E
agora, Seu Zé?

O medo paira como nuvem negra e ameaçadora sobre a cidade. Afinal a
conseqüência das inconseqüências ameaça abater-se sobre nós, sobre todos nós,
pois o desemprego de milhares de pessoas terá reflexo direto em toda a
comunidade. Ninguém escapará. Nem altas muralhas, cães bravios, ou guardas
armados nos livrarão do mal.
A catástrofe chega sob a forma de alguns monstros mecânicos/cibernéticos
e nem podemos culpar àqueles que os trazem. Eles não os criaram. São
inocentes-úteis dessa conjuntura. A automatização, a mecanização é também
uma conseqüência mais ampla de problemas muito mais complexos. Vem suprir uma
necessidade de sobreviver, de crescer, de limpar um campo de atuação. A máquina
trará, sem dúvida, vantagens que nem me arrisco a, aqui, enumerar. Só uma das
qualidade da máquina atrevo-me a citar: __ ela não negocia nem consome o
“crack”.
Devia parar nesse último ponto final. Falar o que mais? Procurar
culpados? Acaso eles poderão retroceder no tempo e mudar o rumo da história? E
fariam isso, mesmo que lhes fosse dada essa chance?
“Há quatro coisas que não
voltam atrás: a pedra, depois de solta pela mão; a palavra, depois de
proferida; a ocasião, depois de perdida; o tempo, depois de passado”.
Porém o presente é a semente do futuro. A boa semente trará bons
frutos e ela está, hoje, em nossas mãos. Será que aprendemos a separar o joio
do trigo? Penso que ainda não. É o caráter do homem que tem de mudar e faz
parte intrínseca desse caráter ser individualista, imediatista, ganancioso e
mau. Sob pele de ovelhas sempre há uma raposa e quanto maior for a raposa mais
macia será a pele da ovelha.
Há momentos em que toda a decência humana parece irrecuperável.
Momentos como este, em que o espírito, incorrigivelmente otimista, torna-se
irremediavelmente pessimista.
Pergunto a uma população que tem de sobreviver com 10 reais por dia
(privilegiados seres de carteira assinada), pergunto a esses heróis, se alguma
vez foram consultados e concordaram em pagar de 100 a 600 reais diários (em
alguns casos, bem mais!) para um exército de executivos, legisladores e
administradores dos seus parcos bens? Não espero que respondam. Conhecemos a
resposta, pois estamos já fartos e cansados de caminhar entre
coroas e chapéus de palha.
Pior ainda é a triste constatação que nos leva a crer que “um povo corrompido não aceita um governo que não seja corruptor”.
No fundo, todos querem tirar uma casquinha, mas é preciso que os que
comandam lembrem-se que “o exemplo é uma lição que todos podem ler”
(Gilbert West).