Fidelidade

Maristel
Dias dos Santos
Aos trinta e três anos fizeram-na avó. Numa idade em que muitas
mulheres ainda se preparam para se tornarem mães, ela se fez avó. Volto à
primeira forma: fizeram-na.
Verdade que uma parte da culpa lhe coube. Claro! Casou-se com treze anos e
quando nasceu seu primeiro filho ainda não havia completado quatorze anos. Uma
criança! O filho, por sua vez, aos dezoito anos engravida a namorada e casa-se.
Agora, além dos dois filhos desempregados e pouco estudiosos, ganhava outra família
para sustentar. Por sorte e, por capacidade e empenho, tinha excelente emprego
em uma estatal e até gostava de manter a prole assim dependente dela, do seu
dinheiro, para ser mais exato. Mulher de gênio forte, dominadora, achava bom tê-los
em rédeas curtas. Eram seus servidores. Dava-lhes carro, moto e cigarros além
das roupas e comida. Adaptou-se logo à nova situação. Apenas se lhe
acrescentava uma empregada em casa. Penso mesmo que até se orgulhava dessa família
precoce e pródiga como compensação por não ter tido uma família de verdade.
Sua mãe a dera, logo que nasceu, a um casal e nunca mais quis saber da filha.
Era moça solteira e não tinha como criá-la. Margot sempre se sentira
rejeitada, embora seus pais de criação tenham sido maravilhosos. Fora muito
amada, mas a mãe... Não podia perdoar. Soube que alguns anos depois ela se
casara com um homem rico do qual teve um filho, mas não tentou recuperar a
filha. Margot pensava que ela assim agia porque não contara ao marido sobre o
fato de ter sido mãe solteira. Porém, poucos anos depois enviuvou, ficando em
ótima situação financeira e mesmo assim continuou a ignorá-la. Era como se o
que ela tivesse dado fosse apenas um cachorrinho dessas crias vira-latas que
nascem em casa e do qual a gente precisa, quanto antes, livrar-se e, depois que
se dá, se esquece completamente. Era exatamente como Margot se sentia: uma
pobre vira-latas.
Em vez de transformar-se em uma infeliz, com pena de si mesma,
desenvolveu forte espírito de luta e um orgulho incorruptível. Se eram
verdadeiros ou falsificados esses atributos não se podia saber. As inseguranças,
se é que as tinha, guardava-as bem
camufladas. Talvez, a olhos mais astutos, podiam ser reveladas no hábito que
tinha de exigir atenções, carinho, até mesmo amor, pagando por essas coisas
em moeda sonante. Tudo ela podia comprar. E para isso trabalhava duramente.
Poucos anos ficou casada. Separou-se logo após o nascimento do segundo filho. Não
gostava da interferência do pai na educação dos meninos. O que não queria
era dividi-los com ninguém. Nem com o próprio pai. Medo de perdê-los? Ver o
amor filial fracionado? Talvez. Difícil
descobrir o que vai aos recônditos de uma alma perturbada por fatos que nem
Freud explica. A verdade é que embora tivesse voltado a ser solteira antes dos
dezoito anos e ser uma bela mulher, nunca mais juntou sua vida
a de outro homem. Tinha-os, naturalmente, para casos passageiros. Dizia
que apenas os usava para suprir suas necessidades biológicas. Se fosse preciso,
mas claro que nunca foi, pagaria por esses favores, sem o menor escrúpulo.
Margot tinha grande rol de amigos, porém Clara era aquela amiga confidente, aquela em que se confia completamente.
Clara acabara de
divorciar-se, todos os filhos já adultos e mais íntimas se tornaram. Ávida
por conhecer a liberdade e de usufruí-la, desejava a experiência da amiga, e
saíam constantemente para boates, restaurantes, bailes, passeios noturnos. Iam
à caça, segundo Margot, que dizia só se interessar por essa parte do jogo
amoroso: a conquista. Os “finalmentes” não lhe despertava maior interesse,
ao contrário de Clara. Para ela a conquista era só a preparação para alcançar
o fim. Também não queria amarrar-se à alguém novamente, pelo menos não tão
cedo. Estava ansiosa por viver essa liberdade após um casamento frustrante que
durara mais de vinte anos. Clara era mais velha que Margot, o que não fazia a
menor diferença pois as experiências acumuladas empatavam, ou quase. Na
verdade, vidas tão diversas serviam para anular qualquer diferença de idade.
Clara debutava nessa vida em
que Margot era doutorada. Isso as complementava e fazia de Margot um freio
eficiente quando os ardores de Clara tornavam-se por demais exuberantes.
Equilibravam-se e isso era bom, para ambas.
Após o divórcio, desde que não aceitara pensão do ex-marido, Clara
teve de arranjar um meio de manter-se. Sabia que liberdade é conquista
diretamente proporcional à independência financeira. Foi nesse momento que o
aval e os bens de Margot foram solidariamente penhorados a essa causa: uma
pequena indústria de confecção que ia de vento em popa. Se não fosse
Margot... Elas eram assim. Absolutamente solidárias e fiéis. Quando achavam
que a outra estava errada em algo falavam com sinceridade e cada uma delas
envidava os melhores esforços para o sucesso da outra. Eram amigas de verdade.
Uma rara amizade que talvez não florescesse entre irmãs de sangue. Uma confiança
recíproca que afiançava uma amizade imorredoura.
Mas quis o destino que tivessem de separar-se. Margot fora transferida
para outra cidade e Clara, presa aos seus compromissos empresariais, viu
passarem-se alguns anos sem ver a amiga.
Nesse espaço de tempo a vida de ambas passou por radicais modificações.
Como se o fato de terem deixado mutuamente de se ampararem pudesse levá-las a
um desequilíbrio material e emocional, viram suas mais arraigadas convicções
sofrerem fortes prejuízos.
A confecção, prejudicada pela cruel conjuntura econômica, faliu.
Clara, após relutar contra a única possibilidade de trabalho, teve que fazer
uso do seu virginal diploma de Magistério. Começou a dar aulas. Ingressou no
serviço público, passando a ganhar o mínimo necessário à sua sobrevivência.
Teve de enfrentar também aquela fase de solidão, em que os últimos filhos
deixam a casa materna: casamentos,
trabalho ou estudos em lugares distantes. Foram anos críticos e, passada a
euforia dos primeiros anos da separação, caiu na realidade dura, fria, culposa
e de mágoa para com a vida. Entrou em depressão e viu deteriorar a saúde de
ferro da qual sempre gozara. Arrefecida a fúria uterina e após sofrer experiências
quase fatais, dedicava-se a uma vida mais intelectualizada e espiritual.
Por seu lado, Margot enfrentou também mudanças profundas em suas crenças,
com reflexos visíveis em sua personalidade. A mulher que tinha nas mãos as rédeas
de todas as vidas, inclusive as de seus próprios instintos, faliu também. Nada
a ver com a parte financeira. Essa só melhorara. Foram seus instintos e convicções
que faliram. Perdeu completamente o domínio sobre suas forças. Tornou-se
fraca, frágil, incapaz, atirada repentinamente nas malhas de suas próprias
armadilhas. Caiu vitimada pelas flechas de Cupido. Apaixonou-se e perdeu-se. A
mulher inatingível, intocável em sua força, a que manipulava tudo e todos,
caiu de joelhos aos pés de um homem que entrou na sua vida como instrumento da
vingança dos deuses machos, ofendidos pela atitude arrogante e presunçosa
daquela mulher orgulhosa.
Álvaro encarnou o anjo mau do desamor, do desprezo, da humilhação e a
fez pagar por todos os erros que agora ela imputava a si mesma. Rastejava aos
seus pés. Implorava uma gota de amor, de carinho, de consideração, de
respeito. Verdade que no início tentara usar das táticas que lhe eram
familiares. Primeiro tentou comprá-lo com seu dinheiro ou
influência profissional. Passou depois à sedução, lançando mão de
todo conhecimento que tinha da conquista amorosa. Em vão tentou conquistar essa
presa em sua mais feroz caçada. Derrotada em todas as frentes passou à
chantagem, às ameaças, aos escândalos públicos. Visitou cartomantes,
videntes, fez trabalhos de magia negra. Nem uma só estratégia deixou passar
sem experimentar. Ele não se afastava definitivamente e só se aproximava para
ofendê-la, das maneiras mais abjetas que se possa imaginar, porém usufruía o
sexo que ela fartamente lhe oferecia. Era algo assim inimaginável. Ele viera
mesmo como o castigo em sua vida. Talvez ela também representasse isso para
ele. Aquele relacionamento doentio era, para ambos, o verdadeiro amor bandido.
Margot vivia corroída por um ciúme doentio e fazia loucuras, como
passar o dia pendurada a um telefone, ou persegui-lo, sempre achando que iria
pegá-lo em flagrante delito e fazia ameaças de morte. Tão transtornada andava
que direito ninguém tinha de duvidar de suas promessas assassinas.
Foi nessa disposição de ânimos que Margot e Clara voltaram a se
encontrar. Uma transferência, pedida por ela, trouxe-a de volta à cidade, pois
era ali que morava seu maldito amado. Quase não se reconheciam, tão diferentes
eram agora, não na aparência exterior, mas intrinsecamente.
Clara não podia aceitar que aquela sua amiga, exemplo de força e
determinação tivesse se transformado naquele ser inseguro, infeliz,
perturbado. Tudo faria para ajudar a amiga. Margot passou a usar e abusar dessa
disponibilidade e a qualquer hora do dia ou da noite telefonava-lhe para contar,
tim-tim por tim-tim, cada episódio daquele drama. Precisava ouvir da amiga as
coisas que queria ouvir. __“Você acha que ele gosta de mim?”__ essa era a inevitável
pergunta.
__ “Deve gostar. De algum modo ele a ama. Se não, porque não se
afasta de vez?”__ respondia Clara. “Ele volta sempre a procurá-la!”
__ “Não. Ele volta sempre porque eu o procuro. Penso que se eu não
fizesse nada ele sumiria de vez”.
__ “Será? Não será que ele a trata assim apenas porque tem a certeza
que você correrá atrás? Você precisa resistir e esperar que ele a
procure”.
__ “Não consigo. É mais forte que eu. Já tentei. Nunca por mais de
cinco minutos. Está acima da minha capacidade. Sem esse homem eu não sei nem
respirar”.
Clara não podia conformar-se com as coisas que a amiga lhe contava.
Dizia que ele a chamava de biscate, que não saía com ela porque tinha vergonha
dela, que não a beijava na boca porque tinha nojo dela. Meu Deus, como podia
Margot ouvir essas coisas e dizer que amava esse monstro? Ele vivia pedindo que
ela se afastasse e o deixasse em paz. Mil vezes ele deu-lhe o fora e ela o
fizera voltar com chantagens emocionais e materiais. Ameaçava-o. Clara, porém
considerava que nada daquilo deveria ser motivo para ele voltar se não quisesse
realmente. Seria ele o típico escravo sexual? Aquele que odeia amar mas deseja
acima de tudo o que a parceira lhe oferece na cama?
No primeiro encontro das duas mulheres, após o retorno de Margot, Clara
quis saber se ele era jovem e belo. Que nada! Era velho e pobre. Um viúvo
aposentado que morava sozinho em uma casa humilde. Margot, por sua vez, agora já
desligada dos filhos, também morava sozinha em sua casa. Inexplicável o que
poderia impedir essas duas pessoas de morarem juntas e tentarem ser felizes.
Morarem juntos... Era tudo o que Margot desejava. Se pudesse acorrentava-o ao pé
da cama.
Um dia, revoltada pelas coisas que a amiga lhe contava, Clara desabafou:
__ “Pare com isso. Você está se destruindo por causa de um homem de
merda!”
A resposta foi inverossímil: __ “Se ele fosse merda eu ia querer ser o
pinico”.
Clara já estava desistindo de ajudá-la. Só recebe ajuda quem se ajuda.
Ela não queria. Era uma suicida, ou masoquista. Aprendera a gostar dessa dor
cruel. Viciara nela. Nada que Clara sugerisse seria levado a efeito. Melhor
desistir. Aquele baixo astral da amiga começava a lhe fazer muito mal. Afinal
Margot não era a única a ter problemas. Clara também os tinha. A filha mais
velha que há anos morava na França estava de volta e nova trajetória poderia
ter de tomar sua vida. Esperava um telefonema que confirmaria ou não o seu
retorno e para quando seria. Clara andava apreensiva.
__ O que é preciso para que você saia dessa? Esqueça esse homem e
volte a ser a Margot maravilhosa que conhecemos!
__ Só uma coisa me faria desistir. Saber que ele tem outra ou anda à
procura de outra. Porque, me ofende de todas as maneiras possíveis e imaginárias,
mas interessar-se por outra ele não admite jamais. Por que ele faz isso?
__ Porque tem medo de você, das suas ameaças.
__Se eu descobrisse um deslize nesse sentido eu o deixaria
definitivamente. Já pensei até em pagar a um detetive que me traga provas...
Clara riu. __ Você está vendo? Precisa de provas... Isto quer dizer que
nem acreditaria se alguém lhe contasse... quero dizer, a gente só acredita no
que quer acreditar e você, acho que nem vendo acreditaria, porque você não
quer deixar de sentir essas agonias que, no fundo, lhe dão prazer. Você optou
pelo sofrimento.
__ Não é verdade. Eu não suporto mais... Estou enlouquecendo.
Horas mais tarde, no meio da noite, liga para Clara para dizer que ele
deu-lhe o definitivo fora. Foi uma briga horrorosa. E tudo porque encontrou a
casa suja. Falou coisas terríveis. Chamou-a de porca, vagabunda e relaxada.
Chegaram a se agredir fisicamente. Nunca mais voltaria.
__ E você ainda não ligou para ele pedindo mil perdões?
__ Não. Desta vez não ligarei. Nem que eu morra! Ele disse que o único
sentimento que tem por mim é ódio e desprezo. Que se conseguir livrar-se de
mim será feliz. Que eu não tenho um pingo de dignidade... e tem razão..
__ Pare com isso. Agora vai começar a justificá-lo e daqui cinco
minutos estará ligando para ele. Fique firme. Não o procure. É preciso que
ele a procure. Tenho certeza que ele irá procurá-la. Afinal tudo que você lhe
dá, ele não encontrará em nenhum lugar do mundo. Dê-lhe tempo de sentir sua
falta. Aí você o terá em suas mãos e tudo poderá ser diferente.
__ Mas quanto tempo eu resistirei?
__ Olhe, por que não tira, amanhã, uma licença de alguns dias e vai
viajar? Fique longe por uns tempos.
__ E adianta? Em todo lugar tem telefone... A não ser... Sabe, aquela
ilha em que só se chega de barco? Lá eu ficaria completamente isolada. Lá não
tem telefone.
__ Então!... Faça isso.
__ Mas, sozinha? Não estou em condições de dirigir por tantas horas,
ainda mais sozinha. Venha comigo, Clara.
__ Eu iria, mas você sabe que minha filha está para chegar. Estou
esperando um telefonema dela. Não posso ausentar-me agora. Além disso, não
estou em condições de gastar dinheiro em férias inesperadas. Quem sabe, uma
outra amiga...
__ Não. Tem de ser você. Só você me entende. Quanto a despesas você
não terá nenhuma. Vamos no meu carro e tudo que eu tiver que gastar comigo, um
pouco mais, não fará diferença. Por favor.
__ Mas, quanto ao telefonema
que espero para saber sobre o incerto retorno da filha? Ela ficou de avisar-me
na segunda feira.
__ Faremos o seguinte. Na segunda feira meus amigos da ilha podem nos
levar ao continente e de lá ligamos para a sua casa. Você pede para sua filha
deixar recado com a empregada. Se ela estiver mesmo vindo, voltaremos antes.
Hein? O que acha?
Clara não pode deixar de pensar: ela, sempre conseguindo o que quer.
Sempre o poder do seu dinheiro! Teve vontade de negar, mas sentiu pena dela.
Afinal, seria a última tentativa de ajudá-la. Já estava cansada daquela
tragicomédia. Aquiesceu.
Partiriam na noite do dia seguinte. Até lá Margot estaria envolvida com
mil preparativos e não teria tempo de ligar para Álvaro e essa condição
Clara exigia. Caso contrário tudo aquilo seria inútil. O plano era deixá-lo
preocupado com o fato de Margot não procurá-lo.
Estavam na ilha há alguns dias. Margot parecia muito bem. Estava
implicante e desagradável, mas Clara que a conhecia tão bem sabia que ela era
assim mesmo. Não ligava para seus chiliques. Naquele dia iriam para o
continente com o barco que fazia o trajeto de três em três dias. Ficou sabendo
que a filha ligou e chegaria ao Brasil dali a dois dias. Clara se animou.
Precisavam, então, retornar.
__ Mas, fazer uma viagem dessas para aqui permanecer tão pouco tempo? Não,
eu não vou voltar.
__ Pouco tempo? Já estamos a cinco dias! E depois você sabia... O trato
foi esse...
__ Ora... Você vai...
__ O que? Você sabe muito bem que não vim prevenida com dinheiro e
depois, fazer uma viagem dessas de ônibus? Você conhece minhas dificuldades
emocionais. Não vou sozinha nem até
à igreja!
__ Quanto a dinheiro não se preocupe. Pago um barqueiro para levá-la ao
continente e dou o necessário para a viagem. Definitivamente, não volto tão
cedo.
Nunca em toda sua vida Clara sentiu-se mais ofendida.
__ Você, como sempre, pensa que seu dinheiro pode comprar tudo, não é
mesmo? Você acaba de jogar fora uma grande amizade. Para mim chega!
Deixou Margot com amigos no bar da praia e foi para a casa onde pagavam
hospedagem. Havia na ilha uma pousada que Margot não quisera procurar porque
dizia ser muito cara. Era o único lugar com luz elétrica, televisão, banho
quente pois tinha gerador próprio de eletricidade e ficava iluminada até dez
ou onze horas da noite. Arrumou sua mala e foi para essa pousada. Conversou com
a dona do lugar que aceitou receber um cheque e ainda descontá-lo, dando-lhe em
dinheiro o suficiente para a viagem de volta. Falou que o sogro ia na manhã
seguinte ao continente para trazer bebida e poderia levá-la. Tudo resolvido.
Clara não queria nem ouvir falar o nome da amiga, ex-amiga. O que ela fizera
era imperdoável. Nunca mais... Nunca
mais! Dormiu vestida e de malas prontas, ansiosa, esperando apenas o dia clarear
e o velho senhor vir chamá-la. Quem sabe Margot a viesse procurar para pedir
desculpas. Ela perdoaria, é claro, se Margot reconhecesse o erro. Porém Margot
não a procurou e na manhã seguinte, sob fino chuvisqueiro fez, de canoa a
motor, aquela tenebrosa viagem em alto mar. Estava mortificada. Depois,
cansativo trajeto com diversas baldeações e intermináveis horas de espera em
cada estação rodoviária. Só conseguiu chegar em casa às dez horas da noite.
Veio, durante todo tempo, alimentando um ódio feroz por Margot. Ah!... Se
pudesse vingar-se...
No dia seguinte foi buscar a filha no aeroporto e esqueceu todos aqueles
aborrecimentos. Seria uma curta permanência e Clara queria aproveitar ao máximo
daquela gratificante visita. Passou ótimos dias em sua companhia mas a moça
partiu e Clara, novamente a sós, tinha que resolver os problemas financeiros
que sobraram daquele infausto passeio somados a outras necessidades. Margot
havia lhe falado de um comprador interessado em adquirir uma valiosa tela que
Clara desejava vender, mas não lhe dera endereço, nem telefone do homem.
Dissera, porém que era meio parente de Álvaro. Clara relutava, mas o jeito era
comunicar-se com o monstro e tentar descobrir algo a respeito do “marchand”. Faria
isso. Outro jeito não havia. Não podia negar que além dessa necessidade havia
uma mórbida curiosidade de conhecer Álvaro e descobrir se era mesmo o diabo
que Margot pintava ou apenas uma vítima nas mãos daquela louca. Por esse
motivo, duvidando de suas próprias intenções, deixou passarem-se os dias. Não
conseguia reunir coragem suficiente para procurar esse homem. Não desejava
contato nenhum com ninguém ligado à Margot. A raiva não passara. Não podia
sequer lembrar-se dela. Acontece que o cheque especial ia estourar e havia urgência
em vender o quadro. Sabia o nome inteiro de Álvaro, procurou no catálogo telefônico,
achou o número e, na manhã seguinte, ligou. Foi estranho. A primeira impressão
foi muito agradável. Ele tinha uma voz doce e carinhosa. Foi delicado e gentil.
Disse que há tempos não via esse parente, mas seria fácil localizá-lo através
de sua irmã. Faria isso e ligaria para Clara o mais breve possível.
Pediu-lhe o telefone e foi encantador ao despedir-se. Haviam ficado
conversando por mais de vinte minutos. Falaram sobre tanta coisa, mas só
tocaram no nome de Margot, quando para identificá-lo Clara perguntou se ele era
o Álvaro, namorado da Margot. Ele riu e disse. __ “Acho que já fui. Não sou
mais”.
No dia seguinte Álvaro ligou para lhe passar o telefone do comprador.
Disse que falara pessoalmente com ele, que mostrou-se interessado e esperava um
telefonema dela para combinar quando poderia ver o quadro. Novamente a conversa
estendeu-se por muito tempo. Era muito agradável falar com Álvaro. Ele parecia
adorar ficar assim conversando com ela. E ela estava encantada com sua suavidade
e delicadeza. E Margot que dizia ser ele caladão, que pagava para não falar...
Só se fosse com ela! O fato é que
essas conversas não pararam por aí. Agora falavam sobre tudo e Álvaro contava
os horrores que viveu naquele relacionamento com Margot. Clara contava sobre sua
vida e os telefonemas passaram a ser diários. Muitas vezes ao dia. Entre os
dois revelava-se uma afinidade de pensamentos e atitudes impressionantes. Eram
iguais e estavam se apaixonando. Ele contava-lhe todos os passos e se chegasse
em casa mais tarde, à noite, ligava para que ela não ficasse preocupada.
Davam-se satisfações como se sério compromisso tivessem. Era, porém um
namoro por telefone. Queriam se conhecer pessoalmente e ambos estavam com medo
de decepcionar o outro. Essa paquera telefônica já durava quase um mês quando
decidiram que precisavam se ver.
Álvaro convidou-a para almoçar, num restaurante beira-rio, mas Clara
preferiu que ele viesse comer um peixe que ela mesma prepararia, em sua casa.
Preferia não ser vista com ele, por enquanto. Não estava a fim de sofrer
agressão de uma mulher ciumenta. Temia que ela viesse aprontar algum escândalo
à porta de sua casa. Pediu que ele fosse cauteloso. Ele disse que chegaria bem
cedo e iria ajudá-la com o almoço. Ótimo! Era assim mesmo que Clara queria
fossem as coisas. Uma camaradagem franca. No entanto, deixou tudo muito
adiantado e quando ele chegou, na manhã seguinte, estava arrumada, perfumada,
casa bonita e almoço pronto. Assim teriam mais tempo para conversar. E foi o
que fizeram Das nove da manhã às dez da noite. Houve um momento, quando se
levantavam da mesa do almoço, que Álvaro abriu os braços para ela e Clara
teve que habilmente fugir desse abraço enquanto lhe pedia que não apressasse
as coisas.
Ela o achara simpático, mas não era em absoluto seu tipo. Gostou mais
dele por telefone, isto é, sua voz ao telefone despertava mais o desejo que
assim, pessoalmente. Além disso, há tanto tempo não tinha um relacionamento
amoroso que havia decidido que isso só aconteceria no momento que tivesse
certeza da existência de um sentimento sincero e sólido. Não queria uma
aventura. Ainda mais com quem! Precisava ter certeza que entre ele e Margot não
havia mesmo mais nada. Não que se sentisse com deveres de lealdade, depois do
que ela fizera!... Mas também não queria arriscar a própria pele por nada.
Era preciso que valesse a pena. Por enquanto estava cheia de dúvidas.
Ele mostrou-se ofendido e disse não ter a menor intenção... Que se
fosse isso que ela pensava a respeito dele, melhor que fosse embora. Clara
desculpou-se. Disse que o estava julgando pelo que conhecia dos homens que
pareciam não pensar em outra coisa. Acabaram por se entender e passaram o dia
falando, atropeladamente, sem parar, por todo o dia. Uma certa hora, estando
ambos bem próximos um do outro, no mesmo sofá, precipitadamente, ele falou:
__ Posso pedir uma coisa?
__ Naturalmente, o que é?
__ Posso lhe dar um beijo?
Tão tímido e respeitoso, Clara não pôde negar. Imaginou que ele fosse
beijar-lhe a face. No entanto ele deu-lhe um longo e terno beijo na boca. Clara
sentiu acender todos seus antigos ardores. Ela, que nem pensava mais sentir
coisas assim, descobriu que ainda havia brasas ardentes sob as cinzas de sua
frigidez. Na verdade nunca fora muito resistente a esse tipo de contato.
Entregava logo os pontos. Sempre fora uma mulher ardente, para não dizer fácil.
Afastou-se delicadamente, confirmando sua intenção de não permitir
acontecesse algo que a fizesse arrepender-se. Queria não ir ao pote com muita
sede. Era preciso ser sensata. Álvaro foi embora e Clara ficou cheia de dúvidas.
Não sabia se gostava ou não do homem. Perguntava-se o que realmente desejava.
Vasculhou seu íntimo tentando descobrir se havia um laivo de desejo de vingança
contra Margot. Não. Estava certa que não. De certa forma parecia até que a
estava ajudando. Ela não dissera que se livraria desse sentimento que a destruía
se soubesse que ele poderia procurar outra? Enfim, ela tinha em suas mãos o antídoto
contra o veneno que andava matando Margot. Mas, que tolice! Nada mais tinha a
ver com a ex-amiga. Precisava apenas ter certeza dos sentimentos de Álvaro com
relação a ela. Era só dar tempo ao tempo. Ele garantia que não mais
procurara Margot e nem ela voltara a procurá-lo. Ótimo. Mas tinha de ter
certeza. Não se entregaria assim, facilmente, a uma relação que poderia levá-la
a sofrer como a coitada da Margot.
Mais uma semana se passou, idêntica às anteriores. Telefonemas
constantes, mais saborosos ainda. Novamente um final de semana e ele em sua
casa. Inútil contar os detalhes. Tudo igual, apenas um pouco mais de
intimidades que se resumiram em mãos nas mãos, olhos nos olhos e alguns
beijos. Ficou combinado que viria jantar na quinta-feira. Clara estava se
entusiasmando demais!
Na quinta-feira à tarde teve de sair e viu Margot. Sentiu-se muito mal.
Sentiu-se uma traidora. Afinal, fosse como fosse tinha que abrir o jogo e
contar-lhe antes que ela ficasse sabendo por outras pessoas. Sabe-se lá... Pelo
próprio Álvaro, que poderia usar isso para feri-la. À noite teria séria
conversa com ele.
Quando Álvaro chegou Clara havia decidido que esse seria o momento de
uma tomada de posição. Nenhum dos dois era criança e o desejo de uma experiência
mais íntima já se havia manifestado de ambas as partes. Contou-lhe o que
sentira ao ver Margot. A resposta veio cheia de firmeza:
__ Você não deve se sentir traidora. Quando conversamos pela primeira
vez já não existia nada entre ela e eu. Eu falei...
__ Mas você tem certeza sobre seus sentimentos para com ela? Olhe, se
houver a mínima possibilidade de
fazê-la feliz, prefiro que paremos
agora de nos ver. Afinal, vocês tinham um relacionamento infernal, mas que
durou alguns anos e coisas assim não se acabam tão facilmente. Andei pensando,
você sabe, aquela história de escravo sexual...
__ Não vou negar que fiquei ao seu lado mais tempo do que devia por esse
motivo. Ela faz coisas que deixaria qualquer homem louco. Mas acabou... Acabou
de vez. Acredite em mim...
__ Está bem, não falaremos mais sobre isso.
Então, nesta noite faria amor com ele. Não tinha muita certeza se ia
gostar ou não. Precisava saber. Era uma decisão racional, quase fria. Há
tantos anos não fazia isso. Precisava saber também como seu corpo ainda reagia
numa relação sexual. Se havia a possibilidade de voltar à ativa, ou melhor,
seria continuar naquela cômoda abstinência. Precisava saber. Intelectualmente
davam-se muito bem. Espiritualmente eram seres semelhantes. O conhecimento
material fora satisfatório. Só faltava testar a afinidade numa relação de
sexo, amor carnal. Se aquilo a fizesse feliz, assumiria de vez um compromisso e
daí teriam que revelar à Margot.
Jantaram à luz de velas, vinho, café e licor. Tudo perfeito. Uma música
romântica tocava baixinho no aparelho de som. O gosto do licor ia sendo
saboreado em outra boca. O caminho para chegar ao quarto foi feito sem pressa,
para cada passo uma longa parada. Foi perfeito. Álvaro pensou em permanecer
naquele leito convidativo ao sono até a manhã seguinte, mas Clara logo
insinuou que ele devia partir. Precisava de mais tempo. Tudo perfeito, mas
partilhar sua cama, seu sono... isso já era outra história, outra etapa a ser
analisada. Pedia tempo. Clara sempre foi uma mulher do “after day”.
Precisava aconselhar-se com seus travesseiros, ouvir os ruídos do sol nascente,
vislumbrar a luminosidade da manhã para que pudesse tomar decisões
definitivas, das quais jamais se arrependeria.
Álvaro ligou. Queria saber sobre seu desempenho. Se havia correspondido
à expectativa. Sim, muito! Clara estava eufórica. Em parte por estar se
sentindo jovem e amada como há muito não o era. O próprio desempenho lhe
trazia mais alegria que o do outro. Contra as temidas probabilidades, seu corpo
reagira com todos os sinais juvenis. Estava em estado de graça. Sentia-se
renascer.
Não se veriam nesta noite. Álvaro tinha um compromisso, mas
viria sábado para almoçar com ela. Horas depois ligou transferindo o
almoço para domingo. Os filhos viriam visitá-lo. Não se falaram mais nesse
dia, embora Clara, anelante e apaixonada esperasse coisas assim como ramalhetes
de flores, beijos telefônicos a cada dez minutos, mensagens de fumaça no céu,
coisas assim. Nada disso aconteceu.
Sábado, nem um bom dia! Clara evitava ligar para sua casa. Não queria
adiantar-se a algo que ele deveria contar aos filhos. O dia passou assim e,
decepcionada, começou a perceber que aquelas brasas precisavam que alguém
viesse soprá-las para que se mantivessem acesas. Iam-se apagando. Foi então
que notou quão fraco era aquele fogo. E se assim era não valia o esforço de
mantê-lo aceso. Quando a noite chegou já estava certa que não desejava voltar
a vê-lo. Qualquer coisa desagradável que pudesse ter acontecido nesse espaço
de tempo, desde que conhecera Álvaro, ia-se avolumando e sobrepujando as coisas
boas. Agora só sentia os prognósticos negativos. Ia parar por ali. À noite
tentou falar com ele e pedir que não viesse no dia seguinte. Queria um tempo.
Precisava passar a sós aquele domingo, como todos, nos idos tempos. Não
desejava a interferência daquele homem que agora lhe parecia uma ameaça ao seu
sossego, à sua vida tão resolvida. Seu telefone não atendeu. Estava tão
decidida que mal conseguiu dormir e às primeiras horas da manhã ligou
novamente. Temia sua vinda antes que pudesse contatá-lo.
__ Álvaro, você está pensando em vir aqui?
__ Não estou só pensando, não. Na verdade já estava me aprontando...
__ Olhe, estou ligando para pedir que não venha. Por favor. A gente se
fala...
E desligou, deixando assim tudo no ar. Só o que ela queria nesse momento
era a certeza de sua ausência. Da posse total desse seu domingo. O que teria
Clara adivinhado, visto ou deixado de ver para tão completa guinada dar àqueles
sonhos pueris? Nem ela mesma sabia. Só sabia que não queria mais. E estava
feliz por conseguir livrar-se assim, sem maiores conseqüências, pois Álvaro,
ferido em seu orgulho, não voltou a ligar. Esperava que ela o procurasse para
explicar a repentina mudança. Ela não ligou. Às vezes o telefone tocava, ela
atendia e do outro lado ninguém falava. Clara tinha certeza que era ele.
Acabaria por cansar-se. Tudo bem.
Quando todas as coisas já pareciam ter voltado à normalidade, um
telefonema inesperado. Era Margot e pedia para falar com Clara. A moça respirou
fundo e preparou-se para ouvir coisas desagradáveis. Qual não foi sua
surpresa! Margot queria pedir que parassem com aquela bobagem de ficarem
brigadas. Uma tão longa amizade não podia terminar assim. Assumia seu erro e
desculpava-se, mas também Clara fora bem insensível por tê-la abandonado
daquele jeito. Afinal, saberiam pôr uma pedra em cima de tudo e fazerem as
pazes.
Clara ficou boquiaberta. Então Margot ignorava tudo o que acontecera
naqueles quase três meses em que estiveram separadas? Bem, se ela ligasse outra
vez tentaria saber algo a respeito de Álvaro. Mil incertezas em sua cabeça.
Deveria contar para Margot? Não! Tinha é que esperar a seqüência dos
acontecimentos. Ou teria sido esse telefonema só para lhe dar uma chance de
contar o que ela já sabia? Acabou o sossego de Clara. Seu coração estava
inquieto.
Novamente Margot ligou, dias depois e recomeçou a ladainha de queixas
contra Álvaro.
__ Então, voltaram? __ quis saber Clara.
__ Ficamos mais de dois meses sem nos falar. Eu não o procurei mais.
“Quer dizer”, liguei algumas vezes, mas como velha conhecida. Sem cobranças
nem ameaças. Você tinha razão. Na noite de Natal ele veio, sem que eu o
convidasse. Trouxe presentes para todo mundo e tudo voltou a ser exatamente como
era antes. O mesmo inferno!
Aí, Clara revoltou-se de verdade. Mas que cafajeste! Depois de tudo que
lhe falara! Em vez de deixar em paz a pobre da Margot que conformada já parecia
estar, voltou... Fizera muito bem em deixá-lo daquele jeito. Merecia coisa
pior. Que espécie de homem era esse?
E tudo voltou a ser mesmo exatamente como era. Margot ligava a cada briga
ou discussão, a cada acontecimento, pedindo conselhos, pedindo ajuda.
Clara estava com enorme problema de consciência. O que fazer? Se ele não
contou nada deveria ela se antecipar? Afinal não seria essa a salvação final
para Margot? Poderia também significar seu fim. Afinal, falar era seu dever de
lealdade ou uma presumível vingança que por algumas horas Clara alimentara?
Que terrível dilema. Mais que isso! Que drama de consciência! Acabou por
decidir que se Margot quisesse mesmo saber, lhe diria. Mais de uma vez, cansada
de ouvir seus lamentos, Clara falou:
__ Se você deseja mesmo esquecê-lo, eu tenho o remédio.
__ Eu quero! Não suporto mais tanto sofrimento.
__ Bem, se não for da boca pra fora... Olhe, pense bem.
Margot desconversava e cada vez mais Clara ficava convencida que a amiga
não queria mesmo livrar-se dele e de toda carga de sofrimento que lhe
proporcionava. Cada vez mais se convencia do masoquismo de Margot. Então, nada
falaria. Pra que? Só iria levar mais dor a pobre mulher. Mesmo porque, ela não
queria saber. Tinha certeza disso.
Mais uma vez Margot voltou com aquela história de que a única maneira
de livrar-se dele seria saber que ele a traía. Clara chegava a supor que ela
sabia de tudo e ficava lhe dando a oportunidade de confessar o que havia feito.
Será? Era difícil ficar fingindo que continuava não conhecendo o cara e
ouvindo as lamúrias de Margot.
Um dia Margot chegou às vias de fato e pediu que Clara investigasse o
parceiro.
__ Ele disse que vai viajar sozinho. Tenho certeza que está me
enganando. Ele não conhece você, nem seu carro. Você o segue quando ele sair
de casa e descobre se sai sozinho da cidade e para que lado ele vai. Se ele
rumar em direção à capital, tudo bem, mas se tomar o sentido contrário é
que vai pegar aquela desgraçada que vive pegando carona com ele para ir às
sessões de análise que estão fazendo. Tenho certeza que ele vai levar essa
mulher com ele. Por favor. Faça isso pela sua amiga. Tem dó de mim!
Clara concordou em fazer o que ela pedia, apenas porque não soube o que
responder. Naturalmente que não podia fazer isso. Como dizer a Margot que ele a
conhecia e ao seu carro muito bem? Estava num beco sem saída. No dia seguinte
teria de dar uma resposta, levar-lhe o resultado da suposta investigação. Não
tinha certeza se ia salvar a amiga contando a verdade, mas estava certa que
amigas é que nunca mais voltariam a ser. E agora?
Clara acordou cedo e saiu de casa. Este era o dia D. A hora H. Fugiu
covardemente. Não tinha coragem de, logo às primeiras horas do dia, apunhalar
a amiga. Queria que essa conversa se desse o mais tarde possível naquele dia.
Ela que ficasse ligando.
Já era fim de tarde quando retornou e mal colocou os pés em casa o
telefone tocou.
__ Puxa vida! O que aconteceu com você? Já liguei aí um milhão de
vezes! Pelo amor de Deus, conte o que aconteceu. Você o seguiu?
__ Não.
__ Não? Mas... Por que?
__ Preste atenção e, por favor, não interrompa. Depois você falará o
que quiser e eu prometo ouvir. Mas, agora, ouça apenas.
E Clara começou dizendo que durante aqueles dois meses em que ele esteve
longe dela estava com outra, sim! E foi lhe contando como tudo começou e até
onde foi.
Margot estava muda. Nem que quisesse falar não conseguiria. Não estava
acreditando. Aquilo era invenção de Clara para obrigá-la a deixar Álvaro de
vez. Lógico! Era por piedade que ela fazia isso. Fez perguntas de foro íntimo
a respeito de Álvaro. Clara disse que não lhe daria detalhes. Era como enfiar
uma faca e ficar cutucando a ferida. Não faria isso. Ela que perguntasse a ele.
Álvaro confirmaria e pronto.
No dia seguinte Margot ligou para dizer que Álvaro negou tudo. Clara
ficou abismada. Disse ainda que ele confirmara ter ido na casa de Clara, mas
apenas com a finalidade de levar o parente que iria comprar o quadro, como
realmente o fez. E nada mais.
__ Uma mulher como eu... Você quer dizer, uma mulher que tem uma casa
bonita e bem arrumada...
__ Isso também... Do jeito que ele é...
__ Eu não queria lhe dizer isso, mas ele voltou para você quinze dias
depois que eu dei-lhe o fora. Fui eu que não quis dar prosseguimento a um caso
tão pouco promissor.
__ Não acredito!
__ E faz muito bem! Quer saber de uma coisa? Eu inventei tudo isso. Ele a
ama mesmo. Tente ser feliz, mas por favor, não me procure mais. Não posso
fazer mais nada por você. Adeus.