Milagre
é isso
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Hora
crepuscular, hora triste de dizer adeus, hora de acabar, hora de fechar a alma e
se recolher dentro de si mesmo para poder esperar que um novo dia chegue e
com ele a luz do sol, a alegria de estar vivo, a força para prosseguir a luta,
a coragem para continuar trilhando caminhos floridos e macios ou ásperos e espinhosos por estas complexas vias terrestres.
Ainda assim é
preciso sempre prosseguir. Sempre em frente, sempre, sempre, pois não
caminhamos sós. Toda uma turba que vai à frente nos puxa e outra, a que vem
atrás, nos empurra. Ficar à margem? Impossível, não chegaríamos a nenhum
lugar e o segredo da brincadeira é esse: chegar ao desconhecido, achar,
encontrar o recanto de descanso, o local de suaves belezas e amorosos sentimentos,
ao campo celestial onde se caminhará sem ter de carregar esta exigente, pesada e
dolorida roupagem carnal.
Foi nessa hora
crepuscular que nosso amigo deixou a cidade que aniversariava. Quis o Senhor que
ninguém cantasse, dançasse, batesse palmas e bumbos enquanto um filho dileto
agonizava em seu leito de morte. Não podia permitir tal blasfêmia. Então fez o que devia
fazer. Velho conhecedor da criatura que se esconde de pingos d’água,
enquanto outros enfrentam tempestades, pediu que seus anjos e santos
chorassem a dor de toda uma comunidade e então... choveu. Choveu uma chuva suficiente para
impedir comemorações, mas que logo cessou para não dificultar o
cortejo fúnebre e o dia permaneceu cinzento, enlutado.
Cláudio de
Fiore, pouco eu sabia de você, mas hoje sei mais do que precisava saber. Por tudo que
vimos nestes dias e acompanhamos nos últimos anos, arrisco-me a comentar: presenciamos um
milagre, perdemos um amigo, ganhamos um santo!
VERBO
Os
dias escoam aos borbotões
Do poço da existência
E ficamos a nos debater
Tentando
Permanecer
na superfície.
Nossa
roupa carnal
Nos
atrai para o fundo,
E
cada dia que vai
É
sempre um dia a menos,
Nunca
é um dia a mais.
E da torrente que escoa
Do
poço da existência
Com
a última golfada
Partiremos
Ao encontro do mar
Do
mar cósmico
Que
não se esgotará jamais.
Neste
mar brilhante e denso,
Energeticamente saturado,
Flutuaremos
O corpo sutil liberto
Da maldição carnal
...Repousará...