Escritores, poetas ou profetas?
Uma amiga conta de um professor que dizia: "escritores são profetas", quando, às vezes, comento com ela, que falo e escrevo coisas antes delas (as coisas) acontecerem. Seu professor sabia o que dizia. Vejam este exemplo:
Fado
Tropical, soneto de Chico Buarque e Ruy Guerra dos anos 72/73, faz parte da peça
Calabar, herói ou anti-herói da época da Invasão Holandesa no Brasil. O
final deste Fado Tropical conclui, em suas últimas frases, o que se
profetizou. É também com o coração chorando que constato essa verdade.
Hoje nosso Brasil, (e até esta nossa Leme) é, de fato, um Império Colonial.
Meu
coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa.
Guitarras
e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai,
esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial.