Nada
de Dores
Maristel
Dias dos Santos

Ai, dona Dolores, não
é fácil sentir dores. Eu não gosto! Será que alguém gosta? Dizem que existe
o masoquista que se regala com as dores. Não
dá pra crer. Porque doer dói e a gente fica com a cara pendurada e geme sem
sentir prazer. Vai ver que os masoquistas gemem de prazer quando sentem dor. Sei
lá! Só sei que fui ao médico por
causa de uma dor no ombro. Excesso de computador! Postura! Falta de exercício! Fumar?
Nem pensar! Café o dia inteiro? De jeito nenhum! Na sua idade...
É aí que começa o drama. Quando a cabeça começa
a ficar boa o resto do corpo degringola. Quando a gente começa a achar que é
feliz os médicos entram em nossas vidas (ou nós na vida deles), pra acabar com
a alegria (nossa, é claro). O duro é que eles acham que tirando da gente as últimas
coisas prazerosas, vão nos curar. Mas não mesmo! Com a minha cabeça melhorada
e não digo sarada, porque seria
muita pretensão, eu decidi desafiar o corpo piorado.
A dor do ombro melhorou
quando entrei num acordo com o computador. Em vez de ficar jogando paciência
com a máquina enquanto ouço o meu Cd predileto, fiquei pedalando a minha bike,
que não sai do lugar. Na manhã seguinte saí da cama mancando e gemendo com
dor no joelho. Mal podia andar. Eu, que faço tudo ao contrário, se acordo ótima
fico mais uma horinha na cama, mas se meu
joelho me faz andar como um velho
caquético, reajo. Visto-me e vou fazer o que todo médico manda e eu não obedeço.
Sabe o quê? Andar. Andar, andei! Andei, reaprendendo a andar com dor no joelho
e sem mancar! Quando voltei pra
casa manquei
tudo que eu tinha direito, mas no dia seguinte acordei sem nenhuma dor. A
mente venceu o corpo. Vence, quase sempre, se sabemos fazer bom uso dela.
Difícil mesmo e aceitar
que se chegou à idade do condor (com dor), e que tudo não passa de um problema
de junta: junta tudo e joga fora. Haja cabeça para tanta junta!