Lucidez
ou loucura?
Maristel
Dias dos Santos
Cada
lágrima de mãe é uma gota de sangue na vida de um filho.
Sei
que poucas mães admitem sofrer tanta dor. As mães foram ensinadas que sua dor
é abençoada e que é lindo o sofrimento materno. Mãe e mulher foram ensinadas
e motivadas a aceitar todo e qualquer tipo de dor, principalmente depois que um
poeta, homem é claro, escreveu e todo mundo decidiu divulgar e aplaudir aquela
frase absurda: “Sofrer no paraíso!”. Existirá em todo universo um paraíso
feito para sofrer? E assim, por ser interessante para a classe dominante, a
mulher, a mãe, foi-se tornando, cada vez mais, uma masoquista assumida e aceita
toda dor como bênçãos divinas e inexoráveis. Põe sobre a face uma máscara
feita de sorrisos e não consegue disfarçar aquele brilho amoroso e terno do
olhar. Finge por longos e longos anos uma felicidade tão falsa quanto uma flor
de papel e uma bravura de super homem, tão resistente quanto uma lasca de
isopor. Algumas morrem estoicamente bendizendo os filhos que as esqueceram em um
canto qualquer. Outras trocam a ternura pela mágoa, igualmente indisfarçável
em seu olhar. Há, porém, algumas que, num momento de insanidade, deixam cair a
máscara e de dentro de sua loucura, dissipados os véus da ilusão, vêem com
clareza a realidade das coisas. É a clarividência dos loucos. Percebe a inversão
dos papéis e poucas sobrevivem a esse instante de lucidez. Pensam no criador e
na criatura. No mantenedor e no mantido. Naquele que
manda e em quem obedece. Em quem oferece e em quem recebe. Em quem
pode e em quem precisa. Terrível é descobrir que
a criatura dá chorando o que o criador deu sorrindo. Inverta todas essas
posições e encontrará a mais doída
dor, pois a recíproca nunca será verdadeira. É o sofrimento do filho de Deus
crucificado pelos filhos de Deus. As mães, porém, se auto flagelam. “Gostam
de sofrer no paraíso.” Algumas que tiveram a felicidade de perceber a tempo o
que as esperava puderam dar seu grito de independência ou morte e sobreviveram.
A maior parte entregou-se à piedosa senilidade e encerrou-se dentro de uma demência
salvadora e para não odiar a sua obra prima, afasta-se, foge da realidade nua e
crua e muitas chegam a declarar:
“Feliz é a árvore que não dá frutos, pois essa não receberá pedradas”.
E questionam outra frase feita: “Filhos... melhor não tê-los, mas sem
tê-los como sabê-los?” Então,
tenham-nos e sejam mães perfeitas,
..................................................................perfeitas idiotas.