“Bisavozice”

 

Maristel Dias dos Santos

           

                            

             

       

            

            Não vou revelar minha idade, não! Mesmo porque não a trago oculta e até me orgulho dessa “maledeta” que me acomete e me faz bisavó! De repente, não mais que de repente, miro-me no espelho da vida e me surpreendo: menina-moça, mulher jovem, mãe desvelada, avó a contra gosto e bisavó, sob protesto. E parece que foi ontem mesmo que iniciei minha jornada terrestre. Impiedosos são o tempo veloz e a juventude apressada. Para consolar-me, dizem os amigos: __A boa árvore dá bons e abundantes frutos. Respondo-lhes: __Tiririca também se multiplica verdejantemente e com fartura. Porém, ter vivido tantas fases da vida é mesmo uma bênção, pois posso ser testemunha viva de várias épocas de nossa curta existência.

            Houve um tempo, antes da ditadura militar, em que era coisa muito natural  sermos parados  por um guarda de trânsito que nos mandava para o acostamento e pedia os documentos. O marido ou o motorista enfiava disfarçadamente a mão no bolso e colocava uma gorda nota dentro da carteira, junto aos documentos. O guarda afastava-se um pouco, conferia a chapa do carro e devolvia a carteira (claro que sem a grana) desejando uma boa viagem. Fiquei escandalizada na primeira vez em que assisti a tal acontecimento. Meu marido acalmava-me dizendo que era de praxe e mesmo que tudo estivesse em ordem o guarda iria encontrar algo para multar, que era assim mesmo que as coisas funcionavam. Depois veio a ditadura e as coisas mudaram. Você que não caísse na besteira de passar uma notinha.Ia imediatamente preso ou levava uma bronca daquelas de um policial super ofendido em seus brios profissionais ou no seu medo supremo de ser apanhado em um deslize. A polícia era incorruptível e tentar corrompê-la, grave crime.

            Para a “felicidade geral da nação” voltamos à democracia e os comandos agora fazem pedágios em movimentadas estradas, como a TV nos mostrou, aceitando até um Real para permitir o prosseguimento da viagem.

            A mulher, a mãe, a avó, a bisavó entra em parafuso. Será que para ter a liberdade de ir e vir, direito constitucional, o brasileiro tem de pagar em espécie, comprar diuturnamente a sua liberdade? E isto é o que chamam democracia? A Democracia, disseram-me, é o governo do povo. Demo significa povo.Isto quer dizer que todos mandam? Por isso todos cobram? Será que esse Demo refere-se a povo ou a um outro certo demo? É que, para mim, isto mais parece uma infernal anarquia. Completa bagunça diabólica.

            Ainda assim eu lhes digo: é melhor ser integro entre homens íntegros que ser corrupto entre corruptos. É nesse meio que eles se devoram reciprocamente. Bom seria se conseguissem se exterminar definitivamente, como a cobra que devora o próprio rabo. E que Deus nos perdoe alguma criminosa intenção. 

21/01 1999