Pequena
flor cor-de-rosa.
Parte I

Maristel Dias dos Santos
__ “Lá vem o negão, cheio de paixão... te catá, te catá...
te.........” E
a jovem recepcionista que, distraída, examinava e separava fichas, foi
lentamente erguendo os olhos
dos sapatos lustrosos, calças de linho, camisa de seda e pararam,
arregalados, sob o bigode negro e bem cuidado, na dentição perfeita que se lhe
exibia, num
grande sorriso, aquele magnífico espécime da raça africana e que parecia
divertir-se a mil com a confusão da moça.
__ O doutor está?
__ Não! Isto é, está em consulta. Não pode atender. O senhor tem hora
marcada?
__Não,
não. É apenas uma visita. Somos velhos amigos ( entre os dedos um cartão de
visitas) pode, por favor, entregar-lhe? Vou esperar.
E foi sentar-se, mantendo ainda o ar divertido na fisionomia franca.
Apanhou uma revista para servir de trincheira e poder observar a moça. Que
linda! Não devia ter mais de 18 anos. Estava, agora, corada pelo inusitado da
recepção. Parecia uma flor, fresca e cor - de - rosa.
Nesse momento soou uma campainha e ela levantou-se estabanadamente,
esbarrando o cotovelo no “solitário”, o longo vaso de cristal que só uma
rosa abrigava e reforçava o ambiente delicado do recinto. A jovem apanhou-o no
ar e recolou-o, com passos de dança, virando-se para sair apressadamente
da sala de espera. O vestido retorcendo-se em torno do corpo, marcava, ainda
mais, o arredondado das formas perfeitas. O homem, encantado, esforçava-se para
conter o riso. “ Que visão!”
Ficou sozinho e podia então olhar a decoração “chique” daquela
sala, avaliando através da qualidade dos móveis, tapetes e cortinas, o sucesso
de seu colega dos bancos universitários, de 25 anos atrás. Foram amigos de
verdade durante aqueles anos escolares, mas formados, separaram-se e nunca mais
se viram. Foi por acaso que vindo para essa cidade interiorana
com a família, convidado pelo hospital local, viu o nome do amigo no rol
de plantões e decidira procurá-lo. Lembrava-se do jovem
estudante de medicina e tentava imaginar sua aparência agora, décadas
passadas. Teria se casado? Teria, como ele próprio, uma grande e dispendiosa
família? Bem, logo todas as dúvidas seriam sanadas.
Abre-se uma porta e um senhor calvo, de meia idade, um pouco gordo,
surge. Mão sobre o ombro de uma mulher bem vestida, chorosa, lenço de cambraia
tocando o nariz. Ele a encoraja e consola: ela sorri, despede-se e sai. Por
sobre o seu ombro o doutor já havia lançado um olhar e piscado um olho, o que
indicava que
o havia reconhecido.
__Kalunga! Não é possível!
Os dois homens se abraçam.
__Se você me chama pelo apelido é que...
__É que você não mudou nada. É o mesmo garotão, rei da Guiné.
Muito riso, muita pressa de falar, muito tempo passado. Tanta coisa para
contar!...
Nesse
instante a jovem recepcionista entra e tímida, se coloca atrás da mesa. João
Paulo nota que o amigo fita a moça e lhe estende o braço.
__É
minha filha caçula. Venha, querida, conhecer o melhor amigo que papai teve nos
bons tempos.
A
jovem aproxima-se cabisbaixa, ainda confusa e envergonhada. Estende-lhe a mãozinha.
__Sou
Gregório. Não ouça esse “Kalunga” de seu pai. Kalunga morreu há muitos,
muitos anos.
__Eu
sou Marilene, muito prazer. As mãos de ambos se tocaram e pararam como se não
quisessem se separar.
Foi um gesto
impetuoso do pai que os afastou, enquanto pedia a filha que pegasse o seu carro
e fosse sozinha para casa, pois ele iria com Kalunga a algum lugar onde pudessem
beber algo para comemorar o feliz reencontro e pôr em dia os longos anos de
separação. Entregou-lhe as chaves do carro recomendando fosse devagar e
avisasse a mamãe que, esta noite,
não tinha hora para voltar. “Afinal, amanhã é sábado!”
Muita
bebida, muita conversa, muita confidência e, horas depois, Gregório leva o
amigo para casa... Uma belíssima mansão nos arredores da cidade, cercada por
jardins, piscinas e árvores frondosas. Separaram-se, não sem antes combinarem
um churrasco, ali na chácara, para reunir as duas famílias.
Gregório partiu,
pensando que afinal o mundo não mudara muito nestes últimos 25 anos. João
Paulo nunca fora aquele aluno
excelente. Muito pelo contrário. Sempre precisara da ajuda de Kalunga. No
entanto o “branco” havia conseguido o que ele, o mais esforçado,
o mais estudioso, o melhor, não havia. E dizem não haver preconceito de
cor!... Claro que havia. Sempre houve e parece que sempre haverá. Para Kalunga
a vida tinha sido menos generosa no sentido financeiro.
Tinha uma família maravilhosa. Cinco filhos, uma boa esposa, linda mestiça
de cabelos negros, levemente encaracolados, pele cor de mel. Os próprios filhos
já podiam passar por brancos, neste país onde a cor morena impera. Ele, no
entanto, parecia ter chegado ontem das terras africanas. Tinha, porém traços
delicados, nariz afilado e lábios finos. Só a cor da pele... inclementemente,
completamente negra. A cor da sua pele era sempre mais evidente que a sua
capacidade profissional e por isso tivera uma
vida de lutas constantes para provar que era bom. Os filhos teriam melhores
chances. O mais velho, André, ainda este ano se formaria médico e haveria de
ter caminhos mais suaves. Tão jovem... 23 anos... Médico! Agora viria a
especialização, residência e a dura competição para ser o melhor. Depois
dele vinha Fausto, vinte anos e ainda no colegial. Boa vida, não gostava de
estudar e muitas preocupações trazia ao pai e à mãe. Raquel, com 19 anos já
se preparava para o vestibular. Pensou em Marilene, a pequena flor cor - de -
rosa e acreditou terem ambas a mesma idade. Talvez viessem a ser amigas. Na
verdade, a família devia ter parado por aí mas, dois temporões vieram
trazidos por verões tórridos em cidades do Norte: Paula, nove anos e Patrícia,
sete aninhos. Uma grande família! Em número e qualidade. Afinal, sentia-se
realizado. Conseguira chegar a um patamar onde, poucos como ele logravam alcançar.
Domingo
de manhã; o velho automóvel tem de acomodar toda a família. Os três moços
atrás e no banco da frente as duas meninas, disputando o colo da mãe. Clarice.
A querida Clarice, tão meiga e delicada, sempre sorrindo e harmonizando os
entreveros. Querida Clarice. Gregório a amava. Sim, amava-a e não conseguia
entender porque a imagem daquela garota não lhe saía da cabeça. Aquela
encantadora flor cor-de-rosa. Via o vestido retorcido marcando o corpo roliço,
os seios empinados, as nádegas redondas, as longas e perfeitas pernas. Sua
mente fotografara aquela imagem fixando-a em sua retina. Linda, linda Marilene!
Não era parecida com o pai. Com certeza a mãe devia ser também muito linda.
Senti-se ansioso, queria chegar logo e no carro todos falavam ao mesmo tempo.
Que algazarra! Mas, graças a ela, Gregório podia seguir, perdido em seus
devaneios. João Paulo tinha também uma família numerosa. Marilene era a
segunda filha. A primeira, com 23 anos, estava casada e morava em Brasília,
onde o marido exercia a função de
procurador do Estado. Depois de Marilene, dois rapazes de 16 e 18 anos. Marilene
devia, então, ter já vinte anos. Parecia tão menina! Aquele ar inseguro,
aquele olhar medroso... Parecia uma gatinha assustada. “Pára,
pára, seu velho negro e tolo. O que está acontecendo?!!!”
Enfim,
chegaram! Risadas, cumprimentos, apresentações, confusão total.
Clarice
e Maria José pareciam se entender às mil maravilhas. Perfeitas mães e donas
de casa tinham assunto para o resto
da vida. Em poucos minutos as crianças se entrosaram e
logo corriam pelo gramado ou tocavam discos que, aos berros, traziam
as vozes
dos cantores
da moda. João Paulo e Gregório
cuidavam da churrasqueira e esvaziavam intermináveis garrafas de cerveja. Foi
um dia memorável e outros, como esse, sucederam-se.
Por
que Marilene, que corria e rolava no gramado com os outros, ao topar com Gregório
ficava muda e até parecia empalidecer um pouco? Seria ainda algum resquício do
incidente inicial? E quanto mais a menina se fechava, mais o sorriso divertido e
encantado aparecia na face de Gregório.
Quanto mais ela demonstrava timidez, mais encantadora ficava aos olhos dele.
Não
demorou muito para que o fato ficasse evidente e João Paulo dizia que o que a
filha sentia, era medo da cara feia desse Kalunga, rei da Guiné. Todos achavam
graça, mas Gregório sabia __ o caso era bem mais sério. O recato revelado por
Marilene sob o seu olhar, podia mesmo ser medo mas, com certeza, era medo
daquela sensação estranha, daquela atração, daquele arrepio percorrendo-lhe
o corpo e acendendo brasas em seus
órgãos mais íntimos. Nem parecia a mesma menina que brincava com os pequenos
na piscina, chutava bola ou caminhava de mãos dadas com André, sob as árvores
do jardim.
Foi
contraditória a reação dos pais ao notarem o namoro entre Marilene e André.
Gregório e Clarice regozijaram-se. João Paulo e Maria José
demonstraram algum desagrado. Claro, pensou Gregório. Nesse ponto a
maravilhosa amizade dava lugar ao preconceito infame. Afinal, embora fosse André
um belo rapaz, moreno como milhões de brasileiros, seu pai era negro e a linda
e loura filhinha poderia vir a gerar filhos mulatos. Isso os assustava. Tentaram
impedir. As famílias separaram-se um pouco, mesmo porque aquela atitude magoava
Gregório e Clarice que tanto bem queriam a Marilene. Ficou estremecida a sólida
amizade, porém os jovens continuavam se vendo amiúde.
As
velhas discriminações feriam fundo o já marcado coração do homem da raça
negra. Desejou ir embora, mudar-se dali, mas ia ficando como se algo mais forte
que ele o prendesse nesse pedaço de solo, onde uma linda flor cor-de-rosa vicejava.
Alguns
meses se passaram e um dia João Paulo procurou-o. Veio dizer que Marilene havia
falado da sua resolução em casar-se com André. Nada a impediria. Pretendiam
ir viver em outro país e iriam, mesmo sem o consentimento dos pais. Talvez
Estados Unidos, onde pretendiam trabalhar e prosseguir os estudos.
Disse
que conversara longamente com a esposa e resolveram realizar o casamento pois já
estava deliberada a decisão e melhor seria que apoiassem em vez de ficar contra
a filha. Queria saber o que Gregório pensava a respeito e este lhe disse que o
filho era adulto, responsável e a ele, pai, só cabia aceitar a sua escolha.
Combinaram um jantar na casa de João Paulo, quando o compromisso se tornaria
oficial e as datas das bodas e da viagem seriam marcadas. Em poucas horas a
rigidez do evento deu lugar a antiga intimidade e a solidez da amizade venceu os
tolos preconceitos. Foi uma festa aquele jantar e todo mundo parecia mais feliz
que nunca.
O casamento seria dali a um mês e urgia dar início aos preparativos.
Maria José queria uma grande recepção ali, nos jardins da mansão. As duas
mulheres faziam listas, faziam planos, faziam compras. O tempo voava.
Gregório
pensava em como Marilene fora inteligente.
Mudar-se para outro país era a solução perfeita e mesmo pensando assim
sofria, desde já a sua perda. Não mais vê-la... Com certeza o sol perderia
parte da sua luz, que partiria com ela. Gregório sabia __ seus dias seriam mais
escuros e tristes. Mas assim tinha de ser. Nunca a menina conversara com ele.
Nunca. Continuava mantendo diante dele aquele jeito tímido e sério. Só Gregório
adivinhava a verdade. Ele a perturbava e aquilo era paixão. Mas ela demonstrava
tanto carinho por André, embora nunca se visse
o casal em atitude mais ardente, o que seria normal, em circunstância de
iminente união. Estavam sempre caminhando de mãos dadas ou
sentados em um dos bancos do jardim, conversando circunspectos ou ouvindo
música e trocando idéias. Pareciam mais dois bons amigos e se tal
comportamento parecia agradar a todos, no coração de Gregório punha muita
apreensão. Temia pelo sucesso do casamento. Poderiam ser felizes assim reunidos
por um sentimento tão fraterno, quase platônico? Tolice! Claro que sim! Uma
relação firmemente plantada sobre
sentimentos tão nobres tinha todas as chances de
tornar-se duradoura e feliz. Com certeza era o seu egoísmo machista que
o fazia sentir-se mais apto e, em sonhos, realizava aquele amor condenado.
Culpava-se e recriminava-se sem piedade. Chegasse logo o dia da partida e tudo
então se normalizaria. Chegasse logo!
Faltavam
dois dias para o casamento. João Paulo e Gregório trabalhavam sem parar junto
a carpinteiros e eletricistas para preparar o cenário do magnífico evento. A
piscina estava sendo coberta por um tablado de madeira, pois um conjunto musical
transformaria em baile a grande festa. As árvores iluminadas, mesas e cadeiras
esparramadas pelo gramado. As crianças cuidavam dos enfeites e as duas mães,
num tremendo azáfama, cuidavam do “bufet” e das roupas daquele pequeno exército.
Tinham que ir à
capital, fazer as últimas provas nas próprias toaletes e trazer os trajes dos
noivos. Sairiam logo após o almoço, levavam as crianças menores, que ali só
atrapalhariam os últimos preparativos. Voltariam à noite.
O jovem casal
parecia nem se dar conta do reboliço e passava as horas conversando, cuidando
dos detalhes da viagem e da vida que iriam ter em terras estrangeiras. Eram os
únicos que pareciam em perfeito juízo.
Já era noite e os dois homens derreados nas poltronas da sala, tomavam
do bom “whisky” e esperavam as esposas. Os jovens, em torno de uma grande
mesa, ultimavam os enfeites e conversavam animadamente. Toca o telefone. Era
Maria José e vem dizendo que só chegariam no dia seguinte. Algumas roupas não
haviam ficado prontas. Deu recomendações gerais e desligou.
Todo mundo muito cansado! Precisavam dormir e logo, a casa ficava escura
e silenciosa. Para facilitar as coisas, a família de Gregório se hospedava na
grande casa, nestes últimos dias.
Gregório, em pé, diante da janela, examinava a noite. Não conseguia
conciliar o sono, apesar do cansaço e dos vários “whiskys”. Como era difícil
permanecer sereno diante do imponderável. Dominar-se, havia sido, nestes últimos
dias, uma luta titânica. O desejo de tomar nos braços a pequena Marilene
tornava-se insuportável. Queria que acontecesse alguma calamidade. Um
terremoto, um vendaval, qualquer coisa que tirasse todos da cama, que o forçasse
a salvar a sua pequena flor cor-de-rosa. Que loucura! Bateu a testa, várias
vezes, levemente, contra a vidraça gelada e comprovou que a noite, lá fora,
era a mais tranqüila que jamais vira. Não, nenhuma intempérie
aconteceria. Os pensamentos tresloucados eram, efetivamente, resultado daqueles
“whiskys” que transtornavam seu juízo. Amanhã, pensava com dolorosa
ironia, amanhã abraçaria e beijaria a noiva, já então, sua nora juramentada,
esposa de André. E tudo seria diferente, é claro! Pelo menos torcia para que
assim fosse.
Virou-se ao notar que a porta do quarto estava sendo cuidadosamente
empurrada. Será que João Paulo também não conseguira dormir? E assim, em pé,
no meio do quarto, viu entrar um anjo com vestes brancas e flutuantes, cabelos
dourados, soltos, aureolados pela tênue luz do corredor. Vinha deslizando,
suave e vagarosamente para ele. O homem abriu os braços e acolheu o frágil
corpo que se aninhou em seu peito. Perdeu a respiração. Pensou que ia morrer.
Ofegantes e trêmulos se tocavam, se acariciavam entre sussurros e gemidos. Com
um fio de voz ela quis explicar o louco ato. Gregório calou-a com um beijo
ardente. Tomou-a nos braços e cuidadosamente colocou-a na cama. Ajoelhou-se e
descobriu, centímetro por centímetro aquele corpo intocado e, de beijos e carícias,
cobriu-o . Despertou a ânsia, ponto por ponto e todos os pontos saturou de
prazer. Sentiu o corpo virgem vibrar em suas mãos como cordas de um violino e
fez nascer a mulher de dentro da menina, numa posse total, delicada, quase cirúrgica
__ dor e prazer, começo e fim, vida e morte.
Mergulhado naquele êxtase único, todos os sentidos anestesiados,
ressuscitou ao sentir escorregar para fora do leito o seu objeto de felicidade.
Tentou retê-la, mas ela já deslizava silenciosamente para a porta. Seu corpo,
invólucro vazio de qualquer vontade, deixou-se vencer por um sono profundo.
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A festa foi maravilhosa e o jovem casal já havia partido. Tudo voltava
à normalidade. As duas famílias já não se reuniam com a mesma freqüência e
só se falavam para comentar as cartas e ver as fotos que chegavam do
estrangeiro. Pareciam tão felizes!
Poucos meses
depois, a notícia__ Marilene estava grávida. Mas, que loucura! Os comentários
eram unânimes. Por que tanta pressa? Mal começando a vida em terras
estranhas!... Uma loucura! Deviam esperar alguns anos para dar início a uma
prole! Todo mundo ficou preocupado. No entanto “os meninos” mostraram-se
competentes e, quando fazia exatamente nove meses de casados, nasceu Jonas. Um
ano depois, Lucas. As fotos traziam crianças saudáveis e lindas. O primeiro
tinha cabelos muito encaracolados, porém tão louros que chocavam com a pele
morena. O segundo tinha cabelos escuros e a pele muito clara. Eram lindos.
Estavam todos muito felizes a não ser por uma razão: André e Marilene não
davam mostras de
querer retornar ao Brasil. Viriam, é claro, para passear e trazer os
netinhos, para que os avós
conhecessem, mas voltariam, pois lá a vida já estava estruturada e era
bastante boa.
Gregório não
sabia se ficava triste ou feliz com o fato. Talvez fosse melhor assim.
Os anos iam
passando, as promessas da visita eram constantes, mas iam sempre adiando, de um
ano para o outro.
Os outros filhos
foram-se casando, mais netos chegando e vovôs e vovós cabelos grisalhos, óculos
e rugas, cada vez mais pareciam avós.
Um dia chegou a
noticia: estavam vindo! Viriam passar aqui o Natal. Foi um corre- -corre.
Novamente, as duas famílias reunidas na velha mansão. Eram tantos agora!
Gregório não
quis ir buscá-los no aeroporto. Esperaria ali. Tinha sofrido, há algum tempo,
um acidente vascular e precisava resguardar-se de fortes emoções. Esperava
calado, ansioso, olhar perdido à distância.
O carro chegou e
foi rodeado pelo resto da família. Abraços, beijos, frases exclamativas,
interrogações, gritos de alegria e algumas lágrimas.
Foi André que
primeiro afastou-se do grupo e dirigiu-se para o local em que Gregório estava.
“Como envelhecera o querido pai!” Abraçou-o e choraram de alegria e
saudade. Como se tivessem combinado, ficaram todos para trás e Marilene
aproximou-se seguida por dois rapazes. Tinham agora quinze e dezesseis anos.
Gregório olhava-os aproximarem-se.
“Mas,
onde estava a pequena flor cor-de-rosa? Não viera?! E aquele rapaz com cara de
anjo, cabelos dourados iluminados pelo sol poente? Quem era esse anjo?!
Marilene abraçou o velho senhor e, bem baixinho, sussurrou ao seu ouvido __ “Pai, esse anjo é seu filho...”
FIM