Mandei matar meu melhor amigo

 

Por Carlos Alberto Santos Sampaio

 

Assim pode começar ou terminar uma história que, por ser verdadeira, não poderia ser escrita por um escritor qualquer, cuja magia de suas palavras poderia modificar os sentimentos deste que escreve estas linhas. Eu só eu sei do coração machucado, da falta que vim a sentir e do não arrependimento pelo ato cruel e premeditado. Dolorosamente premeditado, em seus mínimos detalhes e adiado por mais de um ano, mas a dor mantém-se desde que a decisão foi tomada: “Vou mandar matar meu melhor amigo”.

                        Quero e preciso confessar ao mundo o ato que cometi para tentar livrar-me da dor que vem se mantendo inalterada desde que tomei aquela decisão trágica. Quem sabe, levar a efeito, terminar logo com aquilo, me trouxesse a paz. Ledo engano. Fiz o que havia planejado, as coisas correram sem incidentes. Ninguém havia que pudesse me condenar. Seria o crime perfeito e eu poderia continuar minha vida calmamente como antes. Não pensei que a dor pudesse persistir a castigar-me o coração pelo resto de minha vida.

Pode-se pensar e muitos pensam mesmo que a morte é a solução para certos problemas que temos de enfrentar. Não é. Posso lhes garantir. Ela é apenas o começo de novos problemas. A dor, a dúvida, o sentimento de culpa de quem, cuja única culpa foi ter adiado mais do que devia a execução do plano. Também só se vai saber da falta que irá nos fazer ele, que mandamos matar, depois de cometido o ato. Era mais que um amigo aquele que fora o meu companheiro de todas as horas, em todos os dias durante os dezoito anos em que convivência íntima e inseparável nos unira de uma forma quase perfeita, dentro de um amor sincero feito de fidelidade e abnegação. Pelo menos da parte dele foi assim. E eu mandei matá-lo!

Aquele amor incondicional só comparado ao amor de Deus ou de uma mãe, eu o recebia com a maior naturalidade, como se meu amigo me devesse isso. A sua constante vigilância e proteção eram para mim justamente o que eu esperava dele. Dele, que nunca exigiu de mim mais que a presença, um prato de comida e um ocasional agrado passageiro.

Decisão tomada e logo a dor sentida, dor que até hoje não consegui amenizar. Dor que persistiu depois daquela decisão adiada por mais de um ano e, no segundo dia do ano de 2001, o ato final de um drama apenas minimizado por saber que o tiraria do sofrimento. Como os condenados, a sua sentença de morte, sem o seu conhecimento ou consentimento, Hoje vou mandar matar meu melhor amigo. Terá a sua última refeição uma hora antes, como os condenados e sua sentença de morte, por ele ignorada,  será o meu crime maior.

Decisão tomada e logo a dor sentida. Dor apenas aliviada por tirá-lo do sofrimento causado pela idade avançada, pela cegueira, pela quase paralisia que lhe dificultava os movimentos e pelo câncer, que lhe levaria a vida nos próximos dias, semanas ou meses.

Confesso que a decisão foi muito tardia, não tinha o direito de o deixar sofrer tanto, mas fui adiando a maldita decisão porque aquele olhar cuja cegueira não deixava ver, mas deixava transparecer, na minha aproximação, a alegria, o carinho, a afeição, que só um verdadeiro amigo pode oferecer. Sentia que ele sabia que a minha dor, a minha afeição aumentavam a cada aproximação e a cada contacto de afeto, que a despedida estava próxima. Eu sei que ele aceitou a minha decisão, sei que no último contato ele me olhou e me viu chorar, sei que ele viu a minha dor e eu não vi nele nenhum sinal de dor. Vi uma calma tão doce... Quase que um agradecimento e uma despedida.

Naquele dia triste, muito triste, as vinte e uma horas, acabou seu sofrimento. O meu cão, o meu melhor amigo, o PUTCHY morreu sem sofrimento, com uma injeção, no Posto Veterinário.

Hoje, passados seis meses ele é relembrado com dor, saudade e a indescritível falta que me faz a sua companhia, junto à Maristel/Andrezza, a minha amiga da internet...

...De Carlos Alberto Santos Sampaio/ Apollo, seu amigo da Internet...

Portugal/2001