Queixa pungente
Maristel
Dias dos Santos
Então a mulher falou para o homem:
__ “Que mal posso representar para você? Que risco, que ameaça, que perigo posso ser em seu já estruturado sucesso? No início você referia-se a mim com amizade, com carinho e minha alma sedenta se encheu de vida. Você dedicava especial atenção ao que eu escrevia e lia com uma capacidade que só você tinha de ler as palavras que eu escrevia. As palavras transformavam-se em flores luminosas em sua boca e minha alma transbordava de luz. Essa mesma luz servia também para iluminá-lo e fazia você brilhar. Foi isso que você não percebeu: assim como a lua você era o iluminado e não o luminoso. A luz vinha das flores luminosas, daquelas palavras que eu escrevia e que você, com maestria, pronunciava. As palavras/flores luminosas que você lia me fez conhecida nos meios mais humildes e muitas vezes, pessoas em filas de bancos ou nas casas lotéricas, se ouvissem citar meu nome perguntavam:__ É você que escreve aquelas coisas bonitas que o Homem do Rádio lê? Gosto tanto! Acho lindo! Ao falarem assim eu podia ver que a luz das flores luminosas também as iluminavam e a minha alma friorenta se aquecia dentro do peito como se fosse um novelo de lã macio e morno que ali ficasse a se agitar mansamente.
Mas o
homem vaidoso pensou que a luz nascia dele e teve medo de distribuí-la e perdê-la.
Não sabia , o infeliz, que só se perde aquilo que não se dá. Sentimento de
carinho, simpatia, gratidão só pode crescer ao ser dividido.
O homem negou-se a ler e falou assim: __ “Você
fantasia demais. Tem de usar palavras mais concretas e descrever os fatos com
mais dureza. Suas palavras têm de ser mais pedras e menos plumas”.
A mulher que escrevia palavras que se transformavam em flores luminosas na boca do homem, compreendeu o recado, mas como não sabia escrever palavras-pedras, parou de criar palavras/flores e toda a luz tépida e colorida apagou-se. O afeto morreu como as flores luminosas, tão mal compreendidas pelo homem. Tantos perderam tanto e a esfera ficou mais escura. Os que tiverem ouvidos de entender que entendam.