Íntimas Essencialidades

Sônia e Patrícia eram
amigas de infância e sempre se estimaram muito. Eram como irmãs. Mais que
muitas. Casaram-se, tiveram seus filhos e os criaram sem nunca
se perderem de vista, assim, completamente. Viram os filhos se casarem e, mulheres modernas, bastante jovens, não
queriam viver apenas para criar netos. Aspiravam mais da vida, já que a tanto
renunciaram para o bem estar dos respectivos
maridos e filhos. Agora, era a vez delas. A realização pessoal
tornava-se essencial em suas
vidas. Tinham de sentir-se úteis, produtivas e auto-suficientes. Pensaram,
pensaram e acabaram por decidir que uma “Boutique” era o mais charmoso,
lucrativo e agradável para ambas, mulheres habituadas às compras, às roupas
finas, “experts” no assunto.
Maridos consultados e acordados, foram elas à luta. Compraram uma bela
loja no “shopping” da cidade, patrocinada
por seus cônjuges e deram início à montagem da mesma e compra das
maravilhosas roupas que venderiam. Abrir firma, ver seus nomes em notas e
documentos deslumbravam-nas.
Em pouco tempo revelaram-se excelentes administradoras e o negócio ia de
vento em popa. Melhor que tudo: viajavam, iam às grandes feiras e divertiam-se
a valer.
Os anos iam passando, a loja tornando-se renomada e todos muito felizes.
Porém tempos difíceis chegaram graças à incompetência e corrupção dos
governantes .
O marido de Sônia, grande empresário, via suas dívidas aumentarem
desmedidamente nos bancos e com os agiotas, numa ciranda de enlouquecer. Certo
dia, levado pelo desespero de homem
que nunca deixara de honrar uma dívida e na iminência de precisar fazê-lo,
suicidou-se. Foi um “boom” na cidade. Todo mundo muito assustado. Ele era,
de modo informal, o maior banqueiro da cidade. Há muito vinha pagando juros altíssimos
a centenas de pessoas do lugar. Pequenos sitiantes vendiam suas vaquinhas para pôr
o dinheiro em suas honradas mãos. Donas de casa desfaziam-se de seu único imóvel
para aplicar, com altos juros, nesse
grande empresário. O que não sabiam é que nos últimos tempos ele pegava o
dinheiro dessas pessoas apenas para ir pagando juros. Era uma situação insólita
que um dia explodiria.
Os credores, embora gritassem e praguejassem, eram tão, ou mais
culpados, pois certamente não foi a generosidade que os obrigou a tais
empreendimentos. Entra aí a ganância. O sonho de ganhar fácil e rapidamente multiplicar seus parcos bens foi o que levou pessoas pobres a
dispor do pouco que tinham, pois confiavam na capacidade financeira do homem.
Por seu lado, Patrícia também se encontrava em situação tão difícil
quanto. O marido, engenheiro de uma
grande firma de construção fora despedido. Era o caos. O país estava em crise
e levou muitos homens de bem a fins trágicos.
As duas mulheres lutavam contra a impiedosa conjuntura. A loja ia-se agüentando,
mas o lucro era zero. Menos que zero. Na verdade estavam no vermelho. Cada peça
de vestuário vendida tinha de ser reposta e ao adquiri-la pagavam o dobro do
preço pelo qual a mesma tinha sido
levada. Era o monstro da inflação que não permitia a ninguém ganhar
dinheiro. Mentira! Os poucos privilegiados que manipulavam a economia
enriqueciam enormemente. Foi a época mais injusta
que se viveu nesta terra,
quando as grandes fortunas se solidificaram e o menos poderosos, homens de bem,
suicidavam-se. Os pobres cada vez mais pobres, os espertos cada vez mais ricos.
Elas foram-se agüentando, mas chegou o momento em que as dívidas deixadas pelo
marido suicida ameaçaram levar a loja a ser penhorada.
Desespero total. Sentiam-se acuadas, ameaçadas e procuravam uma maneira
de sobreviver à derrocada fatal.
Certa tarde, a loja vazia e ambas num diálogo infrutífero, davam voltas
sem conseguir ver escapatória do ameaçador destino. Era um lodaçal que as
envolvia e ameaçava tragá-las. Esperavam que a salvação viesse do céu. Só
um milagre poderia salvar a loja que agora representava a manutenção das duas
famílias. Há muito deixara de ser um agradável passatempo. Era agora a única
tábua de salvação. Foram interrompidas pela chegada de um vendedor. Era, além
de antigo fornecedor, um bom amigo. Veio juntar às delas,
as suas queixas. Idênticas. Muito revoltado o homem comentou:
__A gente quer andar direito e está nessa situação, mas tem pessoas
ganhando dinheiro a rodos.
__ Tem?! Quem? Onde? Como?__ perguntaram as duas quase simultaneamente,
numa ansiedade que seria divertida se não fosse triste.
Zeca passou a contar a respeito de um vizinho seu que andava comprando um
carro novo por mês, casas para filhos e netos e não sabia mais onde pôr
dinheiro.
__Mas, no quê, o que ele faz?__ perguntaram, morrendo de curiosidade.
Dinheiro para elas era a palavra mágica. Era o essencial
em suas vidas naquele momento. Tinham de saber. As duas mulheres possuíam
aquela coragem que raia ao atrevimento e não encontra empecilhos
se uma ínfima saída puder
existir.
__Ele até já me convidou para trabalhar com ele... falta é coragem.
__Fala, homem, pelo amor de Deus! Fala!
__É negócio feio. Melhor nem falar nisso. Esqueçam, esqueçam...
__Isso é que não. Você vem aqui, diz que existe uma mina e não nos dá
uma indicação de como encontrá-la? Queremos
o mapa! __ implorou Patrícia, rindo da própria pilhéria.
__Não, não e não! Você vai nos contar... __ ratificou Sônia.
__Olhe, eu até que fiquei bem tentado. Um amigo meu está com eles e
conseguiu salvar a sua fábrica de vassouras que já estava no buraco. O pior é
que a pessoa que começa nisso pensa sempre : é
por pouco tempo. Só até pagar minhas
dívidas. Mas não sei se a ambição desmedida ou, a facilidade com que vem
o dinheiro ou, até mesmo, se depois de entrar no esquema eles não permitem que
saiam mais... É isso que dá medo. Mais dia, menos dia acaba em desgraça.
__Nem precisa dizer mais nada. Drogas, não é? Falou Patrícia.
__Cocaína. Ofereceram-me 5.000 reais só para entregar uma certa quantia
na capital. E se eu arranjasse o comprador para uma quantidade maior, dobravam o
pagamento.
__Deus meu! E você não aceitou?
__E o medo? Se ao menos eu tivesse coragem de arranjar um sócio, um
companheiro, sei lá...
__Você está louco. Não entra nessa não, meu amigo. É um caminho sem
volta.__ disse Sônia.__ As coisas têm de melhorar. Pior é que não pode
ficar. Não tem mais onde piorar.
Mas, continuou piorando. Começaram as visitas dos oficiais de justiça.
Eram cobranças das dívidas que o marido de Sônia deixara e as da própria
loja que há muito não eram pagas. Cada vez mais desesperada e insustentável
ia ficando a situação. Veio a ameaça de falência. Fora pedida por uma grande
indústria de confecção que, engraçado, também já estava em
concordata. Não tinha mais jeito a não ser...
A intenção devia estar nas duas cabeças, mas foi Patrícia, um pouco
mais abusada que a outra, foi ela que abriu o jogo.
__Sônia, temos que tomar
uma decisão. Ou perdemos a loja ou vamos procurar o Zeca. É o último recurso.
Hein?
__ Isso é loucura. Você sabe muito
bem.
__ Mas não estamos mesmo à
beira da loucura? O que será pior? Fazer um negócio escuso, por uma única vez
e resolver todos os problemas, ou seguir o caminho que seu marido escolheu?
__Não. Isso é que não. Nós duas sabemos que o suicídio não resolve
problema de ninguém. Muito pelo contrário! Para os que ficam e para quem vai,
o sofrimento torna-se mais intenso e quase
irremediável. Melhor que tudo se perca. Afinal, são apenas coisas,
objetos. Haveremos de nos arranjar. Você esqueceu que temos diploma? Somos
professoras! Vamos voltar a lecionar como em nosso tempo de solteiras.
Ganharemos para comer, pelo menos. Você ainda tem seu marido engenheiro e que
acabará arranjando outro trabalho. Vamos pensar com mais calma...
__ Mas, uma última tentativa... Vamos, pelo menos, nos informar sobre
como funciona o esquema. Sempre podemos desistir, não é?
__ O.K. Vamos chamar o Zeca.
O Zeca veio. Não uma, mas muitas vezes. Era uma guerra interna. Por um
lado os argumentos convenciam da possibilidade de, numa única transação sair
do atoleiro, por outro, o medo... tantos eram os medos... Impossível enumerá-los.
Precisavam conhecer pessoas que tivessem na capital algum relacionamento
com grandes traficantes. Patrícia revelou ter lá uma amiga dos tempos de
outrora que fora garota de programa
e, pelo que sabia, continuava ainda trabalhando com moças que a procuravam
para, com ela, aprender o “métier”. Eram informações trazidas pelo marido
que também a conhecera nos velhos tempos Sim,
era uma cafetina e devia conhecer bem esses bastidores onde rolava tudo que
fosse contravenção, os meandros do crime. Sabia como contatá-la. Conhecia
alguns parentes dela. Ficou com essa incumbência. Tratariam da colocação da
mercadoria e o Zeca, com aquele jeitinho de homem simples e honesto, se
encarregaria de transportá-la, no momento certo.
Um dia, após terem se decidido, partiram para encontrar a mulher com a
qual Patrícia já havia feito contato por telefone. Tinham o endereço dela.
Foram em sua casa. Tudo muito fácil. Ela tinha uma amiga, que tinha amigos, que
trabalhavam com isso. Não, ela não! Esse não era o seu negócio. Mas serviria
de intermediária na transação em nome da amizade que na mocidade tivera com
Patrícia. Claro que a troco de uma
certa porcentagem ...
Sônia e Patrícia saíram
de lá não acreditando nem um pouco na santidade da amiga do passado, mas era a
pessoa certa. Tudo parecia ir se tornando bem fácil. Melhor do que esperavam.
As esperanças de poderem resolver aquela penúria deixaram-nas entusiasmadas.
Dinheiro. Muito dinheiro. Era só o de que precisavam. Começavam já a senti-lo
nas mãos. Daria tudo certo. Fixavam-se na determinação de que seria apenas,
somente uma vez. Acontecesse o quê acontecesse.
Esperavam um telefonema da mulher da Capital. Estavam ansiosas e
apavoradas. Mas era uma aventura e elas gostavam disso. Era aquela velha
adrenalina fazendo o sangue circular mais rapidamente em suas veias. Tinha seu
lado bom. Parecia não se darem conta do inferno em que se estavam metendo.
Pensavam saber tudo, mas um pouco daquela autoconfiança devia-se à ignorância
que tinham sobre o assunto.
Enfim, chega o telefonema aguardado. A mulher disse que já havia
encontrado a pessoa interessada na mercadoria e pedia que elas marcassem um
local na capital, onde fechariam negócio. Exigia que levassem uma amostra do
produto.
Patrícia pediu dois dias para fazer os acertos necessários e prometeu
um retorno o mais rápido possível. Chamaram o Zeca, pois era ele que falava
com os donos da coisa e decidiram que os três deveriam ir para esse encontro na
capital. As duas mulheres iriam no carro de uma delas e Zeca iria de ônibus.
Marcaram um jantar em finíssimo restaurante para o primeiro contato com o
comprador.
No dia seguinte, Zeca voltou com pequena quantidade de um pó branco
dentro de um saquinho de plástico. Parecia ser a coisa mais inofensiva do
mundo. Elas levariam aquilo. Afinal, grande coisa! Estavam confiantes.
Confiantes demais. Acreditavam que o envolvimento que estavam se permitindo era
mínimo. Não iriam se comprometer. Pensavam que assim seria.
Estavam exultantes, já antevendo todos os problemas solucionados.
Sônia e Patrícia viajaram logo pela manhã. Era mais seguro e o plano
era tomar um apartamento em um bom hotel onde poderiam ficar o tempo que se
fizesse necessário até a consumação do fato. Se alguém tivesse de fazer
outras viagens seria o Zeca, pois daria menos na vista. Assim foi feito.
À noite dirigiram-se ao restaurante onde, à porta, com aquele seu jeito
humilde Zeca já as esperava. Entraram, tomaram uma mesa num lugar discreto e
pediram uma bebida para esperar o homem. Ele reconheceria o grupo através da
descrição feita pela “santa” cafetina. Ele os encontraria.
Logo notaram um rapaz elegante, bonito mesmo, parado à entrada,
procurando alguém. Seria aquele? Sim. Agora ele caminhava decididamente para a
mesa do assustado e dissimulado trio. Apresentou-se, evidentemente com um nome
falso, sentou-se e inicialmente conversaram sobre assuntos ligeiros. Pediram os
pratos escolhidos e ao final do
jantar chegaram ao assunto. Patrícia já havia passado a amostra dentro de um
dos cardápios. Discretamente ele guardou-a no bolso da bonita camisa de linho
que exibia. Perguntou onde se hospedavam e foi Sônia quem falou que voltariam
para a cidade delas ainda aquela noite. Que ele lhes desse um telefone e elas
entrariam em contato com ele. Meninas
espertas, pensou o rapaz que disse chamar-se Siqueira. Queria muitos quilos
da droga e as mulheres notaram certo ar de apreensão na fisionomia assustada de
Zeca. Podiam adivinhar que ele se questionava se conseguiria trazer tudo aquilo
dentro de uma simples mochila, como haviam planejado.
__Tudo bem.__ acalmou-o Patrícia.__
Dá-se um jeito.
Tudo acertado, Siqueira chamou o garção, pediu a conta e fez questão
de pagá-la. Ainda bem, comentaram os remanescentes. Era uma cifra altíssima.
Os três permaneceram um pouco mais e logo se retiraram. Despediram-se do
Zeca prometendo ligar para ele assim que se comunicassem com o jovem comprador e
foram direto para o hotel.
As coisas correram melhores do que esperavam. Estavam felizes. Já podiam
sentir que haviam vencido o difícil desafio. Regozijavam-se. Eram vencedoras!
Conseguiram, afinal!
No dia seguinte saíram às compras. A certeza do sucesso era tanta que já
se permitiam gastar algum dinheiro que, em dois ou três dias, estaria em suas
contas bancárias. O sol voltava a brilhar e elas também.
Almoçaram na cidade e retornaram ao hotel. Às 17 horas ligariam para o
Siqueira e as últimas providências seriam tomadas. Tentavam descansar, mas a
excitação que as dominava impedia que relaxassem. Não se passara uma hora
quando bateram de leve na porta. Sônia foi abri-la e qual não foi sua
surpresa. Era o Siqueira, em pessoa, acompanhado de outro homem. Grande, gordo,
sorridente e aparentando bem mais idade que o rapaz. Siqueira apresentou-o, era
amigo e sócio. Ficassem tranqüilas. Estava tudo bem.
Mas como sabiam que elas estavam ali hospedadas? Riram e perguntaram se
elas achavam que iriam esperar por aquele incerto telefonema .
__ Mas, como? Estavam ambas atônitas.
Eles passaram a revelar o “mistério”.
__ Fácil. Desde ontem sabíamos que vocês estavam aqui. Quando vocês
chegaram ao restaurante, Paulão lá estava de plantão.
__ Mentira! Nós não o vimos. Ele não estava lá.__ retrucou Patrícia
__ Vocês não o viram porque ele estava disfarçado. Não se lembram de
um mendigo sentado junto à parede?
__ Bom. E daí?
__ Daí, que o meu amigo
aqui é também mendigo, às vezes. Quando vocês saíram
do restaurante ele as seguiu até aqui. Não foi fácil? E riam da confusão
das duas moças.
Conversaram por muitas horas. Eram muitíssimo simpáticos e conquistaram
logo a confiança da duas, que confessaram serem marinheiras de primeira viagem
e falaram sobre o motivo que levou-as a entrar nessa coisa terrível e perigosa
de transar a tal da cocaína, que na verdade, nem conheciam. Aquela amostra era
mesmo a droga que eles desejavam? Confirmaram. Excelente qualidade. Que elas
aviassem o pedido para o mais breve que pudessem trazer. Patrícia falou que
mais tarde ligaria para o Zeca, combinaria a chegada da mercadoria e os
avisaria. Ligariam para aquele número.
__ Nada disso. Aquele número
não existe. Mas estaremos constantemente em contato. Fiquem sossegadas.
Como ficar sossegada? A maneira de que eles agiam era surpreendente para
as duas mulheres que não esperavam essa interferência
que tirava de suas mãos o
controle da situação. Eles é que controlavam agora. Isso as assustava um
pouco. Aquele esquema de ficarem na obscuridade, não aparecer, ia para o brejo.
Eram agradabilíssimos, pensavam, mas até que ponto? Conseguiam também avaliar
o quanto podiam ser perigosos. Tudo bem. Eles demonstraram sentir muita simpatia
por elas. Eram amigos, agora. Não corriam risco nenhum. Mas no ar ficava um
certo clima de apreensão.
Na hora combinada ligaram para o Zeca. Ele já havia estado em contato
com o chefe do tráfico e vinha com a notícia que apenas para a próxima semana
poderiam liberar o envio. Patrícia ao telefone discutia bravamente.
__De jeito nenhum. Estão pensando o quê? Ou isso se resolve em dois
dias ou caímos fora.__ blefava a
moça.
Como “cair fora”? Não tinham nem o dinheiro necessário para pagar a
estada no caríssimo hotel. Sônia ao seu lado não conseguia conter o riso. A
amiga estava se saindo melhor que a encomenda. “A poderosa chefona”!
Zeca disse que voltaria a falar com o homem e pedia que ligassem no dia
seguinte.
Siqueira e o amigo voltaram. Conversavam sobre os mais variados assuntos,
contavam piadas e, sub-repticiamente eles iam tirando todas as informações que
desejavam. As duas já se abriam contando tudo sobre suas vidas, as necessidades
que as haviam levado àquele extremo ato. Vender cocaína! Mas, afirmavam, seria
por esta única vez. Eles pareciam duvidar, não da intenção, mas diziam que
era tanto o dinheiro que corria por esses caminhos que ficava difícil alguém,
dentro do esquema, abrir mão dele. As moças, porém, reiteravam que, com elas,
isso não sucederia. Tinham um nome e uma família por quem zelar.
Definitivamente, não! O objetivo único era salvarem-se da bancarrota.
Dia seguinte falaram com Zeca e a notícia
era que estava tudo certo e ele estaria chegando com a encomenda, no fim
da tarde do dia seguinte, ali no hotel. Que elas se comunicassem com os
compradores e avisassem que o pagamento devia ser feito em notas de (...),
impreterivelmente às 18 horas desse mesmo dia, nesse mesmo local.
Pronto! Agora não havia mais escapatória. Amanhã estariam pondo a mão
em todo aquela dinheirama. Parecia mentira! Difícil acreditar! Medo e alegria.
Pavor e euforia. Tudo junto numa mistura alucinante. Deviam entrar em contato
com Paulão e Siqueira. E se eles não viessem esta tarde? Viriam, claro!
Vieram, mas não ficaram tantas horas como nos outros dias. Disseram ter
que providenciar o dinheiro, conforme os vendedores exigiam e outras coisas
mais. Pareciam também um tanto tensos o que, para elas parecia bem natural.
Afinal, não eram bananas que estavam comprando. Prometeram estar de volta no
dia seguinte à tarde. Esperariam com elas a chegada de Zeca e da encomenda.
Na tarde do dia seguinte, quando eles chegaram, as duas mulheres já se
encontravam de malas prontas e vestidas para sair dali assim que a transação
ficasse consumada. Tinham até mesmo pedido o fechamento da conta do hotel. Sônia
havia combinado passar na casa da filha que estava morando numa vila, perto da
cidade e havia pedido ajuda, pois estava passando necessidades desde que o
marido perdera o emprego. Sônia pensava nos netos e estava feliz ao imaginar a
chegada em sua casa, carregada de guloseimas, roupas e dinheiro, todo o dinheiro
de que eles pudessem estar precisando. Foi esse um dos principais motivos que a
levou entrar nessa desvairada aventura.
Esperavam nervosas e ansiosas. A chegada dos moços desanuviou o
ambiente. Traziam uma maleta que devia conter o dinheiro. As moças se
entreolharam sorridentes. Estava ali a salvação delas, do Zeca e tantos
outros. Eles brincavam e contavam piadas o tempo todo, como se aquilo
fosse uma agradável festinha entre velhos amigos. A tarde caía e o ambiente ia
ficando tenso e pesado.
Finalmente chega o Zeca. Vinha de mãos vazias o que surpreendeu as
mulheres. Ele explicou que a enorme
sacola que viera carregando, estava lá em baixo, em outro apartamento onde
estavam os homens. Sônia e Patrícia não pensavam que as coisas iriam ser
assim. Imaginavam um toma lá dá cá, e tudo resolvido. Iriam, talvez passá-las
para trás? Impossível. Mas, estavam desconfiadas.
Zeca tentou acalmá-las dizendo que era assim mesmo que teria de ser.
Primeiro tinha que se certificar que o dinheiro estava ali e então pegaria a
encomenda. Conversou timidamente com Siqueira e Paulão. Saiu.
Patrícia, mais prática e cuidadosa quis ver o dinheiro. Os dois homens
estavam sentados no sofá. Paulão pegou a maleta, colocou-a no chão, diante
das moças e abriu-a. As duas, ao mesmo tempo ajoelharam diante da maleta, cheia
até as bordas com pacotes de notas envolvidas por cintas do banco. Olhos
arregalados, risos e exclamações. Apanharam, cada uma delas, um maço e
ficaram paralisadas ao descobrir que cada pacote daqueles tinha somente a nota
que ficava por cima. O restante era jornal cortado. Ergueram os olhos
inquisitivos e depararam com os dois homens apontando para elas enormes e negras
armas. Mas, o que é isso?
__ Polícia!__ e exibiam distintivos na outra mão. Suas fisionomias
fraternas transformadas em máscaras horrendas de homens maus.
Quase impossível descrever a cena que se seguiu. Patrícia chorava implorando que não as matassem. Sônia ergueu-se lentamente e deu dois passos em direção ao quarto. Parou ao receber severa ordem. Precisava ir ao banheiro, por favor, estava com náuseas, passava mal. Os homens confabulavam. Sônia entendeu que eles temiam que ela fosse atirar-se pela janela. Que idiotas, pensou Se pudesse atiraria eles pela janela. Estava em estado de choque. Permitiram que ela fosse, mas um deles a acompanhou e permaneceu no quarto até que ela saiu do banheiro. Voltaram à sala. Patrícia continuava em prantos e perguntava como eles tiveram coragem de enganá-las daquela maneira. Era agora a fêmea, o sexo frágil, a mulher indefesa e magoada que reclamava. Aquela que confiara no sexo oposto. Não tinha nada a ver com a realidade. Era patético e trágico. Batem à porta. É o Zeca. Entra e, surpreso, demonstra incredulidade ante a cena.
__ Fomos enganadas, Zeca. Esses
miseráveis...__ choramingou Patrícia.
Zeca empalideceu. Todos os seus temores justificados. Meu Deus, como
voltar a olhar nos olhos de seus
filhos? Como explicar à esposa as mentiras, as desculpas pelo seu estranho
comportamento dos últimos dias? Ir preso? Preferia morrer. Para cadeia é que não
iria.
Os policiais apontavam as armas para ele. Ordenaram que colocasse no chão
a enorme sacola. Enquanto um deles mantinha aqueles três infelizes sob a mira
da arma, o outro abria um dos pacotes e experimentava, na ponta da língua um
pouco do pó. Olhou para o outro com fisionomia inalterada. Tinham que levar a
droga para ser examinada. Perguntaram a Zeca qual era o apartamento dos
traficantes. Zeca não sabia dizer o número do quarto. Zeca também se
encontrava em estado de choque.
__ Tudo bem. Você vai-nos levar até lá. Quanto a vocês, virou-se para
as duas mulheres, vão dar o fora daqui imediatamente. E, bico fechado se não
quiserem acabar como os outros, na delegacia.
Timidamente, Sônia falou:
__ Não temos nem como sair do hotel. Nós lhe falamos. Estamos sem um
centavo.
__ Sim, eu sei. Meteu a mão no bolso. Isso será suficiente para pagar a
conta do hotel. Vocês entraram de gaiatas nessa história. Que lhes sirva de lição.
Saiam o mais depressa que puderem e não olhem para trás. Esqueçam o que
aconteceu aqui.
Conselhos desnecessários. As duas só queriam estar longe daquilo tudo e
assim que os três fecharam a porta atrás de si, pegaram suas malas e se
mandaram.. Estavam transtornadas. Quase que incapacitadas de pensar ou agir.
Patrícia, dirigia o carro, perguntou se deviam ainda ir até a casa da filha de
Sônia, ou voltar direto para suas casas. Voltar para casa... Aquelas palavras
soavam como um sonho impossível. Era
tudo o que Sônia desejava. Chegar em casa, deitar-se em sua cama. Fingir que
tudo aquilo não passara de um terrível pesadelo. De que valia ir ver a filha
se nada podia levar para ela? Todas as esperanças destruídas. E ainda ter de
dar graças por não ter sido levada como o pobre do Zeca. Sentia-se tão
culpada! Porém Patrícia argumentou que deviam fazer conforme tinham combinado.
A filha de Sônia sabia que elas estavam na cidade e as esperava. Dariam para
ela aquelas coisas que há poucos dias haviam comprado com aqueles cheques,
agora completamente sem fundos. Assim fizeram. Mas logo estavam de volta à
estrada e poucas horas depois, em suas casas.
Na manhã seguinte encontraram-se na loja. Tinham muito que conversar.
Acabaram por decidir que prosseguiriam como se nada tivesse acontecido até que
a justiça viesse para interditar a loja. Nada mais havia para fazer. Mas... e o
Zeca? O que teria acontecido com o pobre homem? Ligaram em sua casa e, para
surpresa das duas, foi ele quem atendeu ao telefone. Viria à loja falar com
elas. As duas mulheres choravam e riam. Graças
a Deus! Ele não estava preso!
Zeca chegou. Estava, como elas, abatido e alquebrado. Contou-lhes que os
policiais invadiram o quarto dos contrabandistas, bateram muito neles e os
levaram, deixando que ele próprio voltasse para casa, com as mesmas recomendações
que fizeram às duas. Que esquecesse de tudo o que vira e não se metesse mais
em encrencas. Não sabia se os havia levado para a cadeia. Nem queria saber. Ia
mudar-se dessa cidade e só desejava esquecer daquele infeliz episódio.
Sônia e Patrícia decidiram
inscrever-se para voltar a dar aulas. Era tudo o que podiam fazer. Em breve
haveria um concurso e elas já começavam a se preparar para as provas. Passar
nesse concurso e com muito boa nota
era agora o essencial.
Uma ou duas semanas após aquele infeliz acontecimento, uma surpresa. Os
dois policiais entram na loja. E agora, o que desejariam eles? Vinham
sorridentes e amigos como eram antes daquela tarde fatídica. Contou-lhes que
aqueles traficantes eram uns bandidos. Imaginem que o pó não passava de talco!
Verdade! Fizeram questão que elas olhassem o porta-malas do carro de polícia
que dirigiam. Sacos plásticos cheios de um branco pó. Tudo aquilo imprestável.
Contaram que haviam estado com o Zeca para lhe devolver a mochila. Mas, que
bonzinhos!
Na verdade o que eles queriam era descobrir onde encontrar os
traficantes. Mas, não estão presos? Aí tudo ficou claro para as duas
mulheres. Bandidos mesmo eram esses dois policiais. A droga era tudo o que
queriam, entretanto, até mesmo eles saíram no prejuízo. Siqueira queixou-se
do preço absurdo que pagara por aquele jantar. Tinham que encontrar aqueles
marginais. Queriam salvar-se do prejuízo total. Eles pagariam, com juros,
aquela trapaça. Sônia e Patrícia nada sabiam sobre eles. Felizmente para
elas.
Os dois aproveitaram para escolher algumas roupas finas da loja e saíram
sem sequer perguntar o preço daquelas roupas. Deram elas graças por ser
esse o único preço que teriam de pagar pela loucura que cometeram.
Mas... que bandidos!
Alguns anos depois, as duas mulheres ainda tremiam ao lembrar daquele dia
terrível, mas embora tivessem perdido a loja, estavam ótimas. O marido de Patrícia
estava muito bem pois montara a sua própria construtora e Sônia, muito feliz
com seu novo marido, um simpático e inteligente médico psiquiatra.
Ambas trabalhavam na mesma escola e desenvolviam um ativo trabalho junto
a adolescentes no combate às drogas.
Nunca ninguém tomou conhecimento da pavorosa aventura e elas próprias
nunca mais falaram sobre aquele acidente de percurso em suas indefectíveis
vidas.
Essencial, hoje, em suas pacatas existências é esquecer o passado e
dar o melhor de si para o bem da família e da comunidade.
FIM