Rainha da paz

                                                                                                Maristel Dias

   

 

Comprei, de um deficiente físico, que a minha porta bateu, um adesivo de uma Nossa Senhora, rainha da paz. Eu (como hobby de adolescente), colei esse adesivo no vidro da janela do meu quarto. Em sua leveza e transparência a face da santa pode ser vista do lado de dentro ou do lado de fora da minha janela.

Segunda feira, dia 06 de agosto de 2001, 9:30 hs, já farta de ouvir tantas notícias pesarosas e confirmar o sofrimento de tanta gente, de tanto bicho, percebi, com o meu coração em pedaços, que eu não podia continuar assim. Ou a situação ameniza ao redor de nós ou eu fecharei definitivamente os olhos, os ouvidos e a boca. Devo tornar-me uma pessoa alienada para poder prosseguir vivendo.

Fui até a janela e lá do alto esparramei meu olhar sobre a minha cidade  sentindo tanta pena do mundo, quando me vi face a face com a rainha da paz, pertinho de mim. Olhei então aquele semblante sereno e mais uma vez dirigi meu olhar ao derredor e vi os cães famintos que rondam minha casa a espera de um prato de ração e de um agrado ou simplesmente de um “oi, lindo!...” Voltei a mirar a face da santa e perguntei, a mim mesma, porque tanto tumulto e revolta em minha alma e pedi: __Sra, dá-me forças para continuar ajudando a resolver o que estiver ao meu alcance ou a resignação para aceitar com igual serenidade as coisas que não estiverem ao meu alcance realizar. 

Toquei-lhe a face e implorei um pouco daquela tranqüilidade e aceitação para o meu coração. Eu orei, sem palavras decoradas, mas com as lágrimas que pela minha face deslizavam para lavar a dor em minha expressão e então, como uma resposta, uma bênção, um banho de luz, eu vi, através do pranto que marejava meus olhos e fazia distorcer a visão, vi a face da santa movimentar-se e pude ler nos movimentos de seus benditos lábios a palavra: ---Paz...