Candelabros Italianos

 

 

 

 

 

 

 

Maristel Dias dos Santos

                                                                

                

                Era ele um jovem divorciado que morava sozinho e, cansado de suas intermináveis noites solitárias, resolveu convidar uma colega, que há tempos andava paquerando, para um romântico jantar à luz de velas em seu apartamento. Detalhe: ele próprio prepararia a salada, a massa, o suflê, a sobremesa e escolheria o licor!

        Passou parte da manhã fazendo as compras após lutar duas horas com listas e receitas. Depois, se sentou no meio da sala e poliu toda a prataria. Passar o aspirador, tirar o pó dos móveis, esconder as roupas sujas e trocar os lençóis da promissora, larga e perfumada cama de casal ocupou boa parte do seu dia. Em seguida, para a cozinha transformada em praça de guerra. Era sangue por todo lado, isto é, molho de tomate até no teto. Enquanto o fogão rugia a todo vapor dedicou-se à decoração da longa mesa coberta por linhos bordados, porcelana chinesa, cristais da Bavária. Não se esqueceu do balde de gelo para o vinho francês e nem dos candelabros de prata (herança de uma já esquecida bisavó italiana) e em cada um  deles enterrou belíssimas velas vermelhas, onduladas, cujas depressões, em caracol, uma lâmina fina e dourada circundava. Correu para a cozinha a tempo de salvar o assado e então se quedou admirando o belo trabalho que havia conseguido realizar de ponta a ponta do pequeno apartamento. Tudo maravilhosamente pronto para ganhar a caça no primeiro lance do jogo. Mas ele próprio estava horrível. Suado, lambuzado, com manchas e cheiros de todos os ingredientes condimentares. A cada cinco minutos consultava o relógio. Tinha ainda uma hora para relaxar num cinematográfico banho de espuma e óleos perfumados. A ansiedade natural não permitiu mais de meia hora entre espumas, barbeador e a escolha da roupa que vestiria. Mais uma olhada no relógio para descobrir que em meia hora a campainha da porta tocaria e...  Trrriiimmmm, trrriiimmm. Mas era a campainha do telefone que soava. Sentiu-se aborrecido. Não desejava nenhuma interferência externa nesta noite memorável. Tinha de atender e despachar qualquer inconveniência. _ Alô... Hein?... Ahh... Bem, que posso eu falar? Não, não... Tudo bem... Marcamos para um outro dia, hein? Não se preocupe. Está tudo bem...

Lentamente recolocou o fone no gancho, pálido, deprimido como se estivesse sonambulando. __ “Ela não vem...” porém, em um segundo, correu para o armário do quarto. Febrilmente revira gavetas, abre caixas, esparrama de tudo pelo chão até encontrar o que procura. É uma pequena arma automática. Tira o pente e verifica: apenas dois projeteis. “É o suficiente”, pensa e totalmente alucinado volta para a sala. Não hesita, não treme, ergue decididamente a arma e, um clic, dois clics. Os magníficos candelabros italianos dobram-se, mortalmente feridos e partem-se ao meio. Em seguida atira a arma vazia dentro do balde de gelo,  degolando vinho francês que transborda tingindo  de carmim o linho bordado.

Aproxima-se da mesa com as feições alteradas, denunciando maquiavélicas intenções. Apanha as quatro pontas da belíssima toalha, faz uma rica e cara trouxa, dirige-se à porta da cozinha, vai até ao conduto lixeiro e joga tudo andares abaixo. Bom: a moça que me contou essa história garantiu-me que nenhuma mulher teria atitude semelhante, habituada a preparar banquetes e a levar “bolos”. No máximo, qualquer uma delas tomaria todo aquele vinho no gargalo e iria dormir feliz em seus lençóis perfumados. Garantiu-me ainda  que se essa história eu transformasse em uma crônica, todas as minhas leitoras diriam ao pobre mancebo: “Bem Feito!”.

 Não sei... Não sei... O que vocês acham?  

                                         ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~