Imagens sem papel
MaristelDiasdosSantos
A máquina fotográfica está sem filme, lamento... Queria uma foto desse senhor idoso, seu carrinho de mão cheio de lixo reciclável e, sentadinho sobre garrafas e papelões, aquela coisinha linda, um minúsculo cãozinho de coleirinha no pescoço, esperto, alerta a qualquer movimento de seu dono e ali permanecendo: fiel guardião do velho e alquebrado patrão.
Entretanto meu olhar fotografou a cena e a imagem ficou guardada com detalhes e cores em minha retina, tal como numa câmara digital.
Hoje eu os vi novamente. O carrinho estacionado à sombra de frondosa árvore bem aqui na esquina. Em primeiro plano, o velho senhor sentado no meio fio, calmamente almoçando seu marmitex. O cãozinho, muito bem comportado, sentadinho ao lado do homem, confiantemente esperando os bocados que iam sendo, propositalmente, deixados cair na calçada.
Não resisti, peguei uma dessas vasilhas plásticas e também recicláveis, enchi com a ração de meus cãozitos e chamei o homem. “Ele gosta de ração?”
“Ele adora ração!”
Então agora os dois, cada qual em seu prato, satisfazem as magras barrigas. Segunda foto em minha retina. Algum tempo depois subi e, da janela de meu quarto, pude gravar a terceira foto: o homem fazendo a sesta, repousando o corpo cansado na maciez da calçada e a cabeça confortavelmente apoiada na muretinha de cimento que circunda a benfazeja árvore. O cãozinho tirando a maior soneca sobre a barriga do patrão, preso sob o braço do homem que o protege. O carrinho de lixo tranqüilo a espera das novas e duras peregrinações. Felicidade e bem estar podiam ser percebidos com clareza pelo leve sorriso em ambas as faces adormecidas: homem e cão. Uma cena comovente, testemunha muda da felicidade que, duvido, rei nenhum exibiria sobre plumas e sedas.
Essa foto a minha retina arquivou na alma sob o nome de PAZ.