Confiar? Precisamos? Devemos?

 

           

 

 

               

 

 

               

 

            Sábado, quase 10 horas noturnas, ouço bater palmas. Havia acabado de compor uma bela página poética, com as devidas ilustrações, bonito fundo musical e de enviá-la para a Net, com sucesso (coisa difícil de acontecer). Estava eufórica, agradeci os aplausos e ri de mim mesma. Que palhaça! Mas... Estaria alguém à porta, a essa hora? Fui espiar pelas janelas e não vi ninguém para lá das grades do portão. Volto ao trabalho. Passados alguns minutos, palmas de novo. Ah, mas agora, não! Justo quando acabo de dar um “enter” na hora errada? Quem se atreve a bater palmas?
            Levanto-me, já então tanto quanto zangada, e vou à janela da cozinha, pois em horas essas, abrir portas é temeridade.Um homem lá fora tenta falar comigo, porém a barulheira dos cachorros impede-me de ouvi-lo. Indico-lhe o outro portão e vou para a janela da sala, ali onde um corredor fechado permite a presença apenas da mais pequenina cachorra. __ “Quem está aí? O que deseja?” Grito o mais alto que posso. O moço chega e tenta contar os detalhes de uma história entremeada de interjeições: __ “ai, que vergonha...” “Nossa, que situação...” “Nunca pensei...”.

            “Tá bom moço, vai logo ao assunto...”.

            Fico então sabendo que ele, a mulher e duas crianças, mais uma cunhada e um bebê de 11 meses estavam em casa cozinhando um arroz e feijão quando acabou o gás. Parei um segundo para pensar.  É certo que ele queria dinheiro.__ “Já tenho 8 reais, mas a senhora sabe quanto está custando o gás?”

            Claro que sei, pensei e falei;__ “Espera aí , vou ver se tenho algum trocado”. Subi as escadas à cata da bolsa e descobri que o único dinheiro que tinha era uma nota de 20 reais. Ora, falei para mim mesma  e se tivesse acontecido comigo? Quantas vezes fiquei sem gás na metade de um jantar e ainda com visitas?  Lá vai meu único dinheirinho. O moço assustou quando viu o valor da nota e prometeu, por tudo quanto é santo, que na terça feira receberia seu ordenado e viria devolver-me o dinheiro. Aí foi mesmo que eu me zanguei: __ “olha, moço, eu não estou emprestando dinheiro. É seu, faça com ele o que quiser”.

 Ainda insistiu querendo que eu ficasse com um documento dele.  Entrei o mais   rápido que pude, dizendo: __Amém, "nóis" tudo... Em resposta às suas bênçãos.

Gente, não pense que foi um ato de pura bondade. Não foi! Foi, isso sim uma clara demonstração de egoísmo e medo. Não queria passar por mais uma decepção, após duas terem acontecido nas últimas semanas. Uma, com a faxineira que pediu o pagamento do dia ainda não trabalhado e nunca mais voltou. Outra, com o jardineiro que parou o serviço ao meio, dizendo ter quebrado a máquina e não ter dinheiro para mandar consertá-la. Levou o dinheiro do trabalho que não fez e... O que você acha? Voltou? Não! Acho que nunca mais o verei. Contei a uma amiga que me disse: Maldito o Homem que confia no Homem, isto está na Bíblia. Não posso acreditar. Só se for do tempo do olho por olho, dente por dente, do velho testamento, pois depois de Jesus as regras mudaram. E olha, os dois que me enganaram diziam-se evangélicos.  Então é isso que se aprende em tais templos, onde se fala gritando como se Deus fosse surdo? Onde se geme e emitem sons ininteligíveis e histéricos como se estivesse acontecendo lá um orgasmo coletivo? Se estiver sendo injusta, que Deus me perdoe.

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