Brasil Coração  

São Paulo 450 anos

Maristel Dias dos Santos

                 

IL

 

I

 

III

Do planalto de Piratininga

Da pequena vila de São Paulo

Partem e chegam as Bandeiras  

Dos quatro pontos cardeais,

Para os quatro cantos da América

Que há de tornar-se Brasil.

Não há estrada ou caminho

Para os duros passos conquistados

A golpes impiedosos e afiados

Que dilaceram vegetação e coração

Ao ter de abater feras e ver derrubado

O que quer que impeça a caminhada.

Vai vencer o selvagem, o pirata estrangeiro,

O réptil  peçonhento, as febres malsãs.

Segue intrépida e valente para a luta

Pela sobrevivência do planalto e trará

O índio escravizado que há de ser negociado.

Talvez o ouro, a prata, as esmeraldas

A riqueza tão sonhada e apregoada

Que há de haver nos confins do sertão

    II

Na rua paulista de terra batida

O alarido, choros, despedidas

Em três línguas diferentes.

É o português, o tupi, o espanhol,

Algumas vezes misturadas numa só,

A língua sofrideira, a língua brasileira!

Vai o arcabuz, a escopeta, o mosquetão

E a “coira de anta”, a couraça, a peiteira,

Proteção maior na tenebrosa excursão.

Centenas de homens se vão

Quantos voltarão? Quantos morrerão?

À frente da tropa tremula a bandeira,

Sobre a estranha e bizarra formação.

Índios nus, mamelucos seminus

E a bandeira a orientar o estranho escalão

De valentes ou dementes com machados,

Foices, facões, o arco e a flecha silente

Na mata fechada a arma eficiente.

Baús de pólvora cheios, cobertores,

Redes de dormir, cuias de estanho

Para o conforto desse bando estranho.

Da mandioca a farinha se fez bolo

É o pão “farinha de guerra”

Que deve durar mais de ano,

E alimentará além da caça da terra

Da ave do ar, do peixe dos rios

No caminhar incansável, desumano.

Os corpos feridos, fétidos, doentes

Cobertos anos a fio pelos mesmos panos

Vão os brancos, maltrapilhos barões,

Chapéus de largas abas e a carapuça

Feita de couro sob o lenço atado a fronte.

E assim desaparece a coluna mata adentro

Guiada  pelo instinto que o medo aguça.

     III

O vilarejo volta à calma, mulheres e crianças

A esperar, carregadas de esperanças,

Que de ouro e prata venham carregados

E de esmeraldas as mãos cheias

E milhares de índios apresados

E histórias do sertão desbravado

A glória de ao invasor ter derrotado

E mais um território incorporado

Mapa de desenho sempre renovado.

Mas não é para todos a vitória

Notícias de morte trazem dor

De sangue e lágrima a volta é coroada

Quando de festas a partida foi.

                         IV                                                                                         

Em busca de aventura a humana ambição

Fez andar  caminhos  em compasso de passos.

Quilômetros milhares e a cada palmo à frente

Crescia o país mais um metro criando os traços,

Rotas de um Brasil, contornos de imensidão

Desenharam-se  com sangue de bicho e gente

Para cravar um chão em forma de coração

Que o nosso peito enche de paixão!