Gardênia
Maristel
Dias dos Santos
São os derradeiros minutos da véspera do último dia do penúltimo ano
do milênio terminal. Pode-se dizer
que é o fim do fim do fim e Gardênia está só. Só como jamais esteve. O próprio
tempo parece escoar por entre seus dedos e abandoná-la. Sozinha como jamais
esteve. Nem mesmo no momento de nascer esteve tão só. Havia, esperando por
ela, duas mulheres: sua mãe e a parteira. Agora... Haverá em alguma parte do
universo alguém a esperá-la?
Gardênia não pode sair, atravessar a rua e conversar com pessoas interessantes e loucas como aquelas da caixa preta. Não pode porque não há pessoas interessantes em sua rua. Defronte sua casa o que existe é um matagal, escuridão e mais nada.
Por isso Gardênia sente-se tão só. Gardênia é uma velha senhora que mora sozinha e, se houvesse gente interessante lá fora, com certeza ninguém olharia para ela. Permaneceria invisível na rua como é dentro dessa sala, diante das pessoas da TV que não a vêem. Gardênia não é. Gardênia não existe.
É insuportável a sensação de não ser, ainda sendo e após ter sido tanto! É preciso deixar de ser para harmonizar a realidade com a ilusão, para enganar, frustrar os personagens do filme que, sem ser, fingem que são. Gardênia quer não ser.
Num impulso, ergue-se do sofá coberto por flores lilases. Vai para a cozinha. Abre a geladeira. É lá que, desde que havia crianças em casa, guarda, na gaveta sob o congelador, uma pequena arma automática, uma “mouser” alemã, calibre 22, embrulhada em papel laminado, há mais de trinta anos, como se fosse uma coxa de frango congelada e esquecida. Funcionaria ainda? Logo saberia. Já imaginava o pequeno projétil dourado de ponta rubra penetrando em seu peito e se alojando dentro do coração gelado. Desse modo o pequeno órgão vibrátil se inundaria com o sangue quente que circula impaciente por todo o corpo e Gardênia, então, deixaria de ser. Ou, quem sabe, voltasse a ser, dentro de alguém que iria envolvê-la em carinho e proteção, falasse com ela e a ouvisse, sem cansar-se nunca.
Como saber onde começa e onde acaba a consciência viva, participante, ativa, criadora?
Seu braço pára a meio caminho da gaveta do congelador ao notar a existência de uma garrafa de vinho branco na porta da geladeira. Devia, há muito, estar ali. Gardênia não se lembra de a haver comprado algum dia. Julgou providencial tal descoberta. Sim, era preciso brindar ao fim, à partida. A mão, parada no ar, desceu. Apanhou a garrafa e foi até a pia, sobre a qual descansou-a. Procurou no armário o saca-rolha. Apanhou-o e ficou a observá-lo por alguns minutos, examinando-o minuciosamente como se estivesse a vê-lo pela primeira vez. Que coisa! Parecia mesmo que o via pela primeira vez. Há mais de quarenta anos ele reside nessa gaveta e é para Gardênia um objeto estranho. Lembra-se quando, de mãos dadas com o jovem marido, percorria as ruas de Copacabana, entrando e saindo de lojas, e que, numa delas, entre outros “souvenir’s”, foi adquirido. Talvez o mais útil e indispensável objeto doméstico e com o qual compartilhara toda a sua vida. Examina-o atentamente estranhando que não tivesse o menor sinal de desgaste ou defeito. Eram dois tipos de metal, um branco, aço com certeza e outro amarelo que Gardênia não tinha idéia do que fosse. Perfeito como foi ao ter sido fabricado. Apenas o abandono, a falta de uso dos últimos anos fizera desaparecer o brilho, o polimento. Gardênia sacou a rolha confirmando o seu irrepreensível desempenho. Sem ele jamais teria conseguido abrir aquela garrafa. Como algo tão frugal e despretensioso podia ser tão útil? A mais cara e valiosa pedra preciosa, o mais raro diamante não teria conseguido desempenhar o desejado efeito.
Gardênia apanhou seu mais belo copo de cristal para vinho branco, cuidadosamente verteu a bebida vaporosa e provou-a. Deliciosa. Voltou, porém sua atenção para o velho saca-rolha e passou a poli-lo com energia até fazê-lo parecer ouro e prata enquanto ia, aos goles, esvaziando o copo. Meticulosamente secou o pequeno instrumento metálico e com carinho guardou-o na gaveta onde, por anos a fio, foi descuidosamente atirado. Outra vez encheu o copo e depois novamente e ainda mais uma vez... Sem se dar conta de mais nada, adormeceu. O rosto apertado contra as flores lilases do sofá, completamente esquecida da “coxa de frango” congelada, na geladeira,embrulhada em papel laminado.
O sol atravessando a porta envidraçada invade a sala, atravessa as pálpebras cerradas e a desperta . As pessoas dentro da caixa preta se foram, mas Gardênia ficou. O calor do sol nascente de verão a aquece docemente, ternamente. Gardênia espreguiça-se distendendo e alongando seus membros entorpecidos e, como todas as manhãs faz, encaminha - se ao seu pequeno jardim. Sente uma ansiedade feliz porque vai descobrir qual é a cor daquele botão de rosa que ontem não havia, ainda, se revelado. É uma rosa amarela que se abre para o mundo e Gardênia adora as rosas amarelas! Gardênia é feliz. Ri como se criança fosse. Ergue para o alto os braços e agradece aos céus aquele presente. O galho quase seco que certa manhã ela encontrou na rua foi plantado, regado, cuidado, num belo dia vicejou e agora lhe oferece uma rosa amarela. Fica sempre assim, feliz e grata, quando uma flor desabrocha em seu jardim. Sente-se importante e valiosa como aquele saca-rolhas, metal resistente, objeto útil e insubstituível.
Gardênia é feliz, ainda que fosca, sem o brilho das coisas novas, ainda que esquecida dentro de uma gaveta em forma de casa, Gardênia é feliz. Ela sabe que chegará a hora da redenção. Saberá esperar pelo lugar e momento certos, quando uma força superior a tirará dessa gaveta, removerá as manchas do tempo e do desgaste terreno e a fará renascer para prosseguir.
Gardênia é
feliz...
FIM