Pensamentos
de um cão

Maristel
Dias dos Santos
O cão pensa? Claro que pensa, afinal para que teria ele um cérebro e, mais que
isso, um principio vital, uma energia cósmica como qualquer ser vivo e que, em
última análise, pode ser denominada alma, espírito, que se manifestam através
dos sentimentos e emoções que tão claramente os cães demonstram possuir?
Então,
tentemos pensar como um cão pensa.
O cão não se alimenta em uma mesa bem posta usando garfo e faca
seguindo os princípios das boas maneiras. Não. O cão come no chão. Alguns
privilegiados têm um prato próprio em geral cheio de ração de boa qualidade.
Outros se alimentam dos restos jogados no chão e ficam muito felizes lambendo a
terra ou um piso nem sempre limpos. Depois temos os cães de rua, sem dono, que
vivem à caça diária, numa luta constante por qualquer coisa digerível em
terrenos baldios, uns ossos esquecidos por um colega ou restos de animais mortos
e ali atirados.
Mas quando um cão descobre em alguma esquina uma porção de sacos de
lixo largados no chão, o que pode ele pensar? Ele pensa e demonstra ao correr
para o vislumbrado banquete.
__Olha
só que maravilha! Pacotes e pacotes esquecidos ali na esquina. Nossa! Quanta
coisa boa deve haver nesses sacos plásticos de supermercado cheios de ossos e
migalhas de pão, talvez até mesmo uma boa quantidade de comida rejeitada nas
cozinhas da vizinhança rica. Se estão tão bem amarradinhos é que coisas
preciosas deve haver ali dentro. Mas, puxa vida, meus pequenos dedos são
insuficientes para tentar desamarrá-los Terei de usar patas e dentes para
descobrir o que está ali a me esperar para matar esta fome que está me
matando.
É nesse exato momento de expectativa feliz que aparece a maldita bruxa
da esquina e atira sobre o cão não um pedaço de pão velho, não um pequeno
osso ou um punhado de ração, mas sim uma pesada barra de ferro.
__
Epa! Mais uma vez escapei... Desta vez foi por um triz. Mas se não posso me
alimentar dos quitutes guardados naquelas embalagens plásticas, tão bonitas,
por que as colocam no chão? Melhor que as deixassem dentro daqueles suportes
que uma outra vizinha tem defronte a sua casa. E esta, que me afasta das sacolas
recheadas, que me nega a possibilidade de uma refeição no chão, muitas vezes
coloca na calçada uma vasilha descartável cheia de boa e saborosa ração e até
mesmo um prato com água. Por que
justamente a outra que empilha maravilhosos sacos coloridos na esquina não me
permite acesso a eles e tenta assassinar-me com aquela terrível barra de ferro?
Isso me cheira à armadilha. O que ela quer mesmo é me acertar e ferir. Por
que? Eu nunca lhe fiz nenhum mal.
Deve
ser porque sou pouco cuidadoso e na pressa que a minha fome exige, rasgo
afoitamente o saco plástico e fico a fuçar entre coisas mal cheirosas na
esperança de um naco de pão, um osso, uns grãos de comida... hummmm, meio
azeda, mas... Estômago de vira-latas é geneticamente preparado para coisas
assim, mas cuidado ... olha, cacos de vidro não. Garrafas quebradas...mas que
perigo, ai, o meu focinho! E
agora... Pernas para que existem? E quase caindo desmaiado de fraqueza provocada
pela fome, ainda assim acho forças para escafeder-me do pedaço, pois minha
vida vale mais que comida e um dia, quem sabe, quem sabe um dia, eu ainda
encontre um lar, um amigo gente que cuide de minhas mazelas, sarna, pulgas,
carrapatos, magreza feiosa, pêlos amarfanhados e possa me amar do mesmo jeito
que eu o amarei..... Quem Sabe?
No
final das contas ainda dou graças por viver em liberdade e poder tentar
sobreviver, pois sei de amigos meus encerrados em quintais e que passam fome,
sede, solidão, dores, sofrimentos sem fim, acorrentados, prisioneiros da
maldade humana. Prender para deixar morrer é ainda pior que a barra de ferro
atirada em mim pela velha e nervosa bruxa da esquina. Fico pensando no que ela
fará no dia que me acertar e me vir caído ao chão, sangrando e implorando
ajuda...
Que
Deus a perdoe...