Florisbelas

Maristel Dias dos Santos

 

Púrpuras, violáceas, amarelas,                           

Encarnadas, azuis, alvacentas

Esparramam-se rasteiras aquarelas

Despretensiosas, humildes e sedentas 

Da vida  de um dia, vidas singelas 

Florezinhas nuas, pétalas poeirentas,

Sobre entulhos das ruas ou vielas

Explodem espontâneas, inocentes

Nos terréus lixentos, nos solos fendidos

Marias-sem-vergonha nas janelas,                                                             

Zés-ninguém ao solo acorrentados,

Estendem ávidos rastros coloridos

De flores serenas que ninguém cobiça.

Flores conformadas, anônimas quirelas

A encobrir lixeiras ou fétida carniça                   

Que excreta sobre as generosas terras

O homem imprudente, o imprevidente,

Cuj solo conspurca e ofende a visão.

É quando a natureza inteligente

Faz brotar efêmera explosão

De cores, de beleza, raro pano

A camuflar o ato negligente

Do pouco caso humano.                         

Derramam-se fluidas aquarelas,

Florezinhas azuis, vermelhas e amarelas

E de repente, na mágica da mente,

Essas flores transformam-se em gente

Naquela festa em que participei                           

Por convite formal e elegante

De instituição muito importante

Para homenagear mães indigentes

Que viram seus rebentos esperança   

Desabrocharem num salão brilhante                   

De cores, de beleza, raro pano

A enfeitar o ato negligente, o caos

Criado pelo pouco caso humano

Nos terréus da miséria social                                                                                                                  

Florezinhas rubras, brancas, amarelas

Fluem suaves como aquarelas

Aspergindo cores, sons, amores,

No afã de humanizar a desumana

Impiedade da lixeira humana.                                              

Não são lírios, orquídeas, nem camélias

 

Florezinhas morenas, louras, Florisbelas,  

São Ivetes, Marlenes, são Amélias