Magrão
– paixão à primeira vista!

Maristel
Dias dos Santos
Foi
pela janela de meu quarto que eu o vi pela primeira vez. Vinha caminhando
cabisbaixo como se procurasse algo no chão. Longas pernas, porte atlético,
costelas à mostra e um ar sereno e aristocrata. Queria chamá-lo, mas qual
seria seu nome? Queria chamá-lo de
forma que ele erguesse a cabeça e eu pudesse ver seus olhos. Claros ou escuros?
Confiantes ou desconfiados? Alegres ou tristes? Precisava olhar seus olhos
(espelhos d’alma), para avaliar o seu caráter. Fiz psiu, psiu, assobiei. Ele
nem ligou. Bati palmas. Idem. Então, analisando suas características físicas,
arrisquei:_ Magrão! Ele ergueu os
olhos dourados para a minha janela e estático ficou como se pensasse:- “E
essa agora? Que quer de mim essa aí?” Que será que eu fiz de errado, desta
vez?”
Mas
eu sorri e continuei falando com ele __ “Magrão,
como você é bonito! Espere por mim, vou descer.” Ele fez menção de
sorrir e sacudiu-se inteiro. Devia não ser muito habituado a essas manifestações
de alegria.
Cheguei ao portão com um prato de biscoitos e uma tigela de leite. Aos
poucos ele foi se aproximando e, jovem que é, bebe sofregamente o leite e,
faminto que estava, devora os biscoitos caninos enquanto trato de suas orelhas
barbaramente picadas por moscas também famintas. Depois de haver passado a mão
em sua cabeça, Magrão entregou-se todo, permitiu-me até usar em seu dorso um
spray contra carrapatos.
Pela
manhã, quando chego à janela, lá está ele a rodear o pedaço. Basta um
chamamento: __ “Magrão!” , ei-lo
que vem pulando como uma marionete ou um fantoche animado por mãos nervosas. Já
nem preciso pedir que espere, falar que vou descer. Certamente seu nome não é
Magrão, mas essa palavra deve ter para ele o som de comida, de carinho, de amor
e quem não corre para essas coisas?
Um
dia cheguei a convidá-lo a entrar, vi sua indecisão e dei-lhe
total razão. Afinal são três fêmeas nada amigáveis do lado de cá do
portão. Tudo bem! Fique aí fora na amplidão da liberdade das ruas. Talvez eu
encontre um lar responsável para você. Um dono que o ame como eu.
Foi aí que me ocorreu que um dono talvez ele tivesse. Um dono irresponsável
que não lhe dá de comer e como lar oferece-lhe a rua e obriga-o a buscar
alimentos nos lixões, ou em algum portão generoso, um dono que poderá acusar
de roubo àquele que o recolher. Que fazer? Alimentá-lo na rua eu posso. Até a
sombra de um resedá pode ser toda dele, mas quando chover não terei um teto
para abrigá-lo. Resolvi consultar uma amiga especialista em bichos abandonados.
Ela deu-me uma idéia que levei a efeito. Coloquei uma coleira em seu pescoço e
preso à ela um bilhete: -“Este cão tem
um dono? Por favor comunique-se comigo através do mesmo. Obrigada”.
Resultado?
Ele passou o dia inteiro sem aparecer. Se não vier mais é que alguém o
prendeu pela coleira e eu nunca mais o verei, choraminguei. Que idiota eu fui!
Não
foi assim. Bem à noitinha ele chegou. Sem a coleira! E agora? O que pensar? Que
ele tem ou não tem um dono? Pode ser apenas que lhe roubaram a coleira ou que
seu dono não quis papo com essa louca que fica transformando vira-latas em
pombo-correio.
Se, ao menos, o cão tivesse o direito de escolher onde quer ficar e que
sua vontade fosse respeitada perante um tribunal humano!
Aí , então o Meritíssimo Juiz perguntaria a ele: __ “Então, meu
caro quadrúpede, qual a sua decisão?” Ele responderia:- “AU, au!” E até podia reforçar seus argumentos
com um longo uivo e umas lambidas nas mãos do Promotor. Ainda assim o homem
entenderia o que a sua cabeça ditasse e a sentença poderia ser a mais injusta
e contraditória aos desejos das partes, demonstrada
por um rabo entre as pernas e uma lágrima humana. Então o que fazer? Se alguém
tiver uma sugestão ligue para a Redação deste jornal ou para um dos telefones
da Rádio Cultura de Leme. Muito obrigada.