E agora, Seu Zé?

 

 

Maristel Dias dos Santos

                                                 

                        

                         

                O medo paira como nuvem negra e ameaçadora sobre a cidade. Afinal a conseqüência das inconseqüências ameaça abater-se sobre nós, sobre todos nós, pois o desemprego de milhares de pessoas terá reflexo direto em toda a comunidade. Ninguém escapará. Nem altas muralhas, cães bravios, ou guardas armados nos livrarão do mal.

                        A catástrofe chega sob a forma de alguns monstros mecânicos/cibernéticos e nem podemos culpar àqueles que os trazem. Eles não os criaram. São inocentes-úteis dessa conjuntura. A automatização, a mecanização é também uma conseqüência mais ampla de problemas muito mais complexos. Vem suprir uma necessidade de sobreviver, de crescer, de limpar um campo de atuação. A máquina trará, sem dúvida, vantagens que nem me arrisco a, aqui, enumerar. Só uma das qualidade da máquina atrevo-me a citar: __ ela não negocia nem consome o “crack”.

                        Devia parar nesse último ponto final. Falar o que mais? Procurar culpados? Acaso eles poderão retroceder no tempo e mudar o rumo da história? E fariam isso, mesmo que lhes fosse dada essa chance?

                        “Há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra, depois de solta pela mão; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; o tempo, depois de passado”.

                        Porém o presente é a semente do futuro. A boa semente trará bons frutos e ela está, hoje, em nossas mãos. Será que aprendemos a separar o joio do trigo? Penso que ainda não. É o caráter do homem que tem de mudar e faz parte intrínseca desse caráter ser individualista, imediatista, ganancioso e mau. Sob pele de ovelhas sempre há uma raposa e quanto maior for a raposa mais macia será a pele da ovelha.

                        Há momentos em que toda a decência humana parece irrecuperável. Momentos como este, em que o espírito, incorrigivelmente otimista, torna-se irremediavelmente pessimista.

                        Pergunto a uma população que tem de sobreviver com 10 reais por dia (privilegiados seres de carteira assinada), pergunto a esses heróis, se alguma vez foram consultados e concordaram em pagar de 100 a 600 reais diários (em alguns casos, bem mais!) para um exército de executivos, legisladores e administradores dos seus parcos bens? Não espero que respondam. Conhecemos a resposta, pois estamos já fartos e cansados de caminhar entre coroas e chapéus de palha.

                        Pior ainda é a triste constatação que nos leva a crer que “um povo corrompido não aceita um governo que não seja corruptor”.

                        No fundo, todos querem tirar uma casquinha, mas é preciso que os que comandam lembrem-se que “o exemplo é uma lição que todos podem ler” (Gilbert West).