Não é fácil subir

Maristel Dias dos Santos
Não é fácil subir a minha rua de bicicleta. Alguns apeiam, lá em baixo, e vão caminhando ao lado das bikes, até mesmo usando-as como apoio. Alguns sobem pedalando, mas chegam aqui em cima no último fôlego. Uma moça existe que usa a cabeça. É verdade! Ela vem, o tempo todo, virando a cabeça para a esquerda e para a direita, em perfeita e inversa conexão com a perna que força o pedal. Parece uma dança: e1,e2; e1, e2; e1,e2 e aqui chega com um sorriso nos lábios (ou será que de boca aberta?). Subir nunca é fácil. Seja uma rua íngreme, um morro, ou subir na vida, subir de cargo, subir na postura moral, intelectual e, principalmente, espiritual, é uma longa e dolorosa trajetória.
Como a dançarina da bicicleta observo outra, em um triste contraste. Esta dança com uma vassoura e varre, que varre, de cima para baixo, é claro, e também vira a cabeça para todos os lados e como não vê ninguém dentro do seu campo visual, com rápidos trejeitos, joga todo o monte de lixo, terra e folhas que havia juntado em um pequeno-médio monte, para dentro do bueiro, boca de lobo ou sei lá o nome daquele buraco desprotegido que foi feito para levar as águas da chuva. Que feio, dona! Sei que é mais fácil do que ir buscar uma pá e um saco de lixo para recolher o montão que houve ajuntado, porém, se uma grande chuva vier e a água voltar para a sua casa, corra queixar-se nas Rádios e Jornais e divida a sua culpa com meio mundo! Quando uma mulher age desse modo me decepciona e chego a sentir vergonha de ser mulher. A preguiça é a mãe de todos os erros. Deus nos livre dela! Duas mulheres dançantes, mas muito diferentes: a esforçada moça da bicicleta e a irresponsável, da vassoura. Muitas diferenças marcam os seres humanos, no entanto, creio que a maior parte das mulheres, principalmente as mais jovens e as mais sofridas, vão concordar com estes versos que, pelo Dia Internacional da Mulher, eu dedico com amor e carinho a todas as grandes mulheres de minha terra.
Mulher
Quando olhares uma mulher que pela rua
passa

Não a olhes pensando só em toda aquela graça
Que com ela passa...
Quando olhares uma mulher que pela rua anda
Não a olhes pensando que ela em toda rua manda
Quando ela anda...
Quando olhares uma mulher que pela rua vai
Não a olhes sentido só o desejo que te trai
Quando ela vai...
Procura descobrir-lhe a alma e verás
Quanta ruína, dor e desamor
Quanta descrença pelo mundo vão
E desprezo por ti, pobre varão,
Que a desejou e nem a conheceu...
Então... terás vergonha de tê-la olhado
Se essa mulher que pela rua passa
For eu.
São Paulo, 1967.