1o lugar na
fase regional do Mapa Cultural Paulista - SP -1999.
Maristel
Dias dos Santos

Tínhamos ambos 12 anos. Morávamos perto, embora minha casa fosse uma
das últimas da parte da cidade denominada Centro e
a dele era uma das primeiras casas de uma vila pobre. Bastava, porém
atravessar os trilhos da ferrovia e estávamos um na casa do outro.
Meu pai, bem sucedido comerciante e minha mãe, professora primária,
chefiavam pequena família de classe média alta. Na verdade sentiam-se muito
importantes e a eles não agradava muito essa amizade. Não tanto pela diferença
social, mas principalmente porque muito se comentava a respeito da família de
Edmundo. Seus pais eram “bóias-frias” que trabalhavam na roça desde antes
do sol nascer até depois que ele se pusesse para poder manter numerosa família
acrescida de alguns tios que não trabalhavam. Eram doentes. Dizia-se que eram
todos tuberculosos. Na verdade eram muito magros e pálidos, mas eu acreditava
ser mais por falta de alimentos que por doença. Não pareciam doentes. Viviam
com violões nos braços, cantavam, riam e brincavam o tempo todo. Da mãe de
Edmundo, uma mulher tão alta quanto magra, falava-se a cantos de bocas e olhos enviesados
coisas que eu não conseguia entender. Só muito tempo depois vim a saber o
significado daquele apelido: Maria bicicleta, cochichado por línguas
maledicentes escondidas por mãos em concha sobre os lábios e malícia ferina
nos olhos. “Mariabicicleta”, que qualquer um podia usar, podia montar.
Natural que na ocasião eu não entendesse a maledicência, pois como imaginar
que algum homem desejasse tocar aquilo?
Tão magra e desengonçada, cabelos grisalhos lisos, caindo maltratados em torno
de uma face sulcada por profundas rugas que se acentuavam em torno da boca
desdentada. Era muito feia, porém os olhos eram grandes e se encaixavam fundo
nas cavidades orbitais exibindo uma estranha cor verde oliva, iguais aos de
Edmundo que eu achava lindos. Apesar de tudo, Edmundo era mais alto e mais
taludo que eu. Era também muito independente e decidido. Qualidades que eu
admirava e invejava. Além disso, era excelente aluno de matemática, matéria
em que eu era um verdadeiro fracasso. Essa era a desculpa perfeita que obrigava
minha mãe a permitir a amizade. Fazíamos juntos as lições de matemática e
ele ajudava-me a tirar notas regulares. Minha
mãe, porém preferia que estudássemos em minha casa onde podia alimentá-lo
com lanches, frutas e muito leite batido com chocolate. Edmundo adorava. Eu
detestava. Mamãe dizia: __ “Que bom seria ver você comer com o mesmo apetite
que Edmundo come. Você é um patife para comer”. Mas eu gostava mesmo era de
ir na casa dele e ficar ouvindo as histórias divertidas que seus tios contavam.
Raramente conseguia de minha mãe autorização para tal.
Lembro-me de um certo dia em que estando nós fazendo a lição na
despojada sala de sua casa, tive invadidas as narinas por um inebriante cheiro
de carne assada. Logo se aproxima o tio Zico com aquele olhar brilhante e
malicioso perguntando: __ “Ah, ah, eu sabia... babando, hein? Já sentiu
alguma vez um cheiro melhor que esse?”
Tive de admitir: __ “Nunca, em toda a minha vida”. Ele retrucou estar
já quase no ponto e que fôssemos logo para a cozinha provar daquele
pitéu cujo aroma enchia minha boca d’água. No pequeno fogão de lenha
uma panela de ferro chiava em plena ebulição e aquele irresistível cheiro era
agora visível nos pequenos rolos de fumaça que dela partiam e entravam direto
em minhas narinas. Edmundo não parecia nada entusiasmado e se explicava dizendo
que não gostava de carne assada. Seu tio ergueu a tampa amassada de alumínio e
expôs aquela bela peça de carne arredondada, dourada, brilhante, aos meus
olhos gulosos. Com uma grande e afiada faca foi cortando fatias finas da crosta
reluzente e colocando em um prato que cuidadosamente escolhera no parco
guarda-louça, observando atentamente se estava convenientemente limpo para tão
ilustre visitante. Eu me sentia assim importante na casa de Edmundo e por isso
gostava tanto de lá ir que muitas vezes tinha de enganar minha mãe com
desculpas esfarrapadas.
Após saborear alguns nacos daquela delícia perguntei se aquilo era
carne de porco ou de vaca. Tio Zico, com a cara mais marota do mundo falou: __
“Nem porco nem vaca. Adivinhe se puder!”
Ora, de que poderia ser? Comecei a maneirar meu apetite e desconfiado,
perguntei: __ “Mas se não é porco, nem vaca..., que carne é essa, tio
Zico?”
__ “É tatu, meu filho! Já comeu carne melhor?”
Parei de comer. O estômago começou a contorcer-se e que força tive de
fazer para não sair correndo dali e ir vomitar lá fora.
__ “Que fracote! Isso é caça, rapaz! E da boa!”
Lembro-me até hoje das náuseas que eu senti e também nunca consegui
esquecer do aroma daquela carne assada numa panela de ferro, naquele fogão de
lenha.
Edmundo tinha muitos passarinhos em gaiolas que um outro tio fabricava de
modo rude, artezanal. Contou-me que andava ouvindo um canto de pintassilgo na
mata que ficava ali perto da casa e que estava pensando em ir no dia seguinte
armar um alçapão para apanhá-lo. Queria que eu fosse junto. Respondi
prontamente que mamãe jamais permitiria, mesmo porque era ferrenha defensora da
liberdade dos passarinhos. Edmundo respondeu que seria rapidinho e que ela nem
daria pela coisa. Não tinham mesmo que estudar para as provas?
Então, se eu convencesse minha mãe que teria de estudar na sua casa,
por um motivo qualquer que minha imaginação pudesse
armar e se fizéssemos bem depressa os exercícios,
teríamos tempo de sobra para adentrar na pequena mata ciliar onde
cantava o passarinho. Concordei e com habilidade convenci minha mãe que nesse
dia Edmundo não poderia vir estudar em nossa casa. Tudo certo!
Com o alçapão de arame em uma das mãos e um saquinho de alpiste lá ia
marchando seguro e firme o meu amigo Edmundo para caçar o desejado pintassilgo
e eu, em seu encalço, um pouco amedrontado de caminhar mata adentro. Corajoso
Edmundo! Eu o invejava. Pára de repente sob frondosa árvore de grossos galhos
e se põe a escalar seu tronco depois de haver amarrado com um barbante o alçapão,
pendurá-lo no pescoço e meter no bolso da calça o pacotinho de alpiste. Eu
observava todos os seus gestos e cada vez mais me admirava da sua desenvoltura.
Para ele tudo era tão fácil! Ao alcançar um dos galhos mais altos arrastou-se
por ele para chegar mais perto dos ramos folhosos e ali enroscou o alçapão,
armou-o, colocou o alpiste que deveria atrair o passarinho e, de marcha à ré,
foi-se arrastando de volta até chegar ao tronco. Embaixo eu torcia as mãos
suadas de medo que ele despencasse lá de cima. Afinal, num salto, chega ao chão.
Só de pensar que tudo deveria se repetir para recuperar o alçapão, com ou sem
o pássaro, já me dava voltas o estômago. Eu é que não faria isso! Se
dependesse de mim o passarinho viveria solto e feliz até morrer de velhice.
__ Feito. Agora é esperar que o meu pintassilgo se aproxime, entre no alçapão
para comer o alpiste e... Bum!
Depois é voltar lá e apanhá-lo. Melhor que a gente se afaste para não assustá-lo.
São ariscos esses bichinhos.
__ Então, voltamos para casa?
__Ah, não! Vamos até o poço do pontilhão, vamos ver o rio enquanto
esperamos.
__Que negócio é esse de poço do pontilhão?
__ Pontilhão é como chamam a ponte feita de trilhos por onde o trem
atravessa o rio e poço é um lugar mais fundo onde o pessoal mergulha. É um
barato. Nunca foi lá, não?
__Nunca e se minha mãe souber vai me matar.
__Vai nada! Sua mãe é super legal e nem vai ficar sabendo disso. Vamos,
vamos.
Fomos pela mata até encontrar os trilhos da ferrovia e depois caminhamos
pelos dormentes, às vezes nos equilibrando sobre um dos trilhos. Eu estava
achando tudo muito divertido. Ao chegar ao pontilhão tive um pouco de medo pois
entre os dormentes o que havia era o vazio e lá embaixo o rio correndo entre
pois paredões de pedras. Tínhamos de atravessá-lo, pois o tal do poço, o
local de mergulho ficava na outra margem do rio. Era um lugar muito bonito e
totalmente solitário. Edmundo já foi arrancando suas roupas pelo caminho
enquanto anunciava que ia dar um mergulho.
__ Você está louco, não vai, não. Por acaso você sabe nadar?
perguntei
__Claro que sei. Você não sabe?
Como ia dizer que na verdade apenas uma ou duas vezes havia entrado numa
piscina na fazenda do meu tio: __ “Sei, sim senhor, e nado até muito bem!”,
mas estava apavorado. Fui desabotoando devagar a camisa enquanto Edmundo já
nuzinho em pelo saltava de um trampolim improvisado e desaparecia nas águas
turvas do rio. Fiquei parado esperando vê-lo emergir. Eis que ele surge do lado
oposto, sacudindo com força a cabeça para espadanar a água de seus cabelos e
rosto, agarra-se a uma raiz que escapa do barranco marginal e grita, rindo, com
aqueles dentões brancos rebrilhando ao sol: __ “Como é? Não vem, não? Tá
com medo, seu cagão? Pula, vai. A água tá uma delícia!”.
Eu continuava desabotoando a camisa e antes que tivesse tempo de tirá-la,
novamente eu o vi afundar rindo, me chamando de cagão e com uma das mãos
tapando o nariz. Lentamente tirei a camisa enquanto perscrutava o rio para ver
onde ele apareceria. Que fôlego tinha esse Edmundo! Quanto tempo conseguia
ficar sob a água! Mas era tempo demais! Meu Deus, cadê o Edmundo? Num rebuliço
das águas, mais abaixo, quase sob a ponte, eu o vi surgir debatendo-se e
depois, mais nada. Ah, que desespero! Se era sempre ele que sabia o que se devia
fazer em qualquer emergência que coisa podia eu fazer? Atirar-me nas águas sem
saber nadar? Ia morrer junto com o meu amigo. Disparei numa corrida louca e nem
sei, até hoje, se atravessei aquela temerária ponte vazada correndo ou voando
sobre os dormentes até chegar aos berros em sua casa, mal me fazendo entender
pelos seus tios que, sem pestanejar, ocorreram ao local da tragédia. Fiquei lá,
na casa do meu amigo Edmundo, aturdido, esperando vê-lo chegar rindo junto com
seus tios: __ “Enganei um bobo na casca do ovo! Seu cagão! Seu cagão!” Mas
não foi assim. Seus tios voltaram, horas depois, sozinhos. Quiseram saber como
tudo aconteceu e entre soluços e gagueiras tentei contar o que eu vira. __
“Minha mãe vai me matar, minha mãe vai me matar”, eu repetia.
Aqueles bondosos homens trataram de me acalmar e prometeram não contar
à minha mãe que eu estava com Edmundo naquele maldito rio. Caminhei para casa
completamente desnorteado. Fui direto para a cama e quando minha mãe veio
chamar para o jantar encontrou-me ardendo em febre. Cuidou-me com carinho, disse
que devia ser uma gripe e que na manhã seguinte, com certeza, eu não iria à
aula. Ela ainda não sabia, pensei.
Já era noite quando minha mãe veio contar-me que meu amigo Edmundo
havia sido encontrado morto, afogado nas águas daquele rio infame. Desatei a
chorar. Dizia-me ela que era sua obrigação ir até àquela casa para velar
junto à família o corpo do pobre menino. Perguntava-me se eu me sentia melhor
da gripe e se não gostaria de acompanhá-la. Eu não queria, mas tinha de ir.
Nem que fosse apenas para me certificar que não falariam que eu estivera junto
com Edmundo à beira daquele rio traiçoeiro. De mãos dadas com minha mãe
entrei na sala onde costumávamos estudar. Havia cadeiras dispostas contra as
paredes e no centro uma mesa. Sobre ela um caixão branco e quatro velas
enormes. A sala estava quase às escuras. As pessoas ali sentadas em torno do
caixão rezavam ou cochichavam baixinho. Minha mãe foi chegando perto do caixão
e eu tentava segurá-la, não querendo ver quem estava dentro dele.
Senti que ela me puxava e aí eu pude ver o corpo coberto de flores e um
véu cobrindo-lhe o rosto. Olhava apalermado sem entender muito bem tudo aquilo.
Morto. Morto o meu amigo Edmundo! Impossível! Não era ele o melhor, o mais
forte, o mais sabido? Morto? Parado, imóvel como aqueles cachorros que,
atropelados, ficavam no meio da rua, duros, imóveis, paralisados... Como podia
ser isso?
Meu rosto estava a dois palmos do rosto de pedra do meu amigo. Não sei
se, resultado do meu estado febril ou causado pelo bruxulear das velas na sala
à meia luz, a verdade é que de repente vi Edmundo abrir os olhos e sua face
mover-se em caretas de escárnio: __ “Não vai pular, seu cagão? Vamos,
venha, pule aqui comigo! Seu cagão! Seu cagão!”
Comecei a gritar histericamente: __ “Sai daí, seu tonto! Levanta logo
daí. Sai antes que levem você pra debaixo da terra. Edmundo! Edmundo! Pára de
graça. Pára com isso, seu idiota!” Senti
que muitos braços e muitas vozes me cercavam e à força fui tirado de perto do
meu amigo Edmundo. Minha mãe tentava explicar que eu devia estar tendo alucinações
provocadas pela febre, que não devia ter me levado com ela, que eu estava com
uma terrível gripe.
Foi uma noite pavorosa, cheia de sonhos e pesadelos. Com as primeiras
claridades despertei num pulo, lembrando do pintassilgo. Teria ele caído no alçapão?
Estaria a pobre ave presa? Não podia! Morreria se lá permanecesse. E agora?
Aonde o Edmundo para ir resgatá-la? Eu tinha de salvá-la. Precisava esquecer
que não passava de um covarde e ir lá, sozinho, sem o meu amigo Edmundo,
salvar o pobre passarinho. Fui até à janela. Boa altura separava-me do solo.
Lembrei-me do salto de Edmundo ao descer da árvore. Reuni toda a pouca coragem
que tinha e ensaiei o salto. __ “Vai, pula seu cagão. Tá com medo do quê?”
Saltei. Corri para a mata e tremendo de frio e pavor fui-me encaminhando pelo
mesmo trajeto que na véspera havia feito em cima do rastro de Edmundo. Lá
estava a árvore grande. Era muito cedo e o sol ainda não iluminava bem,
principalmente ali, dentro da mata. Com muito esforço consegui ver o alçapão.
Fui repetindo tudo que Edmundo havia feito e consegui chegar perto da armadilha.
Estava lá o passarinho e assustado esvoaçava dentro da pequena gaiola.
Segurei-a firmemente com uma das mãos e fui descendo como se estivesse
hipnotizado, não sei se pelo rasgo de coragem ou entorpecido pelo medo. Já no
chão ergui devagar a tampa do alçapão, meti lá dentro a mão e segurei o
coitadinho que quase se matava de tanto se debater. Agora, preso dentro de minha
mão, aquietava-se e seus olhinhos assustados fitavam-me como que a implorar
piedade. Seu pequenino coração batia dentro de minha mão como se fosse um minúsculo
tambor. Olhei para o alto e vi uma luminosa nesga de sol passando entre os
galhos do arvoredo. Pus-me em pé e vagarosamente fui entreabrindo os dedos. Por
alguns segundos o passarinho permaneceu parado na palma de minha mão e depois
arremeteu como uma flecha em direção daquele pedaço azul e luminoso de céu
que eu podia ver através de uma fresta dos galhos. Uma enorme e benfazeja paz
desceu sobre mim. Parecia-me ver, no vôo do pássaro, a subida aos céus da
alma do meu querido amigo.
__ Vai em paz, Edmundo, que o seu pintassilgo lhe mostra o caminho para a
casa de Deus.
Pude então aceitar, entre dores e saudades, a morte de meu amigo. Do meu
amigo Edmundo que, para mim, era maior que o mundo. Tão grande que precisava
das imensidões do céu.
Fim