Bichos
e bixos
Maristel Dias dos Santos
Nunca entendi o porquê de nascer em Faculdades essa aberração lingüística.
Os que lêem nas telas da TV, os menos alfabetizados ou pouco aprofundados na
gramática devem ficar confusos... Se a TV escreve assim deve ser o certo! É
fato que a falta ou a má colocação de uma vírgula pode mudar gravemente o
entendimento do texto. Ex: Ele foi à guerra. Morreu? Não, voltou! Ou: Ele foi
à guerra.Morreu!Não voltou. É mais ou menos isso...
No entanto, para a felicidade geral da nação e dos escritores essas
questões vão-se tornando de somenos importância. O conteúdo, a
singularidade, a importância, a beleza do texto têm mais valor. A correção
pode ficar a cargo de algum gramático ou de puristas exigentes. O que, porém
se torna angustiante é quando alguém vem dizer ao escritor sobre o quê ele
deve ou não escrever Para mim isso é inconcebível. Não sou escrituraria nem
copista que ganha para escrever ou transcrever textos. Posso até fazê-lo, se
isso se torna um trabalho remunerado, mas detestaria... Juro! Por isso apenas
sorri quando alguém veio dar-me um recado: “Pediram que você parasse de
falar de bichos". Eu, que não escrevo para agradar gregos ou troianos apenas
sorri.
Fazer o quê se eles acontecem em minha vida mais que filhos, netos,
amigos, inimigos, vestidos, sapatos, batons, culinária ou dietas de
emagrecimento? Fortuitamente, casualmente, ou... necessariamente, eles acontecem
na minha vida e de um modo tão surpreendente que eu preciso, tenho de contar,
falar, até para que eu mesma acredite.
Desta
vez, já estava eu indo para a cama quando ouço o ganido de um cão sendo
escorraçado do pedaço de rua que ele escolheu para viver. Olhei lá do alto de
minha janela e vi que era o Fofão, amigo da Tadinha, aquela que eu tirei da rua
com seus filhotes e arranjei-lhe um lar (né, Marcelinho e Débora?), após
castração, vacinação e muito carinho.O Fofão ficou perdido no pedaço; eu
tentei atraí-lo, pois passa fome, toma chuva e sol, ali, bem perto de mim.
Convidei-o a entrar, mas ele é arredio e teme (com razão) o ser humano. Portão
aberto e palavras de convencimento de nada adiantaram. Comeu o que eu lhe dei,
permitiu um leve cafuné, deu um abano de rabo e quem se aproveitou da situação
foram as minhas duas rueiras que escaparam como foguetes. Agora eu estava só...
Nenhum cachorro para latir caso alguém se atrevesse a pular meu muro. Passo a
noite lá fora, portão semi-aberto, assoviando para as "meninas". O guarda
noturno que já estava encafifado com minha atuação inovadora acabou por parar
a bicicleta diante do meu portão e ficou a fazer-me companhia, tentando
convencer-me a fechar tudo e ir dormir. “Elas
voltarão ao amanhecer...” E eu: “Mas
como dormir sem um cachorro no quintal?”
Já passava das 4:30
hs
quando um tipo estranho se aproxima e me pede um copo de água. Senha mais que
conhecida para um assalto. O guarda fez um movimento qualquer que levou o cara
mudar de intenção e foi quando eu vi algo em seu braço. Perguntei: “O
que eu você tem aí?” E ele
mostrou um minúsculo cãozinho dizendo que o tio mandou que abandonasse em
algum lugar. Será que preciso contar o resto? O cachorrinho cabia na palma da
minha mão e chorava baixinho. Foi amor à primeira vista!
Só pra não ficar sem final. O guarda mandou que o moço fosse embora e,
rindo, me disse: “Agora pode ir dormir...
Já tem um cão para guardá-la...”
Foi o que eu fiz, tinha que alimentar o bichinho. Quanto às fujonas,
Fifi e Panga chegaram de manhã, uma bolha em cada pé, manquitolando como duas
velhas caquéticas e a maior cara de pau, pedindo arrego.
Pronto, o mini cão achou um lar e foi bem recebido por toda a bicharada.
Eu me apaixonei pelo projeto de cão e a família ganhou um novo membro. Só
lhes pergunto: quem fica a noite inteira numa rua como esta à espera de um
animalzinho destinado à morte? E como obedecer a ordem de seja lá quem for:
“Pare de falar dos bixos” Ah! Desculpe, dos bichos! Semana que vem tem mais
novidades a respeito dos BICHOS.