Lembranças
- Minha história animal
Maristel Dias dos Santos
Do primeiro, que eu me lembre, era um todinho preto de longos pelos
sedosos, um pastor de nome Sheik. Lindo, brincalhão e espertíssimo. Custou-me
dois grandes sofrimentos. Estava naquele dia um tanto amarfanhado, fosco e achei
que precisava era de um banho. Não estava nada disposto a isso, mas dócil e
humildemente permitiu que eu iniciasse a operação. Porém mais forte que ele
foi seu mal e mordeu-me de leve. Pouco mais que um arranhão, o suficiente para
obrigar-me àquela dolorosa série de injeções anti-rábicas. Pois é. Estava
doente e após fugir para a rua, morder outros cães, voltou, deitou-se preso
à corrente e em poucos dias e terríveis agonias morreu. Naquele tempo não tínhamos
veterinários na cidade e eram farmacêuticos ou mesmo médicos de gente que
cuidavam precariamente dos animais. Meu pai tratou de enviar sua bela cabeça ao
Instituto Adolfo Lutz
para certificar-se da hidrofobia. Foi muito triste.
Depois, já casada, adotei o cachorro que era de meu marido. Um bonito
perdigueiro chamado Blitz. Este acompanhou a infância das crianças que em
minha casa nasceram e era devotadíssimo à elas. Aos dez anos morreu vítima
de um câncer. Ainda não tínhamos veterinários na cidade. Depois dele tivemos
uma série de cachorrinhos de pequeno porte. E foram Babys, Cheries,
Lulus, Dogs e até uma belíssima setter de nome Bimba que me trazia,
delicadamente pelo braço, Jaqueline uma netinha fujona que ia para a rua, vez
em quando. Bimba foi aquela mãe perfeita que segurava na boca o filhote mais
fraquinho, incompetente competidor por uma teta e depois ia amamentá-lo longe da cria.
Morreu no segundo parto após violenta hemorragia.
Um dia meu filho ganhou e
trouxe para casa o belo e enorme Urso para fazer-me companhia quando já nem
filhos, nem netos, nem marido restavam em minha casa. Foi meu companheiro e
minha paixão por muitos anos. Morreu, apesar dos cuidados de competente veterinário
(classe que já proliferava na cidade), vítima desses vírus importados com a
finalidade de fazer crescer no país a indústria veterinária médica e farmacêutica.
Enterrei-o no jardim sob a proteção de um fresco gramado e muitas flores.
Aí, trouxeram-me Bona que me custou alguns chinelos por ela devorados,
o braço de madeira de uma poltrona, um tapete de crochê e muitos gritos
e queixas pungentes. Deu-me também elementos para uma crônica que me brindou
com uma menção honrosa em um Concurso Literário. Seu último dia em casa foi
aquele em que fez um grande buraco na grama para desenterrar o meu querido Urso.
Apavorei-me. Com certeza adivinhava que o meu amor por ela seria sempre dividido
pela lembrança de um possível e espiritual rival. “Nosso” veterinário
incumbiu-se de arranjar um dono menos traumatizado que eu. Tomei uma definitiva
decisão. Chega de cachorro. Não terei mais nenhum. Afinal minha carência
afetiva conformava-se com os carinhos de uma gatinha que fora abandonada e
adotara a mim e a minha casa para
servi-la, mas a gente propõe e
Deus dispõe. Aconteceu que um dia, chegando em casa, vejo uma coisa
branquinha, magrinha e assustada a correr pela rua. Pedi àquelas outras
coisinhas igualmente magrinhas e meio abandonadas, meus amiguinhos humanos,
grandes fregueses de bolachas e biscoitos em meu portão, que a apanhasse e a
trouxesse para que eu lhe desse um leitinho. Ela pertencia a alguma casa ali dos
arredores, assim como os meus pequenos semelhantes. Ela habituou-se e passou a
vir diariamente para sua ração de leite e alimento. Foi engordando e ficando
alegre, dia após dia, mas, pequenina que era, sempre ia embora por entre as
grades de ferro do portão e com seus afiadíssimos dentes partia todo e
qualquer material que eu tentava trançar entre as grades para impedi-la de
sair. Voltava sempre suja, ferida, esfomeada
e cheia de pulgas. Porém por maiores carinhos que eu lhe dispensasse a rua
era, para ela, um apelo irresistível. Era mesmo uma cachorrinha de rua. Um dia não
voltou. Eu procurava aceitá-la do jeito que era, afinal não era minha. Fiquei
triste, mas não fui a sua procura. Sabia Deus o que lhe havia acontecido.
Uma tarde, ao voltar para casa, vi algo assim como um pano branco encostado ao portão. Era a Fifi. Machucada, mal conseguia arrastar-se. Carreguei-a para dentro, arrumei sua cama, alimentei-a e sem poder fugir foi por lá ficando. Soube depois pelo Lemão, um de meus amiguinhos da rua, que ela estivera esse tempo todo em sua casa, deitada para morrer, pois havia sido atropelada por um carro. Lemão era o seu dono e então eu lhe pedi que me desse a Fifi., que eu iria levá-la ao veterinário, dar-lhe as devidas vacinas e tentar mantê-la em casa. Ganhei a Fifi e com ela uma grande dor de cabeça. Bastou que sarasse para ter em sua vida, um único objetivo: correr para a rua ao menor descuido. Nada resistia aos seus dentes e à sua sanha. Até arame trançado nas grades de ferro ela conseguia romper e, já maior que os vãos do portão, conseguia, inexplicavelmente, vará-los.
Ao mesmo tempo, naquele primeiro dia em que uma onda violenta de frio e
chuva chegou à saída do outono, em pleno mês de abril, minha filha recolheu
uma família inteira de muitos filhotinhos e uma mãe fox abandonados no Vale
das Garças por algum coração empedernido. Cuidou-os e, após um mês, doou
os cãezinhos e ficou com a mãe,
à qual chamavam Pangaré, muito maltratada e medrosa, infeliz animal, vítima
sabe-se lá de quantos sofrimentos. Minha filha, que já possui uma matilha de cães
de diversas raças puras, não desejava acrescentar à troupe essa pobre
vira-latas e (mãe
é pra essas coisas), trouxe-ma. Pangaré? Muito feio o
nome, Porém parecia já atender a esse chamado, então decidi por Panga. Ficou
ótimo. Panga, aos poucos, tornou-se
mais confiante na raça humana, recebeu cuidados médicos, muita ração de boa
qualidade e ficou gorda, linda e humildemente aceitou
Fifi e sua primazia, os arrogantes desfiles da Chana, antiga pensionista
e do Rajá, novo e rajado freguês felino. Harmonia perfeita e Fifi, menos só,
parecia mais conformada por conseguir, agora, introduzir apenas a cabeça entre
as grades do portão. Se, por algum descuido conseguisse escapar era para a casa
do Lemão que ela ia. Coitadinha. Devia sentir saudade do primeiro dono, embora
só fome e maus tratos ali tivesse recebido. Porém o menino Lemão deve, muitas
vezes, tê-la segurado ao colo e lhe dispensado carinhos. Um dia encontrei-o
sentado na calçada em altos papos com a Fifi. Dizia-lhe assim: “Como
você está gorda e bonita, hein, Branquinha? Aqui você engorda
e depois vai lá em casa
fazer
dieta, né?” O cão, melhor amigo do homem, é mais que
isso. É o mais fiel e humilde animal que existe sobre a face da Terra. Grandes
lições pode dar à raça humana, traiçoeira e má. Da sua primeira qualidade,
a fidelidade, aprendi bastante, mas da sua humildade, até hoje não consegui
captar, cem por cento, para a minha personalidade. Só eles conseguem, após uma
surra, lamber as mãos de seus algozes. Também Jesus mandou que oferecêssemos
a outra face. Eu posso até não
revidar com mordidas reais ou virtuais, mas lamber essas mãos, oferecer a outra
face, não, ainda não! Pelo menos,
não, de imediato e... por enquanto. Quem sabe se dessa água ainda terei de
beber como última e eficaz lição?
Hoje, Panga presenteou-me com seis filhotinhos fortes e saudáveis. Um
bando de manchinhas pretas sobre um fundo branco. Lindos. Apesar de terem sido
indesejados, frutos que foram da invasão de um pequenino fox que conseguiu
passar pelas grades do portão. Por duas vezes eu o flagrei dormindo com a Panga
em sua casinha. No momento não me preocupei porque seu porte parecia-me ser um
impeditivo de alcançar o triplo da altura que é a Panga. Quando ela começou
a ficar barriguda fiquei surpresa. Que danada! Quanto ela deve ter colaborado
para ajudá-lo a conseguir seu intento. Que forte e milagroso é o instinto
animal que cuida da preservação da espécie. Os irracionais obedecem, à risca
e a qualquer risco, o divino
preceito: “Crescei e multiplicai-vos.” Bem, agora mais um delicioso e difícil
problema para ser resolvido. Doar seis lindos cachorrinhos para pessoas responsáveis,
que amem os animais e os
adotem para fazerem parte de nossa frágil família humana. Quem se habilita?