Milagre é isso

  Maristel Dias

Hora crepuscular, hora triste de dizer adeus, hora de acabar, hora de fechar a alma e se recolher dentro de si mesmo para poder esperar que um novo dia chegue e com ele a luz do sol, a alegria de estar vivo, a força para prosseguir a luta, a coragem para continuar trilhando caminhos  floridos e macios ou ásperos e espinhosos por estas complexas vias terrestres. Ainda assim é preciso sempre prosseguir. Sempre em frente, sempre, sempre, pois não caminhamos sós. Toda uma turba que vai à frente nos puxa e outra, a que vem atrás, nos empurra. Ficar à margem? Impossível, não chegaríamos a nenhum lugar e o segredo da brincadeira é esse: chegar ao desconhecido, achar, encontrar o recanto de descanso, o local de suaves belezas e amorosos sentimentos, ao campo celestial onde se caminhará sem ter de carregar esta exigente, pesada e dolorida roupagem carnal.

Foi nessa hora crepuscular que nosso amigo deixou a cidade que aniversariava. Quis o Senhor que ninguém cantasse, dançasse, batesse palmas e bumbos enquanto um filho dileto agonizava em seu leito de morte. Não podia permitir tal blasfêmia. Então fez o que devia fazer. Velho conhecedor da  criatura que se esconde de pingos d’água, enquanto outros enfrentam tempestades,  pediu que seus anjos e santos chorassem a dor de toda uma comunidade e então... choveu. Choveu uma chuva suficiente para impedir comemorações, mas que logo cessou para não dificultar o cortejo fúnebre e o dia permaneceu cinzento, enlutado. 

Cláudio de Fiore, pouco eu sabia de você, mas hoje sei mais do que precisava saber. Por tudo que vimos nestes dias e acompanhamos nos últimos anos, arrisco-me a comentar: presenciamos um milagre, perdemos um amigo, ganhamos um santo! Sabemos nós, seus amigos e admiradores que você somente partiu antes para iluminar nossos passos no mesmo caminho, pois o caminho é o 

                                                            VERBO

Os dias escoam aos borbotões

Do poço da existência

E ficamos a nos debater

Tentando

Permanecer na superfície.

Nossa roupa carnal

Nos atrai para o fundo,

E cada dia que vai

É sempre um dia a menos,

Nunca é um dia a mais.

E da torrente que escoa

Do poço da existência

Com a última golfada

Partiremos

Ao encontro do mar

Do mar cósmico

Que não se esgotará jamais.

Neste mar brilhante e denso,

Energeticamente saturado,

Flutuaremos

 O corpo sutil liberto

Da maldição carnal

...Repousará...