Reprimenda
Maristel Dias
Estava ferida, faminta e havia
sido abandonada nas ruas da cidade. Era tão pequenina e magrinha! E como estava
assustada! Somente aquela fome insuportável fez com que saísse do esconderijo,
os escombros de uma casa em ruínas onde, por dois dias, estivera refugiada.
Esperou que o dia se tornasse noite e, com passos trôpegos, tentou fazer o
reconhecimento dos arredores. Ia rente aos muros, misturando-se a própria
sombra e observava as casas adormecidas procurando algo familiar, uma referência
que a levasse de volta ao lar, à mamãe, aos irmãozinhos. De repente um enorme
cão pulou contra o portão, latindo furiosamente e quase a alcançou, tão próxima
estava ela daquelas grades. Fugiu apavorada de volta ao esconderijo. Era o fim.
Sentia-se fraca demais para outra tentativa. Enrodilhou-se sobre umas tábuas e
adormeceu. Quem sabe jamais acordasse... Porém despertou um pouquinho e ao
tentar abrir os olhos viu que o sol brilhava e alguém falava com ela. Podia
sentir mãos tocando o frágil corpinho. Quis reagir, pensou em fugir mas não
tinha mais nenhuma força. Estava agora nos braços dessa pessoa e, aconchegada
contra o seu peito, usufruiu daquele
calor morno que parecia transmitir vida ao seu corpo enregelado. Era só frio
que sentia nesse momento. Nem a fome a incomodava mais. Foi levada para uma cama
aquecida, fizeram-na beber leite morno e novamente ela dormiu.
Por vários dias foi assim.
Acordava só para se alimentar e caía em profundo sono. Aos poucos foi se
habituando àquela bonita mulher que a cuidava. Já não tinha medo, mesmo
porque a moça falava-lhe docemente: __ “Você não me diz o seu nome, então
vou chamá-la Linda, pois você é linda mesmo e, se quiser , ficará morando
comigo. Comigo e com uma irmãzinha que você não conhece ainda. Fique forte
logo para conhecê-la e ir brincar com ela”
O
tempo passou e Linda foi-se transformando em uma bela e saudável jovem. Como
era feliz correndo por aquelas salas e quartos, subindo e descendo escadas,
fazendo com a maninha grandes traquinagens. Habituou-se a ver em sua salvadora a
grande mãe e adorava-a. Nas correrias com Jô, às vezes fugindo
dela, atirava-se no colo da mãezinha que morria de rir, fazia-lhe uns agrados e
a mandava de volta aos folguedos.
O
tempo passou mais um pouco e tanto ela quanto Jô,
não achavam mais aquelas brincadeiras tão agradáveis. Começavam a se
interessar por outras coisas. Por exemplo, pelas tantas novidades que devia
haver fora dos limites da casa. Passavam horas à janela observando o movimento
da rua. Teria, um dia, coragem de sair para além daqueles muros? Tinha tudo
ali, naquela casa: carinho e amor da mãezinha e da irmãzinha. Dormiam as duas
abraçadas e, se brigavam, era sempre coisinha à toa, que logo os ralhos da mãe
faziam desaparecer. Porém o tempo ia passando e
aquela atração pelo mundo lá de fora ia aumentando. Alguma coisa mais
forte que o conforto e a segurança do lar atraía irremediavelmente. Sentia que
Jô, como ela, também tinha esses desejos tresloucados. Andavam tristonhas e
algumas vezes choravam até se cansarem, horas a fio, no silêncio das noites.
Linda, porém, parecia sofrer mais. Embora Jô fosse mais corajosa, era também
mais cautelosa e Linda, mais afoita.
Um dia, da sua janela, viu
passar na rua, lá em baixo, um estonteante espécime que caminhava altivo e
elegante. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Como que por telepatia ele parou,
olhou-a longamente e prosseguiu caminhando seguro, dono da rua. A partir daí,
era só o que acontecia: Linda pendurada na janela, ele indo e vindo vezes ao
dia. Logo Jô percebeu a intromissão e ficou bem zangada. Viviam, agora,
brigando.
Pouco a pouco, Linda foi se
aventurando. Ficava horas perto do portão, sem
porém, atrever-se a atravessá-lo. Os carros e pessoas que passavam por
ali enchiam-na de pavores. Mas numa bela noite foi despertada por uma serenata,
bem sob sua janela. Correu espiar. Era ele! Linda, vencendo todos os temores,
pulou muros e janelas e foi encontrá-lo na rua. Ah! quantos suspiros, gemidos e
gritos de amor aquela lua testemunhou! Amaram-se sobre muros, bancos e gramados
da praça. Até mesmo, sacrilégio, na escadaria da matriz!
Não demorou a que Linda
descobrisse que ele não passava de um vagabundo, desocupado e boêmio, pois além
do amor, nada mais tinha a
oferecer. Por muitos dias foi assim: roubavam para comer, passavam os dias
escondidos em casebres abandonados, mas quando a cidade dormia, dela se
apossavam e se divertiam como doidos.
Em casa, de olhos compridos, Jô
passava os dias à janela esperando ver Linda voltar; mãezinha chorava pelos
cantos e saía às ruas procurando a sua queridinha.
Não demorou, porém que o belo
malandro achasse nova conquista e mais uma vez Linda viu-se abandonada nas ruas
daquela cidade. Todos os antigos pavores voltaram a atacá-la e Linda levou dias
para achar o caminho de volta. Chegou magra e macilenta, mas foi recebida com
risos e lágrimas. Só Jô ficou meio emburrada, decepcionada com o procedimento
da irmãzinha.
Brevemente o resultado inexorável começou a surgir: a barriga de Linda
crescia e crescia... Alguns meses mais e um belo bebê, cara do pai, nascia naquela
casa. Jô pareceu sofreu com Linda as dores do parto e cuidou do bebê como se dela
fosse. Mãezinha recebeu muito bem o novo membro da família e parecia uma vovó
orgulhosa. A paz voltou a reinar e todos estavam muitos felizes; principalmente o bebê
que usufruía os cuidados de três mães e crescia forte e saudável.
Mas as inquietações pareciam
voltar ao coração de Linda que já abandonava o filho aos cuidados da irmã e
cada vez, com mais constância, voltava à janela.
Agora era um jovenzinho que
rodeava a casa e vinha sentar-se defronte à janela de Linda que, coquete,
exibia-se despudoradamente. Jô percebeu. Mãezinha percebeu e se rebelaram. Não,
desta vez Linda não fugiria! E foi um tal de fechar portas e janelas que Deus
me livre! Mas Linda era mesmo uma pequena Messalina e, ao menor descuido,
abandonou tudo e correu ao encontro do novo amor.
Pobre bebê! Não fossem os
cuidados maternos de Jô e, certamente, ficaria para sempre traumatizado. Mãezinha
chorava, mas quase desejando que Linda não voltasse mais. Por que tinham de ser
tão diferentes as duas irmãs?
Uma semana depois Linda voltou
com a maior cara de cachorro que quebrou o prato. Que danadinha! Não passa
mesmo de uma maluquinha! Ah! Ninguém mais tinha paciência. Os meses passaram,
barriga cresceu e duas “bebezinhas”, gêmeas idênticas nasceram. Todos se
alegraram, todos perdoaram e novamente Jô se fez mãe através da doidinha da
Linda que parecia mais tranqüila, mais dedicada àquelas filhas.
Mãezinha, porém, andava
preocupada. Agora já eram cinco bocas para alimentar. E se... não! Que Linda
tomasse jeito de uma vez! A paciência da boa senhora se esgotava. Por que Linda
não era como Jô?!
E foi naquela manhã de
primavera, quando Linda deixou os filhos e foi dar voltas pelo jardim e debruçar-se
à janela que mãezinha desabafou: __ “Agora chega! Cadê a lista telefônica?
Vou chamar agora mesmo o veterinário! É preciso dar um jeito nessa
gatinha!...”
FIM