O dia em que Chicão chorou

							Maristel Dias dos Santos         

                

                     Homem valente, rústico, um tanto ignorante e algo violento. Assim era Chicão. Nascido no sertão de um dos mais pobres Estados brasileiros crescera em meio a vicissitudes, convivera com a realidade nua e crua da morte. Tinha por isso uma grossa casca que o tornava imune às sensibilidades, às fraquezas humanas. Chicão era um dos filhos de um casal de infelizes miseráveis que apenas sobreviviam neste mundão de Deus. Se era o primeiro, terceiro ou oitavo filho dessa família não sabia. Nem tinha isso a menor importância. Eram todos iguais na desgraça. Além disso, foram tantos os que naquela casa nasceram quantos os que morreram por ali mesmo. De que ele se lembrasse todos os anos via a mãe parir um filho e o pai enterrar outro e, algumas vezes, o recém-nascido que não vivia mais de dois ou três meses, enquanto outro rebento já se aninhava no ventre materno. Tantos que a mãe só podia mesmo morrer de parto. Isso aconteceu quando Chicão entrava na adolescência. Chicão a viu esvair-se em sangue e com ela levar a criança que pior teria ficado se não a acompanhasse nessa viagem eterna. Rompera-se por dentro. Aquele útero tantas vezes esticado, distendido, acabou por esgarçar-se. Rompeu-se. Nem médico, nem hospital, nem farmácia. Chicão não sabia sequer da existência dessas coisas. Se alguém adoecia eram chazinhos, mezinhas, emplastros e simpatias que  curavam. Quando curavam. As comadres, as parteiras do lugar não sabiam o que fazer no caso de uma hemorragia, uma sangria desatada como aquela, a não ser providenciar uma vela e despachar, com rezas e cantorias, a infeliz para o outro mundo. Um dia, Chicão quis partir também.. Totalmente familiarizado com a morte e até mesmo fazendo pouco dela, deixou o pai com seus outros cinco irmãos sobreviventes e ganhou o mundo. Ouvira falar de uma tal de Capital e era para lá que sonhava ir. Haveria de encontrar um meio de vida diferente daquela que conhecia. Pensava: tem de existir outras coisas nesta terra. Coisas melhores, que isto não é vida para um homem. Nem mesmo para os animais que também morriam, nos pastos, de sede, de fome.

                   Partiu sem pena, sem dó. De todos, ele era o único de compleição física mais forte e nem imaginava o porquê de tal sorte.  Era mais alto e mais cheio de músculos que o pai e os irmãos. Acreditava ter uma chance e foi atrás dela.

                   Caminhou muitos quilômetros com uma trouxinha às costas até encontrar uma estrada mais larga e coberta por uma camada negra e dura, quente como a chapa do fogão e acreditou que aquele era o caminho do inferno. Mesmo que fosse. Seria o inferno pior do que aquilo tudo que conhecia? Não desistiria. Iria, nem que tivesse de ser para o inferno.

                   Um caminhão passava de vez em quando por ele. Em certo ponto, cansado, sentou-se à beira da estrada e, não demorou muito, parou um caminhão e lhe ofereceu carona. Para onde ia? Deu de ombros. Que importava! Para qualquer parte. Onde o destino o levasse. O motorista tentou puxar conversa, mas logo viu que Chicão não queria ou não sabia falar. Calado viajou durante toda aquela tarde e noite que atravessaram sem parar uma única vez. Adormeceu. Já era manhã quando foi despertado pelo motorista que havia parado em um posto de gasolina na entrada de uma cidade.       

__ Chegamos ao seu destino. Pode apear. Seu mal-agradecido!

                    Chicão, ainda tonto de sono, desceu olhando em volta. Não. Aquilo com certeza não era o inferno. O sol brilhava lindamente e ruas de casas estendiam-se à sua frente. Foi caminhando ao deus-dará. Fome e sede davam nós em suas entranhas. Não estava no inferno, mas sofria como se estivesse. Passou o dia caminhando. Encontrou casas bonitas, carros, lojas,  lugares onde pessoas comiam e sua fome aumentava. Seria aquilo a Capital? Bebeu muita água em um chafariz de onde um fio dela  esguichava. e que ficava no meio de um maltratado jardim, para ele, o paraíso. A noite chegou e pôde deitar-se em um daqueles bancos. A trouxa com seus parcos pertences sob a cabeça e ali mesmo dormiu. Acordou com o sol queimando forte seu rosto. Abriu os olhos, esfregando-os e foi aí que notou uma presença ao seu lado. Era uma mulher e o observava com ar compadecido. Sentou-se num pulo. Durante aqueles poucos segundos confusos  que seguem o despertar ficou assim apalermado, olhando para a mulher, sem saber o que fazer. Foi ela que lhe dirigiu a palavra. Fez uma porção de perguntas que ele confirmava ou negava apenas com um menear da cabeça. Seu estômago rugia de fome. Parecia devorar-se a si mesmo. Foi esse o motivo que o levou a acompanhar a mulher até sua casa. No caminho contou-lhe que era professora e estava, naquele exato momento, indo para a escola onde lecionava, mas que não tinha importância se  atrasasse um pouco o início da aula. Primeiro cuidaria do menino.

Era uma casa pequena, muita limpa e bem arrumada. A moça preparou uma refeição reforçada e Chicão, não acostumado a essas libações, passou mal. Teve de correr para o quintal para aliviar suas entranhas, há dias paralisadas. Mais tarde descobriria que havia na casa um quarto todo branco e brilhante que a mulher chamava de banheiro e ensinou-o a usar. Sim, porque Chicão ficou na casa esperando pelo retorno da professora, e quase sem querer, por ali foi ficando.

A professora não compreendia o que a fizera insistir para que ficasse em sua casa. Ofereceu-lhe trabalho, pagaria por pequenos trabalhos e para que ele lhe fizesse companhia, já que morava sozinha. Seu marido morrera alguns anos após o casamento deixando-lhe a casa, uma pensão humilde e nenhum herdeiro. Vivia muito só e aquele menino sofrido, dono de belos e enormes olhos verdes havia conquistado a sua confiança. Não fora só por piedade que desejava ajudá-lo. Gostara mesmo dele. Haveria de levá-lo a estudar e iria transformá-lo em um homem de verdade. Chicão tudo fazia para agradar sua benfeitora, mas continuava calado e seco, como se, mesmo recebendo carinho e atenções sua alma não soubesse como florescer. Mas seu corpo desenvolvia-se galhardamente e aos poucos ia-se transformando em um belo rapaz. Foi para a escola e aprendeu rudimentos de leitura e escrita. Muito mais que isso não alcançaria. Com certeza tivera prejudicado o seu desenvolvimento intelectual pela falta constante de alimentos materiais e psíquicos. Continuava caladão, não fazia amigos e vivia como um cão de guarda,  fiel a casa e àquela mulher que lhe dera um teto confortável, roupas bonitas e comida farta. Aquilo para ele era tudo. O próprio céu.

Havia uma televisão e  naqueles serões, enquanto a professora corrigia trabalhos e preparava suas aulas, Chicão viajava pelo mundo através da telinha colorida. Aprendia o quanto o mundo era extenso e quantas possibilidades podia atrever-se a sonhar. Essas possibilidades existentes chegavam a ele através da mestra eletrônica. Via filmes policiais  que o fascinavam. Queria apenas ser, um dia, parecido com um daqueles heróis que usavam punhos e armas para caçar bandidos e criminosos. Eram criminosos também, mas estavam do lado em que o crime tornava-se legal. Queria ser um justiceiro. A morte não o assustava e aos poucos ia-se tornando, em seu íntimo, um caçador de bandidos potencialmente capaz. Aprendia tudo o que era possível aprender, truques e artimanhas  de sobrevivência nessa profissão que almejava um dia desempenhar. Para isso não precisava ir muito à escola. Só precisava ficar mais e mais esperto.

Porém a professora andava inquieta. Já pela terceira vez  tivera sonhos pecaminosos com Chicão. Isso a mortificava. Queria acreditar que o amor por aquele menino  fosse do tipo maternal. E agora, esses sonhos indecentes e obsessivos  impediam que o olhasse com os mesmos olhos. Ele parecia continuar sereno em sua pureza e ela queria morrer de vergonha. Era, no entanto, uma mulher ainda jovem e ele transformava-se rapidamente em um belo homem.

 Despertava no meio da noite agoniada e só um banho frio conseguia acalmá-la um pouco. Lutava bravamente contra aquelas fantasias malucas que tanto prazer  lhe traziam nos delirantes sonhos. Lutou o quanto pôde.

Uma certa noite quentíssima de verão, branca pelo plenilúnio, a mulher, abrasada de desejo, deu-se por vencida e foi ao quarto de Chicão.

O rapaz dormia seminu. O corpo, uma escultura de prata polida, brilhante por causa  do suor que em gotículas  brotava da pele perfeita. Um retângulo de luar  invadia o quarto através da janela escancarada para o quintal e delimitava o leito dando à cena uma impressão de imponderabilidade.

Parecia estar dentro de um de seus sonhos. Foi chegando devagar e deitou-se ao seu lado. O moço, inquieto, moveu-se e mal acordado, mal dormindo, abraçou-a. O instinto e os abundantes hormônios incumbiram-se do resto.

A partir daquela noite passou a dormir na larga e confortável cama do quarto de casal. Mas foi apenas isso que mudou no relacionamento de ambos. Parecia que, por um acordo tácito, esse assunto continuaria sendo  tabu. Agiam como se aquela mudança de aposentos fosse apenas uma ilusão. Era confortável para os dois que assim continuasse sendo. Somente eles sabiam dos gozos e loucuras que se permitiam na calada das noites  mágicas. Com o nascer do sol ela voltava a ser a protetora e ele, o protegido. Apenas seu  empregado. Assim tudo ficava bem. Chicão sabia que, mais dia, menos dia, partiria dali. Devia ir  ao encontro do seu destino e pela experiência que tinha do assunto, formar uma família era o que menos desejava.

Os anos iam passando e Chicão ia ficando, não por medo de enfrentar a vida lá fora; é que não se sentia ainda preparado para ir ao encontro do seu objetivo. Sabia que a sua hora chegaria e esperava paciente e, claro, confortavelmente.

Em uma certa manhã cuidava da pequena horta, no fundo do quintal, quando viu chegar, defronte a casa, um povaréu. Vinha trazendo a professora que havia sofrido um mal súbito na escola. Acomodaram-na no leito e foram buscar um médico. Chicão ficou a sós com ela que apenas teve tempo de mandá-lo ir à procura do tabelião, pois, revelou, todos os seus bens, casa e pertences, já havia passado para o nome do moço. Algumas horas depois, a despeito do médico e das injeções, deixava esse mundo, placidamente.

Mais uma perda. Novamente a morte fazia-se presente na vida de Chicão que ficou bastante triste, mas não o suficiente para derramar uma lágrima. Parecia que todas as lágrimas, com as quais viera ao mundo, já se haviam esgotado na infância terrível que vivera. Ou , não sabia mais chorar.

Agora, sozinho na casa, pouco tinha para fazer e andava pela cidade, aventurando-se em lugares desconhecidos, tomando pé naquela cidade que, apesar dos anos que ali passara, era,  para ele, totalmente desconhecida. Além disso havia a necessidade de manter-se. Teria de ganhar algum dinheiro. Ficara com a casa, tudo que tinha dentro e algumas economias da mulher, mas a pensão e o pequeno ordenado de professora  foram-se  com ela.

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Era tempo de campanha eleitoral e a cidade andava animada com carros de som, palanques e discursos. Certa noite passava por um desses aglomerados de gente e a curiosidade fê-lo misturar-se àquela turba. Atento a tudo e a todos, olhos de lince, percebeu, um pouco à sua frente que dois homens pareciam agitados e pouca atenção prestavam às palavras do orador. Trocavam cochichos e olhavam desconfiados para todos os lados. Chicão chegou o mais perto que podia de modo a não levantar suspeitas, mas foi então que os homens separaram-se. Um para cada lado. Chicão foi cuidadosamente seguindo um deles. Perdeu-o no meio da multidão. Encontrava-se,  agora, bem próximo ao palanque, quando viu que o homem que ele seguia estava sobre o mesmo e ia-se aproximando daquele que discursava e que devia ser o governador do Estado. Enfiava a mão por dentro da camisa e apontava algo em sua direção. Como um raio, a intenção do homem ficou clara na cabeça de Chicão. Saltou para cima do palanque e, ato contínuo, sobre o homem, no exato momento em que ele acionava a arma. O tiro desviou-se, não atingindo ninguém. Foi um corre-corre. Repentinamente um esquadrão inteiro de policiais estava sobre ambos.

Chicão ficou sendo o herói do dia e o chefe de polícia, o governador do Estado, deputados e demais autoridades faziam questão de conhecê-lo e parabenizá-lo pelo corajoso feito.

Mais tarde, no Distrito Policial, fez o depoimento e falou da existência de um segundo homem que ele vira muito bem e  reconheceria, se o visse outra vez. Recebeu das mãos do delegado polpuda quantia em dinheiro que lhe enviava o governador como recompensa e a promessa de outro tanto se encontrasse o companheiro daquele criminoso.

Deu-se assim o início da carreira que Chicão tanto sonhara. Assim, de maneira quase fortuita, casual. Saiu à caça pela primeira vez e, sorte de principiante ou desígnios do destino, não demorou muito tempo para ter êxito na empreitada.

Mais de um mês não se havia passado quando Chicão avistou o homem tranqüilamente caminhando no meio de uma multidão que lotava aquela enorme feira livre. Nesse tempo Chicão já andava armado e tinha um distintivo de policial, embora na verdade não quisesse essa ligação com a polícia. Queria mesmo continuar como começara. Um “free lancer”. Queria trabalhar por conta própria. Ia ser um caçador de recompensas, um justiceiro, conforme planejara. Chegou perto do homem e lhe deu voz de prisão. O homem tentou fugir, correu empurrando pessoas, derrubando barracas, até que Chicão conseguiu alcançá-lo, socou-o o suficiente para deixá-lo desacordado e entregou-o aos policiais que logo acorreram ao local. Voltou à delegacia só para buscar a recompensa.

Depois disso precisava, apenas, estar em contato com as autoridades policiais e ir resolvendo casos. Eram assaltantes, criminosos políticos, assassinos de aluguel e tantos outros. Farta era a safra de bandidos naquele lugar esquecido de Deus, onde a lei mais forte era a que partia do cano de um trezoitão ou do fio de uma peixeira. Chicão ia, desse modo, transformando-se no mais temido investigador autônomo da região. Algumas vezes, requisitado até em outros Estados. Ganhava muito dinheiro, mas também era pródigo e aprendera a gozar das coisas boas da vida: mulheres, hotéis de cinco estrelas, carrões e o que mais houvesse de bom, para usufruir. Tirava a forra dos longos anos de fome e miséria.

Foi numa dessas missões em que teve de ir  atrás de um perigoso assaltante de bancos e acabou em uma pequena fazenda, naquela região montanhosa, que um acontecimento inesperado decidiria, de modo definitivo, o rumo de sua vida.

Descobriu que o bandido havia se escondido em uma daquelas escarpadas encostas e  foi em seu rastro. Seria um trabalho árduo, mas a recompensa  o encorajava. Levou quase meio dia para escalar aquela encosta, pois não trazia consigo equipamentos  para a  pratica desse “esporte”. Afinal alcançou o topo. Ia esquadrinhando o território sem sucesso. Já estava desistindo quando deparou com algo surpreendente. Era não mais que uma cavidade. Uma bacia natural escavada na pedra. Tinha o mesmo tamanho de uma bacia. Daquelas grandonas onde, ainda hoje, crianças e adultos, que em casa não têm uma banheira, utilizam para tomar banho. Essas bacias de banho tinham dimensões suficientes para que um homem de estatura mediana pudesse sentar-se dentro dela, com as pernas dobradas, à moda japonesa. Era desse tamanho aquela bacia escavada na rocha bruta e que Chicão acabava de descobrir. Não devia ter mais de quarenta centímetros de profundidade e metro e meio de diâmetro. O fundo era recoberto de pequenos cascalhos coloridos, brilhantes porque refletiam os raios de sol que atravessavam a água translúcida como cristal líquido. Mas não era estática essa água. Palpitava levemente como o champanha na taça. A superfície parecia uma película transparente que, delicadamente, ondulava. O sutil movimento da água dispersava os raios solares, fazendo-os saltar de um para outro pedregulho, criando “flashs” de luz. Pareciam pedras preciosas lapidadas, faiscantes sob o efeito de lâmpadas feéricas. A água devia brotar daquele leito em quantidade tão pouca que a própria evaporação impedia que transbordasse. Parecia uma jóia. Brilhava ao sol como um diamante. O mais precioso adorno que Deus podia dar àquele solo árido, completamente  infértil. Não fosse o suave movimento da água e poder-se-ia supor fosse aquilo uma escultura. Obra de um artista feita de  mármore e cristal. Que artista faria um trabalho assim, uma obra-prima no cume de uma montanha de granito? Com certeza não seria um homem . O artista cria para ser visto, admirado e, aquilo ali... No entanto, criada pela natureza, era a mais bela obra de arte! Arte da natureza! “Artes de Deus”!

Foi então que uma urgente curiosidade atacou Chicão. Qual seria a temperatura daquela água? Seria gelada como o vinho branco em uma taça de cristal ou ardente como a água que quer entrar em ebulição? Precisava constatar. Foi chegando devagar, cuidadosamente, como se pisasse solo sagrado. Ajoelhou-se a meio metro da borda e deitou-se de bruços. Estendeu o braço e tocou apenas com a ponta dos dedos, temendo que, ao tocar, tudo desaparecesse. Fosse apenas uma miragem.

Era morna, tépida como a água do banho de um bebê. Suave e envolvente. Mergulhou a mão. Moveu-a devagar fazendo as ondulações aumentarem,  provocando uma correria dos raios do sol, que saltavam enlouquecidos de um cascalho para outro. Era um caldeirão de faiscantes jóias preciosas. Levou a mão molhada ao rosto, à boca, sentiu o sabor doce, virginal.

Nesse momento tomou uma decisão. Desceria para o vale, encontraria sua presa, receberia a recompensa e, tudo que fizesse, dali em diante, teria como único objetivo juntar dinheiro para comprar esse sítio, onde a pedreira se localizava. Eram terras inóspitas, deviam ser baratas. Ia conseguir. Afinal, não conseguira sempre tudo o que desejara em sua vida? Tinha de lhe pertencer a bacia encantada. Ser só dele. Se ninguém antes jamais a  havia encontrado, nunca mais alguém a veria. Seria só dele. Apenas para deleite de seus olhos.

Cumpria o que decidira e já não desperdiçava tostão. Quando imaginou ter uma boa quantia voltou àquelas bandas, procurou o dono da fazenda para iniciar as negociações. Foi com pesar que descobriu que as terras eram mais valiosas do que pensara. Argumentou serem elas improdutivas, solo ruim, seco, só pedra, mas o dono falou que muitos minerais valiosos existiam naquelas rochas e não venderia por menos que a quantia estipulada.

Retornou desanimado, mas não derrotado. A labuta continuaria. Calculava o tempo que levaria para juntar tanto dinheiro e desesperava-se. Tinha de fazer algo mais. Não ia desistir.

Novamente a mão do destino se interpõe e poucos meses depois foi procurado por dois policiais graduados que queriam propor-lhe um negócio. Era um negócio escuso, mas que faria dos três, homens ricos. Tratava-se de um seqüestro. Tinham tudo planejado. Só precisavam de Chicão para pôr em prática o plano. Era uma criança que seria seqüestrada, filho de famoso político para o  qual trabalhavam . Eles facilitariam a ação de Chicão que, sem problemas, levaria o menino. Pediriam um enorme resgate e devolveriam a criança sã e salva. Além de toda essa facilidade, como policiais importantes que eram,  dariam todas as garantias de sucesso e máxima proteção a Chicão, se algo saísse errado.

Ao verem Chicão reticente e pouco animado com tal intento, argumentavam que era uma maneira de, com esse dinheiro, ajudar muitas pessoas necessitadas. Era uma forma de fazer voltar para gente do povo, desse povo sempre tão explorado pela classe política, uma parte do dinheiro que eles, descaradamente, roubavam.

Chicão pediu uns dias para pensar. Responderam que não tinham muito tempo, pois as férias escolares  estavam chegando e o plano, então, teria de ser adiado por muitos meses. Chicão ficou de dar a resposta no dia seguinte.

Foi uma noite infernal aquela que passou acordado, tentando chegar a um acordo consigo mesmo. O desejo de comprar aquele sítio, a possibilidade de poder fazer isso em tão pouco tempo era uma tentação irresistível. Porém, estaria passando direto para o outro lado. O lado das mesmas pessoas que ele perseguia e algumas vezes tivera de matar. Era uma luta feroz que se travava em seu íntimo. Embora fosse um homem sem sentimentalismos baratos, era, essencialmente bom em princípio e honesto em seus relacionamentos. Além disso,  arriscar a vida de um inocente  revoltava-lhe o espírito.

A ganância acabou vencendo. Participaria do plano, mas não antes de exigir que todos os cuidados fossem dispensados ao menino e  a garantia que nada de mal a ele viesse a acontecer.

A sua participação restringia-se a apanhar o garoto à saída da escola, onde os dois policiais, em trajes civis, faziam o serviço de  segurança da criança. Iam até trocar tiros, mas tudo não passaria de uma farsa muito bem montada. Depois era só levá-lo para uma casa já preparada pelos dois cúmplices. Tudo muito fácil. Eles próprios entrariam em contato com o pai do menino para negociar o resgate.

Exatamente assim as coisas se passaram. Porém parecia que as negociações estavam difíceis. Três dias já se haviam passado. Contaram-lhe que o menino chorava muito e Chicão começava a preocupar-se pela segurança do garoto. Naquela noite iria até lá.

Encontrou um dos policiais com a criança. O menino chorava e chamava pela mãe. Queria a mãe e não havia o que  fizesse ele parar com aquele choro. Chicão, no outro cômodo da casa, ouvia os gritos do homem que estava preste a perder a paciência, mandando que a criança calasse a boca.  De repente, o som abafado de um tiro. Correu àquele quarto em tempo de ver a cena. O homem segurava ainda sobre o rosto do menino um travesseiro e através dele, atirara. Estava morto o garoto. Chicão ergueu o homem que estava ainda sobre a criança e socou-o sem dó enquanto gritava impropérios. E agora, o que fariam? __Nada!__ respondia o homem. Tudo continuaria como planejaram, apenas o menino não seria devolvido.

Chicão estava enlouquecido. Haviam lhe sido  dadas garantias! Falharam com ele. Tinha ganas de matar aquele desgraçado. Saiu dali dizendo que se virasse com relação ao corpo. Não queria nem saber!...

No dia seguinte, foi procurado pelos cúmplices que já estavam de posse do dinheiro. Vinham para fazer a divisão e desculpar-se pela falha que houvera. Chicão estava cheio de ódio por aqueles bandidos. Piores que o pior marginal. Porém se não aceitasse o dinheiro, seria, certamente, a próxima vítima deles. Apanhou a sua parte e desapareceu da cidade. Seu único consolo é que ia realizar o grande desejo. Podia agora adquirir a fazenda naquelas chapadas onde o seu “milagre da natureza” esperava por ele. Mais alguns dias e veria realizado seu sonho.

Pagou sem regatear o que o dono pedia. Era um preço absurdo. Tudo ali ao redor demonstrava a pobreza do lugar. A vegetação rasteira que parecia desenvolver-se à custa de uma vontade férrea, os animais magros e doentes em torno da casa. A própria casa, velha, feia, caindo aos pedaços. Era pouco mais que uma tapera. Pouco ligava para esses detalhes. Chicão sabia bem o que estava adquirindo. A noite já ia caindo quando o antigo dono partiu, deixando a sós o novo dono em seus  novos domínios. No dia seguinte subiria a montanha para rever aquilo que realmente havia comprado. A sua jóia rara.

Mal amanhecia o dia, Chicão já estava a caminho da pedreira. Subia com maior agilidade e rapidez, pois pegava atalhos que o levariam direto ao local determinado. Que emoção sentia ao aproximar-se daquela fonte magnífica, objeto maior de seus desejos. Mas... o que havia acontecido?! Onde aquele brilho ofuscante? Correu, debruçando-se à borda. Estava seca! Completamente seca e apagada. O cascalho no leito da bacia estava fosco, escuro, morto. Morta estava a sua fonte encantada. Feia e inútil. Chicão não conseguia aceitar essa realidade. Levava as mãos à cabeça e esmurrava-se, como se quisesse despertar-se, sair de um pesadelo. Ergueu-se, ficou em pé. Olhou em volta. Uma última esperança. Esta devia ser outra. Com certeza tomara caminho errado. Caminhou desorientado, com passos trôpegos, dando voltas sem critério a procura da sua jóia rara. Quando deu por si estava de volta a margem da bacia. Caiu de joelhos, braços erguidos para o céu, falando com Deus, reclamando, exigindo, brigando, desesperado em sua revolta. Chicão blasfemou. Sentiu-se novamente traído. Traído por Deus. Deixou a cabeça ardente tocar o solo e assim, encurvado sobre a pedra Chicão chorou. Chorava pelo menino morto, pela mulher que tanto o amara, pela querida mãe, por cada infeliz que em sua caçada implacável havia matado. Chorava pelo pai, tão pobre e tão conformado com a vida que Deus lhe dera, por todos os irmãozinhos que ele deixara naqueles sertões inclementes. Toda a sua vida passava diante de seus olhos como se fosse este seu último instante . Chorou de saudade. Chorou de arrependimento. Chorou com pena de si mesmo. O pior, o mais desgraçado de todos. Aquelas lágrimas ardentes molhavam o solo e escorriam, deslizavam  sobre a pedra, lavando-a  sem parar. Mãos postas, ergueu ao céu os olhos marejados. Implorou o perdão. Bateu no peito. Todos os pecados do mundo em seus ombros. Compreendia agora a atitude de Deus fazendo secar a fonte que o encantara.

Quem era ele, o grande vaidoso, o maior pecador, o infame criminoso? Presunçoso! Como pôde, um dia, atrever-se a ser a mão armada de Deus, acreditar que podia ser um justiceiro? Ele, o último, o mais orgulhoso, o mais ingrato dos filhos de Deus. Como podia achar-se merecedor de possuir uma obra prima do Pai? Deixou-se tombar sobre as pedras molhadas pelo seu pranto e por muitas horas ali permaneceu  em estranho estado de torpor.

Aos poucos as forças foram voltando. Ergueu devagar o corpo dolorido. Um derradeiro olhar para a fonte ressequida. Notou que as lágrimas haviam escorrido para dentro da cavidade e que algumas pedrinhas estavam úmidas, tocadas pelo pequeno rio que brotou de seus olhos. As pedras molhadas refletiam fracamente  um raio de sol e pareciam estar ressuscitando, voltando a ter vida. Prestou mais atenção e notou que outras pedrinhas iam ficando úmidas. Até mesmo aquelas que ficavam do lado oposto! Teria chegado tão longe o seu pranto? Mas, não! Milagre! Milagre! A água vinha de sob o cascalho! A fonte mágica renascia!

Novamente Chicão chorou. Chorava agora de gratidão. Deus falara com ele e o perdoara. Chorava de pura e verdadeira felicidade. Deus se apiedara e aceitara seu profundo e sincero arrependimento. Estava redimido, mas muita coisa ainda precisava ser feita. Desceu para o vale determinado a resgatar ao máximo a sua culpa.

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                   Aquilo era um tribunal de júri. Ele e seus dois cúmplices estavam sendo julgados. Penas muito rigorosas para os dois policiais, autores do plano de seqüestro e assassinato do menino. Para ele, que espontaneamente entregou-se e entregou os cúmplices, uma pena mais leve, mas mesmo assim, fazia contas e sabia que  seria um velho quando da prisão saísse. Porém Chicão estava em paz. Feliz como nunca fora em toda sua vida. Pagava com prazer a sua dívida. Era o preço que a sua consciência exigia para gozar de um pouco de paz.

          Aqueles que, muitos anos depois, passassem por aquelas pedreiras, no meio de terras incultas, descuidadas, com certeza encontrariam um homem velho, de longas barbas brancas, apoiado em rústico cajado. Parecia um personagem saído das páginas do Santo Evangelho. Era um homem bíblico. Vivia por ali, conversava mansamente com as pessoas e sempre que podia, falava de Deus. Todos os dias subia a um certo sítio no alto daquela pedreira,  onde permanecia longas horas. Era lá que comungava a sua fé, orava e meditava. Meio maluco, diziam. Apenas mais um desses loucos ermitões segregado, fugitivo deste nosso triste mundo civilizado.

          Mas os que falaram com ele, nunca mais conseguiram esquecer o brilho que havia  naqueles olhos da cor das esmeraldas.

FIM