Contatos eróticos de terceiro grau

Maristel Dias dos Santos

                                                      

 

 

 

                 Seu nome era Gedeão. Velho solitário escolheu passar o tempo de vida que lhe restava naquela praia deserta, na pequena aldeia de uns poucos caiçaras que com suas famílias tiravam da pesca  a pobre subsistência. Havia também a venda da banana nativa, levada para a beira da estrada, à espera de eventuais compradores, passageiros de um ou outro carro que por ali transitasse.

                        Sua casa era uma choupana; por fora igual a de todos os outros, mas recheada de livros, revistas, recortes de jornais que juntara durante toda uma vida de intelectual frustrado. Desejara ser um grande escritor e não passara de um jornalista medíocre. Trouxera também a velha máquina de escrever e a coleção de discos com músicas clássicas e populares de apurado bom gosto.

                        Decidira por essa vida ermitã quando da morte da esposa, poucos meses após o casamento da última filha. Era agora sozinho no mundo. Quem sabe se ali, no bucolismo daquela paisagem, encontraria a realização de um sonho: escrever o livro que haveria de imortalizá-lo. Essa era a sua última chance. Vivera e lutara toda a sua vida pela glória, pelo sucesso e o que conseguira foi uma vida comum de chefe de família bem sucedido. Nada, além disso. Nenhum reconhecimento público, nenhuma aventura gloriosa, nenhum caso passional. Apenas mediocridades. Ele sabia, sempre soubera  em seu íntimo que  não era um homem medíocre e por isso se rebelava. Sempre acreditara ter nascido para um grande destino e por ele havia esperado a sua vida toda. Que sabe, pensava, quem sabe não seria esse o tempo da grande realização? Porém o papel colocado na máquina permanecia em branco há meses.

                        Em uma noite sem lua, dessas em que o céu fica negro e as estrelas parecem diamantes faiscantes  prestes a desabar sobre a praia deserta, em que o som do mar torna-se tenebroso e ameaçador como se fosse atirar-se feroz sobre a aldeia, Gedeão apagou cedo a única e fraca lâmpada de sua casa, decidido a dormir. Estava com medo. Um inexplicável medo provocava arrepios que percorriam todo seu corpo.

                        Deitado, olhos fechados, fazia as orações que o hábito infantil plantara em seus costumes sempre tão rotineiros e que funcionavam como remédio infalível para relaxar, bocejar duas ou três vezes e cair em sono profundo. Foi então que, através das pálpebras cerradas, percebeu uma luminosidade totalmente inexplicável. Abriu os olhos e notou que a luz vinha através das frestas da janela. Era da cor do luar, mas muito, muito mais intensa. Sem pensar duas vezes saltou da cama e abriu a janela. Um estranho objeto, maior que um barco, flutuava  bem a sua frente e emitia aquela luz ofuscante, impedindo-o de ver detalhes da aparição. Ficou ali, piscando os olhos e esfregando-os na tentativa de enxergar algo mais, através daquela luz deslumbrante. Uma porta abriu-se de cima para baixo e uma escada prateada estendeu-se diante dele. Alguém descia por ela. Podia agora perceber uma figura esguia e alta, toda prateada, tendo nas mãos uma jarra do mesmo material  branco e brilhante da nave e que ao aproximar-se lhe entregou. Sem que ouvisse vozes recebeu o pedido de encher a jarra com aquela substância a qual ele chamava de água potável. Estava abismado, mas a criatura não parecia animosa e como se fosse a coisa mais natural do mundo, Gedeão foi à cozinha e encheu o estranho recipiente com a água fresca do pote de barro, retornando incontinente, curioso de voltar a observar aquele ser estranho e lindo. Entendeu um agradecimento e, em fração de segundos, o objeto afastou-se horizontalmente deixando de ser visível.

                        Gedeão continuou à janela, perscrutando a escuridão, encantado, abobalhado... um disco voador? Um ser extraterrestre? Que maravilha! Só voltou a deitar-se horas depois quando desistiu de esperar o retorno do fenômeno.

                        No dia seguinte começou a escrever. Seria essa a fantástica narrativa que ele iria contar para o mundo. Duas folhas datilografadas e, só. Porém Gedeão esperava. Muitos dias se passaram e quando ele já desistia, numa certa noite escura como a primeira, foi despertado por um som celestial, música das esferas.  As frestas da janela resplandecendo. Correu, abriu-a e lá estava, como da primeira vez. Demorou um pouco mais para apanhar o jarro e observava atentamente para descobrir se era homem ou mulher aquele ser andrógino. Outra vez o agradecimento e a partida.

                        Voltou a registrar o fato, descrevendo com riqueza de detalhes a beleza da criatura e chamou-a de mulher. Agora só vivia para esperar a sua volta e ensaiava comunicar-se com ela. Pediria que entrasse em sua casa, deitasse em sua cama e permitisse  que ele tocasse em suas mãos, em seu corpo feito de luz. Tinha certeza que morreria de prazer se conseguisse realizar seu desejo. Morreria feliz, mergulhado em um orgasmo cósmico, eterno, incomensurável.

                        Gedeão delirava e andava pela praia, dias e noites, vigiando o céu. Já não comia, nem dormia. Resmungava rezas e orações pedindo o retorno da criatura que seqüestrara todos os seus pensamentos e desejos. As crianças que antes gostavam de rodeá-lo, para ouvir suas histórias e suas músicas, agora espiavam de longe aquele homem enorme e desgrenhado que caminhava falando e gesticulando para o céu. Se um pescador lhe dirigisse a palavra, respondia com sons ininteligíveis e prosseguia sem parar, braços erguidos, olhando o horizonte, andando, implorando. Passava as noites entre a casa e o mar num caminhar ansioso e incansável.

                        Naquela noite subiu nos rochedos para melhor examinar o horizonte. Lá em cima, exausto, enfraquecido, sentou-se na pedra mais alta e olhando o mar quebrando em espuma branca na base do rochedo, Gedeão chorou. Deixou que as lágrimas corressem inesgotáveis e imaginou que o mar, lá em baixo, era o reservatório de todas aquelas lágrimas. Abriu os olhos inundados e constatou que todo o rochedo e o próprio oceano se iluminavam. Ergueu o rosto e... ali estava a nave. Na escada o magnífico ser lhe estendia a mão. Num pulo se pôs em pé e a face molhada cintilou, iluminada por um sorriso de felicidade e pela luz azul da nave. Alcançou a mão que a criatura lhe oferecia. Todo o corpo debruçado sobre o abismo. Trêmulo de prazer e medo tocou com os seus, aqueles dedos e viu sua mão ficar igual à outra: brilhante, luminosa. Um pequeno salto, ajudado pelo seu único e grande amor, alcançou a escada. Sentiu-se envolver por aqueles braços. Sua cabeça ardente repousava agora em um peito forte e acolhedor. Pensou que fosse desfalecer de tanta felicidade. Ergueu o rosto e viu olhos negros e grandes fitando-o amorosamente. Lábios macios cobriam sua face de beijos. Em sua boca sugou suavemente a sua pouca energia e depois soprou, como se lhe devolvesse a própria alma: inflada, completa, total.

                        Gedeão soube, então, ser essa a realização máxima de um pobre ser terrestre. Subiram os degraus vagarosamente. Corpos, mãos e bocas explorando, experimentando, conferindo. Entraram na nave que, rapidamente, partiu para o infinito.

                        Quando o dia amanheceu e os moradores do lugar começaram sua faina, deram por falta de Gedeão. Esperaram que ele aparecesse, mas depois, preocupados, foram procurá-lo pelas praias, no rochedo e em sua casa. Nada. Nem sinal de Gedeão.

O casebre estava vazio, mas sobre a mesa, em sua máquina de escrever, uma história esquisita sobre disco voador.

Pobre Gedeão! Enlouquecera  mesmo. Quem sabe, em sua insanidade, tivesse entrado mar a dentro. Bem, se assim tivesse sido, logo saberiam. O mar sempre devolve o que não faz parte de sua vida. Era só esperar.

Mas muito tempo passou e Gedeão nunca retornou. Sumiu como se transformado em estrela tivesse subido ao céu. Àquele mesmo céu ao qual, de braços erguidos, ele clamava como se esperasse um milagre.

__ “Coitado do Gedeão......”