Retrospecto

 

Maristel Dias dos Santos

 

Tão jovem e ingênua,  te fiz meu senhor.

Armei-te de lança...  te fiz cavalheiro.  

Coroei-te de louros...  te dei meu amor.                                        

Honrei o teu nome e te fiz altaneiro.

 

Eu me fiz mulher... e te dei meu amor.

E  me fiz bonita  e agradei teu olhar...

E me fiz escrava aos teus pés eu quis pôr

As prendas mais belas que eu pude encontrar.

 

Hoje reconheço  meu erro  sem par...

Eu não te encontrei...  Eu te fiz como eu quis

E assim te guardei  para  me  resguardar...

E enquanto te amei pude, enfim, ser  feliz.

 

Mas a última gota secou...  Já não há

Nada mais a tirar do baú...  E voou

Para  muito longe a ave encantada

E a última estrela a manhã carregou...

 

E a alma morreu no corpo sofrido ...

No corpo que é casca tal qual da cigarra

Que canta, só canta e sem um gemido

Falece e se vai...  Ao tronco se agarra

 

Só casca, só casca, à luz do arrebol...

Vazia e silente...  Cadê teu cantar?...

Perdeste o amor...  Apagou-se  o sol...

Perdeste a alegria...  Deixaste de amar...