O Véu e a Mortalha
Homossexualidade?
( esta é uma história de encontros, desencontros e reencontros)
Escrevo pensando em você, querida e sábia mãe que, adequada ao seu
tempo, tentava-nos fazer aceitar o casamento como um acontecimento fatal,
indispensável e indissolúvel. Um mal necessário. As coisas mudaram neste
mundo que você deixou. De suas queridas palavras portuguesas às vezes divirjo,
outras vezes concordo: “O véu e a mortalha no céu se talham.”
O véu e a mortalha

Era uma estrada pouco movimentada
aquela que cortava imensidões de terras não cultivadas, áridas, desérticas por onde a moto seguia
levando João Francisco à cidade, que ficava a três horas do pequeno povoado
onde vivia. Lá era o centro comercial onde o moço fazia as compras para seu
mini-mercado
que servia à pequena comunidade onde vivia. Pelo menos uma vez por mês fazia
esse trajeto, mas era a primeira vez que ia com a sua possante moto. Usava
sempre uma pick-up, pois
aproveitava para trazer alguma mercadoria e como a finalidade desta viagem era
apenas efetuar pagamentos, decidira usar a moto.
Havia um trecho que sempre lhe chamava a atenção. Aos poucos o verde ia surgindo e logo subia por uma encosta coberta por capim exuberante e lá em cima, um extenso platô onde havia muitas árvores. Podia-se ver também alguns animais pastando. Poucos bovinos, dois ou três cavalos e muitos carneiros e cabras. Era assim como um oásis no meio do deserto. Além de ser um quadro que agradava aos olhos empoeirados, cansados da paisagem árida, era também a indicação de que a cidade grande estava bem próxima. Dali em diante a vista campestre era menos inclemente, mais encorajadora. O pior pedaço já ficara para trás. Se era um bom presságio na ida, ao voltar significava a despedida ao trecho civilizado.
Distraído por esses pensamentos e admirando o monte verdejante, não viu
a enorme pedra no meio da estrada. A roda dianteira da moto trombou, levando-o a
perder o controle da máquina, cair
e ficar estendido no chão de terra batida; a moto tombada a alguns metros.
Ergueu-se, examinando-se para ver se estava muito ferido. Não. Estava bem.
Apenas alguns arranhões nas mãos e no rosto, produzidos pelos pedregulhos que
cobriam o leito. Levantou a moto, fez funcionar e quase leva outro tombo. Alguma
coisa se entortara. Impossível continuar com ela. Olhou desanimado para a
estrada deserta. Sabia que podia passar até alguns dias sem que por ali
chegasse alguém. Precisava de muita sorte para que aparecesse gente naqueles
ermos. Olhou em torno e vislumbrou tênue rolo de fumaça no alto daquele
platô. Evidente. Devia haver gente morando por ali. Que fazer? Jamais
conseguiria subir a íngreme encosta empurrando a pesada moto. Atravessou a
estrada e escondeu-a no meio de alguns arbustos. Procurou camuflá-la com outros
galhos que foi juntando e começou a subir o morro. Ao terminar a subida
encontrou-se em extenso chapadão. Uma casa rústica feita quase toda de madeira
bruta, troncos envelhecidos, como se tivessem ficado esquecidos por séculos
naquela espessa mata que se podia ver para lá da casa. Não se enganara. Logo
iria poder verificar que poucas paredes eram de alvenaria. A maior parte fora
construída com madeira de árvores tombadas pelo tempo ou intempéries, raios
ou queimadas.
Havia também alguns ranchos e cocheiras erguidas com o mesmo tipo de
madeira. Bonito e original. Foi chegando, mancando um pouco e preocupado com o
fato de que seu aspecto assustasse os moradores do lugar. Um rapaz saiu de uma
daquelas cocheiras com um balde nas mãos. Estacou ao deparar com João, mas
logo depôs o balde no chão e foi ao seu encontro. Era um moço alto, louro,
só músculos. Um belo homem. João Francisco ficou agradavelmente surpreso.
Não sabia que espécie de gente encontraria naquele lugar distante.
__Está ferido? Deixe-me ajudá-lo, por favor.
__Ah! amigo, acabo de sofrer um acidente aí na estrada. Caí com a moto.
__E onde ela está?
__Deixei-a escondida no mato, perto daqui. Vi fumaça aqui em cima e vim
pedir ajuda.
__Claro, Claro. Vamos até a casa. Depois de tratar de você, trataremos
da moto.
Cada vez João ficava mais surpreso. O rapaz falava corretamente. Parecia
ser pessoa culta. Enquanto caminhavam em direção à casa ficou sabendo que ele
chamava-se Nelson e morava ali com
o pai, bastante idoso e a irmã,
Nereide.
Nelson levou-o até
confortável poltrona e chamou a irmã que, segundo ele, devia estar na cozinha
preparando o almoço. Uma linda jovem apareceu enxugando as mãos no avental.
Era lindíssima. Muito parecida com Nélson.
Na verdade era uma cópia, a versão feminina do rapaz. Cabelos longos e
fartos, castanhos bem claros com reflexos dourados, certamente trazidos pelo
sol. Pareciam mesmo raios de sol. Tinham os mesmos traços delicados e era
igualmente alta, porém esguia. Essa era a maior diferença entre aqueles
irmãos. Ele, forte e rijo. Ela, frágil, quase tênue. Se fosse possível
podia-se imaginar que a moça, assim etérea, fosse apenas o espírito do rapaz.
Ao comentar a semelhança entre ambos ficou sabendo que eram gêmeos, por isso,
talvez... João estava encantado. Logo após cumprimentá-lo, Nereide saiu para
voltar em seguida com uma bacia cheia de água límpida e algumas toalhas. Os
dois irmãos ajudaram, com solicitude, que João tirasse toda aquela terra e
sangue das mãos e do rosto. Mostraram-se aliviados ao ver que os ferimentos
eram apenas superficiais. A moça voltou aos afazeres culinários enquanto
Nélson ia aplicando um líquido anti-séptico nos arranhões e explicava que aquilo era um dos remédios
que o próprio pai preparava, com ervas que ele mesmo colhia, ali na mata.
Contou que o pai era médico e um dia decidira deixar a vida “civilizada” e
criar os filhos num tipo de vida mais saudável, junto à natureza, a qual queria preservar acima de tudo. A parte de alvenaria
já existia, contava o pai, pois Nélson e Nereide eram bebês nessa época e
não se lembravam da chegada àquele lugar. Tinha João percebido que toda a
madeira usada na construção da casa era de galhos e troncos já mortos? Nunca
o pai derrubara uma única árvore daquela reserva que pretendia preservar a
qualquer custo. Não tinham energia elétrica ligada à rede e a água vinha de
uma mina que nascia sob as árvores, bem perto da casa. Haviam trazido a água
até a casa através de bambus. Era fresca e cristalina. Tinham um pequeno
gerador; usavam com parcimônia a energia produzida por uma roda d’água da
mesma fonte que à casa chegava e no trajeto formava pequena cascata.
João teve sua atenção despertada por um antigo tear em um canto da
grande sala e muitos rolos de lã colorida sobre uma mesa. Nélson contou que
aquilo era o mais significativo ganho financeiro que possuíam. Toda a família
dedicava-se a essa indústria caseira. Criavam os carneiros, tiravam a lã,
fiavam, tingiam e por fim teciam belos xales e mantas que depois eram vendidos
na cidade. Tudo, até mesmo os pigmentos usados no tingimento do fio eram
extraídos de plantas e
sementes que o pai colhia na mata. Agora mesmo, estava o velho fazendo essa
colheita.
__E você gosta, quero dizer, concorda em viver assim, distante da
civilização, das coisas modernas da cidade?__ perguntou João. Nélson riu:
__Todos que me conhecem fazem essa pergunta. Não, não fico aqui por
obrigação. Logo você irá conhecer o velho e verá que ele não é de forçar
nada nem ninguém. Eu amo isto aqui e não pretendo sair jamais deste lugar.
Quem não anda muito satisfeita é Nereide que parece desejar conhecer o outro
lado, o lado da vida que desconhecemos. Você sabe, nem escola nunca
freqüentamos. João voltou olhos inquisidores para as enormes prateleiras
cheias de livros.
__Ah! Sabemos ler, sim. Mamãe foi professora e muito aprendemos com ela
e depois com papai. Nos deram esmerada educação, dentro das coisas que eles
julgavam necessárias para nosso crescimento físico e espiritual.
João estava perplexo. Mais que nunca aquele sítio parecia um oásis no
meio do deserto, para não dizer que era o mais próximo que ele imaginava do
que deveria ser o paraíso. Nereide surgiu, mais linda ainda sem o avental e com
os cabelos soltos, pedindo que passassem para a cozinha, pois o almoço estava
servido. Não, o pai não voltava para almoçar. Quando saía para colher as
ervas que precisava, passava o dia na mata.
A refeição era farta e saborosa. Deliciosas costeletas de carneiro,
batatas, arroz, feijão e alface.
Tudo cultivado sem adubo ou agro-tóxico. Conversaram
animadamente e João contou-lhes um pouco da sua vida de comerciante e arrimo da
mãe com quem vivia. Viu perpassar uma sombra de tristeza nos olhos da moça e
Nélson explicou que a mãe havia falecido há menos de um ano e a irmã sentia
ainda muito a falta dela. João, consternado, desculpou-se por tê-la
entristecido. A moça olhou-o longamente e esboçou um sorriso conformado.
Após mais uma boa hora de conversa, Nélson, notando que João Francisco
ficava um pouco agitado, sempre consultando o relógio, se propôs a descer com
ele a colina. Levaria algumas ferramentas e tentariam consertar a máquina. Sim,
João precisava ir. Se não voltasse para casa ainda hoje a mãe ficaria muito
preocupada. Despediu-se de Nereide e prometeu que voltaria para conhecer o seu
pai.
Mal-e-mal consertaram a moto. O suficiente para suportar a viagem até a
cidade que estava bem perto agora. Nélson aconselhou-o que a deixasse em uma
oficina enquanto efetivasse seus negócios a fim de
que pudesse retornar com segurança para casa. João faria isso.
Despediram-se como se velhos amigos fossem. João parecia estar saindo de um
sonho. Tudo aquilo era novo e surpreendente. Lembrava da mãe falando: há males que vêm para o bem.
Já o sol se punha quando, de volta, passava pela colina de Nélson e
Nereide. Ao aproximar-se notou um vulto claro, lá em cima, à beira da encosta.
Dois vultos! Eram seus novos amigos que, alegremente, acenavam para ele. Naquele
momento teve certeza que devia voltar em breve para revê-los. Sem falta!
Em casa contou tudo para a mãe e a toda hora voltava ao assunto. Não
conseguia deixar de pensar naquelas duas criaturas tão bonitas e agradáveis.
No final da semana seguinte, após colocar muitos presentes na pick-up,
foi visitá-los. Conheceu o Doutor Adalberto e adorou aquele velho de barbas
brancas, sorriso franco e ternos olhos azuis. Já era mesmo bastante velho
embora de compleição forte e sadia. Ficou imaginando que já devia ter
bastante idade quando nasceram os filhos. O que teria levado esse homem a
abandonar rendosa profissão e optar por uma vida assim inusitada para gente
daquela classe social? Talvez um dia ficasse conhecendo a história, porque,
certamente havia uma história por de trás daquela decisão. Passou um dia
maravilhoso, ao qual muitos outros se seguiriam. Só uma coisa parecia destoar
naquela bela sinfonia. Nereide não mostrava os mesmos sinais saudáveis do pai
e do irmão. Nélson explicou que a irmã sempre tivera uma saúde frágil o que
muito preocupava o pai. Sua pele muito branca
poucas vezes exibia o mesmo tom rosado da face do irmão. Algumas vezes,
após uma corrida ou um esforço maior para subir o íngreme caminho, tornava-se
ainda mais pálida. Perguntou a Nélson o que poderia ser. O moço disse que o
pai sempre a fazia ingerir alimentos ricos em ferro, pois dizia que ela sofria
de anemia, coisa comum entre as mulheres, vítimas das inevitáveis hemorragias
menstruais. Naturais, mas que depauperavam um organismo.
__Nereide precisa casar-se e
ter filhos para tornar-se uma mulher forte __falou Nélson e aquelas palavras
gravaram fundo em João que
começou a pensar seriamente no caso. A verdade é que estava-se apaixonando por
aquela peça de porcelana chinesa. Estaria ela também sentindo por ele a mesma
coisa? Precisava saber.
Certa manhã de domingo encontrou Nereide colhendo flores que cresciam
abundantes ao lado da casa. Aproximou-se da moça perguntando por que as colhia.
Nereide contou-lhe que ia levá-las para a mãe. João não compreendeu o que
ela falava. A moça apontou um local onde muitas pedras formavam como que um
pequeno castelo. Era ali que a mãe havia sido sepultada e ali ela desejava
repousar, um dia. João comoveu-se. Tomou-lhe das mãos as flores e acompanhou-a
até aquele lugar aprazível, sob árvores frondosas. Lá, a sós com a moça,
encheu-se de coragem e pediu-a em casamento.
__ Pensei que jamais fosse ouvir de você estas palavras. João
Francisco, quero, sim, casar-me com você.
Ali, aos pés da vívida lembrança da mãe, Nereide consentiu o abraço
e o beijo de amor, delicado e terno. Depois correram, como crianças travessas,
de retorno à casa, onde levariam a boa nova ao pai e
ao irmão da jovem.
Dr. Adalberto mostrou-se muito satisfeito, cumprimentou os noivos e
perguntou:
__Então, teremos mais um membro em nossa família? Você virá morar
aqui conosco, não é?
__Não será possível. O senhor sabe, tenho minha mãe...
__Ora, traga sua mãe também!
João Francisco sabia que ele falava isso talvez esperando, apenas, que o
moço se abrisse e falasse de suas intenções.
Estranha foi a reação de
Nélson. Tão amigo de João e pareceu ficar um pouco aborrecido. Ciúme da
irmã?
João Francisco tentou
consertar rapidamente qualquer mal entendido:
__Dr. Adalberto, queria aproveitar a ocasião e pedir sua permissão para
levar Nereide para minha casa. Gostaria que ela passasse uns tempos com minha
mãe de modo que fossem se conhecendo, e pudéssemos, ambos, ir preparando tudo
para o casamento que queremos marcar para o mais breve possível. O senhor
sabe... tenho lá meus negócios, gostaria que Nereide fosse se inteirando
deles, e além de muitas providências, teremos de fazer um curso de noivos e
exames pré nupciais, mas prometo que todos os finais de semana estaremos aqui,
antes e depois do casamento. Permitirão que a noiva seja raptada? Conseguirão
sobreviver sem ela?
__ Nereide fará muita falta, sim. Mas é a vida dela e a maior parte
dessas coisas, quem tem de decidir é ela mesma. Foi Nélson que assim falou. O
pai reiterou:
__Sim, nos fará muita falta, mas não com relação ao trabalho. Aqui,
todos nós, fazemos de tudo. O que ela decidir será feito.
Nereide pediu a João que a deixasse permanecer mais esta semana ali no
rancho. Tinha algumas coisas para pôr em ordem. Iria no próximo domingo. E
assim ficou decidido. O resto do dia foi de festa e comemoração. Estaria tudo
maravilhoso não fosse a fisionomia um pouco amuada que Nélson não conseguia
disfarçar muito bem.
Em casa João deu a boa notícia para a mãe que ficou muito feliz e quis
começar logo a preparar um quarto bonito para a moça. João iria comprar uma
casa maior, com a qual já estava em negociações e teria de reformá-la até o
casamento que decidiram marcar para dali a dois meses. O tempo urgia. Havia
muito o que fazer.
Certa ocasião, tendo oportunidade de falar a sós com Nélson, João
contou-lhe que um dos motivos que levou-o a querer a presença de Nereide logo
na cidade é que andava meio preocupado com sua saúde e desejava que ela
fizesse alguns exames. Nada falara com Dr. Adalberto, pois tinha medo de
melindrá-lo. Nélson concordou plenamente. Confessou andar também bastante
preocupado. Nereide parecia estar mais magra e cada vez mais pálida.
Mostrava-se amigo, mas aquela espontaneidade carinhosa que
antes demonstrava desaparecera. Já não sorria nem abraçava o amigo
como fazia antes. João estranhava e ao mesmo tempo acreditava ser uma mudança
de tratamento por causa da diferença de status. Agora seria o cunhado e não
apenas o amigo. No íntimo sentia-se roubado. Ganharia um cunhado, mas perdera o
único amigo que, de fato, tivera na vida. Não era da partida da irmã que se
ressentia. Estava feliz por ela. Sua saúde precisava de cuidados, coisa que o
pai não queria admitir. João cuidaria da irmã. Devia deixar de ser egoísta,
recriminava-se.
No domingo seguinte, João Francisco levou Nereide de mala e tudo para a
casa da mãe. Mal acreditava que tudo aquilo estivesse acontecendo em sua vida.
Bendito tombo de moto!
Logo, na segunda-feira subseqüente,
convidou a noiva para acompanhá-lo em seu trabalho no minimercado.
Nereide andava encantada com o que via. Era tudo novo para ela. Adorou fazer
pequenos serviços na loja, mas mostrou interesse em trabalhar no caixa onde uma
mocinha já desempenhava essa ocupação. Em poucos dias aprendeu um pouco de
tudo e já desempenhava com perfeição aquele
trabalho que a fascinara. Rapidamente
aprendeu a lidar com dinheiro, cheques e troco. Estava super feliz e João
Francisco, então, nem se fale! Nereide, além de competente era um enfeite no
lugar. As pessoas iam lá só para conhecê-la e não havia quem não ficasse
adorando a moça, sempre sorridente e tão educada! Tão bonita... parecia um
anjo. Aqueles cabelos louros encaracolados, aqueles olhos azuis da cor do
céu... Sim, parecia um anjo.
Alguns dias já haviam se passado e a felicidade era tanta que ninguém
percebia o tempo voando. Certa manhã, a mãe de João Francisco pediu por
telefone que o filho levasse uma mercadoria qualquer que ela ia precisar para o
almoço. O que ela queria mesmo era falar a sós com o filho. Contou que acordou
no meio da noite, ouviu choro, foi até a porta do quarto da moça e era ela que
chorava. Ficou bem preocupada, mas não quis bater à porta. Afinal não sabia o
que estava acontecendo. Podia ser só saudade do pai, do irmão. Não quis
deixá-la vexada. Porém chamava a atenção do filho para o fato de ser ela tão magrinha e pálida. Quando iria levá-la a um
médico? Foi muito bom para João que a mãe houvesse interferido. Sim. Tinha de
levá-la ao médico e faria isso no dia seguinte. A mãe havia-se tornado a
guardiã de Nereide e de sua virgindade. Embora fosse uma decisão dos noivos
esperarem pelo casamento, a sábia senhora sabia que o amor entre dois jovens
pode vir a ser incontrolável e fazia as vezes de defensora dos anseios de
ambos. Por isso dormia com um olho fechado e outro aberto. Estava sempre alerta.
Isso! Fossem amanhã mesmo. Ela ficaria como sempre, no lugar do filho, à
frente de seus negócios.
Naquele mesmo dia João marcou consulta com o médico da família, na
cidade grande, e de manhãzinha partiu com a noiva para lá. Foram muitos
exames, mas o médico mostrava-se meio preocupado e quis fazer outros testes com
Nereide. Dias depois liga para João Francisco pedindo que retornassem, pois
queria fazer mais exames em Nereide. Nada quis adiantar para não deixar João
preocupado, mas isso já conseguira. Novamente tocaram para lá. Não gostou
nada quando ficou sabendo que haviam feito
uma punção, tirado líquido da
medula. De que esse médico poderia estar desconfiando? Seu coração gelava.
Ficou na cidade para esperar pelos resultados e no final da tarde o médico quis
falar a sós com o moço. Não entendia como Nereide nunca havia ido a um
médico. João contou que o pai da moça era médico e sabia que ela sofria de
anemia e sempre a cuidara.
__Acontece que não é uma simples anemia que ela tem. Nereide tem
leucemia em estágio bem avançado. Deve sentir dores terríveis.
Mas, não, nunca havia-se queixado. Parecia estar sempre tão bem! Como
podia ser isto? Aquele choro, meu Deus, estaria a menina escondendo de todos o
seu sofrimento? Mais tarde ficaria sabendo que era verdade. Sim, ela andara
chorando de dor em algumas noites. Contou que as ervas e remédios que o pai lhe
dava amenizavam muito aquelas dores que agora estavam-se tornando
insuportáveis. Esforçava-se para não demonstrar e conseguia, durante o dia,
mas à noite dava vazão ao seu sofrimento. Trouxeram fortes medicamentos
analgésicos e a recomendação de, pelo menos uma vez por semana, retornar para
um tratamento quimioterápico que ia tentar salvá-la desse mal. João Francisco
estava apavorado e Nereide parecia continuar serena como sempre. Conseguiria ela
avaliar a gravidade de seu estado? Nesse domingo iriam até o rancho e João
sabia que tinha o dever de levar os resultados dos exames para o Dr. Adalberto
avaliar. O homem desabou ao ler aqueles papéis. Confessou que temia, sempre
temera isso, porém nunca quis acreditar nessa possibilidade. Chorou
dolorosamente no ombro do futuro genro e confiou a filha totalmente em suas
mãos. Nelson ficou arrasado, mas uma fé enorme uniu aqueles moços numa
certeza de que esse mal seria debelado. Deus não permitiria tal coisa.
E a vida foi prosseguindo, agora mais atarefada com as constantes viagens
para ir ao hospital. Nereide, às vezes, parecia muito melhor . Outras vezes
parecia que estava prestes a morrer, quando os efeitos dos medicamentos usados
para curar a deixavam prostrada. João dava prosseguimento à reforma da casa,
compra dos móveis, papéis do cartório e tudo o que se fizesse necessário,
pois a data não seria adiada. O médico dava esperanças dizendo que aquele
organismo não viciado por produtos químicos reagiria favoravelmente ao
tratamento. João queria acreditar nisso. Nem pensava em outra possibilidade.
Um dia Nélson procurou-os no povoado com triste notícia. O pai não se
refizera da tristeza e medo de perder a filha e naquela manhã, o fato de não
ter-se levantado às primeiras horas como sempre fazia, levou Nélson a ir
despertá-lo e encontrá-lo morto. Morrera dormindo, imaginava o moço. Estava
composto, olhos fechados como se, tranqüilamente, dormisse ainda. Deviam levar
um esquife, pois conforme sua vontade era lá mesmo que desejava ser sepultado,
junto à querida esposa. Assim foi feito e os dois irmãos, outra vez, tiveram
de passar pela mesma dor que há pouco mais de um ano os havia surpreendido com
a também inesperada morte da mãe. João fez o que pode para consolá-los. Quis
que Nélson fosse com eles para a cidade o que de modo algum conseguiu. Ali,
permaneceria velando e orando pelos
adorados pais. Nereide ficou fazendo-lhe companhia e esperaria João no dia que
teriam de ir ao hospital. Assim foi feito. Aos poucos a conformação ia se
aninhando naqueles corações filiais tão bem estruturados na religião e na
fé. Ninguém morre, diziam, apenas mudam de lugar e de estado. Um dia se
reencontrariam. Claro que a saudade feria, mas tantas eram as boas
lembranças... apegavam-se a elas. Nélson permaneceria naquele lugar dando
continuidade à missão do pai.
Faltava somente uma semana para o casamento. Estava tudo pronto. A casa
nova, o vestido da noiva, tudo. Não andavam em clima de festa por isso seria
uma cerimônia simples. Apenas Nélson e alguns parentes de João. Esta era a
última visita ao hospital enquanto solteiros. Como estava muito assoberbado de
afazeres, pois tinha de deixar tudo em ordem, para poder sair em lua-de-mel,
Francisco pediu que um motorista, seu amigo, levasse Nereide e sua mãe para
esta derradeira sessão quimioterápica.
No final da tarde, demoravam a retornar e o moço ficava bastante
angustiado. Aquele dia era quinta feira e na próxima quinta feira, a esta hora,
estaria no altar esperando a sua linda noiva. Estremecia de felicidade e
ansiedade, mal podendo suportar a passagem destes últimos dias. Nereide seria
completamente sua, toda sua. Era felicidade demais. Parecia até mentira. Toca o
telefone. Seu coração salta dentro do seu peito. Teria acontecido algum
acidente? Jamais se perdoaria se aquele amigo motorista tivesse sido pouco
cuidadoso com as duas mulheres mais importantes de sua vida. Atendeu temeroso ao
chamado daquele aparelho. Era sua mãe. Chorava... Por quê? Pedia que ela
falasse e ao mesmo tempo não queria ouvir. Tinha ganas de sair correndo mundo a
fora, prevendo uma tragédia. Sim, uma tragédia. Nereide havia falecido. Em
meio ao tratamento, tivera uma crise e nada mais puderam fazer os médicos que
todos os meios envidaram. A mãe, desesperada, pedia
ao filho que tomasse um táxi e fosse para lá. Que, pelo amor de Deus,
não fosse de moto. João faria o
que a mãe pedia, mesmo porque devia passar no rancho e apanhar o cunhado,
aquele que viria a ser seu cunhado dali a oito dias. Estava estranhamente calmo,
como se algo houvesse desligado dentro de si. Parecia ser apenas a constatação
de uma fatalidade que seu coração já havia adivinhado. Nas mãos dessa
fatalidade entregava-se sem debater-se, pelo menos naquele trágico momento.
Caminhava como se estivesse dentro de um pesadelo. Acordaria algum dia? Quanto a
querida Nereide havia sofrido estoicamente! O médico dissera que as dores eram
terríveis e ela mesma confessara que chorava de dor naqueles dias que ficara
sem nenhum medicamento. O que doía? Perguntara João Francisco.
__ Todo o corpo. Diz que os ossos não doem, mas é nos ossos que eu
sinto a dor. Todos os ossos do meu corpo doem, às vezes.
__Como você conseguia passar o dia todo no mercado sem nunca demonstrar
que sofria?__ questionava João.
__É que lá, ao seu lado, a alegria era maior que a dor.
Querida e corajosa Nereide. Os sentimentos de João Francisco pareciam
mortos também. Ou, em estado de choque, seus sentidos ficaram anestesiados. Fez
tudo que tinha de ser feito. Houve um velório em sua casa, no povoado, mas no
dia seguinte, ele e Nélson, apenas os dois, iriam sepultá-la junto aos pais,
naquele lindo sítio verdejante, conforme uma vez essa vontade ela manifestara.
João temia por Nélson. Estava tão alquebrado. Foram perdas demais para
aquele jovem. Precisava ampará-lo e aquilo obrigava-o a ser forte.
No meio da noite foi ao quarto da noiva como se quisesse confirmar aquela
ausência ou descobrir que aquilo tudo não passava de algum delírio. Que susto
levou ao abrir a porta! O longo e branco vestido de noiva estava num cabide,
pendurado no alto, enroscado na porta do guarda-roupa. João chegou perto dele,
alisou com as mãos a seda macia e brilhante, abraçou-se a ele, caiu de joelhos
mergulhando o rosto na amplidão daquelas saias e chorou como ainda não havia
conseguido. Abafou, contra aquilo que seria o envoltório festivo do seu amor,
agoniantes gritos de dor. Decidiu nesse momento que aquele vestido permaneceria
virgem como Nereide e com ela seria enterrado. Lá, na quietude daquele recanto
campestre, seria guardada a eterna pureza da moça e de seu vestido de noiva.
Nereide estava, agora também, envolvida em branco, no branco tétrico daquele
caixão. João desejou morrer.
Lá fora as pessoas ouviram
seus lamentos dolorosos. A mãe fez menção de dirigir-se àquele quarto, mas
Nélson a impediu, iria ele até lá. Ao ver aquele quadro de dor abraçou-se ao
moço e com palavras de conforto embalou-o até que se acalmasse.
__Não posso, não posso! Como enterrar a coisa mais linda que alguém
já viu sobre a face da terra? Nélson, por favor, mate-me e enterre-me com ela.
Por piedade, faça isso, por piedade.
Muitas horas os dois moços, fortemente ligados pela dor precisaram voltar à dura realidade que os esperava na sala
ao lado.
No dia seguinte, a coragem dos dois reunidas em uma só, partiram levando
o esquife branco que guardava o corpo amado para o rancho.
João Francisco ficou com Nélson, pranteando lembranças até o dia da
missa de 7o dia, quando voltaram ao povoado. Se, antes, à primeira
vista, a amizade, a simpatia uniu os dois moços, agora sentiam-se ligados pela
dor. Um era o conforto do outro. Nélson lhe dizia saber que não tinha o
direito de pedir que o amigo mudasse todo o rumo de sua vida, mas como gostaria
ficasse ele morando no Rancho! João lhe falava que vontade nenhuma tinha de
retornar aos antigos hábitos, mas precisava, ainda, pensar na mãe. Em todo
caso, falaria com ela e, pelo menos por mais algum tempo permaneceria em
companhia de Nélson. Já era o suficiente para o amigo. Dava-se por satisfeito
com essa promessa do hoje. Afinal, do amanhã, quem saberia?
Após a missa foram para a casa da mãe onde tomaram o reforçado café
preparado por ela. Depois foram todos para o minimercado e João pôde ver que
sua mãe vinha desempenhando muito bem o trabalho à frente dos
negócios. Disse ao filho que não se preocupasse com ela. Estavam as coisas
todas sob controle. Só ficariam a cargo de João as compras e pagamentos na
cidade grande. Do resto ela se incumbiria. Desse modo João sentia-se livre para
decidir o que bem lhe aprouvesse. Ficou então combinado que viria ao povoado
uma vez por semana ou a cada quinze dias. Iria ajudar Nélson em seus afazeres
visto que ele também encontrava-se sozinho.
João parecia sentir-se um pouco responsável pela situação. Há pouco
mais de três meses, antes do fatídico acidente com a moto, Nélson tinha um
pai, uma irmã, uma vida de trabalho estruturada. Agora, andava completamente
perdido no caos em que se transformou a sua vida após a interferência fortuita
de João Francisco. Certamente culpa nenhuma ele tivera. A dor não erra de
endereço e, com certeza, já devia estar tudo previsto. Mas, por quem?
Destino?... Deus?... Fatalidade?... Será que a sua interferência a um esquema
harmonioso não havia desestabilizado tal conjuntura? Fosse como fosse sentia-se
responsável e tinha o dever de ajudar o amigo a reerguer-se. Assim pensava e
falava para a mãe. Porém não se referia às suas próprias necessidades.
Verdade é que não aceitava a idéia de afastar-se de Nélson. Estar com ele
era, de certo modo, dar continuidade à vida ideal que acalentara. Significava
manter viva a imagem da noiva em seu coração e, por que não (?), em seus
olhos. A semelhança entre os dois irmãos era tão grande e agora que ela não
mais estava naquela duplicidade, a impressão era que tinha havido uma fusão.
Nélson e Nereide, agora um só, aos olhos ensandecidos de João. Não podia
deixá-lo. Sabia que ele, como já declarara, não sairia de seu sítio, queria
dar continuidade ao trabalho do pai, portanto nem questionava a possibilidade de
levá-lo para a cidade. João Francisco desejava afastar-se de todos que vinham
compadecer-se de sua frustrante dor. Afastar-se era, para ele, um alívio. Além
disso, amava aquele “paraíso” e lá desejava estar.
Deram início a um trabalho árduo, pois que tudo havia sido relegado ao
descaso. Cuidar dos animais, tosar
os carneiros, tratar a lã, fiar e tecer; ordenhar as vacas e as cabras, fazer
queijos, capinar as plantações... Era trabalho demais para uma só pessoa.
Esfalfavam-se desde às cinco horas da manhã até o anoitecer. Bendito trabalho
que extenuava o corpo e aliviava a cabeça e o coração. Mas à noite, antes
que o sono vencesse os membros
cansados, sentavam-se no grande sofá da sala e conversavam... conversavam...
Eram tantas as coisas que tinham para se falar. Nélson estendia-se, ocupando o
sofá em toda extensão. Aí chegava João Francisco, brigando de brincadeira,
por não lhe sobrar espaço. Fazia com que ele se sentasse dando socos e tapas,
como se dois meninos fossem. Nélson sentava, mas assim que João se acomodava,
deitava-se novamente, agora com a cabeça apoiada na perna
do amigo. Era um modo carinhoso e gratificante para aqueles corpos
carentes de contato físico. Toda aquela pantomima tinha mesmo a intenção de
se tocarem. Sentiam ambos satisfação, conforto naquele contato de pele,
essencial para todo ser animal, racional ou irracional. João apoiava o braço
sobre o tronco do amigo e algumas vezes, se a conversa ficasse mais emocional,
as lembranças mais dolorosas, surpreendiam-se de mãos
dadas. No início, separavam-se, um pouco envergonhados, mas com o passar
do tempo assim permaneciam por longo tempo, reconfortados, abastecidos desse
calor humano essencial ao próprio equilíbrio mental.
Aquela necessidade cutânea ia-se tornando mais forte e tanto bem lhes
fazia que, em breve, já não sentiam a necessidade de usar subterfúgios para
se tocarem. Pararam de se enganar e assumiram, sem explicações, que precisavam
desse carinho, desse toque. Davam a si próprios o direito a essa felicidade.
Amavam-se os dois rapazes. Se por transferência, por excesso de carência,
fosse lá por que fosse, amavam-se e não esconderiam mais, deles próprios,
essa realidade feliz. Julgavam-se merecedores dela e alguém neste mundo teria,
jamais, o direito de discordar deles?
FIM