Fim de Agosto

 

 

Maristel Dias dos Santos

                        Hoje é 31 de Agosto como foi há 67 anos e minha mãe atravessou aquele dia como todos os demais.Aqueles passinhos miúdos e ligeiros, limpa aqui, limpa ali, faz uma costurinha na máquina, capricha na arrumação da cama grande onde dorme com seu esposo, dá banho nas crianças, põe todas pra dormir e sem um ai, sem expressão nenhuma na fisionomia fechada, tenta relaxar. Senta-se em sua cadeira predileta, ao pé do rádio para ouvir a novela das oito; pega com mãos trêmulas o seu crochê e espera... Mamãe espera que as horas passem depressa porque é Agosto e ela quer que chegue logo Setembro. Manda recados, pelo papai, para alguém que deverá vir lá pela meia noite.

                        Horas tenebrosas. A fisionomia carregada denuncia sentimentos variados: preocupação, medo, atenção e... dor. Dor que, de tempos em tempos, se repetem com intervalos cada vez menores. Dor que ela tenta disfarçar, com pouco êxito, nos traços de seu bonito rosto. Dor a qual não quer se entregar. Mamãe espera... Espera Setembro.

                        Enfim chega a esperada visita e vem tensa e ansiosa, corre para a cozinha, aviva o fogo soprando as brasas e acrescentando mais achas de lenha, porque grandes caldeirões cheios de água precisam ferver.

                        Papai caminha de um lado para outro feito barata tonta. Parece perdido em seus pensamentos ou temores.

                        A senhora do fogo retorna à sala e ajuda mamãe a erguer-se de sua cadeira com o auxílio de papai. Como mamãe está pálida e estranha!Tão diferente dos outros dias, caminha com passos lentos e arrastados, até aproximar-se da grande cama do casal e com a voz entrecortada, pergunta para o papai que horas são.

            Faltam poucos minutos para a meia noite. Perpassa um ar de felicidade por entre seus traços lívidos e dolorosos. Deita-se ajudada por seus assistentes. Pode então deixar escapar aquele gemido que tão heroicamente prendia dentro do peito. È hora de expulsar papai do quarto e o que acontece depois, apenas aquelas duas mulheres saberiam.

O relógio da sala bate a última das suas 12 badaladas. Poucos minutos depois um abafado gemido e um grito contido, sincronizado, quase que perfeitamente, com um choro estridente, o vagido de um novo ser humano.

E foi assim que chegamos: eu e Setembro.