Peixes e Pássaros

  Maristel Dias dos Santos

 

                  

 

 

 

 

 

 

            

                

           

 

 

                Vinícius nasceu numa cidade do interior de um estado nordestino, no seio de uma família da classe média. Mãe professora, pai pastor de uma igreja evangélica e pequeno agricultor. Filho caçula,  tivera boa orientação moral e intelectual e era considerado o pequeno gênio da cidade. Aos cinco anos lia e escrevia autodidaticamente levado, talvez, pela curiosidade de folhear livros e jornais que se espalhavam por toda a casa e nas mãos dos pais e irmãos. Era só questionar e sempre havia alguém por perto para esclarecer suas dúvidas. Se perguntassem o que seria quando crescesse respondia que seria médico. Tinha chances. Todos acreditavam nisso.

                   Quando chegou o momento de prestar um exame vestibular inscreveu-se nas melhores faculdades de medicina de todo o país. Passou em todas. Estudara com afinco. Sabia que precisava conseguir uma vaga numa escola pública, pois de outro modo não seria possível ser mantido pelos pais. Aí, era só escolher a que julgasse melhor. Desejara sempre conhecer os estados do sul, o que o fez decidir-se por renomada  faculdade em uma importante cidade do interior do Estado de São Paulo. Era apenas um garoto de dezessete anos e o pai acompanhou-o nessa primeira viagem de reconhecimento. Devia arrumar um lugar onde pudesse morar. Foi fácil. Quando fazia a matrícula conheceu rapazes que, como ele, vinham de outras cidades e haviam alugado uma casa grande que se transformaria  numa república de estudantes. Estava dentro das possibilidades e o pai partiu, deixando o filho instalado e com as devidas recomendações e conselhos paternos.

                   Vinícius temia encontrar aquele famoso preconceito tão propalado em sua terra em relação  à  sua origem  nordestina.    Ficou agradavelmente surpreendido ao verificar quão bem estava sendo recebido por colegas e de modo geral, por todos. Tal  fato  podia ser conseqüência de seu tipo físico, mistura antiga da gente de pele  morena  e dos holandeses olhos azuis. Era um moço bonito e educado. Foi muito bem recebido. Seus amigos da república eram todos paulistas, vindos de diferentes cidades e em poucos meses houve perfeito entrosamento  nas tarefas divididas, amizade sincera e recíproca consideração. Ia tudo às mil maravilhas. Moravam em cinco e todos eles eram calouros de medicina. Podiam partilhar livros e se ajudarem mutuamente. Vinicius tinha fortes alicerces culturais e gostava quando aparecia oportunidade de colaboração nos estudos árduos que começavam a enfrentar.         Os amigos, em brincadeiras, chamavam-no mestre e o apelido pegou. Com humildade e gratidão o rapaz  recebia elogios. Tivera sorte de ter tido ótimos pais e irmãos. O que graciosamente recebera distribuía com alegria e boa vontade.

                   Os rapazes, todas as manhãs, tomavam um ônibus na esquina de casa para dirigir-se ao Campus Universitário  e todos os dias viam naquele ponto de ônibus uma jovem  vestida com simplicidade e de rara beleza. Chamava a atenção de todos, mas era no rosto de Vinícius que seus olhos paravam por breves, porém repetidos instantes. Devia ser operária de alguma indústria ou, talvez, balconista de loja. Aqueles olhos negros, sob longos cílios que pareciam lançar sombras em toda pele de marfim, passaram a assombrar as horas de insônia do moço.

                   Começou por  distrair-se em meio a uma página do livro de anatomia e seus amigos tiravam-no do devaneio com brincadeiras maliciosas e tentavam  convencê-lo de que devia abordar a moça, pois o Mestre estava visivelmente apaixonado e ficar assim, sonhando acordado,  era mau.

                   Não demorou que os rapazes, ardilosamente, conseguissem fazer com que ele se sentasse, no ônibus, ao lado da jovem. Foi ela que, abrindo um sorriso luminoso, um tantinho maroto, apresentou-se. Seu nome, Tereza. Sim, era ao trabalho que se dirigia todas as manhãs. Era arrumadeira em uma daquelas mansões para lá do Campus e morava com algumas amigas em uma república não muito longe do ponto de ônibus. Viera de uma cidadezinha do interior do Paraná tentar a vida no Estado mais rico do país e  estava feliz por ter encontrado esse emprego. O tempo foi curto demais  para tantas e recíprocas confidências. Nos dias seguintes o primeiro que entrasse no ônibus guardava lugar para o outro e assim foi por alguns  meses.

                   Naquele final de semana todos os colegas viajariam para suas respectivas cidades e Vinícius achou a oportunidade esperada de convidar Tereza para um passeio, sem ter de submeter-se aos gracejos dos colegas. Passaram o dia no Jardim Zoológico e divertiram-se às baldas. Ao retornarem Tereza manifestou o desejo de conhecer a casa onde morava o moço e para lá se dirigiram. O final do passeio, como fácil é imaginar, terminou na satisfação dos sentimentos que durante todo o dia estiveram-lhes excitando os sentidos. Amaram-se e um pouco assustada com o que se permitira fazer, Tereza fugiu deixando Vinícius ainda mais apaixonado por aquela virgem que tão francamente a ele se entregara. Também para Vinícius, em seus tenros dezessete anos, fora a primeira vez. Agora aquilo já era um namoro, embora os amigos o aconselhassem a ir devagar. Mesmo sendo uma linda moça era de pouca instrução e, em absoluto, seria a esposa certa para um famoso doutor que, com certeza, Vinícius viria a ser. Ele nem ligava  e dizia que o que importava era o presente e o fato de estar feliz.

                   A coisa foi prosseguindo assim, numa doce felicidade, mas ultimamente Tereza vinha mostrando-se um pouco estranha. Parecia preocupada, e numa certa manhã em que Vinicius a encontrou com olhos vermelhos e inchados de chorar, ouviu de seus lábios trêmulos, apavorados, a confissão de que estava grávida.  Foi um susto enorme para Vinicius. Que idiota! Como não pensara nessa possibilidade? Deixara por conta da inexperiente moça esses cuidados. Nem parecia estar numa escola de medicina! Que grande imbecil. E agora? Como explicar aos pais, que tanta confiança haviam depositado em sua capacidade de cuidar-se, se na primeira aventura caía como um patinho! Também ele ficou apavorado. Tereza podia decidir-se por um aborto e então tudo se resolveria. Era preciso dar tempo ao tempo. Mesmo um aborto espontâneo podia acontecer. Coisa comum. Calma! É preciso esperar. E, assim, nada contou aos amigos e  muito menos aos familiares. Destes esconderia, custasse o que custasse. Casamento, nem pensar!

                   Passou a evitar Tereza, embora ainda fizessem o pequeno trajeto de ônibus juntos. Os amigos notaram a frieza no relacionamento de ambos e viviam amolando Vinicius com perguntas e propostas de se tornarem um novo pretendente da bela Tereza. O moço, acuado, capitulou. Contou aos colegas o que se passava. A preocupação era agora de todos. Caramba! Como Vinícius foi permitir que tal coisa acontecesse? Enfim, haviam de tudo fazer para ajudá-lo a sair desse enrosco. Casamento, nem pensar!

                   Tereza tentou encontrar proteção na patroa,  pois já temia que Vinícius não assumisse a responsabilidade, visto que andava arredio e um pouco indiferente. O que ganhou foi uma demissão e novamente Vinícius encontrou-a no ponto de ônibus com olhos vermelhos e ar desesperado. Não, ela não ficaria desamparada. Ficasse tranqüila. Falaria com os amigos e tudo haveria de se arranjar. Ela ia ver.

                   Tereza deixou bem claro que a um aborto não se submeteria. De um modo ou de outro seu bebê nasceria. Só não queria que sua família ficasse sabendo antes que as coisas se arranjassem. Pareciam duas crianças que houvessem quebrado o vaso preferido da mamãe. Que sufoco!

                   Os colegas de Vinicius, após conversarem muito, levaram ao moço uma sugestão que poderia vir a ser a solução, pelo menos temporariamente. Era só dar um jeito naquele quartinho que só usavam para estudar e ali colocar a moça, que cuidaria dos afazeres domésticos e receberia um ordenado, o  qual, cotizando-se, eles pagariam. Vinícius achou ótimo, mas precisava consultar a moça.

                   Não era em absoluto o que Tereza desejava, mas o fato de ficar perto de Vinícius era já um consolo e aceitou, com muita humildade. Quando o bebê nascesse, quando Vinícius pegasse o filho nos braços, tudo seria diferente. Eles se casariam e seriam felizes para sempre. Era o que a pobre menina esperava. Ela compreendia que não podia ser um estorvo aos estudos do seu amado e pacientemente esperaria... esperaria, o tempo que fosse necessário.

                   Continuavam como namorados, porém, pouco a pouco, Vinicius ia-se voltando mais para os estudos e os colegas, ao passo que se ia afastando do relacionamento amoroso, embora a tratasse sempre com carinho e respeito.

                   Alguns meses mais e nasce o bebê. Era um menininho magrinho, muito chorão e não chegou a encantar o jovem pai, totalmente despreparado para assumir a paternidade. 

                    Os rapazes da república ajudavam em tudo que podiam e todos se sentiam um pouco pais daquela criança. Mais talvez que o próprio pai, que parecia ver, no pobrezinho, apenas um empecilho à realização de seus maiores sonhos.

                   Já há algum tempo Vinícius tivera sua atenção despertada por uma linda e loura colega de classe que, por sinal, também dedicava especial atenção ao rapaz. Era filha de famoso médico e professor da Faculdade no curso de cardiologia, especialidade da medicina que mais fascinava Vinícius. Um esquema perfeito que juntaria o útil ao agradável, não fosse... Ah! Como fora se meter em tal enrascada? Parecia ouvir um de seus colegas da república referir-se ao fato: __ “É... um pássaro e um peixe podem até se apaixonar, mas... onde construirão seu ninho?” Esta pergunta exprimia de modo absolutamente claro a enormidade do erro que cometera, levado pelo inconseqüente e inexperiente ardor da primeira juventude. Aos poucos, mais e mais, se apaixonava pela linda colega de classe e, cada vez mais, se desesperava dentro desse beco  sem saída  em que se metera.

                   Num desses dias, ao retornar para casa encontra a ex-namorada em prantos. Recebera uma carta dizendo que a mãe encontrava-se muito mal e que ela deveria ir vê-la o mais depressa possível. O desespero devia-se ao fato de não poder voltar  à casa da mãe com o filho ao colo, visto que isso era um acontecimento totalmente ignorado por toda a sua família. Tinha de ir só. O pequeno, que dois meses de vida ainda não havia completado, teria de ficar com o pai. Felizmente já estava sendo alimentado por uma ou outra mamadeira  que complementava a amamentação ao seio e poderia passar dois dias sem a mãe. Dia seguinte era sábado, ela partiria logo cedo e voltaria na segunda feira, sem falta. Vinícius, nem um pouco animado pelo inesperado transtorno, aceitou, como parte do dever ao qual não podia se furtar. Justamente nesse fim de semana em que  ele e alguns colegas, inclusive a sua nova amada, haviam combinado passá-lo em uma bela fazenda de propriedade do famoso médico, pai daquela que seu coração e sua razão escolhiam como futura esposa. Era a oportunidade que  vinha a calhar, pois iria conhecer os outros membros da família de sua eleita. Nem por isso seus colegas de república abririam mão do passeio e ali ficaria Vinícius, como num castigo, cuidando daquele bebê chorão que não conseguira despertar no moço o afeto paternal.

                   Aquela manhã viera com uma intensa onda de frio, e após ouvir todas as recomendações da atormentada e jovem mãe a respeito dos cuidados que deveria ter com a criança, Vinícius, verdadeiramente revoltado contra o implacável destino, tentava conformar-se e fazer o que tinha de ser feito, da melhor maneira possível. Foi um dia inacreditável! Nada sabia de trocar fraldas, preparar mamadeiras, aquecer nos braços o bebê que parecia sentir frio o tempo todo e o tempo todo chorava, levando-o ao desespero. Enfim a noite chegou e ele pensou que agora teria um pouco de paz, pois haveria de dormir a criança que o dia inteiro estivera a chorar. Nos poucos momentos em que conseguia derramar-se sobre uma cadeira e pensar, vinha-lhe à mente os amigos e a bela colega divertindo-se em cavalgadas e passeios no campo. Uma revolta surda enchia-lhe de rancores o coração. Tiveram os amigos de inventar fantasiosa desculpa para a sua ausência na tão desejada aventura. Adormeceu, enrolado em um cobertor, ali mesmo na sala, exausto pelo dia de louco que estivera a enfrentar. Já há algum tempo dormia e sem conseguir despertar de todo, parecia ouvir, como num pesadelo, um choro estridente de criança nova. Levou algum tempo até conscientizar-se da realidade dos fatos,  conseguir sair daquele modorra aquecida e colocar no chão gelado os pés descalços. O sono e o cansaço tinham sobre ele um poder invencível. Teve de arrastar-se até o quarto onde o bebê chorava desesperadamente. Acendeu a luz do pequeno cômodo e constatou que a criança, mal embrulhada em uma leve manta, havia se desembaraçado dela e tinha os bracinhos nus e o pequeno rostinho meio arroxeado pelo frio. Ficava o berço bem sob a janela por cujas frestas um ar gelado enregelava o quarto e principalmente o local onde o berço estava. Que fazer? Poderia arrastar o berço para um canto mais protegido do quarto, mas teria de mudar todos os móveis de posição. Nesse momento sentiu ódio do pequeno ser que parecia impedir qualquer sonho de paz ou felicidade para a sua vida. Odiou aquela coisinha tão insignificante, tão incipiente, que tinha o poder de causar tantos transtornos para a sua existência, há tanto tempo, tão bem preparada e planejada. Cobriu-o com mais uma manta, virou as costas e saiu do quarto, trancando a porta atrás de si. “Para mim chega! Que chore até cansar-se. Basta!” Dirigiu-se ao seu quarto, trancou-se e atirou-se à cama enrolando-se nas cobertas do leito desfeito. O choro abafado e longínquo da criança não o impediu de cair em profundo sono. Horas depois acordou. Réstias de luz penetravam pelas frestas das janelas venezianas. Já era dia. Aos poucos foi recordando da véspera e aguçou os ouvidos para verificar se o bebê havia se  aquietado. Sim. Havia um silêncio complacente na casa. Virou para o lado e bem aquecido, sob um monte de cobertores voltou a dormir. Quando acordou novamente estranhou que a criança ainda não houvesse despertado e decidiu ir vê-la. Ao aproximar-se do quarto pareceu ouvir um leve vagido. Assustou-se e precipitou-se para a porta, abrindo-a e correndo para o berço. O bebê, muito pálido, com lábios e unhas arroxeadas apenas gemia. Tomou-o nos braços, massageando  o  pequeno corpinho gelado, tentando transmitir a ele o calor de seu peito. Tudo inútil. A pobre criança não reagia. Embrulhou-a em um de seus cobertores, vestiu um casaco sobretudo  e correu para a rua à procura de um táxi que o levasse, e ao bebê, até o hospital da faculdade. Constatou-se uma forte pneumonia que apesar dos cuidados médicos, foi a causa de sua morte acontecida no dia seguinte, logo após a chegada da pobre e inconformada mãe , que Vinícius apresentou aos colegas médicos apenas como empregada dos estudantes, em sua república.

Chegou a receber elogios pelos cuidados e desvelada preocupação com o filho da empregada, que havia ficado sob seus cuidados, impedindo, até mesmo, aquele prazeroso  passeio campestre.

                   Após o féretro do pequenino, a moça a quem Vinícius um dia amara, arrumou suas coisas numa pequena mala, após desfazer-se das coisinhas do filho e partiu  para sua terra natal. O que passou pela sua cabeça e pelo seu coração ninguém jamais ficou sabendo. Sua natureza simples e pura não questionou a culpa daquele infeliz pai. Partiu com os mesmos olhos vermelhos e inchados com que entrara, num certo dia, na vida de Vinícius, para a grande desgraça de ambos. Era a “mater dolorosa”, que dali levava um coração sangrento e os braços vazios.

                   Alguns anos depois, já formado, o promissor  cirurgião casava-se, em  rica cerimônia, com a linda e loura colega de classe, filha de famoso cardiologista, dono de renomada clínica, na qual Vinícius  vinha, há tempos, desenvolvendo seu competente trabalho. Toda a sua orgulhosa família nordestina, ali presente, não conseguia entender aquela sombra de seriedade e tristeza nos olhos azuis, agora, acinzentados, do vitorioso moço.

                   Vinícius conseguira tudo que desejara para a sua vida. Uma doce e bela companheira, uma mansão luxuosa no mais nobre bairro da cidade, um nome ilustre e muita fama. Tudo perfeito. Ou... quase tudo. Nesse mar de felicidade faltava algo. Nunca sua querida esposa pudera dar-lhe um filho. A enorme casa jamais abrigaria folguedos, risos ou choro de crianças. Por que, então, raras eram as madrugadas em que Vinícius não fosse despertado pelo vagido ansioso e dolorido de um bebê recém-nascido que parecia estar sempre lhe pedindo socorro?

FIM

Voltar

Página  principal