
Maristel Dias dos Santos
Quando uma criança, do outro
lado da rua, fica olhando para a minha janela, esperando que eu lhe volte o
rosto e perceba a sua presença para enviar-me um sorriso acompanhado de um
delicado aceno de mão é que um orgulho, uma vaidade, uma alegria sincera e
pura enche meu coração de felicidade. Ela deve ter um décimo da minha idade.
Alguém irá dizer: “Nada em comum!”.
Mas, sim, há muito em comum. A simpatia, por exemplo, o carinho, o respeito mútuo
e a livre expressão desses sentimentos. Nisso somos iguais. Ela, do alto dos
seus seis aninhos; eu debruçada sobre o planalto dos meus sessenta e qualquer
coisa... Ainda assim temos muito em comum. Ela é uma vizinha da qual nem sei o
nome, mas quantas conversas, do mais alto nível, já entabulamos através das
grades do meu portão! Nós duas amamos os gatinhos e os cachorrinhos. Ambas
sabemos o que é ter irmãos mais velhos e mais novos que nós. Sabemos que
papai e mamãe podem ser bem bravos e devem ser atendidos ao primeiro chamado.
Está certo que aprendemos essas coisas em tempos diferentes, mas o importante
é que aprendemos. Podemos nos sentar no chão e ficar por muito tempo falando
de coisas sérias e acariciando os longos pelos da Lassie ou segurando a patinha
da Fifi. Nessas horas ela parece ser a idosa e eu a criança. O amor nivela as
nossas idades. Se os grandes, às vezes, brincassem de ser criança, do mesmo
modo que as crianças brincam de ser gente grande, quanta coisa aprenderiam!
Foi de uma menina de seis anos,
mais ou menos, que ouvi e aprendi a máxima que nortearia a minha vida toda: ___
“Mamãe, quem tem medo é porque não
confia em Deus”. E um garotinho com a metade daquela idade olhava
atentamente para o alto e disse: ____
“Sabe, mamãe, tudo que tem aqui
embaixo, tem lá em cima”. E muito me deu o que pensar tal afirmação.
Criança deveria ser sinônimo de amor e sabedoria. E deve mesmo ser em
algum dicionário de poeta. Talvez no meu próprio porque um dia, em meados do século
passado, escrevi um soneto que era assim:
Por que essa algazarra em minha rua,
Essas vozes
ridentes de criança
Lembram você,
a terna voz tão sua?
Traz-me você
tão vivo à lembrança?
Por que penso em você na cristalina
Gargalhada mal desabrochada?
Por que me assalta assim tão
repentina
Esta saudade incontida,
apaixonada?
Por que mais só me sinto e mais faminta
Estou dos seus carinhos, seus abraços?
Por que em todo som ouço seus passos?
Eu
sei porque... quando você se
acerca
Minh’alma sente esta doce
bonança
Que apenas
há num riso
de criança!
Leme, 1957.
N.T. O nome desse soneto é
“VOCÊ”.