Poesia para todos. Eis a questão
Silvia Lisboa
Na
escrita, palavras são lançadas aos olhos dos que lêem. E, de toda palavra
dita, como saber a que penetrou o ser de quem leu? A quem tocou, a quem irritou?
O
poeta diz com as palavras coisas do fundo da alma, chega a expor seus
sentimentos, sua vida. Ele fala do mundo com palavras vestidas em roupas
especiais, enfeitadas, disfarçadas, lapidadas...
Tarefa
árdua e deliciosa essa de lapidar palavras! Essa arte não atinge a todos, pode
atingir a muitos, mas não a todos, ah! Isso não!
Simplório
seria conseguir que toda e qualquer alma vivente se encantasse com a poesia.
Um
amigo poeta com receio de expor seus textos relatou: “Acho que ninguém vai
gostar”. Em retorno disse: “Alguém vai gostar, alguém vai ser tocado.
Todos não, muitos sim.”
Não
é possível a todos sentir, se envolver, se emocionar com a escrita do poeta.
Quando
falo que é para muitos é porque o que escrevemos agrada
alguns e desagrada a outros. Esses são os tocados. Esses muitos que se
agradam ou não foram atingidos por ela.
Os
que se agradam elogiam, se emocionam sentem grande prazer em ler. Os que não
gostam criticam, colocam defeitos, se irritam. Se sentem assim porque de alguma
forma algo os fizeram sentir-se mal, algo os incomodou. Esse incomodar é nada
mais nada menos que ser tocado por ela.
Entre
os que se agradam e se desagradam estão os indiferentes. Ah! Esses viveriam mil
anos e jamais conseguiriam ter a sensação de serem envolvidos por um texto poético.
Esses passarão pela vida e jamais entenderão ou saberão quão maravilhoso é
embriagar-se com a leitura e desfrutar da deliciosa e maravilhosa sensação
trazida por ela.
Então, poesia para todos não, mas sim para aqueles que têm algo de especial em si. Aqueles que, como meu amigo poeta, conseguem rechear a vida com poesia escrita ou não.
