Cultura

                                                                                        Maristel Dias

            Para entender bem o verdadeiro significado das palavras vamos ao dicionário porque é ele que procura em idiomas originários o sentido exato da palavra que, não raras vezes, pelo uso coloquial e pouco culto passa a ter sentido errôneo. Cultura é um exemplo clássico. O que é cultura? Há poucos dias numa entrevista na TV Leme, tive de responder à questão: Prefeitura Municipal X Cultura e como a brincadeira era dar notas, eu dei zero. Que culturas conhecemos em nossa cidade? Cultura da cana de açúcar, cultura do algodão e perdemos a cultura do café, mas mantivemos cultura de hortaliças e leguminosas.

    Porém quando a questão é falar sobre a cultura humana de um país, ou de uma cidade, como podemos pensar em Cultura? Tivemos acaso o cuidado de cultivar a nossa igreja matriz de S. Manoel, como foram preservadas as belíssimas construções  das igrejas nas cidades vizinhas?

             Tivemos o cuidado de cultivar os vultos ilustres de nossa cidade, seus feitos e idéias, ou simplesmente destruímos tudo em nome da modernidade? Modernidade, já explica o vocábulo, não tem cultura, pois é despida de tradição. Talvez venha a ter daqui a 100 anos... Aí então poderá vir a ser cultura. Quantas magníficas residências, depositárias de cultura, foram nesta nossa Leme destruídas, sempre em nome da modernidade? Então é fácil verificar que acabamos por ser uma cidade sem cultura.

            Resta a singular construção da nossa Estação Ferroviária. Por quanto tempo? Já se está a pensar em transformações e eliminar uma das poucas lembranças de casas culturais que restam.

            Cultura é preservar, plantar mais e mais sobre o mesmo solo, tornar mais belo aquilo que nossos olhos e ouvidos estão habituados a ver e ouvir, ao vivo ou nas antigas histórias contadas por nossos avós.

   A palavra Cultura abrange um grande leque. Se incentivarmos nossos jovens talentos, estaremos promovendo a cultura.  Se motivarmos nossos modestos escritores a registrar suas lembranças, estaremos promovendo a cultura. Se guardarmos os feitos de nossos pequenos heróis esportistas, estaremos promovendo a cultura. Se registrarmos a história de uma pequena cadela de nome Pipoca que acompanhou o enterro de seus pequenos amigos, irmãos gêmeos, mortos sob as rodas de um caminhão, até à última morada de seus pequenos corpos e que durante 8 anos ali se plantou, em guarda e por amor aos meninos, podemos dizer que isso é história e das mais belas da cidade e isso é Cultura. Se contarmos que cães, residentes na tranqüilidade de um cemitério e cuidados por generosas senhoras, de lá foram expulsos para não prejudicar  a inauguração do belíssimo e modernoso  Velório Municipal, que não consegue esconder a fátua intenção de privatização pelo poder executivo, isto não é cultura. Isso é insensibilidade e ignorância.

            Há 8 anos Pipoca, fiel companheira, reside com seus amiguinhos mortos. E é lá que ela quer estar. Foi levada de sua casa. Por duas vezes fugiu de onde a prenderam e para junto de seus meninos correu. À véspera da inauguração o ultimato: e lá vai a impávida Suzi salvar Pipoca. Porém, tão tristonha estava a pobrezinha, que já há 4 dias andava sem se alimentar, tomada de explicável agonia. Pipoca, um ícone cultural de nossa pobre Leme.Uma história que para sempre lembrada fará parte da cultura de nossa cidade. Choros, gritos, telefonemas sem fim levaram Pipoca de volta ao lar, pois que seu lar é onde estão seus pequenos amigos sacrificados.Aquele que a queria longe do promissor e eminente negócio, temeroso que um cãozinho à toa pudesse atrapalhar as festividades ou preliminares negociações numa inauguração tendenciosa, voltou atrás em seus mandos ou desmandos e permitiu a permanência de Pipoca junto aos seus amiguinhos enterrados. A cultura lemense agradece ao insigne forasteiro a graça concedida.

Mas, ainda assim, tudo acertado, uma pergunta impõe que se faça ao ilustre prefeito, Dr. Geraldo Macarenko: onde foi o doutor encontrar administrador tão pouco piedoso e desconhecedor da natureza animal, racional ou irracional?

Leme,2001