HORAS
MORTAS
Idiossincrasias
Maristel
Dias dos Santos

Eu estava ainda de óculos, pois acabara de fechar o livro de cabeceira e ia
apagar a luz quando vi algo minúsculo movimentando-se parede acima. Cheguei
mais perto daquele microscópico pedacinho de vida que, sem titubear, deslizava
parede acima. Não consegui distinguir asas nem pernas ou cabeça. Parte alguma
daquele corpúsculo. Mais parecia uma pintinha de tinta que por algum efeito
milagroso adquirira vida própria. Fiquei a matutar para onde se dirigiria
aquele fragmento animal tão decididamente a subir pela parede de meu quarto e,
porque a parede é cor de areia, imaginei-o um ser humano perdido em um deserto
que, mantidas as devidas proporções, devia equivaler à superfície de toda a
Terra. Fui acompanhando a trajetória ascendente daquele ser até que
desapareceu da minha capacidade visual (mesmo de óculos).
Por
uma instante, não sei se mágico ou trágico, transformei-me nele e me senti
perdida na imensidão à procura de não sabia o quê. Claro que fosse eu aquele
microorganismo saberia, pois não ignoro o quanto vivo assim perdida a procura
das palavras certas para descrever, com precisão, cenas, sentimentos e
emoções.
Eu,
a escritora que vive a ler coisas magníficas que outros escreveram. Eu,
medíocre escritora que sofre muitas vezes as amarras de nosso rico idioma
à cata de reunir palavras exatas para exprimir coisas lindas do modo que fazem
os grandes escritores.
Quisera
fosse eu aquele que um dia escreveu: To be
or not to be... As rosas não falam... Conta teu jardim pelas flores e não
pelas folhas que caem... Recriar o paraíso agora para merecer quem vem
depois... Negar quando a regra é vender, ou até mesmo o final de uma
crônica do Douglas Dias ao falar de um apagado colega de classe ao qual ele
quisera ter demonstrado maior amizade, pois que num triste dia morreu, e
chegou antes
de todos... Tanta coisa eu
quisera escrever, porém alguém já o fez. Percorro então, incansável, o
deserto interminável da minha mente, a procura do nada...
Idiossincrasia
é a maneira diferente, pessoal de ver, sentir e reagir. Na TV, as propagandas
políticas trazem os grandes: Malufs, Medeiros e Alckmins falando em nome de
seus partidos, mostrando-se completamente idiossincrásicos, pois parecem
acreditar mesmo nas mentiras que dizem.A língua que eles falam não é aquela
que entendemos e para nós soa como se fossem piadas ou brincadeiras de mau
gosto, pois o que eles vêem, ninguém mais da população vê.
Ou
seremos nós, do lado de cá, que não temos capacidade de entendê-los? Não!
Definitivamente, não! Por que eles apenas falam, mas o povo sente e sofre na
carne, no estômago e isso é real, não é idiossincrasia.