Melancólica tarde outonal

MaristelD.

 

Saio do computador e caminho pela casa; cansada, descansada, ocupada, desocupada? Desinteressada de tudo, calmamente, indiferentemente, nenhum desejo explícito, nenhuma preocupação, quase um robô. Triste? Não. Alegre? Nem um pouco. Feliz? Por quê? Desmotivada, apática, refém de sutil e pouco importante dúvida: dormir ou limpar a casa? Tanto faz... Não sei.

Os latidos da Fifi atraem meus passos para  a porta da cozinha. “Que é Fifi? Quem está aí?” Fifi continua latindo insistentemente para algo além do portão. Isso me obriga a ir até ele e tentar ver, por entre as grades, o que é que lá fora irrita o animalzinho. A princípio apenas ouço passos. Passos arrastados de pés calçados  com ferraduras sobre o asfalto. Agora já posso vê-lo. “Ah Fifi, é só um cavalo.” Contemplo o passo vagaroso daquelas quatro patas sincronizadas  que arrastam uma corda presa ao pescoço.Escapou de algum terreno baldio, por alguém amarrado para pastar, certamente. O que me estranha é verificar a calma que o conduz. Completamente indiferente ao tráfego de carros, motos e bicicletas. Indiferente a tudo, dono da rua.

Prossigo acompanhando sua caminhada até ver que pára bem no meio do entroncamento das quatro esquinas e olha para trás emitindo uma relinchada diferente, dirigida, quase carinhosa. Mas o que estará vendo o animal? Volto-me e segundos após vislumbro, andando com a mesma lentidão, no mesmo compasso, um potrinho, gracinha, que põe em minha face um espontâneo sorriso: “É um cavalinho!” digo para a Fifi.

 Só aí entendo toda a cena.Ele é ela e ela é mãe do potrinho retardatário. “Que bonitinho!” Pude então traduzir o que falou, relinchando, a égua branca: “Ô, moleque, que moleza! Anda logo!” Ri e fiquei a pensar nas criaturas naquele espaço reunidas: Fifi, eu, mamãe égua e potrinho filhote. Bendito o fato incomum que nos atraiu em contexto semelhante nesta melancólica tarde outonal! Somos todos filhos do Pai. Precisava apenas que os racionais entendessem a linguagem amorosa dos animais. Afinal, decidi. Que dormir o quê... Vou fazer faxina!

                                                                                                                                                21/05/04