um número de telefone, ainda que ele não
conste do catálogo.
__Não consegui...
Foi então que o sarcasmo transformou-se em ternura. Aqueles olhos azuis
acinzentados, “da mesma cor incerta dos
olhos da criança que acaba de nascer...”, sinceros, verdadeiros,
derreteram sua alma __Meu telefone é 23145. Ele repetiu os números como
se quisesse memorizar e perguntou: __Quando parte?
__Dentro de 10 dias. Foi aí que lembrou. Dali
a dez dias seria 20 de dezembro e era o dia do seu aniversário.
__ Dia vinte... Que presente você estará
me dando, hein? Havia um jeito machucado naquelas palavras.
__Na verdade meu vôo está marcado para o dia 21...
Nesse instante a chamaram. Tinha de ir comprar os pneus novos. __Que mais eu
poderia fazer? O que posso esperar?
Ele não respondeu. Ela estendeu-lhe a mão num
“tchau” bem impessoal, quase frio e falou:
__ Ligue para mim. Agora você sabe o meu telefone.
Talvez... E
saiu. Sentiu que o olhar dele a acompanhava enquanto se afastava e, ao entrar no
carro, arriscou um “close” e ele a olhava tristemente com aquele seu olhar
de adeus, que ela tão bem conhecia. Sentiu o coração transformar-se em um
bloco de gelo. Era uma pedra que agora carregava no peito. Não quis acreditar.
Ele ligaria. Afinal, tinham apenas 10 dias. Nada mais que 10 ínfimos dias para
voltarem a se ver. Ele ligaria. E, então, Meu Deus! Já não sabia que rumo
daria a sua vida...
1o dia - Arranja a maior briga com a amiga para não ter de
sair de casa. A amiga não sabe que ela espera. Iria ficar perturbando, ligando
a toda hora e o telefone tem de estar livre. 2o dia - É sábado. Ele
achará um jeito de ligar. Marcará para segunda feira. Encontrarão-se. Aí,
então... 3o dia -
Domingo. Não ligará. De que jeito? Hoje não terá a desculpa de sair para
trabalhar e a família vigia-o o tempo todo. Ela sabe como é. Hoje, não... 4o
dia - Que agonia! Anoitece... Não ligou! 5
o dia - Será tão difícil, assim? Desespera-se... 6o dia
- Transfere qualquer compromisso. Não pode arriscar sair de casa justamente no
momento... 7o dia - Meu Deus!... E se ele não ligar?...8o dia
- Sabe que não viajará mais no dia vinte e um. Transferiu a viagem. Verdade
que já não sabe nem mais se viajará. Se ele ligar... Se se encontrarem...
Se pedir que ela fique... Se decidir ir com ela... Se... Se... Se...
Além disso, tantas providências deveriam ter sido tomadas e ela não
teve tempo!... 9o dia - É hoje! Ele tinha de deixar para o
último dia. Amanhã é o dia do seu aniversário. Ele quer dar-se esse
presente. Evidente! 10o dia - Cada minuto leva uma hora para passar.
Não suporta mais. Imagina que vai morrer de ansiedade. Caminha pela casa feito
fera enjaulada. Mentalmente implora: ligue,
Sérgio, pelo amor de Deus. Algumas vezes, até em voz alta. Parece
enlouquecer. Por favor,
ligue........................................................................................................................................................................................
Acabou
o prazo, meu amor. Você não sabe se parti ou fiquei. Não encontrou um único
aparelho telefônico disponível. Se, ao menos, eu ficasse sabendo que comprou
uma ficha... Sabe? Eu só queria que você dissesse: “Por favor, não vá”.
E eu ficaria. É pedir demais? Podia ser então: “Quero vê-la, uma última
vez”. E eu correria ao seu encontro. Muito ainda? Digamos que você se desse
ao trabalho de comprar uma ficha, parasse em um telefone público, fizesse um
esforço de memória, discasse o meu número e falasse: “Adeus, boa viagem,
seja feliz, minha querida...” Ou qualquer outra coisa que fosse, que me
fizesse sentir pouco menos que nada. Nada. É assim que me sinto. Um grande, um
imenso NADA! Talvez eu pudesse saber que, afinal, valeu a pena amar, como eu o
amei, durante esses 10 intermináveis anos de separação. Foram 10 anos, 3.650
dias, 87.600 horas, 5.256.000 minutos de amor para você. Se você tivesse
ligado eu saberia que durante todo esse tempo eu amei um homem e não um rato.
Um covarde e vaidoso rato disfarçado sob a pele de homem. Não foram necessários
mais que 10 dias para pôr fim, liquidar, eliminar aqueles 10 anos de amor.
Sábio cientista que enunciou a lei da relatividade. Ela, só ela, pode
explicar quando 10 dias são muito mais que 10 anos...
A lei de Einstein e esta história que lhe conto, não é mesmo? Bem, foi
assim que ela desabafou sua frustração e dor. Pôde então partir, leve e
solta, ao encontro da sua própria vida.