O Duplo

 

Maristel Dias dos Santos

 

 

 

Posso ver, como viu Raul Seixas,  

O bem e o mal de braços dados.                                 

Posso ouvir do bem as queixas

Do mal posso ouvir os brados.

 

 

O homem bom e o homem mau

Passaram por aqui, ao léu.

O bom trouxe da vida o sal

O outro nos  entregou o fel

Chegam juntos o ódio e o amor

Extremos lídimos da mesma reta

De um lado a beleza da flor

Do outro lado a dureza da seta

De mãos dadas, vingança e perdão.

Enquanto um puxa, outro segura.

Eterna e insólita competição

Que faz de uma vida a amargura.

Lado a lado o erro e o acerto.

O que é certo, o que é errado?

Depende sempre do douto concerto,

Pois se um desafinar destrói o fado.

Intrínsecos o medo e a coragem

Um do outro eterno dependente

Se do medo olhares a paisagem

Verás a coragem lá, corpo- presente.

Sempre perto a alegria e a tristeza

Se estamos felizes nos entristecemos

Com medo de fortuita incerteza

Que sempre paira quando anoitecemos

Como irmãos são lágrima e riso

Aquele que muito  ri  acaba chorando

Quem apenas chora perde o juízo

E acaba, sem motivos, gargalhando.

 Inseparáveis siameses o sim e o não                                                 

Quanta vez o não é um sim disfarçado?

E o sim, quanto é mais que um não

Forçado, indesejado,  amargurado?

Tudo porque o ser humano convida

A ser e a ter e essa  é a sua sorte,

Pois vive no anseio pela vida

E, ávido, corre em busca da morte.

Essa dualidade constante e impiedosa

Prova o  porquê da vida  ser tão alarmante.

É desafio mortal, é farsa indecorosa,            

E ao mesmo tempo... aventura fascinante!