Carta
de Amor
Menção
honrosa no concurso da Biblioteca Chico Mendes – Pirassununga /1999
Tema:
um pequeno ponto luminoso
Maristel
Dias dos Santos
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Meu querido, quantas cartas já lhe escrevi! Você nunca as recebeu? Eu
sei. É que eu nunca as enviei. Tinha medo que caíssem em mãos indevidas. Mãos
que sujariam a pureza de um sentimento verdadeiro e indestrutível. Esta,
pretendo enviar. Porém, quem lhe escreve agora, é apenas uma sombra, uma
lembrança daquilo que foi e, por isso, sem culpas. Parece-me até que é um
dever fazê-lo. Quero dizer: __
“Olá, como vai?” Quero contar
sobre minha vida. A parte de minha vida que você desconhece. Por quê? Não sei
bem. Talvez porque sou agora uma velha
mulher e cada dia que passa é
um dia a menos e nunca um dia a mais. Começo já a contagem regressiva.
Vivo os últimos tempos desta vida. E, afinal, foi nesta vida que o conheci e
com você partilhei os melhores anos da minha jornada terrestre. Seria ingrato
partir sem dizer adeus, ir embora assim, sem a menor explicação.
Se eu o amei mais que a mim mesma, também fui enormemente amada e esse sentimento tão grandioso ficou parado, suspenso no espaço, no tempo. Renunciamos “para a felicidade geral da nação” e, talvez, quem sabe, a nossa também. Enfim nunca saberemos o que seria de nós se tivesse sido diferente. Quando desisti de você, quando “naquela manhã linda de janeiro eu disse adeus...” enlouqueci. De meus olhos correram rios ininterruptos por muitos anos. Aos poucos a fonte foi secando. E, definitivamente, secou. Nunca mais eu chorei. O coração pode arrebentar o peito, soluços e suspiros partem do fundo da alma, mas os olhos permanecem secos. É um pranto terrivelmente doloroso. As lágrimas devem servir para amaciar a dor e ajudá-la a escorrer para fora.
Voltei então ao antigo ninho, para o velho companheiro, mas nada tinha
para lhe dar a não ser a liberdade. Foi o que fiz. Depois atirei-me de cabeça
e mergulhei num mundo desconhecido a procura de encontrar-me. Conheci muitos
tipos de amor. Amor?! Não, nunca
encontrei o verdadeiro amor nesse mundo leviano de noitadas, bebidas e ilusões.
Encontrei apenas interesses, desejos, paixões. Em meu coração, nunca mais, nem
um simples arremedo daquele sentimento que me levava a você. E, sabe Deus que
eu procurei! Alguns me amaram. A muitos eu fiz sofrer. Não por querer. Muito
mais por “não querer”.
Ao par dessa vida louca
havia a necessidade de ganhar a
subsistência, de garantir o meu sustento e,
se algumas vezes venci, noutras fui derrotada. Por fim prestei um
concurso, tornei-me estável e
consegui sobreviver numa vida que se não é de luxo, é segura, digna e me
proporciona um cotidiano confortável e independente. Moro em uma boa casa.
Tenho banheiro e TV no meu quarto, um carro com menos de vinte anos de idade, um
cão pastor e uma gata Sagrada da Birmânia. Habito uma torre com fosso, muralha
e tudo. As filhas, todas casadas e em suas casas, graças a Deus, já me deram
sete netos e ½. Envolvo-me o menos possível e a distância me faz amada por
esse bando de netos e netas e filhas e genros (uns mais, outros menos, alguns até
mesmo nada). Mas já nada disso importa.
O velho companheiro vem, às vezes,
e ainda fala de amor. Até já posso amá-lo com a ternura e carinho que
devo ao primeiro amor. A lembrança, contaminada pela doçura dos tempos tenros
da juventude, é um pequeno ponto luminoso no passado umbroso. Entretanto, não abro
mão da minha amiga maior, a solidão, por nada deste mundo! Acordo quando estou
farta de dormir, me alimento quando sinto fome e o relógio tornou-se
a peça mais inútil nesta minha vida.
Ainda gosto do banho noturno, do perfume na pele, da lingerie com rendas
e longas camisolas que se arrastam atrás de mim quando subo ou desço as
escadas, mas que são desprezadas quando, nua, mergulho entre lençóis macios e
perfumados. É isso aí. Ainda gosto de mim! Gosto muito e rio-me das pessoas
que têm pena da minha solidão. Não sabem o quanto estou bem acompanhada. Sou
ótima companhia para mim mesma.
Se andei por caminhos tortos e espinhosos a procura de, sei lá o quê, já
disso me libertei, há muitos tempo. Preciso de tão pouco e tenho tanto! Sou
feliz! Enfim, sou feliz.
E você, meu amor? Como eu queria saber que você também encontrou a
paz! Queria tanto saber da sua vida! Queria tanto saber de você! Do você de
hoje que, certamente, não é o mesmo que eu conheci, assim como eu também não
sou mais aquela que você amou, um dia. Se hoje nos víssemos, com certeza, não
nos reconheceríamos, nos estranharíamos porque, fisicamente, já não somos os
mesmos e nossos olhos físicos só sabem ver a matéria. Por isso não desejo vê-lo,
ou melhor, temo ser vista.
Mas, quando nos reencontrarmos após a nossa
morte, nossas idades redimidas, nossos sentimentos sublimados, havemos de
nos reconhecer e, quem sabe, poderemos usufruir daquela felicidade sobre-humana que tínhamos quando podíamos privar, um da presença do
outro. Que sentimento estranho e magnífico nos unia. Dizíamos: “É
terrivelmente maravilhoso”, lembra-se? Pois é. Éramos jovens e nossos corpos
vibravam em perfeita sintonia, de acordo com nosso tempo, com nossas idades.
Hoje tudo mudou. Que bom que soubemos resistir ao apelo quase irresistível dos
nossos desejos. Conseguimos! Vencemos! Gloriosamente triunfamos, sem destruir o
amor. E esse amor palpita levemente em meu peito como um pombo adormecido. É
hoje o amor perfeito.
Bendigo e agradeço a Deus por ter-me dado a conhecer e ter vivido tão
grande amor. Obrigada querido, pelo amor que um dia me deu. Que Deus o proteja e abençoe.
Que o faça feliz e àqueles que você ama e porque você ama , eu também amo.
M.
