Destino certo
Maristel
Dias dos Santos
Eu já havia tido dezenas de namoradinhas, desde a mais tenra adolescência.
Apaixonava-me loucamente, escrevia versos, tornava-me galante e sedutor, por, no
máximo, três meses. Depois perdia o interesse e partia para uma nova
conquista. Nenhuma dessas namoradinhas, posso garantir, marcaram a minha vida na
qualidade de um primeiro e inesquecível amor. Achava, até, que essa história
de primeiro amor não existiria em minha vida. Julgava-me mesmo um volúvel e
dizia, brincando, que não havia uma especial porque eu amava todas. Estava
beirando os vinte anos quando conheci uma moça muito diferente das antigas
garotas que eu namorara. Era uma mulher de verdade! Pouco mais velha que eu,
fisionomia séria e de uma beleza exótica. Tinha
cabelos negros, lisos e
curtos, cujas pontas, à altura do queixo, apontavam, numa leve curvatura, para
uma boca rubra e sensual, que raramente se abria em um sorriso contido, ou em
palavras desnecessárias. O que era bastante desejável, pois embora fosse dona
de uma voz grave, densa, meio rouca, extremamente sexy tinha, contra si, uma
escolaridade precária e assassinava, com freqüência, “a
última flor do Lácio, inculta e bela...” Era de pouca instrução, filha
de família pobre, morava muito mal e era surpreendente como, vivendo naquele
meio, podia ter gestos e porte de rainha. Deve ter sido esse enigma que, tão
irremediavelmente, conquistou-me. Apaixonei-me, como nunca em minha vida.
Chamava-se Paula e resistia bravamente aos meus ataques de paixão, embora
demonstrasse um carinho e ternura que não dispensava a ninguém mais.
Justificava a sua elegância no vestir-se, o que contrastava tanto com a pobreza
e humildade de seus familiares, ao fato de vender jóias. Dizia que ganhava bem
e investia todo o seu lucro para cuidar de sua aparência. Isso era necessário,
dizia, pois quem acreditaria em uma vendedora de jóias caras se andasse trajada
de trapos ou de “havaianas” nos pés?
Essa era a ocupação com a qual dizia estar sempre comprometida e que, tantas
vezes, me impedia de vê-la quando eu a procurava em sua casa. Tão diferente de
minhas educadas e delicadas
namoradinhas, nunca me procurava. Fazia-se difícil, não sei se por força de
suas ocupações ou por tática de guerra. Muitos meses depois, consegui que ela
me acompanhasse a uma visita aos meus pais. Ansiava por apresentá-la em minha
casa e receber, talvez, a aprovação de meus familiares. Fiquei meio
desconcertado ao notar a frieza da parte de meus pais na sua presença. Será
que só eu via qualidades naquela beleza exótica? Será que só eu sabia amá-la?
Paula havia aceitado essa visita aos meus pais porque andava preocupada, com
suas regras atrasadas, temendo estar grávida. Eu que, nas poucas vezes, com ela
transara, havia tomado todas as precauções para evitar essa conseqüência, não
entendia como, ou quando, poderia tê-la engravidado. Coisas assim acontecem. Já
havia revelado à minha mãe o caso e confessado que me casaria, caso a suspeita
se confirmasse. Com certeza foi esse o motivo que levou meu pai a procurar saber
tudo a respeito de Paula e, alguns dias depois, convidar-me ao seu escritório
para uma conversa de “homem para homem”. Disse-me que havia investigado tudo
sobre ela e descoberto que Paula era “uma garota de programa”. Falou que
constatara que ela ganhava muito bem para acompanhar homens casados em viagens
“de negócios” ou entrevistas em motéis. Eu não acreditei. Tive certeza
que tudo não passava de armação para impedir minha intenção de casamento. Lá
em casa já andavam me perguntando: _ “Casar
como? Você nem mesmo terminou o segundo grau. E a Faculdade? Nunca teve um
trabalho remunerado! Irá, por acaso, trabalhar para manter uma casa?” Afirmei
que sim. Com ou sem a ajuda deles eu assumiria a responsabilidade. Naquele
escritório, meu pai perguntou se, caso essa gravidez se confirmasse, eu não
estaria assumindo a paternidade de um filho que poderia ser de muitos pais.
Revoltei-me com a desconfiança e, como um garoto rebelde, respondi que amava
Paula e não a abandonaria nessa situação mesmo se viesse, a saber, que não
era o pai desse hipotético filho. Na verdade, não acreditei em uma só palavra
de meu pai. Confiava plenamente em Paula. Eu estava cego e surdo pela fixação
daquele sentimento.
Era sábado e eu tinha pressa em tomar banho
e sair todo bonito e perfumado para encontrar a minha amada, em sua casa, antes
que ela fosse cumprir algum outro compromisso. Estava eufórico. Havia acabado
de receber minha polpuda mesada e minha mãe já havia prometido emprestar-me
seu fusca para eu sair naquela noite. Queria levá-la a um cinema e, depois,
jantar no melhor restaurante da cidade. Ia dirigindo por aquela avenida marginal
quando, ao olhar para uma rua transversal, vi Paula entrando em um carro
vermelho que eu conhecia muito bem, pois pertencia a um velho desafeto meu.
Aquele homem detestava-me desde que eu, apenas um garotinho, lhe dissera que meu
pai falara que ele não era, em absoluto, bom partido para minha irmã, a qual
ele andava querendo namorar. Neguei-me a chamá-la e mandei-o cantar em outra
freguesia. Jamais o homem perdoou a ofensa. Era hoje um industrial bem sucedido,
casado e, naquele exato momento, recebia em seu carro a minha Paula. Mas, será
que já se conheciam? Estaria ele apenas lhe dando uma carona? Uma dúvida cruel
cravou um espinho em meu espírito e, disfarçadamente, decidi segui-los.
Tomaram rumo da rodovia e foram na direção de um motel que ficava à entrada
de uma cidade vizinha. Segui-os, até vê-los passar pelo guichê do motel.
Ficou tudo negro dentro e fora de mim. Meu desejo era invadir aquele motel até
o apartamento que estivessem ocupando e jogar, contra aquele quarto maldito, o
meu carro. Morrer e matar era o que eu queria. Mas, calma! Era preciso pensar.
Tinha que voltar, encontrar uma amiga que concordasse em acompanhar-me, de modo
que pudesse entrar no motel e flagrá-los. Parecia que eu precisava testemunhar
até às últimas conseqüências para acreditar no que meus olhos viam, mas meu
coração não queria crer. Retornei à cidade imaginando a quem procuraria. De
repente, como numa explosão, a idéia perfeita. Convidaria a própria esposa do
“cão” para, junto comigo fazer o
flagrante. Ela era minha professora de inglês e gostava de mim tanto quanto eu
gostava dela. Acreditaria e iria comigo, com certeza. Assim foi. Dona Silvana,
transtornada, confessou já ter conhecimento desse caso do marido e que essa
confirmação era só o que ela precisava para pôr um ponto final àquele
relacionamento infeliz. Por sorte, ou por inteligente decisão,
Deus não lhe dera filhos o que talvez a impedisse de tomar uma atitude
drástica, definitiva. Contou que conhecia Paula e sabia que ela era mesmo
garota de programa. Disse que sentia muita pena de mim por saber-me apaixonado
por aquela profissional do sexo. Eu ia ficando cada vez mais revoltado, mas dava
graças a Deus por não ter perdido a cabeça e levado a efeito o meu primeiro
impulso. Paula não merecia de minha parte o menor sofrimento, a menor dor. Nem
ela nem aquele marginal, mas levar a pobre esposa e, com ela, pegá-los no ato,
seria a maior e mais constrangedora vingança que podia impingir a ambos.
Entramos no motel como se fôssemos para um
encontro de amor. Observávamos os boxes, por onde íamos passando, até
encontrarmos o carro vermelho. O apartamento deles ficava bem ao lado daquele
que para mim e para dona Silvana estava reservado. Parei o carro ali mesmo e
bati à porta do casal adúltero. Disfarçando a voz, anunciei: __
“Os cobertores...” Após alguns minutos a porta se abriu e nós
invadimos o quarto. O miserável, com uma toalha enrolada em torno da cintura,
havia aberto a porta e petrificado ficou, sem a menor reação. Paula,
embrulhada no lençol, estava sentada à beirada da cama acendendo um cigarro.
Parou em meio ao gesto, o isqueiro aceso na mão, olhava-me como se estivesse
vendo um fantasma. Descrever o resto da cena? Impossível! Eu e dona Silvana
despejávamos todas as palavras que conhecíamos, atropelando-nos e nos
plagiando seguidamente para tentar classificar aqueles dois desclassificados.
Por fim tentei acalmá-la e tirá-la dali dizendo que nem um, nem outro mereciam
a nossa presença naquele antro do pecado. Passei o braço em seus ombros e
levei-a para o carro. Dona Silvana chorava e blasfemava com palavrões que eu não
imaginava pudesse ela conhecer, tão fina e educada ela era. Já ia torcendo a
chave na ignição quando o bandido sai do quarto vestido apenas com as calças
que, apressadamente, colocara e, com um faca, tipo punhal, ataca os pneus do
fusca rasgando-os, raivosamente. Ficamos, eu e dona Silvana, dentro do carro,
vidros fechados, assistindo à patética cena. Logo após, o casal de adúlteros
sai, cantando os pneus do carro vermelho e nós, com as quatro rodas encostadas
no chão, ali ficamos com cara de bobos. Os
empregados do motel apareceram, atraídos pela gritaria e nos levaram até o
quarto, cuja chave a pobre dona Silvana torcia
entre as mãos como se desejasse destruí-la, esmigalhá-la. A chave do “nosso
quarto”. Ofereceram palavras de conforto e água com açúcar para dona
Silvana. Para mim imploravam que não levasse ao conhecimento das autoridades o
infausto e vil acontecimento. O chefe deles emprestou-nos seu próprio carro e
prometeu que na manhã seguinte me devolveria o fusca com quatro pneus novos.
Temia ver prejudicado o seu estabelecimento. Assim foi feito. Também no dia
seguinte começaram os telefonemas em minha casa com ameaças de morte. Minha mãe
atendia e alguém falava: --“Os dias do
seu filho estão contados”, ou
coisas parecidas. Minha mãe andava apavorada. Eu procurava prosseguir com a
vida normal que sempre levara, apenas eliminando radicalmente qualquer
pensamento de aproximação com a ex-namorada que me fizera de bobo. Logo
ficamos sabendo que o dono do carro vermelho andava armado e circulando em torno
do colégio, nos horários de saída dos alunos. Foi quando meus pais resolveram
mandar-me terminar os estudos bem longe daquela cidade. E já que era pra ir
para bem longe escolhi o Canadá. Ah! Canadá! Terra maravilhosa! País de leis
bem feitas e, melhor que isto, obedecidas. Povo civilizado e por isso mesmo, de
bom caráter e sensatez. Mas... As mulheres... Bem, eu preferia mesmo as
brasileiras. Quanta saudade tive de nossa terrinha e essa foi a parte mais difícil
nesses anos de exílio premeditado. Já lá estava há quase quatro anos e começava
a duvidar de um possível retorno ao lar, quando recebi de minha mãe aquela
carta contando-me da grave doença que atacara meu pai.
Pedia que eu voltasse, pois precisava assumir seu posto frente às suas
inúmeras empresas. Não podia negar-me. Estava em vias de terminar alguns
importantes cursos que vinha fazendo relacionadas à administração industrial,
marketing, relações pessoais, línguas e outros, numa seqüência dinâmica.
Estava mesmo na hora de retornar para casa. Naquela longa viagem de volta vinha
imaginando tudo e todos que tornaria a ver. Como e por onde andaria a traiçoeira
Paula? Que teria sido feito do adúltero empresário. E a querida professora de
inglês, vítima inocente de toda aquela sujeira? O que iria eu encontrar quatro
anos após? Uma curiosidade mórbida, repentina, me atacava. Coisas que por
tanto tempo eu estivera a ignorar, agora, na iminência do retorno, tornavam-me
ansioso e até mesmo um pouco temeroso. No aeroporto já me esperavam alguns
membros de minha família e na viagem de carro, sem poder mais esperar, tentava
saber de tudo que em minha cidade vinha se passando. Consegui algumas informações.
A Paula conseguiu casar-se com um velho rico e saíra da cidade. Filho, jamais
existira. O dono do carro vermelho andava agora em uma Mercedes e tinha uma nova
esposa com a metade de sua idade. Da
professora de inglês ninguém tinha nenhuma informação. Meus amigos? Tudo
igual. “O papai é que... Bem, tudo haveria de resolver-se com a minha
chegada”, dizia mamãe entre sorrisos e lágrimas.
Na verdade, papai não andava assim tão
mal, porém desejava que eu assumisse seus negócios porque estava disposto a
sair, aos poucos, daquela vida de lutas e passar longas férias em maravilhosas
Estações de Águas. Em poucos dias colocou-me a par de seus negócios e
partiu, meio desconfiado de se estaria fazendo a coisa certa. Enfim, era necessário
dar chance ao seu filho primogênito de mostrar o que andara
aprendendo nas terras distantes do Primeiro Mundo.
Poucos meses se passaram e numa bela noite,
em um restaurante onde, com alguns amigos, eu havia ido jantar, vi, de longe, a
minha linda professora de inglês. Como estava bonita a dona Silvana! Também
ela encontrava-se numa roda de amigos. Não resisti e aproximei-me. Ao ver-me
demonstrou a maior surpresa e logo se afastou de todos para vir abraçar-me.
Separamo-nos da turma e, em uma mesa isolada, fomos trocar confidências.
Contou-me que se separara do marido infiel incontinente ao fato. Estava sozinha,
sim! Não sabia se o que sentia era desconfiança de todos os homens, ou de si
própria, de sua capacidade de avaliar o caráter masculino. Confessei-lhe que o
mesmo acontecia comigo, porém, claro, em relação às mulheres. Pelo mesmo
motivo permanecíamos sozinhos. Pensávamos fosse esse o motivo. Na verdade,
creio que outros eram os desígnios de Deus ou do destino. Havíamos permanecido
sós. É preciso que eu use o pretérito perfeito para falar desse fato.
Permanecemos, até aquela bendita hora. Dali em diante nunca mais nos separamos.
Casamos, tivemos filhos e fomos tão felizes... E somos tão felizes... Que
sentimos até medo de falar sobre essa felicidade. Fomos feitos um para o outro!
Que estranhos e complicados caminhos
percorre o destino para concretizar os seus mais altos objetivos! Estranhos,
assustadores, porém, abençoados caminhos, esses que tivemos de percorrer para
alcançar tanta ventura. E não termina aqui esta história. Espero vivenciar
ainda muitos e muitos capítulos deste desenrolar feliz.
FIM