
O diário de Alice
Maristel Dias dos Santos
Não, isto não é uma transcrição do diário de Alice. Mesmo porque
seria presunção chamá-lo de “um diário”. Ainda que tenha sido escrito em
um Diário. Eu diria até que não passa de pequenos e grandes desabafos de uma
mulher solitária, como tantas outras, que começou a escrever por brincadeira,
habituou-se e, vez em quando, por não ter com quem contar, ou a quem contar,
pegava este pequeno depositário e com ele se abria.
Na verdade, o que vou contar mesmo é a história desse diário. Quando
Alice entregou-o em minhas mãos para que eu fizesse com ele o que bem me
aprouvesse, contou o porquê de escrever um diário, já que não estava
passando por nenhuma tragédia, guerra, seqüestro, naufrágio ou uma mal
sucedida expedição ao pólo sul e também que, há muito, deixara de ser
adolescente. “Não são as adolescentes que costumam escrever essas
bobagens? Estas, são apenas reminiscências de uma mulher de meia-idade .”
Mas, eu o li e descobri tragédias sim, embora com outros nomes e também
“bobagens” de adolescentes. Assim, achei por bem contar para você a história
deste diário e transcrever as “reminiscências” de Alice.
Alice havia decidido arrumar aquele armário
cheio de papéis velhos, cadernos e livros escolares após o casamento da última
filha solteira. Foram quatro meninas que, uma a uma, partiram, trocando a mãe e
a casa da mãe por um marido e uma nova casa. Restava-lhe somente o filho, um
garoto de doze anos, que não parava em casa e se aborrecia quando a mãe
exagerava em seus desvelos. Marido? Tivera-o, sim. Agora, apenas ex-marido,
“graças a Deus!”
Separava o que ia para o lixo, o que doaria à biblioteca e o que ainda
poderia ser usado pelo menino. Lá no fundo, perdido entre folhas soltas,
encontrou um pequeno volume encapado com ”blue-jeans”, hermeticamente
fechado por uma correia de couro, fivela e um minúsculo cadeado: um diário!
Leve lembrança a respeito dele. Fora um presente de aniversário de alguma
amiguinha, mas para qual das filhas? Não se lembrava. Teria de abri-lo para
descobrir. Sentiu-se dominada por antigo escrúpulo. Tolice. Ali só deveria
haver coisas infantis, palavras inocentes, sonhos de criança. E o que uma de
suas menininhas registraria em um diário, que coisas escreveria que não
tivesse lhe contado? Teve medo de saber. Medo de ver ruir a presunção materna.
Descobrir que não fora assim tão confiável. Porém, precisava saber.
Com delicado fio de seda, duas pequeninas chaves douradas ficavam presas
à fivela. Ocorreu-lhe que, se segredos havia ali, a autora tinha sido muito
descuidada por deixar as chaves junto. Que bobinha! Decide afinal abrir o
cadeado, desafivela a cinta de couro e... novamente pára. Sente-se invadindo o
sagrado recôndito de uma pequena alma. Quem sabe bastasse erguer a capa para
encontrar o nome da dona... Aí, então, seria só fechá-lo e enviar a quem de
direito. Isso mesmo! Assim seria. Vagarosamente levanta a capa azul e espia lá
dentro. Nada. Abre de uma vez. Muitas florezinhas azuis sobre papel rosado.
Nenhum nome. Teria de ir adiante. Ergue a folha florida e descobre uma página
branca, linhas azuis e... mais nada. Nem uma palavra! Folheia-o e... nada. Que
alívio! Mas, nem todas as folhas eram brancas. Apenas umas dez, talvez. Depois
vinham as cor-de-rosa, as verdinhas, as azuis e as amarelinhas. Páginas
coloridas! Como deveriam ser os dias de uma mocinha. Alice alegrou-se. Enfim uma
mensagem consoladora. Nas cores suaves, uma mensagem colorida. Um diário
perdido, vazio, oco. Triste, apesar de colorido.
__Ora!...
Triste, por quê?!
Então
Alice contou uma conversa que tivera alguns anos após a descoberta do diário,
com o Dr. Gianpietro, o psicanalista que ajudou no seu regresso à vida quando,
no carnaval de 90, ela “morrera”. Por muito tempo ela se referia assim,
completamente sem querer, àquela moléstia (pancreatite aguda) que a levou para
caros hospitais em Campinas e por fim para a Unicamp. É que o
gastroenterologista falou para suas filhas que aquela era uma doença que
obrigaria a longo período de internação e geralmente terminava em óbito. A
família teria que gastar o que tinha e o que não tinha para vê-la morrer. Na
Unicamp (ao menos) ela morreria de graça. Mas como já pudemos perceber, Alice
sobreviveu, embora tenha levado bom tempo para convencer-se dessa realidade. Era
na verdade uma nova chance, novos conceitos, novos propósitos. Uma vida nova!
Bem,
mas a conversa que ela teve com o Dr. Gianpietro, foi a seguinte: o médico
pediu que ela contasse sobre a sua vida e Alice falou:__ “Sabe,
doutor, se há vinte anos eu tivesse que responder a essa pergunta, diria __
nada de mais, nada de menos. Uma vida comum. Aliás, eu que sempre gostei
muito de ler ficava imaginando como podia haver gente que tinha tanto a contar
que até escrevia pesados volumes, pois a minha história caberia em duas páginas.
Hoje, porém, se eu começasse a escrever, encheria algumas prateleiras de uma
biblioteca onde talvez houvesse lugar, até mesmo, para alguns proibidos”, falou
com cara marota. Ele riu:__ “Mas, isto
é muito bom!” E ao ver a surpresa no rosto da paciente, explicou:__ “Imagine
uma criança que tenha ganho um belo caderno e deixou-o intocado,
esquecido no meio de velhos papéis. Imagine que essa criança cresceu e
já de meia idade, indo remexer nas coisas velhas, encontrou-o assim...
amarelado, envelhecido e... vazio! Nada registrado. Uma coisa feita para uma
certa finalidade que não se cumpriu. Isto é triste. Teria sido um desperdício.
A vida de uma pessoa que não se permitiu vivenciar experiências diversas,
muitas vezes assustadoras, é assim : um objeto que não cumpriu a
sua função”
Foi
assim que o Dr. Gianpietro falou e Alice começou a gostar da sua vida: um
caderno hiper-usado, cheio de rosas e de espinhos. Naquele momento ela
lembrou-se do diário. É, fizera bem em usá-lo.
Vou agora transcrevê-lo e serei literalmente fiel ao seu conteúdo, já que tenho autorização de Alice para tanto.
8
de fevereiro de 1988
Cada
dia é uma nova aventura. Conheci hoje os 32 alunihos, todos com sete anos
completos e alguma experiência escolar (pré-primário).Conversei com cada um
deles que, além do nome, contaram coisas particulares e íntimas como o Tiago,
falando com emoção do acidente de carro que aconteceu com ele e com o papai.
Exibia, vaidoso, uma cicatriz pequena na testa. Paulinho, no recreio, chorava e
foi trazido à sala dos professores, pois queria certificar-se que eu não o
havia abandonado(vivia sem a mãe). Lucas, o mais peralta, tinha fantásticas
histórias para contar e não ficava um minuto de boca fechada. Cheguei aos pedaços
em casa , mas ainda animada por uma recém-nascida esperança: P. virá me ver!
09
de fevereiro/1988
Um
dia normal, comum. Nada de nada. E por que ainda estou acordada? Não consegui
dormir e já é tão tarde.
Foi
a visita da Márcia, em minha classe, que remexeu em minhas lembranças que
agora não me deixam dormir.
Márcia é a professorinha que trabalhou comigo, ano passado, em uma
fazenda aqui bem perto. Foi estranho uma pessoa tão jovem entender-se tão bem
comigo e ou vice-versa. É que ela
é muito inteligente e muito madura intelectualmente. Estava hoje na escola
porque as aulas na zona rural estavam sendo atribuídas. Eu, este ano, tive mais
sorte. Ficarei na cidade.
Entrou
na minha sala toda feliz: “Peguei uma classe para o ano inteiro. Escolhi na
Fazenda São João” .
Acho que empalideci. Ainda não consigo agir com naturalidade quando alguém
me fala desse lugar ou de seus donos.
Fico
imaginando a minha amiga lá. Naquilo que foi tão meu. Foi essa a chave que
abriu a comporta de recordações e impediu o meu sono. A possibilidade de
comunicar-me com ele através da Márcia
levou-me a escrever uma carta. Agora posso dormir. Agora, depois de ter posto
ordem na velha arca de recordação. Quando me desprenderei de meus fantasmas?
Quando a alma olhará, sem disfarces , em seu espelho?
11
de fevereiro/1988
P.
desapareceu. Por dois dias esperei. Até desmarquei compromissos. Que boba! Será
que nunca perderei essa mania de acreditar nas palavras? Serão as minhas próprias
fiéis espelhos da verdade? Não as uso, às vezes, levianamente ou com segundas
intenções? Quem não o faz? Porém não falho com meus compromissos. Não
desse modo, ignorando-os e permitindo que alguém passe por idiota. Detesto ser
e fazer ser. Pior é que justamente quando me permito um envolvimento emocional
mais sério saio frustrada. Mais que isso: com raiva. Dele? De mim? De todos!
Bem,
apenas mais uma desilusão que somada a tantas, nesta longa vida, já me
permite, sobre elas, quase alcançar o céu. Mas é preciso estar sobre.
12
de fevereiro/1988
Minha
classe começa a tomar o meu jeito. Às vezes fico pensando se exigir seriedade
e responsabilidade de criancinhas de 7 anos não será errado. Pode ser, mas
iniciam agora a primeira fase verdadeiramente social e estes ingredientes são
indispensáveis para que o bolo cresça e se torne útil, agradável.
Já
conheço todos pelo nome. Carol
será minha aluna. Hoje foi seu primeiro dia. A mãe achou por bem
transferi-la da outra escola, mesmo porque não estava dando certo o seu horário
de trabalho com os horários de levar ou buscar a menina na escola. Desse modo
irá e voltará comigo. Chegou em casa contando para a mãe que adorou a classe
da avó e a professora. Bom.
Falei
com P. Contou-me que está com problemas com a família, por minha causa. Isso
eu já esperava. Fizeram o homem, que já havia saído de casa, voltar para a
“sagrada família”.
A
inveja é uma coisa estranha. Leva um ser humano a se locomover apenas para
jogar a própria lama nas coisas que achou belas demais. E o pior é que ainda
falam em nome da moral. Pobre e vilipendiada moral, culpa tiveste e para sempre
terás, pela desgraça dos homens. Quanta hipocrisia!
14
de fevereiro/1988
5h50.
Chegando de Araras. Que peças a vida nos prega! Martinha veio buscar.me. Fomos
ao “Socyte” e depois ao “Casablanca”. Encontramos amigos dela e tocamos
para Araras. É carnaval! Desculpa para nos “encharcarmos”. Quando, afinal,
conseguimos nos “fantasiar” para ir ao clube, ele já estava fechado. Que
duas loucas! Fomos então para a lanchonete da Neli, amiga da Martinha. Um lindo
violão e eu me soltando, dançando sozinha, gostosamente. Em uma das mesas dois
rapazes me observavam, parados, petrificados. Passo por eles e um deles fala:
“Você é a professora! Alice! Não se lembra de mim? Fui seu aluno na fazenda
São João... o Álvaro...” A
lembrança me atingiu como um raio, uma pancada no peito. Fiquei zonza, pensei
que fosse desmaiar, me desmanchei, chorei e ri abraçando meu ex. aluno. Mas, é
demais!... Por quê? Por que
justamente agora que a ferida está tão aberta? Sentei-me junto deles e
conversamos atropeladamente. As lembranças foram sendo desenterradas e
expostas, como objetos visíveis e palpáveis, enfileiradas sobre aquela mesa de
bar.
Quis
levar-me para casa. Permiti. Tínhamos tanto o que falar! Dentro do carro
ele mantinha o abraço e com beijos secava alguma lágrima que teimava
ainda em rolar pela face. Acabou por parar em um desvio de estrada e
em meio às descontroladas palavras (que eu não conseguia calar), seus
carinhos foram conquistando mais espaços e conscientemente dei-lhe, como prêmio,
o que ele mais desejava naquele momento. Confessou estar realizando um desejo
que acalentara desde seus !0 anos. Inacreditável! No chão duro do furgão meu
ex-aluno me amou. Maravilhosamente bem. Nota 10. E foi nesse ”dar” que eu
dei toda a saudade, toda a dor, toda a carência que há tanto tempo eu guardava
no meu coração. Desde aquele mesmo tempo em que uma aura de sonho e paixão
cercava aquele lugar.
Álvaro...
eu me esforço, quero lembrar o seu rosto de menino, mas a única imagem é o
seu rosto lindo de homem. Ainda bem! Não seria bom, nessa conjuntura, lembrar
seu semblante inocente de criança.
Que loucura! Quando ele me amou eu me senti amada por você, meu querido.
Pela fazenda, pelo seu pai, pelo seu irmão, pelo seu filho, pela terra, pelo
engenho, por dona Joana, pelo seu José, pelo sol, pela neblina, pelo vento
“por esse vento que sopra do sul e em névoas cinzentas esconde o azul...”,
pelo azul do seu carro, pelo amarelo do meu, por Deus!
E
ele, esse menino do passado, falando sobre as cores dos carros, testemunha viva
de tudo que um dia foi, testemunha emancipada que, talvez sem se dar conta,
adivinhou aquele nosso amor, tão
secreto , tão antigo! Que
loucura!
15
de fevereiro/1988
Vejo
o mundo, vivo a vida como se fosse uma eterna aventura. O que eu não sabia
ainda é que, se em vez de apenas mergulharmos de cabeça na vida, dermos, de
vez em quando um mergulho em nós mesmos, iremos experimentar a verdadeira
aventura. Fiz isto que aconteceu depois daquele dia 13.Como se consegue? Basta
que a gente se abra, que aceite as coisas que surgem sem medo, sem censura, que
se permita viver intensamente cada minuto, cada fato novo, cada nova experiência.
É deixar nossa cidadela sem guardas ou armas e receber tudo o que vem, por que
nada acontece à toa. Tudo o que se nos apresenta vem de um encadeamento muito
bem planejado. Por Deus? Pelo cosmos? Pelas leis naturais? Não importa o nome
que damos a essa força que atrai, repele, ergue, empurra as nossas vidas. O que
aconteceu naquela noite, se contado levianamente, poderia parecer feio,
pecaminoso, quase incestuoso. No entanto, foi para mim, a redenção. Senti isso
naquele momento, mas o que eu não sabia é que teria depois o sono mais tranqüilo
e feliz de toda a minha vida. Nem que despertaria com uma imensa sensação de
paz. Sei que cometi muita loucura nestes últimos 12 anos, à procura do quê?
Antes eu não saberia
dizer. Agora eu sei: paz, harmonia, perdão. Tudo isso eu recebi das mãos
daquele menino transformado em homem. Enfim, findou a guerra! Encontrei um pouco
de mim dentro de mim e me conheci um pouco mais. Essa é a grande aventura!
17
de fevereiro/1988
Hoje
é quarta feira de cinzas. Benditas cinzas se são do carnaval! Não aqui, penso
eu, mas nas grandes cidades, nos grandes clubes, que degradação! E eu, que me
considero liberal e liberada, dizendo isto?! É grave! Aquele baile “gay”...
Não me refiro à exibição pois havia lindos travestis, mas sim às coisas que
se permitiam fazer frente às câmeras. Eu até que entendo esse amor marginal ,
mas não a sua transformação em atos bestiais, animalescos. Todo mundo sabe o
que acontece entre duas pessoas que se amam, porém é um ato íntimo que,
indiscriminadamente exibido perante os milhões de olhos que viram ou verão
através da “telinha”, chega a ser uma afronta, uma ofensa. Se isto é
certo, então não precisaríamos usar de cubículos fechados, públicos ou
particulares, para defecar. Poder-se-ia distribuir vasos sanitários por toda a
cidade, nas esquinas, diante dos grandes magazines, nos jardins, nos canteiros
floridos e, na falta de tais recipientes, simplesmente baixar as calças e evacuar os intestinos diante
do prefeito, observado pelo patrão e pelas crianças. A analogia me parece óbvia.
Agora entendo porquê meu filho andou querendo saber sobre Sodoma e Gamorra.
Olhe, fico pensando se a destruição da espécie não virá mesmo através de
um vírus. Seria até natural num mundo tão desenvolvido cientificamente (um
dilúvio estaria fora de moda).
E
os paralelos sempre surgem. Passei a noite afundada em uns módulos supermacios
e hoje morro de dor nas costas. Deve ser uma distensão muscular. Diferente da
mulher de Ló, cuja curiosidade transformou
em estátua de sal, ganhei hoje uma torta estátua de dor. Bem feito!
Mas
é quarta feira e é preciso documentar aqui que hoje, cumprindo a promessa, Álvaro
ligou. Pensa que pode haver algo mais. Não entendeu a solução de
continuidade, a ferida aberta, através da qual tanta coisa pode sair. Para ele
foi apenas um caso excitante, diferente, que pede , se repita. Impossível!
Para
mim, muito mais forte e significativo, foi uma cirurgia delicada, através da
qual pude livrar-me de um câncer que transtornava meus dias. Tentei explicar
delicadamente que não valia a pena. Senti sua decepção.
18
de fevereiro/1988
Nem
sei por que peguei agora neste diário. Nada a registrar. Acho que está se
tornando um hábito. Na verdade, escrever, para mim, sempre teve sinais de
compulsão. Necessito, preciso, sofro se não o faço. Se passo tempos sem
escrever começo a me sentir irritada, nervosa, confusa mesmo. É como se esse
mundo de emoções que diariamente nos acometem, fossem
acumulando - se , complicando - se
e a válvula de escape é
esta: escrevo. Sempre me acalmo depois. Tive hoje um dia cheio. Reuniões
o tempo todo na escola. É possível que me torne coordenadora do CB e aí,
deixo minha classe e meus aluninhos. Não sei se quero.
23
de fevereiro/1988
Ontem
foi meu primeiro dia de aula na faculdade. Passei em quarto lugar no vestibular.
Que cartaz! Isso me faz pensar no baixo nível educacional geral. Na primeira
prova, Português, Redação e uma língua estrangeira (escolhi Francês que
estava mais de acordo com o meu estado)eu cheguei um pouco bêbada. Fiquei a
noite toda na inauguração de uma boate chiquérrima. Saí de lá às 5;30 h. e
às 6, Martinha passa em casa para me apanhar. Ela foi dormindo no banco de trás,
a esperta e eu conversando com seu amigo Beto, que servia de motorista. Durante
a prova o sono chegou invencível. Por diversas vezes cochilei. Numa dessas
cheguei a sonhar. Joguei no papel as palavras da redação, “A língua que eu falo” e nem sequer reli.
Aqui
em casa comentei que o exame foi ótimo. A primeira parte eu fiz de pileque, a
segunda, dormindo e a terceira, de ressaca.
No
dia seguinte, recuperada após uma noite bem dormida, fiz Biologia, Física, Química
e Matemática. Nestas eu estava bem consciente, mas pouco informada. Achava que,
de qualquer modo, passaria, pois o
número de vagas era maior que o de candidatos. Nem me preocupei. Ontem fiquei
sabendo – quarto lugar! Impressionante! Então, e os outros? Além de tudo
houve reprovações! Não acredito! Que está acontecendo com a nossa juventude
recém-saída dos colegiais e dos cursinhos? Dá pra pensar!
Mas,
tudo bem. Pra mim, é claro! Vai ser bem duro sair correndo da aula, viajar
quase duzentos quilômetros e chegar em casa à 1:30 h. Eu agüento! Tenho
de! Há compensações. Volto a ser estudante e isto me dá um crédito de
20 anos com a vida.
24 de fevereiro/1988
É
ainda 23, embora por dois ou três minutos. Por que volto a escrever? Sei lá.
Pela manhã, quando escrevi aqui, eram 10 horas e agora, após uma longa tarde
com 35 alunos(estão aumentando), grandes aprendizes da arte de ler e escrever,
vem essa pré - noite de verão, cheia de surpresas. São telefonemas, negócios,
contatos, coisas tão diversas e excitantes que os neurônios põem ligados.
Linfa, sangue e coração(a bomba ardente) numa toada louca, num ritmo
atordoante, não permitem o repouso. Isto é vida! É assim que eu vivo:
intensamente. Tanta coisa para acontecer, mas como falava mamãe: o que for será.
“What
will be, will be”.
27
de fevereiro/1988
Hoje
é sábado. São três horas da tarde. Acabo de chegar de Araras. Dormi na casa
da Martinha. Saímos quinta e sexta feira, bar da Neli, mocotó e muita cerveja.
Nestas duas noites Álvaro esteve presente. Na primeira, impaciente e
apaixonado(eu estava acompanhada). Na segunda eu estava só e ele ficou
distante. Quando saímos, Martinha e eu, ele nos seguiu. Ficou parado diante da
casa. Marta fingia dormir. Não quis convidá-lo a entrar.
Eu
fiquei ansiosa, querendo... isto tem que acabar! É absurdo! Ele tem só 23
anos. Será que existe amor por transferência? Quero dizer, será que na
impossibilidade de se ter o objeto amado possa - se amar outro, apenas pela ligação
que há, ou houve, entre os dois? É tese a ser comprovada.
03
de março/1988
Hoje
estou bem, mas ontem estive arrasada. É que pela primeira vez, em muitos anos,
perdi a tranqüilidade, tornei-me agressiva. Pensei que não voltaria a
acontecer. Descobri que certos “nomes” eu não aceito. Principalmente se
partem de pessoas amorais, que precisam de palavras de baixo calão para dar vazão
ao esgoto de suas almas.
Afinal,
quem sou eu para julgar? Todo mundo é um pouco assim. Até Jesus Cristo, homem
mortal, filho de Deus, mas humano, perdeu a paciência e expulsou com um chicote
os vendilhões do templo. Sabe-se lá que palavras usou junto à ação. Está
bem. Eu perdôo a ofensa. O que não consigo entender é a questão: onde estou
errada? O que fiz que não deveria ter feito? Virar o copo de cerveja sobre a
cabeça de um cafajeste, só é errado pelo fato de desperdiçar a gostosa
bebida. O que dói mesmo é encontrar em mim ainda tantas falhas. Quando a sublimação?!
06
de março
Na
verdade, dia 7. Passa muito da meia noite. Acabei de ver um filme
revoltantemente lindo!: ”Amor sem fim”. Quando terminou levantei-me,
fungando e resmungando :“é desgraça demais!” Na metade do filme tive que
apanhar uma bebida para continuar a vê - lo, porque tudo o que o vídeo
mostrava eu já havia assistido na vida real. Na realidade da minha vida. Pensei
que não conseguisse ver tudo, até o fim. Penso que muita gente, ao ver este
filme deve falar: “só mesmo em filme”. É, eu sei, são coincidências
demais, são desgraças demais, mas só por isso é amor sem fim. Se eles
tivessem conseguido,
quanto tempo duraria? Pois é. Só um amor que encontrou todas as barreiras, que
levou à loucura pode se tornar um amor sem fim. Que grande ironia! Para chegar
a ser tem de não
ser. Que estranha e misteriosa é esta nossa vida!
28
de março/1988
Que
longo mês! “Março, não acabas mais?” Pior é que faltam ainda duas
semanas para 10 de abril e se nossos fornecedores não aceitarem cheques pré-datados,
morreremos de fome. E se aceitarem, quando chegar o pagamento não sobrará
pagamento. É isso o que eu ganho dedicando todas as horas do meu dia a uma
classe com 35 crianças de sete anos, portadoras de 70 pais e mães neuróticos,
psicóticos, necessitados, marginalizados, estropiados, como eu. Como pagarei as
contas de água, luz e telefone? Como porei combustível no velho carro? Afinal,
como sobreviver até o dia 10 ?! Ah! senhor governador, senhores deputados e o
resto da quadrilha, é demais! Está tudo bem para vós. E nós?!
Nós
partimos para atos extremos e totalmente inversos aos nossos princípios. Quando
decidimos alugar a chácara e nos mudarmos para uma casa menor, de modo que
sobrasse um pouco do aluguel a receber quanto ao de pagar , uma mulher andou nos
perturbando querendo , por toda lei , alugar a chácara , para onde se
mudaria com um bordel que ela já possuía em outra cidade. Resistimos, é
claro! Ela conseguiu outro local,
análogo ao nosso e certa tarde, arrependida
de não ter negociado com ela e em desespero de causa, fui visitá-la.
Em minha casa faltava o alimento. A carne era coisa rara, vendida com ágio,
impossível de ser adquirida. Como
fiquei surpresa ao entrar naquela ampla copa, com mesa
bem posta, onde uma enorme travessa
exibia belíssima peça de carne assada, dourada, exalando delicioso e
irresistível aroma. Em torno da mesa muitas garotas bonitas, caras lavadas ,
simplesmente vestidas e
tudo tão limpo e em ordem parecendo
mais um convento que um bordel. Então é isto um prostíbulo? Um lugar
limpo, bonito, pródigo, farto? Então
, o que é a minha casa, caindo aos
pedaços, mesa miserável ?
Convidaram-me a jantar. Impossível negar. O cheiro da comida
inflamava-me as entranhas. Aceitei. Em silêncio saboreamos aqueles quitutes após
termos orado, agradecendo a Deus pela mesa farta.
Algum remorso sentia ao lembrar dos que em casa permaneceram matando a
fome com arroz e chuchu. Estávamos ainda à mesa quando o interfone nos avisou
da chegada de visitantes. A dona do lugar disse-me que aquela noite a casa
estava fechada para alguns senhores de uma cidade vizinha e que se eu quisesse
ali permanecer deveria agir como uma das meninas.
A curiosidade somada ao temor de ofender àquela pessoas bondosas que
saciaram meu estômago, obrigou-me a aceitar o convite e as condições.
Permaneci. Aprendi nessa noite porque uma mulher vende o corpo. Questão
de sobrevivência. O estômago
grita mais alto que a consciência.
30
de março/1988
Ô
mês longo! Mês triste! Cadê o 10 de abril? Parece que não chegará nunca. Há
duas semanas acabou o dinheiro e tenho que esperar ainda mais uma semana. E o
que acabou não foi só o ordenado, não. Foi também o cheque especial de
20.000 cruzados. E daí? O que fazer? Matar o governador? Imolar meu corpo num
ato de sacrifício, em uma praça pública, sob uma patética faixa; “Fui
professora pública.” ou explodir com uma bomba o palácio do governo? Palácio...
Afinal pra que palácio em um país miserável como este? Um país onde uma
professora não consegue sobreviver 15 dias com seu salário? Uma colega
justificou: “Não é ordenado, é
menstruação __Vem uma vez por mês e dura três dias. “
As
contas de água e luz ainda não foram pagas. E se cortarem? O aluguel da chácara
paga o desta casa. Se não tivéssemos isso teríamos que morar na rua. O que
fazer? Fazer! É isso! E hoje eu fiz! Que delícia! Na impossibilidade do filé,
alcatra ou lombo comprei um quilo de suã . Sabe o que é suã? Então responda
depressa: comer suã faz suar? Faz! Se faz! Mas, que delícia! É só osso com
pontinhos de lombo em torno e no meio aquele saboroso e nutritivo tutano. Sei...
não é todo mundo que sabe o que é isso. Mas todos já ouviram falar de algum
ato corajoso: “é preciso ter tutano!” É o bom, o melhor, o mais forte. Mas
quem tem tutano para pegar aquele ossinho entre os dedos e chupar o cerne, o
miolo, o centro da vida? E os pedacinhos de pão embebidos naquele caldo rico, protéico, saboroso? É... pois
é... Por pior que ande a vida é bom lembrar que pode haver ambrosia dos deuses
em um prato de ossos de 80 cruzados o quilo.
1º
de abril - Feriado Nacional
Tinha
de ser. No Brasil o dia da mentira deve ser comemorado como feriado nacional.
Mas não só neste ano cuja data coincidiu com a sexta-feira santa. A mentira é
ato institucionalizado neste país. O governo mente quando congela. Vem à TV
para dizer que tal coisa não irá acontecer e você pode ter certeza que dois
dias depois é exatamente o que acontece. Este nosso Brasil transformou - se em
um pais de brinquedo. Sobram mentiras de todos os tamanhos. Chegamos a tal ponto
que ao ouvirmos a mensagem de um político, qualquer que seja, decodificamos a
notícia e onde ele fala não sabemos
que quer dizer sim. Se ele
fala sim
devemos entender não. Difícil fica quando eles falam talvez.
04
de abril/1988
Márcia
entrou hoje em minha classe com a esperada notícia; “... entreguei .
Afinal, consegui. “ depois contou - me os detalhes e eu fiquei feliz, porque
você gostou de receber a carta. Você
gostou , você parecia esperar por ela. Que bom, meu querido! Só que
agora, quase dois meses depois, ela já não é tão verdadeira. Como mudam as
coisas, não é? Por exemplo, namorado não durou mais que um mês. Depois de
você, mais ninguém. Às vezes , um rápido sonho e um despertar gelado. Sem
você tudo é fugaz, impalpável, inconsistente . Você foi tudo. Na verdadeira
acepção da palavra: tudo! Depois de você, nada... Só eu. Eu sozinha. Eu e
meus fantasmas. Quanta saudade!
26
de maio/1988
Cinqüenta
dias sem escrever aqui. Não é que nada tenha acontecido. Muito pelo contrário.
São tantos os problemas que se eu fosse narrá - los, precisaria de mil diários.
Este
nosso pobre país está o caos. Sofro na pele essa inflação brutal. Entramos
em greve por melhores salário e o que acontece? Ele diminui e quando chega já
está totalmente corroído pela inflação e as dívidas, em otns, subiram à
estratosfera. A inflação é um monstro insaciável que devora qualquer esperança
de sobrevivência. O que eu faço? Olhe, nem sei. Vendo coisas, pago
escorchantes juros do cheque especial, passo cheques pré - datados... e xingo
os políticos. Rezo um pouco também. Só um pouco porque, quando a revolta toma
conta de nossa alma, Deus sai correndo dela.
Deixei
a faculdade. Três quartos do meu parco ordenado iriam para ela. Impossível.
Fico pensando em qual lugar deste mundo, uma mulher, uma pessoa, passa em quarto
lugar num concurso e é desperdiçada? Só mesmo neste Brasil onde vencem a
ignorância, a safadeza, a corrupção.
Mas,
em meio a tanta pobreza, recolho-me no silêncio, na beleza, no dourado de meu
refúgio sagrado – leio : Alan Kardec, Buda, Einstein, Jung, Nietzsche, Marx,
Chaplin, Carlos Drummond, Chico Buarque... Aprendo, cresço, absorvo,
transformo-me e, como balão, mais leve que o ar, subo... subo... deixando na
terra a matéria que escraviza. Minha alma se engravida de pensamentos, questões,
sonhos de iluminação.
Mas,
às vezes a carne grita e então chega você. Ah!... você. Você tão preso à
terra, me acena com notas de mil dólares entre os dedos : “ fica comigo e te
farei rica, um dia.” Mas em que
dia? E será que nesse dia eu ainda precisarei de dinheiro? A alma necessita de
tão pouco e estou certa de que dinheiro
é o que ela menos precisa.
04
de setembro/1988
Se
contarmos diretinho, tirando férias e greve, as aulas iniciadas em oito de
fevereiro, não somam quatro meses.
Resolvem
simples problemas matemáticos, sabem que os números não são apenas sinais
,mas que representam quantidades e compreendem que podem se agrupar em ordens e
classes para representar qualquer quantia que desejamos. Não decoram a tabuada
porque entendem que ela nada mais é que agrupamentos de quantias iguais.
Desenham maravilhosamente e ... como cantamos! Sim, eu vibro, me orgulho demais,
mas não de mim. Eu nada fiz. Apenas acompanhei - os, servi de ponte e eles
fizeram a travessia. São grandes! São lindos! São maravilhosos!
Penso
que se nós tivéssemos a mesma capacidade que eles têm de aprender, certamente não usaríamos nossas inteligências
para criar armas nucleares, mísseis ou bombas. Com certeza criaríamos flores
falantes, nuvens cantantes, estrelas mensageiras do amor ... “e aqueles mísseis
de mil megatons seriam bombons de
licor...”
05
de setembro/1988
É
verdade! Foi meu aniversário. Um ano mais velha. Mas, que tolice! Como se eu não
ficasse mais velha a cada dia, a cada hora que passa. Como se ao amanhecer do
dia seguinte ao aniversário minha face transmudasse e eu ficasse com um ano a
mais. Que grande tolo mestre é o tempo, assim medido, metrificado. Não
encontro, acaso, faces marcadas e senis em corpos de 30 anos? E não vejo, às
vezes, faces rosadas, límpidas e serenas em seres de 80 anos? Melhor não ligar
para o tempo. Deixá - lo passar que esse é seu dom natural.
O
telefone chama. Corro atender e quando chego lá a filha já atendeu o de baixo
e duas netas disputam o de cima. A neta mais velha, entre risos e falsas brigas,
diz: é a mamãe, e entrega - me o fone. Sim é a Li. Quer perguntar se não
desejo entrar num consórcio de um forno microondas. Sem querer caí na risada e
tenho que lhe explicar que é porque de uma só vez ela consegue me oferecer
duas coisas que eu detesto. Esse negócio de consórcio me cheira a armadilha. E
forno é o que eu menos preciso, no momento. Parece que ela ficou um pouco
aborrecida. Estava tão entusiasmada. Mas, na verdade, a esta altura do caminho
o que eu menos preciso é de um forno. E ainda com micro ondas? Ora, o que eu
quero mesmo e até, talvez, me arriscasse nessa de consórcio, é um fogão! Um
lindo fogão de ferro, esmaltado, com forno e tudo. Um fogão que seria
alimentado por achas douradas e perfumadas de eucalipto incandescente.
Microondas, que droga! Micro eu
desejo as saias, os bios, as ambições, as vaidades, os ódios, as guerras.
Agora, desejo que sejam macros os fornos, as fogueiras, os churrascos, as paixões,
os encontros, as amizades, o perdão.
15
de setembro/1988
Minha
classe, minha pobre classe profissional ensaia um retorno à greve. No íntimo
quero explodir: Não! Greve, outra vez, não! Digo e repito aos que perguntam:
“... eu, não! Não entrarei nessa greve. Desta vez não.” Decidi que não
vou me prejudicar para favorecer aqueles que ficam em cima do muro. Os “coluna
do meio”. Nem aqui, nem lá, muito pelo contrário. É engraçado que a direção
das escolas começa incentivando e depois pula fora. Todas fazem isso. Parece
que a memória do governo militar, que valorizava os órgãos fiscalizadores,
permanece em nossos dias. Assim, depois de uma dolorosa greve de professores,
descontos em seus “hollerits” , reuniões
cansativas, desentendimentos e inimizades, os grande salários só chegam nas
delegacias e diretorias para aqueles que ficaram em suas confortáveis salas “à
prova de som”, e nunca chega onde devia chegar: às salas de aula.
Não
serei mais bucha de canhão. Além disso tudo, não vou repor aulas nas férias.
Eu as quero vazias, inúteis, preguiçosas.
Há
no magistério coisas revoltantes. Uma professora que, como eu, fez um excelente
“curso Normal”, daqueles que preparava mesmo um professor, perde hoje para
jovens mestres, semi analfabetos, que compraram seus diplomas em faculdades de
fim de semana. E grande mérito terão se foram lá nos fins de semana. Conheço
alguns que estiveram duas vezes em suas faculdades. Uma para fazer a matrícula
e outra para a formatura. Claro que entre uma e outra data houve um intervalo de
três ou quatro anos, mensalmente pagos em nada suaves prestações. Hoje ganham
muito mais e ocupam cargos menos penosos. É uma vergonha! Uma dessas, com dois
diplomas universitários estava corrigindo trabalhos escritos de seus alunos e
veio perguntar se pudesse era assim: pude - se. Quero
morrer!
Ah!
terra nossa, pátria amada, pautada pela injustiça! Será que a verdade é
mesmo coisa tão rara que ninguém mais a encontra? Parece que nem procuram...
08
de dezembro de 1988
Está
acabando o ano letivo. Entrego oficialmente para cada mãe o seu filhinho
mudado, crescido, gente grande!
Meus
pobres pequenos... sim, vocês agora
sabem ler e escrever, mas será isso tão importante? O que vocês escreverão?
O que irão ler? Temo que a herança que lhes deixo seja bem medíocre e frágil
e que, mesmo os fortes alicerces poderão não conquistar sobre si as belezas,
os luxos, as delícias de uma arquitetura compensadora.
Entrego-os
e choro. Adeus meus queridos pequenos que enfeitaram este meu 1988. Por estas
perdas o governo devia nos indenizar!...
Mas,
amanhã, dia 9, vou reunir-me com meus “cúmplices”, colegas de um
maravilhoso e revolucionário curso que acabamos de fazer na D.E. Tema: Educação
Sexual. Quantas certezas eu vi confirmadas. Melhor que isso: aceitas e acatadas
por seres humanos tão “quadrados”.
Iremos
nos reunir na casa de um dos participantes. Um cara bacana que esteve fora do
Brasil por causa da perseguição político-militar e fez Sociologia na Sourbone, França. Voltou há pouco, com
sotaque, roupas estranhas e idéias pós-modernas. Um tes...
ouro!
04
de maio de 1989.
Foi
há 18 anos. A fome que tínhamos um do outro era tanta que perdíamos peso
corporal. Você dizia: “se te vejo na escola, pela manhã e à tarde aqui na
cidade, tudo bem. Já consigo ir para casa.” Mas cada vez precisávamos mais
da presença do outro. Estava deixando de ser alimento e ia-se transformando em
oxigênio. E era o bastante nos vermos. Era só o que queríamos. Separados,
deixávamos de ser. Então eu decidi ir passar dois dias na casa de uma velha
amiga em São Paulo e, claro, você
daria um jeito de ir àquela cidade. Cheguei à tarde no apartamento da minha
amiga . Fui dormir depois de por em
dia os assuntos com a amiga e pela manhã ela foi trabalhar. Fiquei sozinha, ou
melhor, com a empregada, a Maria. Às 10 horas toca o interfone avisando que você
me procurava. Desci trêmula e ansiosa e lá estava você. Perguntou se eu
queria sair, ir a um cinema, talvez. Eu não queria nada. Como escrevi naquele
poema:” não sei o que falar... o que fazer das mãos.../olho em teus olhos e
fico pasmada.../e quero continuar, por toda eternidade/apenas te olhando, apenas
sendo olhada...(quem ia querer ver filme?)
Levei-o
para cima. Sentamos no sofá e havia tanta ânsia de olhar, de falar, que ali
permanecemos, ouvindo a empregada no tanque, na cozinha, entrando e saindo, mas
completamente alheios a tudo até às sete horas da noite, quando minha amiga
chegou.
Uma
vez você saiu daquele sofá para ir ao banheiro. Eu, nenhuma vez. Na hora do
almoço a Maria nos convidou a ir à
cozinha , pois ela havia preparado
uma refeição ligeira. Não me lembro o que comi e garanto que você também não.
Se nos tivessem servido pedregulhos ao molho de areia teríamos comido com o
maior prazer. Pobre Maria! quanto deve ter se esmerado! De tempos em tempos ela
trazia um cafezinho novo, que tomávamos sem perceber e fumamos alguns cigarros.
Só no final do dia você notou o belo aparelho de som e lamentou que não
tivemos tempo de ouvir música!
Acredite quem quiser mas foram apenas dois ou três ternos beijinhos e mãos nas
mãos, olhos nos olhos, o tempo todo.
Você
partiu logo que minha amiga chegou e despediu-se devorando-me com os olhos e
beijando fraternalmente meus lábios .
Difícil
crer nessa história? Eu mesma não acreditaria se alguém me contasse. Foram
nove horas que duraram uns noventa minutos. Que coisa mágica é o amor! Quando,
“para o bem geral da nação” decidimos nos separar, morremos um
bocado, para não dizer tudo. Durante anos chorei sem parar. Você, eu não
sei, mas parece que se enterrou
semivivo, semimorto. Ah! meu amor, e eu o eternizei em minhas poesias: “você
que foi meu lema/ que foi o tema/ único e principal/você é meu emblema/ e
eterno viverá/em meu poema”.
Quando
meu rio de lágrimas secou, saí pelas ruas à procura da parte amputada de mim
e só achei desilusões, decepção, promiscuidade.
Hoje
ainda dói um pouco, mas já me acostumei com a dor e trato dela muito bem. Quem
sabe, amor, no céu...
11
de maio/1989
Volto
ao antigo ninho. Quanto trabalho. Estou quebrada mas a casa está ficando linda.
Que bom. Porém minha casa interior, a sede dos sentimentos está bem bagunçada.
Algo me diz que eu não devia voltar. A chácara é linda! Eu amo esse lugar.
Aqui, cada árvore, cada flor, cada metro2 de grama eu plantei, com
minhas próprias mãos. Construí uma avenida de pinheiros. Uma estrada que leva
a lugar nenhum. É como a minha vida. Gosto muito da parte externa , mas a casa
é muito antiga, parece guardar experiências dolorosas de antigos moradores (e
até dos modernos). Prefiro o lado de fora, os jardins, a horta, o pomar, tudo
filho meu. Filhos que correspondem generosamente aos cuidados recebidos. Filhos
gratos. Porém, precisarei de um empregado para manter tudo limpo e bonito e
somente a promessa do genro em pagar um homem que fará a horta e cuidará dos
jardins, convenceu-me a voltar. O genro terá um almoxarifado no salão e dará
emprego ao meu filho. Esperemos que dê tudo certo.
12
de setembro/1989
Mais
um aniversário. Nenhum motivo de comemoração. Meu filho e seu primo iniciaram
um criação de coelhos. Seu trabalho com o genro durou pouco. Está, este ano,
prestando o serviço militar e quando pode, dorme até em pé. Então os
coelhinhos ficam meio sob os cuidados do jardineiro. No fim, quem tem que cuidar
sou eu. Penso que é melhor que tal empreendimento acabe logo, pois não consigo
entender que esses bichinhos tão queridos tenham seu valor determinado por
kg/peso, ou pela cor de suas peles. Um deles, uma coelhinha cinza, que eu
separei porque andava adoentada, já mudou seu domicílio para debaixo da minha
cama.
15
de outubro de 1992.
Novamente
esse diário perdeu-se. Durante três anos nem me lembrei de sua existência. Ou
será que fui eu que andei perdida? É verdade. Agora, relendo-o parece que
estive dormindo todos esses anos. Certo é que eu mal saía da cama. Hoje, ao
reler este diário onde condensei um pequeno espaço de tempo da minha vida,
lamento ter parado de escrever. Pelo menos eu saberia onde foram parar, o que
foi feito, destes três últimos anos.
Foi
no final de 89 que a filha e a neta que comigo moravam, mudaram-se para Campinas
e no início de 90 foi a vez do meu filho partir. Foi morar com a irmã, estudar
e trabalhar em um Banco.
1990...
e eu completamente só. Eu, a solidão e 2.800 metros2 de mato. Dois
períodos de aula. Um de manhã, outro à tarde. As lembranças desse tempo me vêem
mais pela lógica que lembranças mesmo. Alguns traços de recordação aparecem
envoltos em brumas e vazios. Tudo muito nebuloso.
Numa
tarde terrível de um dia triste, quis ir embora também. O caminho, a saída
seria a mesma que me mantinha naquele lugar—a bebida. Enchi as mãos com
comprimidos e cápsulas. Todos os remédios que encontrei, principalmente os
daquelas caixas com sinistras listras negras. ”Não ingerir bebida alcoólica
durante o tratamento”. Ingeri. Tudo que pude e... apaguei. Às duas horas da
madrugada despertei no chão de ladrilhos do corredor: “... então... não
morri? Estou viva... e agora?” Arrastei-me para a cama e dormi pesadamente.
Dois
dias depois uma pancreatite aguda levou-me a hospitais. Alvoroço na família.
Mamãe vai morrer. Mas mamãe não morreu, a vida tem que continuar e continua.
Começa
aí outra fase de minha vida. Sem bebida, sem saúde, sem alegria. Voltei às
aulas nesse ano e também no seguinte. Dar aulas, era tudo o que eu fazia. Todas
as horas passadas fora da escola eu as passava dormindo. Comecei a desconfiar da
gravidade do meu estado de saúde mental
quando, ao andar pelo pátio da escola, no meio das crianças e funcionários,
ficava imaginando que bom seria se aquele quartinho, tipo almoxarifado, tivesse uma cama e ali eu pudesse morar.
Era ali o meu lugar ideal. Único espaço satisfatório para dar
prosseguimento à vida. Afastei-me de todos os amigos, de toda ou
qualquer atividade social. Encerrei-me. Enterrei-me. Verdade que algumas
tentativas de soerguer-me eu fiz, mas lá vinha uma paulada e eu novamente
afundava naquele vazio infinito.
No
início de 92 comecei a trabalhar com uma classe em jornada única onde se
reuniram crianças repetentes, semi-retardadas
e é claro, apáticas, indiferentes. Novamente recomeçava aquele
trabalho de resgate: “ necessário resgatar a individualidade de cada um deles
e despertar em suas almas a fé, o amor, a vontade de ser melhor, cada vez
melhor. Despertar as mentes desacordadas, forçá-los a descobrir o seu valor
como ser único na espécie e incentivar o amor-próprio.
Levá-los a conhecer o amor de Deus e fazer com que se sintam amados”.
Estes princípios sempre nortearam o meu trabalho e graças a eles colhi
preciosas searas.
Nunca,
em toda minha vida, tão cheia de experiências escolares eu me identifiquei
tanto com o grupo todo e ele , comigo. Houve entre nós mais que uma relação
de interação. Aconteceu um encontro mágico. Em
menos de dois meses descobriram que eram capazes de ler e escrever. Um
verdadeiro milagre e eu senti que estava me envolvendo emocionalmente demais com
eles. Perdê-los, logo mais, era inconcebível para o meu coração onde mais
perdas não caberiam. Caí em depressão. Afastei-me da escola em sucessivas
licenças de saúde. Não queria mais ter participação neste mundo. Nem era o
fato de querer ou não querer. Era o meu corpo,
o meu organismo que reagia com labirintites, taquicardias, vertigens, se
o forçavam a sair de casa e muitas vezes, da cama. Perdi completamente o
autocontrole e todas aquelas teorias de poder mental foram pelo ralo. Parece -
me agora, que a síndrome do pânico estava diretamente ligada a perdas. Não de
coisas ou dinheiro, mas de pessoas e animais. Dos seres nos quais investi tanto
amor: alunos, filhos, marido, amante, amigos, cães, gatos, coelhinhos. Não me
refiro à perda de meu pai porque
esse eu perdi apenas para a morte, em tempo e hora apropriados. Quando perdemos
um ente querido por morte natural sofremos menos porque temos a certeza de que
estava além da sua vontade a escolha entre ir ou ficar. Não fomos abandonados,
nem abandonamos
Mas
a ferida da perda estava sempre aberta e a dor de revolver a carne viva era
insuportável, inimaginável. Tinha que manter-me longe de todos para
resguardar-me.
Esses
anos de isolamento criaram uma casca sobre a chaga e aos poucos vi que podia me
expor. Espero uma readaptação dentro da escola, onde trabalharei com papéis,
com gente grande e, se nem assim
conseguir, deverei me aposentar.
Por
agora, tudo bem. Por sorte mudei-me da chácara, no auge da minha doença, com a
ajuda divina e a preciosa colaboração do meu filho que acabou por não ficar
muito tempo em Campinas. Ele e alguns amigos dele deram a força necessária e
agora estou morando em um sobradinho novo e bonito na parte mais alta da cidade.
Da janela do meu quarto, regalo-me com um horizonte de quase 360 o. Só
não o vejo onde, em minhas costas, a própria casa impede a visão. Há
momentos de completa felicidade como eu não supunha nunca mais sentir. Porém,
encontro-me enclausurada por minha própria vontade. Sem cão nem gatos. Os
gatos , deixei-os sob a piedosa guarda dos inquilinos, na chácara, pois lá é
o lar deles. O Dog morreu em maio. Eu havia pedido como presente do dia das mães
uma viagem de avião para Vitória. Precisava ir ver minha mãe e sabia que não
agüentaria uma viagem de ônibus. A filha rica(que não gosta da mãe) dividiu
com a mais velha (não tão rica porém mais abnegada), as despesas e lá fui eu
beijar a encanecida e suave face da mamãe que mora com uma das minhas irmãs.
Foi ótimo e necessário. Ela está tão velhinha! Teve assim um sabor de
despedida. Não sei se voltaremos a nos ver neste planeta.
Quando
voltei, a triste notícia – o Dog morreu. Meu filho disse que ele ficou muito
triste com a minha partida. Levou-o ao veterinário, mas só fez piorar. Em dois
dias estava morto. Mas não foi de tristeza. Foi de raiva. Verdade! Hidrofobia.
Felizmente um médico piedoso abreviou seu sofrimento, sacrificando-o com uma
injeção letal, impedindo que sofresse demais. Quem sofreu mesmo foi o filho,
que tem pavor de injeção e teve que tomar aquelas inúmeras doses.
Eu
e meu filho vivemos nos amparando mutuamente. Ele é um ser humano muito
especial. Tem muita coisa boa em si. Os defeitos são pequenos e
insignificantes. Gosto da sua namorada que está sempre aqui.
Resumindo, num rescaldo final posso dizer que, apesar de tudo, ainda sobrou muita coisa boa. Dos cinco filhos restaram três, que merecem esse nome. Dos seis netos, apenas dois e um terceiro, que chegará em novembro e são filhos da segunda filha
A
filha mais velha é motivo de orgulho para qualquer mãe e sua filha é linda e
doce.
Do
ex-marido sobrou paz e boa vontade, finalmente!
Duro
mesmo é aceitar que aquelas crianças nascidas do meu corpo, cresceram, tiveram
suas crianças, formaram suas famílias e que apenas a afinidade pode ligar os
laços do amor. “Não se ama por obrigação!”
Mas aquelas que esqueceram o dever filial não merecem o sofrimento materno. Porém,... por mais que eu fale...
As anotações de Alice param aí.
Será que você, como eu, ficou sem entender certas coisinhas? Afinal, ela me
havia prevenido para essa inconveniência, visto que ela escrevia para si mesma
e como ela sabia de tudo... Em todo caso, se você quiser, muito mesmo, maiores
esclarecimentos, pergunte à Alice.