Natal

Papai Noel existe?

 

Maristel Dias dos Santos

 

            Naquela época eu morava em São Paulo e foi dentro de um ônibus que tive, com uma senhora ao lado da qual sentei-me, uma conversa triste que vou contar agora. Faltavam poucos dias para o Natal e eu estava indo ao Centro para comprar as bonecas que minhas filhas haviam encomendado ao Papai Noel. Todo ano era a mesma história. Cada uma delas escolhia uma daquelas lindas bonecas da “Estrela”, sempre os últimos lançamentos. Eram bonecas caras e esse ano não havia sido dos melhores em nossas vidas. Enfim, tinha esperanças de conseguir satisfazer o desejo de todas. A mulher sentada ao meu lado parecia bastante aflita e me olhava como se quisesse dizer algo e logo desistia, alongando o olhar ansioso para o movimento das ruas e, sem poder controlar-se, aflita, torcia as mãos. Fui eu então que com uma frase qualquer puxei conversa. Não demorou para que entre lágrimas contidas e disfarçadas a pobre senhora falasse de sua angústia. Disse que ia também em busca do Papai Noel. Que tinha três filhos menores de oito anos e sempre fizeram, ela e o marido, com que as crianças acreditassem que Papai Noel existia mesmo e até sacrifícios realizavam para dar às crianças os presentes que elas pediam ao bom velhinho. O problema era que o pai das crianças havia morrido há coisa de seis meses, atropelado em uma daquelas movimentadas ruas da Capital. Ela trazia em seu bolso uns poucos “cruzados” para ver se conseguia comprar alguns presentinhos, mas que uma dúvida terrível era o motivo de seu desespero. Achava que nada encontraria com tão pouco dinheiro e pensava se não seria melhor dizer às crianças que Papai Noel não passava de uma grande mentira. Seus olhos marejados pediam-me uma resposta e eu sabia que ia falar o que ela não queria ouvir. Mesmo assim falei: __ Isso quer dizer que além de não receberem nenhum presente os pequenos vão ganhar a maior desilusão possível em suas pequenas vidas?! Não, por favor, a senhora não fará isso! Ainda mais desesperada gemeu baixinho: __ E o que eu posso fazer, além disso? Pensei por alguns instantes, enquanto coração e razão se digladiavam e, num ímpeto, respondi: ___ “Talvez a senhora não possa fazer nada sozinha, mas juntas podemos fazer muita coisa.

Para encurtar a história, nos dirigimos às “Lojas Americanas” e enchemos um carrinho com dezenas de brinquedinhos baratos, joguinhos e panelinhas de plástico, caminhõezinhos e bolas coloridas. Exigimos belíssimos embrulhos, caixas e fitas, enquanto íamos colocando os nomes dos nossos filhos em cada um deles para depois conseguirmos repartir os embrulhos natalinos. Saímos da loja carregando enormes sacos de Papai Noel. Ela olhava para mim como se estivesse vendo o Próprio, em carne e osso. Então eu lhe disse: __ Sabe, não vale a pena destruir o sonho de uma criança. E, afinal, Papai Noel existe mesmo!  Ele mora nos corações dos homens de boa vontade.

Não sei como foi o Natal naquela casa, mas na minha foi diferente e divertido. Nunca a árvore de Natal abrigou tantos presentes! Foi uma farra!

Quem disse que Papai Noel não existe?