Bona e eu
Menção Honrosa no II Concurso de Crônicas da Biblioteca Municipal "Chico Mendes" de Pirassununga cujo tema foi "Entre coroas e chapéu de palha".
Maristel Dias
Mal me foi apresentada e atirou-se sobre mim mordiscando-me o pescoço e tentando arrancar-me a orelha. Com muito esforço consigo fazê-la descer do meu colo.É só uma criança! Não tem a menor noção do seu tamanho. Bona é filhote de Dog Alemão e mais parece um bezerro.Tem dentinhos de leite e uma arroba de músculos, megatons de energia e toneladas de amor para dar.Trouxeram-na para que eu não me sentisse tão só após o inesperado e trágico desaparecimento do Urso, que era também enorme, mas um 'cavalheiro'.Bona é uma louca! Dizem que ela é minha.Absolutamente não é o que ela pensa.Passa o tempo todo ligada aos meus movimentos.Se decido estender-me no sofá para ver TV, salta sobre mim e resolve deitar-se ao meu lado. Viro-me de costas para ela, que de outro modo não cabemos as duas no sofá. Sinto patas macias como mãos de criança gorducha empurrando-me. Joga-me para fora, sobre o tapete.Agarro-me às almofadas.Estou bastante interessada em ver essa notícia que o Jornal Nacional exibe: Famoso político beijando criançinhas e tomando cafezinho com sertanejos sorridentes.Como parecem felizes esses infelizes!
Levanto-me e olho para Bona com cara de boba.Ela fica a piscar, patas cortando o ar e olhar interrogativo de quem não entendeu o porquê de eu ter fugido.Desisto do noticiário.Até às eleições essa peça teatral se repetirá milhares de vezes.Entre coroas e chapéus de palha todos políticos se revezarão como protagonistas principais nessa tragicomédia brasileira.Melhor dedicar-me à Bona e às novelas. Estas, pelo mesmos, não exigirão de mim voto obrigatório.
Deito-me no outro sofá. Bona vira-se e repousa a bela cabeça entre as enormes patas.O olhar travesso revela a intenção de mudar-se de sofá.Grito que não se atreva.Que fique no dela.Mexe-se nervosamente e num salto, pula sobre mim e repete-se toda a cena.Definitivamente não cabemos no mesmo sofá.Acho que ela não gosta também de novela. É uma ferrenha defensora da moral e bons costumes.
Saio do chão. Sento-me na poltrona. Ela não desiste. Salta do sofá e pula para o meu colo.Com pernas e braços impeço-a de conseguir seu intento. Senta-se no chão e começa a mastigar-me o pé. Grito, reclamo, apanho um jornal, enrolo-o e bato com força no braço da poltrona. Bona assusta-se, deita-se desconfiada aos meus pés e cai em profundo sono... ronca! Está recarregando a bateria. Fico imóvel, com medo de acordá-la.
Trouxeram-me Bona e deram-me de presente para ela.Podem ficar sossegados... Não terei mais cinco minutos de solidão, nem de televisão!
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