Morrer ou nascer

 Maristel Dias dos Santos

Morrer é como nascer... É tudo igual...

Pense no feto em si mesmo enrolado,

Querendo pouco a pouco se pôr esticado,

Mas sem conseguir... Embutido, amarrado,

Preso à mãe pelo umbilical cordão

Recebendo só o que lhe é ofertado.

Sem poder escolher... Contido... Agarrado

Ao fio da vida de um coração que impulsiona,

Em ritmo dolorosamente acelerado,

Uma vida ansiosa de viver, sair do útero inundado

Do amniótico líquido amortecedor

Que o mantém protegido, resguardado

Dos golpes transmitidos por alguma dor

Ou quedas e violências do exterior.

Permanece ali... Contido, agarrado

Ao fio de esperança de um nascer normal,

Garantido só por um cordão umbilical...

 

Então chega o momento crucial

Inicia-se o parto... A expulsão...

Instante de medo, sofrimento, contração,

Do ventre que o abrigava até então...

E num rompante um vagido animal,

O ser humano nasce e chora e se expande...

Dói respirar o ar que infla o seu pulmão

Ao passar para um mundo diferente

Iluminado e gritante a ferir espasmodicamente

Seus pequenos sentidos sensíveis, embotados...

 

Nascer é como morrer... Vai-se ficando entravado

Na solitária velhice amarrado, de uma cama aprisionado,

Todos os sentidos embotados, esclerosados,

Mas preso a um invisível cordão prateado

Tênue cordão que à vida o mantém ligado

Até que chegue o dia marcado

E o sofrido coração pára, cansado.

Pára de bater e a morte ocorre

Da vida na Terra o ser humano morre,

Da efêmera e ilusória vida terrena

E em breve é despertado, liberto do passado...

Mais forte e luminoso o homem ganha,

Após esta vida, uma vida real...

O homem nasce após a morte...

Nascer e morrer... É tudo igual!