Dias e dias
Maristel
Dias dos Santos
Dia disto, dia daquilo, dia deste e daqueloutro, dia de santo e Dia Santo. Dia de heróis e das bruxas soltas, dia dos vivos e dia dos mortos. Dia de Copa e dia de Eleição, dias de ganhar e de perder, dias de comprar e de vender.
Alguns são apenas dias de lembrar, dias virtuais, outros são dias de agir, dias reais.Nos dias virtuais trocam-se presentes e solta-se foguetes.Nos dias reais acerta-se ou erra-se e são dias fatídicos que marcarão, sem piedade, os dias vindouros.Claro que sempre com foguetório!
Há um dia virtual e real concomitante, porém muito mais virtual, pois que na realidade parece ter-se extinguido na dureza de nossa realidade. É o Dia do Namorados e minha velha experiência lembra esse dia com ternura, que palavra mais doce não há em nosso idioma: namorados, enamorados.
“Um rapaz, uma garota
Uma escadinha, um portão
A lua cheia no céu
Um amor no coração.”
Meu Deus, isso foi há quase 50 anos, quando meu amigo e colega de classe, Juca Dal Bó, escreveu esse versinho em meu álbum de recordações, que ainda conservo, viu Juquinha?
Aqueles eram dias dos namorados. Todos os dias! Coisa mais terna haveria?
Hoje o dia dos namorados perdeu seu sentido de pureza, carinho, sentimento.Cadê os namorados? Já não se enamora e corteja e paquera como naquele tempo. Agora se fica!Fica hoje, amanhã fica outro e assim vão ficando e dia a dia, desiludindo-se com essa coisa de amor.
Parece que o romantismo caiu de moda. Os passeios de mãos dadas pela praça, o ficar horas na esquina esperando ele (a) passar, só para aquele olhar trocado, acabou.O tempo de hoje não é o tempo de ontem. Hoje urge. A regra de hoje é fazer, e fazer é... Fazer! Tanto em Português como em Italiano!Afinal porque foram inventar a camisinha e os anticoncepcionais? Diferente dos longos namoros na vertical, que apenas o casamento levava para a horizontal.Canta comigo:
“Hoje é Dia dos Namorados
Toda a terra está em flo-or
Só se vê menina e moça
De braços dados com seu amor.
Não, assim foi ontem! Hoje as noites de embalo acontecem à meia luz, ritmo alucinante, tudo sob inevitáveis vapores etílicos.Êxtase? Claro que havia. Num tocar as mãos, num encontro casual, num verso enviado às escondidas. Hoje se compra o ecstasy.Olha só! Meu corretor de texto trocou a palavra ecstasy pelo verdadeiro êxtase. Nem meu computador aceita tal inversão de valores!
Então, compra-se êxtase e mata-se o encantamento. E ainda ficamos a nos questionar do porquê o mundo estar assim tão violento e frio? Sentimentalismo é demodè, cafona, coisa de velho!E tudo porque morreu a palavra mais doce da Língua Portuguesa: namorado ou enamorado. Que pena!